terça-feira, 21 de maio de 2013

Resenha de Artigo sobre Edgard Roquette-Pinto que Realizou Um Estudo Científico de Cunho "Racial" do Brasileiro.

Artigo que analisa os estudos desenvolvidos pelo antropólogo Edgard Roquette-Pinto (1884-1954) acerca da classificação dos 'tipos antropológicos' do Brasil nas primeiras décadas do século XX, realizando um levantamento de dados sobre a constituição anatômica, fisiológica e psicológica da população brasileira, estabelecendo uma classificação racial, que refletia o diálogo com a tradição científica e intelectual brasileira, mas também com a antropologia física produzida em países como Alemanha e Estados Unidos. O interesse de Roquette-Pinto consistia na elaboração de um amplo retrato antropológico do país, por meio do qual procurou revelar as características raciais formadoras do Brasil e, ao mesmo tempo, avaliar a viabilidade biológica da população, especialmente dos 'tipos mestiços'.

Ao contrário de Oliveira Vianna, Roquette-Pinto negava a existência de hierarquias raciais e também se opunha à ideia de que os mestiços eram 'tipos degenerados' ou 'inferiores'. Opondo-se às teorias degeneracionistas e ao racismo "científico" então em voga, como aquelas que alimentavam as ideias defendidas por Oliveira Vianna e Renato Kehl, Roquette-Pinto recusava o argumento de que os problemas nacionais fossem devidos às características antropológicas da população.

 De acordo com os 'documentos' reunidos ao longo de suas pesquisas, a antropologia demonstrava que a existência de "indivíduos disgênicos" no país era "questão de política sanitária e educativa", e não de formação racial. O grande número de doenças, a falta de assistência médica, a mortalidade infantil, somados à falta de instrução e modernização do país, eram responsáveis pelos dilemas em que viviam milhares de 'brasilianos' em todo o território nacional, especialmente no interior, onde "tipos fortes e resistentes" se encontravam em estado de quase absoluto abandono.

O antropólogo entendia que a miscigenação racial que vinha ocorrendo largamente no Brasil não apenas teria contribuído para "o processo geral de adaptação das raças aos diferentes meios brasilianos" (Roquette-Pinto, 1929, p. 148), como também teria possibilitado a formação de "tipos antropológicos eugenicamente saudáveis", homens "desbravadores e fortes". Suas pesquisas científicas provavam que, tanto do ponto de vista fisiológico quanto do psicológico, os cruzamentos entre os grupos existentes no país "dão sempre tipos normais" (Roquette-Pinto, 1929, p. 137). Por esse motivo, ressaltava que "à vista de todos os dados condensados nesta monografia [referindo-se à sua "Nota sobre os typos anthropológicos do Brasil"], pode-se concluir que nenhum dos tipos da população brasiliana apresenta qualquer estigma de degeneração antropológica" (Roquette-Pinto, 1929, p. 146).

Esse otimismo nacionalista, somado ao emprego da ciência como ferramenta política, pode ser resumido na frase que o antropólogo pronunciou na Academia Brasileira de Letras, quando de seu ingresso na instituição: "trago no coração uma confiança definitiva nas realizações da raça, porque a ciência me tem ensinado que a terra é áspera, mas o homem é teimoso e forte" (Roquette-Pinto, 1928, p. 961-962). Inspirado por esse 'nacionalismo científico', seus estudos antropológicos assumiam uma função claramente política: a defesa do 'homem brasiliano' e a crítica à desorganização política e social do país. Desde os anos 1910, Roquette-Pinto foi um intelectual com considerável envolvimento no projeto de redenção nacional, chegando mesmo a ver a antropologia como a ciência capaz de pensar os rumos da nação e de propor soluções para os problemas do país. Deve-se destacar que Roquette-Pinto filiava-se a uma vertente nacionalista "que procurava revestir o discurso científico com o manto apaixonado de defesa da nação".

O retrato do Brasil pintado por Roquette-Pinto foi, portanto, fortemente contornado pelas cores desse nacionalismo militante, pela legitimidade da ciência e pela força da ação política. Enquanto intelectual mobilizado por uma forte missão pública, Roquette-Pinto acreditava que sua atividade científica deveria ser investida para revelar uma visão otimista sobre o país, defendendo a viabilidade da formação nacional e projetando os caminhos futuros que o país deveria trilhar. Essa visão positiva que Roquette-Pinto tinha sobre o povo brasileiro, "acrescentou a euforia pela ciência e pelo que ela poderia trazer, certamente através dos conhecimentos produzidos, mas também dos aprimoramentos técnicos que divulgariam, com velocidade, as possibilidades de um novo Brasil".

Desde os anos 1910, Roquette-Pinto integrou um pequeno círculo de cientistas brasileiros que valorizava o trabalho de campo, a coleta de dados, a observação em laboratório e a atividade científica especializada, recusando o estilo bacharelesco e retórico que predominava entre os intelectuais e as instituições científicas do país (notadamente Oliveira Viana).

A legitimidade que Roquette-Pinto conquistou no campo da antropologia física derivava da própria compreensão de que suas pesquisas eram baseadas em rigorosos e modernos estudos científicos. O jornalista Júlio Mascentes, por exemplo, afirmava, no início dos anos 1930, que o texto publicado pelo antropólogo sobre os 'tipos brasilianos' era um "estupendo" estudo de ciência. Seu trabalho "convenceu-me cientificamente de que o brasileiro não é o que eu, através de apreciações estrangeiras, pensava", dizia o jornalista referindo-se à leitura e à influência que ele próprio sofrera de autores como o britânico James Bryce e José Ingenieiros23. O mesmo tipo de apreciação pode ser encontrado em autores estrangeiros, como o historiador alemão Rüdiger Bilden, e em escritores nacionais, como Arthur Lobo, Fróes da Fonseca, Arthur Ramos, Bastos de Ávila e Gilberto Freyre, que tanto em "Casa-Grande & Senzala" (1933) quanto em "Sobrados e Mocambos" (1936) fez questão de destacar a importância das "evidências científicas" apresentadas por Roquette-Pinto sobre a viabilidade da população mestiça brasileira. Gilberto Freyre chegou a confessar, conforme escreveu no prefácio da primeira edição de "Casa-Grande & Senzala" (Freyre, 1946 [1933], p. 17-18), que o retrato antropológico do Brasil apresentado por Roquette-Pinto tinha sido decisivo em seu modo de conceber a miscigenação racial brasileira, tema que tanto o inquietara em sua juventude.





http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1981-81222012000300003&script=sci_arttext#tx2



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