segunda-feira, 28 de maio de 2012

Identidade e Formação da Nacionalidade Brasileira

Símbolo Étnico do Brasil
Mameluco de Piratininga
O Brasil, como agrupamento-povo, não poderia ser considerado simples soma de elementos étnicos, estimados isoladamente: o português(A), o negro (B), o índio(C).... para chegar ao tipo apenas composto A-B-C. No povo brasileiro encontra-se essas três raças, diferentes, muito diferentes, mesmo. Tais dissertadores discorrem como se fora possível que tradições se encontrassem, conservando-se impermeáveis entre si, sem reciprocidade de influxos, sem consequências na vida social e intelectual que se originou desse encontro.... mais do que os sangues, caldeiam-se as tradições, logo que raças diferentes se encontram. Combinam-se as qualidades de espírito, e completam-se as respectivas manifestações, numa expressão vivamente nova e original.
A população colonial do Brasil se fez com o aproveitamento sistemático do gentio, cujo sangue, predominava nas massas populares durante os dois primeiros séculos. Tanto assim que, ainda hoje, o tipo étnico, na maior parte do interior é o caboclo. Foi esse o elemento que primeiro vicejou no Brasil, sendo a base étnica presente em todos os seus quadrantes de norte a sul, de leste a oeste, e com o qual se fez a conquista e a defesa da terra. É quando se manifestam as primeiras energias da terra diante das invasões estrangeiras, na expansão territorial, na consolidação do País. E ao fim desse período o Brasil já estava feito.
Os franceses praticamente antecederam os portugueses e estabeleceram-se fortemente na amizade e na aliança explícita de muitas das tribos mais valorosas. Franco senhores da terra quando se plantou a semente do Brasil, eles se opuseram logo ao português, numa contestação que durou um século – por todo período de formação colonial; e quando Ravardière perdeu a partida, que foi a partida final, já era vencido pelo ímpeto de uma nova energia, a energia brasileira. Já havia bem explícito aquele Pernambuco, potente nas suas gentes que não se deixam absorver pelo holandês, antes o afrontam, até que os repelem definitivamente. Já a Bahia era um ninho de fortes que, vencidos pela surpresa de um ataque desusado, não se desmoralizam: refazem-se e, no que a terra lhe traz, resistem intransigentemente até que o batavo é batido e expulso. Não tarda que de São Paulo irradiem as bandeiras de intrépidos que aniquilarão o domínio espanhol de Guaíra, e se estenderão, de mais em mais, até conquistar, para o Brasil, todo o coração do continente.
Bem conhecida as coisas, foi um bem essa insistência do gaulês em assenhorar-se do domínio português na América: o Brasil, que nasce e se forma entre episódios de valentia e patriotismo, logo se revelou valente e patriota, e foi para essa boa guerra de defesa intransigente que deu os seus primeiros homens. Nenhum outro povo americano teve tal iniciação. O primeiro estabelecimento em Pernambuco já foi em contestação com o francês. (p. 210)

De onde: “teve de arrancar a terra, às polegadas, aos franceses, à testa de valente gentio”, diz Rocha Pita, cronista da época.
Nesse exército, que fez a conquista definitiva, os capitães eram, quase todos, homens da colônia, muitos já nascidos nela: “este exército, que foi a mais formosa coisa que Pernambuco nunca viu, nem sei se verá..” no enternecido conceito histórico de Frei Vicente.

Mameluco de Olinda
Caboclo
Símbolo da Nova Nacionalidade
A Brasileira
Esse exército foi, certamente, a primeira afirmação da colônia em manifestação das suas energias “...por ser toda de gente solta e muitos mamelucos e filhos da terra, porque estes nisto são de muito efeito”. Maximiniano Machado é bem explicito no enumerar as gentes que o compunham: “Toda essa gente constava de mamelucos e filhos da terra, a melhor gente que se podia desejar, em bravura e resignação com que sabia sofrer a fome, a chuva, o sol, e todos os trabalhos da guerra”. Alexandre de Moura,competente para ocaso, dirigiu e assistiu a prova de valor desses soldados, dá confirmação de todas as suas virtudes, e mais estas: “...costumados a má vida e ruins comeres, calejados dos bichos e das chagas...”. E por isso, não queria outros para as campanhas do Brasil.
Os primeiros episódios em Pernambuco, todo o longo ato do Rio de Janeiro, foram bem a defesa feita pelo português contra os temíveis rivais; mas, mesmo ao sul, já se pronunciam os valores das gentes permanentemente vinculadas à terra, e que serão, depois, a população brasileira. E, com o esforço dessa gente, Portugal conseguiu garantir a posse da colônia. Ao reconhecer o poder do inimigo, em gentes e outros recursos, Estácio de Sá, antes de iniciar maior ação, decidiu seguir até S. Vicente, e refaser-se, aí, com os auxílios que os respectivos colonos lhes prestassem. Com os índios e os valentes mamelucos de São Vicente, reunidos, formou ele o melhor da gente com que bateu o francês.(p. 211)

Os próprios colonos tinham bem consciência de que a boa defesa da terra se devia a brasileiros. Em outros lances que ilustram a têmpera daquela gente, se revela quando em 1595, atacou ilhéus parte da esquadra francesa, a gente da povoação logo decidiu resistir e, como o capitão da terra estava longe, “elegeram outro, não o mais rico, mas o mais valente, ... um pobre mameluco chamado Antônio Fernandes, e por alcunha o Catucadas... E foi coisa maravilhosa que sendo os nossos só quinze ou vinte, sem outras armas mais que arcos, setas e espadas, mataram, dos franceses, no campo, 57, em que entrou o capitão”.
É na base desse elemento formador da nacionalidade brasileira, o caboclo, que se explica a unidade do país. A língua que falavam, o tupi, era a língua geral que se estendida do extremo norte do País ao seu extremo sul permeando ainda o entendimento mútuo com as línguas tapuias dos índios do interior. Poucas línguas no mundo tiveram uma unidade de extensão geográfica tão grande como o tupi. E tão marcante foi, que ainda no início do Séc. XIX, era a língua familiar falada no seio das famílias paulistas. O domínio que exerciam sobre o modo de vida nos trópicos, aprendidos com o convívio dos tupis: a base da sua alimentação, a medicina para cura das chagas, a forma de guerrear, o espírito aventuroso e destemido com que se arrostavam diante dos inimigos, os caminhos interiores por qual adentravam na terra grande e desconhecida, foram decisivos para a fixação das populações que se formavam.

 Koster, que longamente viveu na roça do Brasil – entre gentes de sangue misturado -, não se detém nos elogios que faz. Mulatos, e, sobretudo, mamelucos no nordeste, produziram sobre ele o efeito de quase sedução:
“Encontram-se mais frequentemente os mamelucos pelo sertão do que na costa. São em geral, melhor do que os mulatos, e as mulheres ultrapassam em beleza todas as outras do país: tem mais ou menos, o mesmo tom escuro que as mulatas, mas o nariz não é chato, nem os cabelos são frisados. Não creio que os homens dessa raça tenham mais coragem que os mulatos, mas, seja pela consciência que tem de descender, pelos dois lados, de gentes livres, seja pelo fato de residirem no interior, onde o governo exerce menos autoridade, eles parecem ter mais independência de caráter e mostrar menos respeito pelos brancos que os mulatos. Quando as velhas querem contar alguma história de grandes venturas, o herói é sempre um mameluco, como se elas estivessem convencidas de que eles são superiores a todos os outros homens.”
Fazendo o franco elogio do povo dali, ele é peremptório. Para as mulheres de raça cruzada, Koster tem olhos de incontido entusiasmo:

“....entre as mulheres de cor é que se encontram as mais belas criaturas do Brasil. Têm vida, alegria, mais atividade de corpo e de espírito. Seria difícil encontrar mais belos tipos de forma humana do que entre essas filhas do sol”.
Southey mais historiador, faz das suas afirmativas generalizações e, no caso, estabelece, em teoria, a superioridade da mistura com o índio: ‘.... aventureiros, desertores e réus de polícia aliaram-se com as índias(em São Paulo) e a mescla de sangue indígena que, por todo o Brasil foi grande, em nenhuma parte foi, talvez, maior do que aqui. Com esse cruzamento, melhorou a raça desenvolvendo-se o espírito de empresa europeu em constituições adaptadas ao país”.(pg. 177-78)
Sobre a influência dos negros sobre a essência da alma brasileira, foi menos pronunciada do que parece. É inegável, que, nos meados do Século XVII, já o Brasil estava definido – reação nacional contra o invasor holandês, expansão nacional pelos sertões.... Ora, nessa época, o número de escravos africanos era relativamente bem pequeno. Em 1755, por ocasião do governo de Pombal, quando se libertaram os escravos índios, estes representavam um terço da totalidade de cativos; donde a conclusão: cento e sete anos antes, os escravos africanos seriam, quando muito, metade do total, ou seja – 15.000. Nestas condições, quando o Brasil já estava feito, no litoral, de São Vicente ao Pará, esses 15.000 negros não seriam porções importantes na respectiva população que, no grande número, se caracterizava pela caboclagem – a massa, onde se infundir ação do português. (pg. 201-02, Bomfim).

A contribuição cultural do negro foi pouco relevante na formação daquela protocélula original da cultura brasileira.” (pg. 114, RIBEIRO, Darcy).

“A quadra decisiva, no negreirismo, foi do século de 1750 a 1850, quando das funestíssimas companhias que despejaram levas e levas de escravos no Brasil. Contudo, já existia o Brasil. E na ação assimiladora da população já plantada, o africano refletiu muito sensivelmente as suas qualidades na população já feita, sem desviá-la, no entanto, das linhas definitivas.” (pg.202, Bomfim).
“iam sendo radicalmente deculturados pela erradicação de sua cultura africana. Simultaneamente, vão se aculturando nos modos brasileiros de ser e de fazer, tal como eles eram representados no universo cultural simplificado dos engenhos e das minas. Têm acesso, desse modo, a um corpo de elementos adaptativos, associativos e ideológicos oriundo daquela protocélula étnica tupi.” (RIBEIRO, Darcy).
Tudo isso já dito por historiadores e antropólogos é confirmado pelas recentes pesquisas genéticas que atestam a marcante contribuição indígena na formação brasileira. As análises do DNA mitocondrial, que indicam a origem materna, de pessoas brancas é bem revelador nesse sentido, mostrando que 24% da população branca do sul é de origem indígena, 33% nas populações do sudeste, 22% no nordeste e 54% no norte, evidenciando uma uniformidade no país ao mesmo tempo que desmente que a população original teria sido eliminada, mas, sim assimilada.
Esses estudos constataram que os brasileiros de diferentes regiões são geneticamente muito mais homogêneos do que se esperava. Segundo o geneticista Sérgio Pena:

“Pelos critérios de cor e raça até hoje usados no censo, tínhamos a visão do Brasil como um mosaico heterogêneo, como se o Sul e o Norte abrigassem dois povos diferentes. O estudo vem mostrar que o Brasil é um país muito mais  integrado do que pensávamos.”.

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