sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O Movimento Sanitarista e A Eugenia Como Fatores de Regeneração Nacional Nos Anos 30.

Nos anos 30 predominou a antropologia evolucionista, com a idéia, distorcida, de que os povos seriam avaliados no seu desenvolvimento tomando por base a cultura branca européia ocidental.

Em meados dos anos 30 surgiu a idéia do funcionalismo, aonde cada cultura tinha que ser avaliada dentro dos seus parâmetros e, gradativamente era afastada a idéia de mais ou menos valor. O Brasil teve em Gilberto Freyre o grande nome no resgate das nossas origens e sua valorização cultural. É interessante nos socorrermos na literatura para sentir a evolução dessa modificação no nosso modo de ver nosso destino como nação. Um trabalho interessante sobre o assunto pode ser encontrado em: LOBATO, OS JECAS E A QUESTÃO RACIAL NO PENSAMENTO SOCIAL BRASILEIRO. Ricardo Augusto dos Santos *

Se em Urupês e Velha Praga (1914) Lobato atribuía preponderância às teses raciais e climáticas para a pobreza, chegando a culpar o trabalhador do campo por sua condição, nos artigos de 1918 refletia sobre a questão nacional do saneamento. 

Como outros autores, a imagem negativa do Jeca Tatu seria reformulada após o contato de Lobato, com os membros do movimento sanitarista, pela criação da consciência sanitária nacional, como Belisário Penna, Arthur Neiva e Renato Khel (SKIDMORE, 1976 e THIELEN; SANTOS, 1989). Contrários ao ufanismo romântico e ao determinismo biológico, estes homens qualificavam suas idéias e propostas como científicas — e assim pensavam justificar suas interpretações dos problemas nacionais, pois estavam autorizados pela racionalidade cientifica.

É através de uma explicação médico-científica que Lobato, preocupado com a reprodução da força de trabalho improdutiva, mudaria a sua concepção do caboclo brasileiro. A ineficiência do Jeca não era mais uma questão de inferioridade racial, mas sim um problema médico-sanitário. O caipira era doente. Ele é pobre porque é doente e assim não produz. A epígrafe do livro O Problema Vital é, neste sentido, elucidativo: “O Jeca não é assim, está assim.” Esta mudança de concepção passava pela crença positiva de Lobato na ciência.

Lobato e seu Jeca regenerado pela ciência são os sinais emblemáticos desta mudança de concepção. Influenciado pelo contato com os membros do movimento sanitarista e pela leitura do relatório da expedição, Lobato transformou seu personagem ignorante. Este, depois de tratado pelo médico, tornar-se-ia trabalhador produtivo e saudável. Deste modo, para afastar qualquer risco de incerteza no processo de “branqueamento” da nação, foi necessário que os intelectuais se apropriassem do conhecimento dito científico em voga no campo das idéias, que era a eugenia. A adoção das regras e conceitos da educação higiênica-eugênica assumiria uma posição confortável na ciência para o desejado branqueamento dos corpos e mentes.

Em vários livros, correspondências e manuscritos de Belisário Penna, Renato Kehl e Monteiro Lobato, podem ser encontradas passagens de variados tons da teoria eugênica. Os novos conhecimentos higiênicos e eugênicos ofereciam uma saída para o dilema nacional. Os registros sobre a saúde e condições sócio-sanitárias do povo brasileiro, retratadas e reveladas ao público, ofereciam novos e reveladores argumentos. Os tipos humanos, produtos da “miscigenação racial”, que eram aparentemente "indolentes", "preguiçosos" e "improdutivos" se encontravam doentes. Regenerar e curar o Brasil seria construir uma nação. Saneá-lo, higienizá-lo e eugenizá-lo.

Os cientistas-intelectuais do movimento sanitarista criticavam as teses do determinismo biológico e racial, baseando-se em seus conhecimentos do Brasil verdadeiro, adquirido nas viagens científicas efetivamente realizadas, em contraste com as diferentes idealizações do país. 

A expedição Belisário-Penna e Neiva em 1916, suas conclusões sobre a precária condição sanitária no interior do Brazil, a famosa frase de Miguel Pereira considerando o Brasil um grande hospital e a idéia de que o brasileiro não era inferior, era doente. E se tratado seria igual ao europeu. Essa concepção de ciência e melhoria do brasileiro, levou a idéia do tratamento e prevenção como solução universal para nossos problemas.


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