domingo, 17 de junho de 2012

Guerreiros de Selva - Os Guardiões da Amazônia Brasileira.


O Centro de Instrução de Guerra na Selva - CIGS, tem sido nos últimos anos um dos mais importantes atores no desenvolvimento da chamada “Estratégia de resistência” do Exército Brasileiro, para a eventualidade de um confronto militar entre nossas forças e as de um país ou coligação de países com poderio militar bem superior.

Com esse fim desenvolveu todo um arcabouço de treinamento, táticas e provimentos  adequados para a Infantaria de Selva do Exército Brasileiro, tornando-se um centro de excelência, reputado como a melhor formação de combatentes de selva em todo o mundo.

PREPARAÇÃO:

Na selva, a sensação de ter o metabolismo alterado é massacrante. Apesar de estar sempre molhado, seja pela chuva, pela travessia dos inúmeros cursos d’água (rios e paranás), lagos, igapós e igarapés, ou simplesmente pela transpiração, o combatente está sempre com sede. Os cuidados com a alimentação devem ser enormes, pois problemas intestinais que provocam diarréia agravam o quadro. A perda de oito, dez e até 20 quilos em operações prolongadas na selva é comum para os guerreiros de selva.

Exatamente devido ao impacto que o ambiente provoca sobre o corpo do combatente de selva, um dos principais trabalhos exercidos no CIGS para aumentar a eficiência do combatente de selva é aquele desenvolvido em seu Laboratório, subordinado à Divisão de Saúde. Por meio de parceria com a Fundação Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Hospital Geral de Manaus (HGeM), é desenvolvido o Projeto de Pesquisa e Monitoramento Clínico-Laboratorial do Combatente de Selva. Este projeto tem por objetivo acompanhar o perfil corporal, hematológico, urinário, parasitológico intestinal e bioquímico dos alunos do COS, proporcionando dados valiosos sobre as alterações que a internação prolongada do combatente na selva produz no organismo humano. Os resultados desta pesquisa vêm sendo usados para a otimização do desempenho do guerreiro de selva brasileiro.

O papel do CIGS e de sua Divisão de Doutrina e Pesquisa no aperfeiçoamento do combatente de selva brasileiro vai muito além de pesquisar e ensinar a construção e uso de abrigos e armadilhas, emprego de armas e equipamentos, etc. Chega-se ao nível de detalhar, por exemplo, o tipo de tecido ideal para uso nos uniformes, a técnica de amarração ideal dos cadarços usados nos coturnos, a composição da ração operacional, o projeto de uma rede de selva adequada, e muitos outros.

A definição de um tecido ideal para ser usado na confecção dos uniformes foi tarefa para vários anos, até se chegar ao modelo atual, de forma a permitir a secagem rápida do uniforme, constantemente exposto à umidade, sem que apresente desconforto ao militar. O mesmo empenho foi aplicado ao estabelecimento da técnica de amarração dos cadarços dos coturnos, de modo a permitir sua rápida desamarração ou mesmo o corte com faca, para que o combatente possa liberar rapidamente seu equipamento e nadar com maior desenvoltura, se isso significar sua sobrevivência na hipótese de, por exemplo, cair em águas profundas e turbulentas.

A definição da composição da ração operacional também mereceu por parte do CIGS intensos estudos, incluindo a análise de rações utilizadas por exércitos de outros países. A ração do exército americano, por exemplo, foi analisada e testada no ambiente da selva amazônica. Devido ao seu elevado teor de gordura, foi constatado que o combatente de selva que fizesse uso dela estaria fora de combate em menos de três dias, com sérios problemas intestinais e diarréia. A ração brasileira, além de estar adaptada ao paladar do soldado brasileiro —com pratos como arroz e feijão, carne assada e frango , tem elevado teor protéico e de fibras.
Também faz parte das responsabilidades do CIGS instruir os participantes dos Cursos de Operações na Selva sobre o correto uso dos recursos da floresta, seja para a construção de armadilhas (voltadas aos oponentes, ou à caça e pesca), cuidados com animais peçonhentos, e como usar animais e vegetais para os mais diversos fins, incluindo a alimentação. Frutas e animais comestíveis abundam na floresta, assim como os venenosos ou tóxicos. Note-se que, entre os animais considerados comestíveis, encontram-se algumas larvas e insetos de aspecto nada apetitoso para o homem da cidade.

Se a selva já é extremamente perigosa e desconfortável durante o dia, à noite o perigo e o desconforto são ainda maiores. Para permitir que o guerreiro de selva possa manter e recuperar suas energias, com repouso e conforto adequados, e mantendo-se a salvo de mosquitos, ofídios, aracnídeos e outros riscos, o CIGS não mediu esforços para desenvolver uma rede de selva ideal. O modelo aprovado e em uso atualmente possui mosquiteiro, toldo para abrigo da chuva (que, sendo impermeável, também pode ser usado para recolher a água da mesma), compartimento na parte inferior para armazenar as armas e os equipamentos individuais do combatente, e tirantes de lona resistentes nas laterais, que permitem sua transformação em uma maca improvisada, simplesmente passando-se duas hastes de madeira nas laterais.

ARMAMENTO:

Diversas armas, táticas e equipamentos vêm sendo exaustivamente testados, modificados ou aperfeiçoados pelo EB nos últimos anos, com vistas ao seu emprego na guerra de selva. Muitos são aprovados e muitos são recusados. A constatação de que equipamentos receptores GPS não funcionam corretamente sob a densa cobertura vegetal da floresta, por exemplo, fez com que o Exército restringisse seu uso somente à instrução e a casos nos quais a determinação de coordenadas precisas é imprescindível, como numa evacuação aeromédica. Nesta situação, entretanto, o militar com o receptor seria obrigado a se deslocar até uma clareira ou até a margem de um rio para usar o equipamento. No dia a dia das operações de selva do Exército, o que se usa são as tradicionais cartas e bússolas. Forças excessivamente dependentes de recursos tecnológicos como o GPS poderiam ficar em sérios apuros na Amazônia.

No que se refere ao armamento individual do guerreiro de selva, o EB tem, ao mesmo tempo, o problema e a solução. Fuzis de assalto de diversos tipos foram e são avaliados, incluindo armas de alta qualidade, como o fuzil alemão Heckler & Koch HK33 e o norte-americano M16A2, ambos no calibre 5,56mm, e o tradicional FAL do Exército Brasileiro, no calibre 7,62mm. O fuzil padrão das tropas de selva brasileiras é o Pára-FAL, a versão com coronha rebatível, usada também pelas tropas pára-quedistas brasileiras e outras unidades. O Pára-FAL tem se mostrado a arma ideal para emprego na selva por suas características de peso, rusticidade e simplicidade de manuseio. Por outro lado, sua substituição no futuro será, certamente, um sério problema para o Exército. O calibre 5,56mm, usado na maior parte dos modernos fuzis de assalto, é considerado inadequado para o combate de selva, devido ao pequeno peso do projétil e à sua tendência de assumir uma trajetória instável ao colidir com pequenos obstáculos, como folhas e galhos de árvores. Isso acaba retirando do projétil muita energia e, consequentemente, poder de parada (stopping power).

 O respeito que o Pára-FAL conquistou entre os combatentes de selva justifica-se, por exemplo, pelo resultado de um teste realizado numa das bases de instrução do CIGS, quando um exemplar de cada do HK33, do M16A2 e do Pára-FAL foram comparados, com o objetivo de determinar sua resistência às condições da floresta. Numa manhã, cada uma das armas recebeu limpeza e a necessária manutenção, de acordo com as recomendações do fabricante, foi municiada e colocada sobre cavaletes de madeira, e exposta ao Sol e à chuva durante todo o dia e a noite seguinte.

Pela manhã do outro dia, um oficial retirou o HK33 do cavalete e tentou disparar uma rajada contra um alvo: a arma travou várias vezes. Ao repetir a experiência com o M16A2, verificou-se que este não disparou um só tiro, pois estava grimpado. Finalmente, o oficial dirigiu-se ao Pára-FAL, conhecido como “pit-bull” entre a tropa e, surpreendentemente, não somente conseguiu descarregar todo o pente no alvo, como ainda remuniciou a arma e repetiu a dose. Este oficial confidenciou ao autor que não coloca em dúvida a qualidade das outras duas armas, mas o teste evidencia o fato de que ambas necessitam de muito mais cuidados e manutenção do que o tradicional e confiável Pára-FAL.
Mas as armas disponíveis para o uso na selva não se resumem ao fuzil, à faca de combate e ao inseparável facão de mato. Armas incomuns, como bestas e até mesmo a tradicional zarabatana dos indígenas da região, podem fazer parte do arsenal do guerreiro de selva. Os modelos de bestas usados têm grande precisão e poder de penetração, podendo atravessar um corpo humano a quase 100 metros de distância. Silenciosa e mortal, a besta é considerada uma arma excelente para eliminar sentinelas. O mesmo se aplica à zarabatana, principalmente associada a dardos com venenos cujo preparo é um segredo bem guardado pelo EB e pelos soldados indígenas que, em número cada vez maior, engrossam as fileiras dos Batalhões de Selva na Amazônia, com excelente avaliação por parte de seus comandantes.

A importante participação dos índios brasileiros na formação das tropas de selva brasileiras pôde ser exemplificada durante a Operação Ajuricaba II, em outubro/novembro de 2003, quando as Forças do Partido Azul, responsáveis pela defesa da região, usaram soldados indígenas como rádio-operadores. Falando em sua própria língua, eles evitavam que as comunicações fossem decifradas pelas forças invasoras, ou Partido Vermelho, compostas por elementos da Brigada Pára-quedista, Fuzileiros Navais e outras tropas de elite, sediadas em diferentes regiões do país. Essas, diga-se de passagem, tinham efetivos maiores e eram dotadas de armas e equipamentos de alta tecnologia, tendo total controle sobre o espectro eletromagnético na área da operação.
Acima O CIGS foi o responsável pela retomada dos estudos visando a utilização de duplas de caçadores (Snipers) nas unidades de guerra na selva do Exército Brasileiro. O atirador da foto utiliza a roupa de camuflagem aprovada pelo CIGS e o fuzil Imbel Fz .308 AGLC, no calibre 7,62x 51mm, especialmente desenvolvido para uso por atiradores de elite.
Num conflito na Amazônia, as forças de selva do EB agiriam em pequenas frações, mas capazes de inflingir pesadas perdas ao adversário, fazendo uso do seu conhecimento da floresta para desaparecer sem deixar vestígios. Dentro deste espírito, uma tática que voltou a ter força dentro do EB nos últimos anos foi o emprego de equipes de atiradores de elite (snipers), denominados "caçadores" no Exército. Uma equipe de caçadores é formada por dois sargentos, sendo um o atirador (o sniper, propriamente) e o outro o observador (spotter). A arma já testada e aprovada para o uso por essas equipes é o fuzil Imbel Fz .308 AGLC, de projeto e fabricação nacionais. O AGLC é uma arma de precisão baseada na ação Mauser, de reconhecida e inegável confiabilidade e segurança. Com um cano flutuante, tipo “match”, forjado a frio e adaptado para o tiro com luneta, e usando munição 7,62 x 51mm, a arma saiu-se muito bem quando comparada a diversos tipos de fuzis de precisão de fabricação estrangeira. O tipo de camuflagem (ghillie suit) usado pelas equipes de caçadores também já teve sua eficiência determinada pelo trabalho do CIGS.

Um grupo de guerreiros de selva desloca-se pela floresta. O primeiro elemento, o esclarecedor, consulta um receptor GPS que só é usado para fins de instrução, uma vez que seu uso é desestimulado no dia-a-dia. Notar a escopeta calibre 12 levada pelo soldado (Foto: Raimundo Valentim).

Outra arma testada e adotada para uso por tropas de selva é a tradicional escopeta calibre 12, empregada pelos esclarecedores dos grupos de combate. Como o esclarecedor é o elemento que vai à frente da formação, precisa de uma arma com o máximo de poder de fogo, para a possibilidade de um encontro com uma patrulha inimiga. Outras armas que tiveram seu uso aprovado para guerra na selva graças aos estudos realizados pelo CIGS foram o lança-granadas de 40 mm e o lança-chamas.
Mas o trabalho desenvolvido pelo CIGS em busca de meios que possam fazer valer a chamada “estratégia de resistência” foi ao ponto de testar e aprovar o emprego da tradicional e popular carabina Puma, modelo Winchester, de ação por alavanca, fabricada pela empresa Amadeo Rossi, enquanto a Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC) fabrica sua munição, calibre .38. A idéia por trás disso era encontrar uma arma que fosse de fácil manuseio, relativamente precisa e barata, que pudesse ser distribuída para reservistas e mesmo entre a população civil, no evento de uma intervenção militar estrangeira na Amazônia, e cuja munição fosse facilmente encontrada no comércio. Nos testes realizados pelo CIGS, ficou demonstrado que a carabina Puma pode ser precisa em distâncias superiores a 100 metros. Bons atiradores conseguem tiros precisos a quase 200 metros. E, na opinião dos oficiais instrutores do CIGS, 100 metros pode ser a largura de uma margem a outra de um rio, separando o atirador com a Puma de uma fração de tropa inimiga.



Uma tática desenvolvida pelo CIGS e já disseminada entre as tropas de guerra na selva é o emprego de “cachês”, como meio de pré-posicionamento de armas, munição, medicamentos, rações e outros suprimentos fundamentais às frações de tropa. Os cachês são, basicamente, depósitos de suprimentos enterrados, com a finalidade de ressuprimento de tropas nacionais, que estejam operando em nosso território, em área sob intervenção de uma nação ou força multinacional incontestavelmente superior, em meios, à brasileira. Os cachês são enterrados em locais de difícil acesso e percepção pelo invasor, mas de fácil abordagem pela tropa interessada. Os buracos são resistentes a intempéries, forrados por madeiras nas laterais e com drenagem no fundo, sendo usados para acondicionar containers de fibra de vidro com suprimento para pequenas frações (10 a 15 homens). A camuflagem dos “cachês” é tão eficiente que não eles são percebidos por animais ou nativos.

No primeiro semestre de 2004, o CIGS deverá se envolver na avaliação de um exemplar do Combat Boat CB90H, uma lancha produzida pela empresa sueca Dockstavarvet AB, que deverá enviar um exemplar a Manaus em abril. O CB90H é capaz de transportar 20 soldados totalmente equipados (o equivalente a cerca de 2,8 toneladas), em velocidades de até 40 nós e com relativo conforto, mesmo em condições climáticas adversas, sendo capaz de realizar abicagens violentas em praias ou margens de rios, ocupadas por forças adversárias. As tropas desembarcam através de uma rampa lançada por sobre a proa. O CB90 é largamente utilizado pela marinha sueca (172 unidades do CB90H), e foi exportado para a Noruega (20 CB90N), Malásia (17 CB90H) e México (40 CB90H).

O projeto Búfalo
Uma das primeiras preocupações do CIGS era resolver a questão do transporte de armas, munição, água, rações e outros equipamentos por frações de tropa empenhadas na guerra de selva. Assim, na busca de um meio de transporte eficiente e de baixo custo para o ressuprimento nas operações na selva, tentou-se a utilização de animais de carga ou que pudessem ser adestrados para esse fim.

Uma das primeiras tentativas desenvolvidas pelo CIGS foi durante o Comando do Cel Gélio Fregapani, com a utilização de uma anta, criada desde cedo no zoológico do Centro com este fim. A experiência infelizmente não obteve sucesso, já que o animal, selvagem, jamais aceitou que fosse transportada qualquer carga nas costas.

Outra tentativa, também frustrada, mas que começou a demonstrar a validade do conceito da utilização de animais, foi executada a partir de 1983 com a utilização de muares. Estes, apesar de historicamente já haverem sido bastante utilizados, não só pela população civil como em operações militares, infelizmente não se adaptaram à Amazônia, sendo que o principal problema verificado foi de natureza veterinária. O animal teve sérios problemas com apodrecimento de cascos e doenças de natureza epidérmica.
Com a continuidade dos estudos chegou-se finalmente ao búfalo, animal já criado com sucesso na Amazônia em pelo menos quatro espécies, rústico e com diversas características que foram ao encontro das necessidades militares para o emprego de animais.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Calúnias e Difamações Contra os Bandeirantes


Os jesuítas, que eram os melhores cronistas da época, adversários tradicionais dos paulistas, fizeram para estes uma reputação em que só não lhes é negada, dentre boas qualidades, a coragem. Para este caso — Guaíra, em que eles, jesuítas foram os feridos, a história é contada de modo a que se faça des­ses brasileiros o pior conceito. Deles advém quase todas as injúrias contra os paulistas. Como bem afirma Belmonte:
"fiam-se excessivamente na documentação dos missionários hespanhoes - parte interessadíssima na secular contenda entre as duas forças que se chocaram, vezes sem conta, nas terras bárbaras do novo mundo."
Belmonte que não cala verdades continua: “Tudo isso é symptomatico e quem quer que saiba lêr nas entrelinhas, se convencerá de que as famigeradas "atrocidades" dos paulistas não foram tantas nem tamanhas como pretendem. Tanto isso é provavel que, muitas vezes, os indios das reducções adheriam logo aos invasores: "los yndios reducidos se dan la mano con los que entram por el ytatin". Numa "Real Cedula" dirigida ao vice-rei do Peru', marquez de Mansera, narrando occorrencias no Sul, confessava a Côrte que os paulistas tinham se apoderado de tudo, porque "todos, indios e residentes, tinham-se juntado aos invasores, davam-lhes informações e os guiavam a outras villas e reducções".

A verdade é que os jesuítas, seus inimigos declarados, sempre carregavam na tinta quando se referiam aos paulistas. Vejam o caso do bispo de Olinda, Dom Francisco de Lima, que ao se reportar a Domingo Jorge Velho, o descreve como "o maior selvagem com quem já havia topado" e que fora preciso um intérprete para se comunicar. No entanto, como sabemos, Jorge Velho falava e escrevia em português.

Também muito concorreu a política da metrópole depois de descobertas as minas. E com o tem­po, a poeira das calúnias foi cobrindo os feitos desses brasileiros, sujando-lhes a reputação de todos os doestos dos seus irredutíveis inimigos.

Criadores de caminhos, obra essen­cialmente civilizadora, esses bandeirantes conduzem o Brasil para uma autonomia indestrutível, que é a de quem, por si mes­mo, por si só, adquiriu a terra em que se estabeleceu. É por tudo isso que o nome deles se tomou distinto, como os dos pernam­bucanos, e de valor internacional. Todos que conhecem e tratam de coisas sul-americanas, mencionam o povo valente, e intransi­gente na sua autonomia, esses paulistas que, ainda nas cortes portuguesas de 1820, são nominalmente referidos como efeito de irritante pavor para aqueles que, então, pensavam reduzir-nos à simples condição de colônia.

Paulo Prado, antes de lembrar que, durante dois séculos, os inventários paulistas repetiam a lúgubre glorificação "morto no sertão", acentua o apavorado ódio do jesuíta contra os ma­melucos de Piratininga.

O aviltamento chega a tal ponto, que reduzem as ações dos paulistas a meros preadores de índios. Se os levasse, aos paulistas, o único e sórdido interesse de cativar índios, como se explicam as outras expedições, como as de 1676 e 1691, contra Vila Rica do Espírito Santo e contra Santa Cruz de la Sierra, cidades urbanas onde não haviam índios a cativar?

Todas essas expedições se ligam a essa tradição, de que já nos fala a ata da Câmara de São Paulo, de 2 de outubro de 1627, quando inclui o aviso enviado à metrópole — acerca dos “espanhóis de Vila Rica que vinham dentro das terras da coroa de Portugal...”. E Paulo Prado destaca os motivos irrecusáveis, que motivaram as ações bandeirantes contra os espanhol, o ardor guerreiro e o velho ódio ao espanhol.

Os fins patrióticos dos paulistas no feito de Guaíra", desde cedo se incorporou nas nossas tradições. O padre Francisco das Chagas Lima, referindo-se ao descobrimento dos Campos de Guarapuava, que ficam na região do Paraná, onde a tradição de Guaíra devia ser bem viva, registrou-a nos termos de defesa nacional. O padre lembra que os espanhóis tinham o intuito de assegurar-se na posse daqueles territórios, quando no meio do século XVII “estabeleceram a sua Cidade Real na embocadura do Piquiri, e Vila Rica, na margem meridional do Itatu. povoações que foram demolidas pelos antigos paulistas”.

É a tradição a que se repetia na boca de Lopo de Saldanha. Homem de Estado, feito no segredo da realidade, ele bem conhecia a verdade da ação política dos paulistas. A Defesa daquelas terras, que os paulistas con­sideravam toda aquela região, até o Paraguai, pertencente a Portugal.

E foi assim que todo o alto Paraná se incorporou ao Brasil. Bandeirantes homens, diante de quem, apesar de quantas ferezas e crimes lhes sejam imputados, a alma boa de Southey o defensor dos je­suítas seus inimigos, não se contém, e transborda de admiração, em longos elogios. Para esse historiador, não terá havido, pela América, mais bravura, e patriotismo, e intrepidez: “Homens de indômita coragem, e a toda prova para os sofrimentos.., Eram os paulistas incansáveis nas suas explorações... Uma raça de homens mais ousados, ainda, que os primeiros conquistadores.".

domingo, 3 de junho de 2012

Entrevista com o presidente da ABIMAQ, Luiz Aubert Neto (Sobre Política Industrial)


5:15s Luiz: Nós estamos sendo invadidos né.... esse processo de desindustrialização do nosso setor ele esta violento, ele esta muito forte. A desindustrialização é fácil explicar, hoje a perda de competitividade que nós temos em função de câmbio e outros temas que podemos tratar, mas hoje o principal é câmbio mesmo.  
Então oque que acontece? Quando eu não consigo competir mais com o chinês, principalmente o chinês que é oque esta fazendo o grande estrago aqui no nosso setor. Então oque que eu começo a fazer? Eu vou na China, eu importo uma máquina da China né, eu trago essa máquina para cá, eu tiro a plaquetinha dela lá com o nome de ching-changlee, coloco a minha marca e revendo aqui dentro. Então eu paro de fabricar a máquina. Então no primeiro processo, oque começo? Começo a trazer componentes para montar minha máquina, num segundo processo que eu começo a ver que o negócio começa a ficar bom, porque eu não tenho como competir, eu trago a máquina inteira para cá. Então eu paro de fabricar essa máquina, né... eu revendo aqui, mas em termos de faturamento eu continuo faturando, eu continuo recolhendo meus impostos, então quando agente vê esses números do IBGE que o setor esta faturando, você tem.... se você entrar nos meandros desses números, você vai ver que tem muita coisa que agente tem que separar. Eu estou faturando mas não estou fabricando mais. Virei um comerciante.
11:40s eu posso dizer o seguinte... eu acho que o governo vem errando faz tempo né, o Brasil vem errando tremendamente faz tempo e eu vou te dar um número aqui que eu acho que é a principal anomalia do Brasil, o principal cancer que nós temos, sempre foi taxa de juros. Se você pegar.... entrar no site do BC, puxar lá, nos últimos 16 anos: 8 anos de governo do FHC, 8 anos de governo Lula e mais esse ano do governo da Dilma, você sabe quanto o governo brasileiro já pagou de juros somente da dívida? Mais de 2 Trilhões de reais de juros da dívida! Se você corrigir esse valor e trouxer hoje pro pior índice que tem, passa de 5 trilhões de reais! É a maior transferência de renda que um país já fez (do setor produtivo pro setor financeiro)  não só produtivo, saiu do meu bolso, do seu bolso de todo mundo, então não sobra dinheiro para nada! Pega o orçamento de hoje, 46% do orçamento ainda hoje do Brasil é para amortiçar dívida e pagar juros, não sobra dinheiro para nada. Então o grande mal que nós temos aqui no Brasil (é a taxa de juros alta) eu não tenho dúvidas nenhuma disso, só que você tem grande parte da mídia, porque isso é briga de cachorro grande, grande parte da mídia são ecnonomistas ligados ao sistema financeiro. Um exemplo esta aqui, quando o governo Dilma teve coragem de colocar, não alguém do sistema financeiro, como presidente do BC, se você pegar a história toda é a primeira vez que nós temos um presidente do BC de carreira. E na primeira reunião que ele teve lá, na primeira na segunda ele aumentou e depois quando ele abaixou meio por cento, você viu o terrorismo que foi, todo mundo falou que o BC perdeu autonomia que não sei quê “bla bla bla bla bla”....


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Política Externa Brasileira por Darc Costa
http://ressurreicaonacionalista.blogspot.com.br/2012/03/politica-externa-brasileira-por-darc.html

terça-feira, 29 de maio de 2012

História do Brasil


"Vimos as nossas tradições desnaturadas, os seus heroísmos infamados, falseada a essência da sua história (...) Inimigos, não caluniaram a Nação Brasileira como fizeram os seus historiadores, repetidos nos políticos. Em suas obras, confusas e opacas, desaparecem as qualidades características do povo, qualidades propositadamente escondidas, quando não são ostensivamente negadas."


"Para não desesperar do destino deste povo, houve que levar os olhos para a remota história do Brasil em formação quando as suas virtudes se pronunciaram: o nascer das tradições brasileiras, com os lances em que a nacionalidade se revelou e afirmou, uma “idade heróica”, em manifestação de valor pátrio capaz de fazer o orgulho de qualquer povo. A história desses dias longínguos, a cujas tradições nos acolhemos, será a montanha em beleza, altura que nos protegerá contra as emanações do paul em que nos encontramos. Lá em cima, com o anunciar da nacionalidade, gira um sopro de vivificante aurora: purifiquemo-nos, reanimemos nele." - Manoel Bomfim.




3. A Campanha de Itamaracá - As Primeiras Manifestações de Energia da Terra.
Com os potiguaras, tinham os franceses levantado grandes exércitos, temíveis pela bravura do gentio, a mestria do comando e a qualidade das armas. Sob as ordens de oficiais franceses, os valentes caboclos serviam-se dos canhões como aguerridos europeus. E os brasileiros tiveram que lhes opor poderosos exércitos coloniais, que foram os maiores da América, até aquele momento.




7. A Nacionalidade Vencedora! O Valor Militar dos Insurgentes.  
"Nessa época, o custo de armar e manter um exército era alto, razão pela qual a proporção entre efetivos e a população é relativamente pequeno comparado a outras épocas da história. A guisa de comparação, o maior exército do mundo na época era o espanhol, que não contava mais do que 15 mil homens. Na decisiva batalha  de Nieuwpoort em 1600, entre Espanha e Holanda, e que determinou a independência da Holanda, até então submetida a Espanha, contavam os holandeses 12 mil homens, contra 15 mil de Espanha."


"assinaremos a paz com império com o sangue do primeiro castelhano que cruzar a fronteira."

11. Proclamação da República:
É com Floriano Peixoto que esse modelo se materializa. Forja-se um nacionalismo militante, a defesa da república empolga a população: o povo se engajou na defesa da República , integrando batalhões republicanos, participando de comícios e manifestações, houve uma mobilização espontânea.

12. A Revolução Acreana - Uma Guerra Anti-Imperialista no Coração da Amazônia. (1902-03)


14. O Governo do Presidente Arthur Bernardes (1922-26)

15. Revolução de 30, A Demolição do Estado Liberal.
"A única que tivemos digna desse nome(Revolução de 30), pela profunda transformação social modernizadora que operou sobre o Brasil. Que, proscreveu do poder os coronéis-fazendeiros com seus currais eleitorais e destitiuiu os cartolas do pacto "café-com-leite".


16. A Contra-revolução de 1932.
"aquilo era sacanagem dos paulistas da UDN. Sempre achei isso. Porque nenhum filho de gente importante estava lá? Só estavam o povinho ou os ingênuos como eu. Foi uma das sacanagens mais bem armadas que eu já vi."

17. 64 - Um Golpe Contra o Nacionalismo Brasileiro.
O objetivo da ditadura era varrer os políticos ligados ao getulismo (sendo o comunismo apenas o pretexto invocado para o golpe). Golbery do Couto e Silva,  sempre foi transparente a esse respeito: "expurgar da cena política brasileira os políticos ligados ao populismo getulista.". 

Os Colonos Formadores

Nos primeiros colonizadores do Brasil encontravam-se as virtudes essenciais do pioneiro português: — solidariedade na compreensão nítida de existência nacional, hábito de atividade disciplinada e, com isto, o sentimento de trazerem consigo uma pátria, no intuito explícito de fazerem um novo país, pelo desen­volvimento das tradições nacionais. Como estímulo geral, havia o desejo de formar fortuna estável. “O português, estabelecendo-se no Brasil, abandonou de certo modo os direitos que em Portugal possuía para com o Monarca, porquanto, em lugar do rei, recebia um senhor — Dominus Brasilia. Nisso mesmo existia o motivo para os colonos jamais deporem as armas.” Assim desenvolve Von Martius (Naturalista e historiador alemão, autor de: Como Se Deve Escrever a História do Brasil).
Martim Afonso de Sousa, Tibiriça e João Ramalho

Martius antes, já havia mostrado como, nessa posse ativa e definitiva da terra, a coloniza­ção portuguesa veio estabelecer o seu “Sistema de Milícias, insti­tuição singular de defesa, de grande alcance por todo o primeiro período de formação. Eram forças saídas das próprias populações estáveis, absolutamente vinculadas à terra”. Martius acredita que, por elas, se explica o espírito empreendedor dos bandeirantes, e a capacidade de defesa contra os invasores. E ele insiste no valor dessa primeira colonização: “Não devemos julgar a emigração de colonos portugueses para o Brasil, como ela se operava no século XVI. e que lançou os fundamentos do atual... segundo os princí­pios das colonizações de hoje em dia... Era aquela uma continua­ção dessas empresas afoitadas e grandiosas... executadas ao mes­mo tempo por príncipes, nobres e povo... As mesmas razões gerais e poderosas que imprimiram a uma das nações mais peque­nas da Europa um movimento tão poderoso, e que a impeliram para urna atividade que faz época na história universal, e induzi­ram-na igualmente à imigração para o Brasil.

Em geral, os novos colônos que emigram, são gente em torno dos Donatários, a maioria da baixo aristocracia rural do norte de Portugal. Duarte Coelho trouxe consigo colonos de Viana do Castelo, a tal ponto numerosos que ao se insugirem contra emissários de Lisboa diziam: “aqui não Del Rey mas, de Viana!”.

Igualmente na então Capitania de Porto Seguro, seu donatário Campo Tourinho em menos de 3 anos construiu 7 vilas onde distribuiu alguns colonos que o acompanhavam a maior parte provinha de família de pescadores de Viana do Castelo e eles logo transformaram a pesca da garoupa nos baixios de Abrolhos em uma indústria florescente que se tornou na principal fonte de renda da capitania com a exportação do peixe salgado e seco. Após a morte de Pero Tourinho a capitania entrou em decadência, embora a Vila de Porto Seguro tenha se mantido habitada, assim como os outros povoados fundado por Pero de Campo Tourinho entre eles Santa Cruz, Santo Amaro e Comagi.


Para mensurar o resultado desse processo, quase metade dos portugueses processados pela Inquisição na Bahia e em Pernambuco no Séc. XVI eram naturais do Minho, cabendo um longínquo segundo lugar (15%) aos naturais de Lisboa.

A estrutura familiar minhota foi determinante para esse fluxo, uma vez que os filhos que não fossem primogênitos ficavam deserdados e assim buscavam no Brasil novas terras. Foi assim que fidalgos de Entre Douro e Minho, singraram o mar oceano em frágeis caravelas, e aqui aportaram no verde mar da Bahia. A partir da casa-forte erguida por Garcia d´Ávila, partiram rijos cavaleiros com suas cartas de sesmaria, sementes e gado, e beirando os rios vieram dar nas lonjuras ásperas da caatinga, povoando todo o sertão.

Essa influência minhota restou particularmente notável na herança lingüística deixada no nordeste setentrional onde se verifica forte reminiscência do português arcaico na linguagem sertaneja. Posto que da Paraíba ao Piauí, não houve fortes influências africanas(como na Bahia, Maranhão e Minas) ou de outras línguas européias(como em São Paulo e o sul).

Com efeito: “O português que no princípio do século XVI emigrava para o Brasil, levava consigo aquela direção de espírito e coração, que tanto caracterizava aqueles tempos.... o historiador brasileiro não poderá se eximir-se de traçar um quadro dos costumes do século XV, se intentar descrever os homens tais e quais vieram”.

Entre os primeiros construtores da colônia, encontram-se os portadores da verdadeira glória que Portugal deu ao Brasil, tanto nos leigos, como nos clérigos. E são tantos que chegam para tudo o que é preciso no momento: conquistar a terra, ganhar e absorver o gentio, iniciar as culturas, fazer as povoações, resistir ao estrangeiro. E houve desses construtores, cuja atividade se prolongou 40 anos – Um Gaspar de Souza.... Trabalhavam como obreiros e combatentes, edificavam lutando. Toda a primeira formação foi assim: na boa luta, a que enraíza na terra, e fortifica o patriotismo. O espírito dominante era o da pura defesa, de uma obra estável, para uma vida laboriosamente pacífica. Assim o consagrou Tomé de Souza, simbolizando a Capital que edificou, e o país por ela governado, nas armas que lhe deu: a pomba, início e esperança de nova vida, animo de mansidão e bondade: Sic illa ad arcam reversa est.

Frei Vicente do Salvador, o melhor espelho da vida colonial no primeiro século do Brasil, dá conta, a seu modo, e muito expressivamente, dessa feição estável e apaixonadamente agrícola daquela gente. É quando trata dos serviços de Cristóvão de Barros, grande capitão, por certo, e que submeteu definitivamente os tamoios e os tupinambás de Sergipe. “era um homem sagaz e prudente e bem afortunado nas guerras.... em todas que teve com os tamoios ficou vitorioso e pacificou de modo o recôncavo e rios daquela baía que, tornados os ferros das lanças em foices e as espadas em machados e enxadas, tratavam os homens já somente de fazer suas lavouras e fazendas, e ele fez também um engenho de açúcar....”.

Para a Índia se despejavam as levas de todos aqueles em que predominavam a cobiça grosseira, a sede brutal de ouro e de comércio pirata. A Índia depurou a primeira colonização do Brasil. Pelo seu caminho se foram os que não convinham as necessidades da nação que aqui se criava. Houve seleção de indivíduos e, até de serviços. Tal se dá no caso de Martim Afonso. Era um ânimo de grande energia, valoroso como qualquer Pizarro, ou Alamagro; tanto se vê suas façanhas em Requilin, Malabar, Ceilão, Bengala... onde teve que bater-se com guerreiros que não eram inermes mexicanos, ou peruanos. Mas com seu grande valor, era, Martim Afonso, um grosseiro ambicioso – de riquezas feitas, como as terras daqui não lhe podiam proporcionar; e o grande capitão, depois de dar-nos o que de bom havia na sua atividade, foi-se para a Índia, a cevar nas riquezas dali os instintos de rapinagem.

A orgia das aventuras na Índia, serviu de boa lição, valeu como aviso a Portugal. Dobrado por essa experiência, compreendeu que era preciso elevar os processos na Índia, meditou nos magníficos resultados da colonização das ilhas, e o Brasil lhe pareceu a terra destinada a uma vasta exploração colonizadora, estável, em que a nação se refizesse, em vez de perverter-se, como acontecia na exploração puramente comercial, de simples feitorias. Para isso concorreu explicitamente a exploração que os franceses faziam na costas do Brasil, onde tinham feitorias, e desenvolviam proveitosas relações comerciais com o gentio.

Portugal defendeu seu domínio na forma conveniente. Veio ocupa-lo e o colonizou, produzindo o longo conflito entre franceses e portugueses. As guerras travadas, patenteiam de modo irrecusável a superioridade portuguesa, não só na eficiência militar, mas, sobretudo na capacidade colonizadora.

Na condições da terra brasileira, com as populações que ali se encontravam, a exploração por meio de simples feitorias era de efeitos curtos, condenada irreversivelmente ao insucesso. Foi o que bem compreendeu o governo português, quando, reconhecida verificar espaço duplo a totalidade das costas, medidas as suas possibilidades, formulou o plano das capitanias, que era o de um estabelecimento definitivo, com a incorporação da terra brasileira na civilização portuguesa, representada nos elementos considerados fundamentais, isto é, a fidalguia!

O Regime de das Capitanias, teve o mérito de patentear o intuito de colonização e povoamento. Estável das terras brasileiras. Houve desastres, não um fracasso total! O regime teve a dupla vantagem de provocar a vinda para aqui, de gente escolhida com valor e com intuitos, e de permitir o estabelecimento natural, em toda sua força de expansão, dos dois núcleos essenciais de formação da nacionalidade brasileira Olinda e São Vicente. Perderam-se, para os primeiros donatários, a maior parte das capitanias, mas não se perderam para o Brasil os esforços realizados então, nem o valor humano das gentes que se empenharam nas empresas malogradas. Os que resistiram foram homens excepcionalmente intrépidos e eficientes. Para cada um dos feudos, veio uma leva de pioneiros, no animo de fazer a boa exploração da terra na agricultura. Vinham com o intuito explícito de conquistar a natureza, e não no cupido afã de levantar a riqueza feita, saqueando, extorquindo de qualquer forma. Onde quer que ficassem, eram energias fecundas em que a terra se refazia no animo de uma verdadeira pátria.


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domingo, 1 de abril de 2012

64 - Um Golpe Contra o Nacionalismo Brasileiro.



O objetivo da ditadura era varrer os políticos ligados ao getulismo
(sendo o comunismo apenas o pretexto invocado para o golpe).
Golbery do Couto e Silva,  sempre foi transparente a esse respeito: 
"expurgar da cena política brasileira os políticos ligados ao
populismo getulista.".

O processo subversivo que desencadiou no Golpe de 64 antecede a deposição de Vargas em 45, a tentativa de impedir sua posse em 51, a “novembrada” em 55 contra Jucelino, a tentativa de golpe em 62, para findar na deposição de Goulart em 64. Esses fatos revelam a ação sistemática de um mesmo grupo na tentativa de tomada do poder, orquestrados e subvencionados pelos EUA a fazer oposição a esses governos nacionalistas.

Em cada tentativa de golpe, a UDN invocava um pretexto diferente: em 1954 eram a "corrupção" , o "atentado da rua Toneleros" e a "república sindicalista"; em 1955 era a "corrupção" bem como em 1956 e 1959; em 1964 era a "ameaça comunista.".

1964 foi o coroamento de uma longa sequência de golpes fracassados: 1954, 1955, 1956, 1959, 1961 e finalmente 1964. O pretexto para o golpe - como bem acontece com as ações de pessoas oportunistas - mudava de acordo com a ocasião, mas o objetivo final dos conspiradores sempre foi o mesmo: afastar do comando do País a corrente nacionalista getulista e implantar um governo que alinhasse definitivamente a economia brasileira aos interesses do capital internacional.

Não por acaso, vários historiadores diferentes dizem sempre a seguinte frase, quando se referem ao suicídio de Getúlio Vargas: "com seu suicídio, Getúlio adiou o golpe militar em uma década."

Para se ver como a tal "ameáça comunista" era conto da carochinha, basta dizer que, no auge da guerrilha urbana e rural comunista contra a ditadura, em 1970, haviam cerca de no máximo 1000 pessoas em armas no Brasil todo contra o regime, e isso somando os vários grupos que haviam. Um efetivo de mil pessoas contra o poderio combinado do Exército, Marinha e Aeronáutica! Que enorme "ameáça"!

Lembrando que na mesma época a Itália esteve também as voltas com as ações violentas de grupos extremistas, mas não precisou abrir mão de seu regime democrático para combater essas ações.

O suposto "comunismo" de Goulart foi o pretexto usado. Contra Getulio usaram o pretexto da "corrupcao" . Quando Jango era Ministro do Trabalho de Getúlio, acusavam-no de "peronista" , de que ele e Getulio teriam uma aliança terrível com o presidente argentino Juan Peron para transformar o Brasil numa "Republica Sindicalista" (seja lá o que for que isso quer dizer). Como Peron foi derrubado por um golpe militar em 1955, nao dava mais para usar o espantalho do peronismo, entao Lacerda e seus asseclas passaram a usar o espantalho do comunismo para fazer as pessoas terem medo de Goulart.

João Goulart não era, nunca foi, nem jamais seria comunista. Jango era riquíssimo, um milionário mesmo, e isso não apenas em função da herança herdada de seu pai, mas também, merecidamente, por seu incrível talento empresarial. Quando Jango herdou as terras de seu pai ( em 1943, se não me falha a memória ) os negócios estavam até meio mal. Jango, jovem advogado e herdeiro pecuarista, administrou tão bem o patrimônio herdado que o aumentou enormemente em poucos anos. Jango "pegava no pesado" mesmo, fazendo juz ao ditado de que "o boi só engorda com o olho do dono" , ele fazia trabalho pesado junto com os peões para administrar as muitas terras que possuia, muitas vezes comendo e dormindo em locais totalmente desconfortáveis. Jango era nos anos 50 um dos maiores pecuaristas do Brasil. Ele tinha um talento gerencial tão notável que até o doutor Getúlio confiou a ele (e não a um de seus filhos) a administração de suas estâncias em São Borja. Imaginar que um homem que trabalhou tanto para construir um notavel patrimonio fosse ser o agente consciente de seu proprio empobrecimento e loucura. Amaral Peixoto disse que o maior prazer de Jango era adquirir terras.

A articulação para o golpe só ficou mais séria depois do dia 22 de novembro de 1963. O que aconteceu nesse dia? Com a morte de Kennedy, assumiu o vice, Lyndon Johnson, que, por motivos de politica interna norte-americana, precisava "legitimar-se" frente aos setores mais reacionários do establishment dos EUA, e para isso, passou a dar apoio total aos golpistas brasileiros. Como em 1945 e 1954, o golpismo interno brasileiro só se sentiu realmente "fortalecido" quando passou a ter a certeza de poder contar com o "backing" do "Grande Irmão do Norte". Lyndon Johnson, tido como um politico oportunista e "liberal" (liberal no sentido norte-americano do termo, ou seja, progressista em assuntos de politica interna) só se mostrou confiável e seguro para a Linha Dura norte-americana ao apoiar o golpe contra Jango no Brasil.

Muito da agitação da época foi fabricado pela própria direita, com o intuito de "preparar psicologicamente" a classe media para aderir ao golpe. Esse era o caso, por exemplo, dos famosos "motins" de marinheiros, liderados pelo infame Cabo Anselmo, que, após o golpe, descobriu-se que era (surpresa!) um agente da CIA.

O empresário paulista Mario Wallace Simonsen (nenhum parentesco com o celerado Mario Henrique Simonsen), era dono de fazendas de café, da TV Excelsior de São Paulo, da TV Excelsior do Rio de Janeiro e da lendária companhia de aviacão Panair do Brasil. Esse empresário APOIOU O GOVERNO DE JANGO ATE O FINAL, SOFRENDO TERRIVEIS PERSEGUICÕES CONTRA SUAS EMPRESAS POR ISSO. Será que um grande empresário apoiaria um governo "comunista"?

Em verdade o objetivo da ditadura era varrer os políticos ligados ao getulismo (sendo o comunismo apenas o pretexto invocado para o golpe e para a ditadura). A ditadura cassou os direitos políticos e perseguiu o ex-Presidente Juscelino Kubitschek. Pergunta-se, JK era comunista?

O mentor intelectual dos golpistas de 1964, general Golbery do Couto e Silva, sempre foi transparente acerca do OBJETIVO PRINCIPAL do regime de 1964: "expurgar da cena política brasileira os políticos ligados ao populismo getulista."

E o que o Brasil ganhou com tudo isso? Qual foi o legado deixado por esse regime MALDITO implantado em 1964?

Politicamente, foi um grande retrocesso: não apenas os ditadores militares rasgaram uma Constituição democrática(de 1946) como tiraram do povo o direito de escolher o Presidente da República, os governadores e os prefeitos de inúmeras cidades. Extinguiram os partidos políticos mais autênticos e representativos que o Brasil teve ao longo de toda a sua História: o PTB, o PSD e a UDN, e criaram no lugar duas legendas completamente artificiais, a ARENA e o MDB. Somente essa decisão de extinguir os velhos partidos criados em 1945 eu considero profundamente criminosa, foi um desastre que fez muito mal à cultura política brasileira. Atrasou em muito nossa evolução política, e o resultado disso são essas meras siglas eleitorais de hoje, partidos desprovidos de ideais e conteúdo, que não representam praticamente nada exceto interesses mesquinhos. A ditadura é a mãe da atual zorra partidária. Lembrando que nossos vizinhos - Argentina, Uruguai e Paraguai - tem os mesmos partidos políticos desde o século XIX.

A destruição da democracia brasileira desgostou até o homem que desencadeou o golpe em 1964; um ano depois da tomada do Poder pelos militares, o general Olímpio Mourão Filho falava abertamente contra sua criação, dizendo: "o Brasil regrediu à ignomínia de 1937."

O legado econômico-social da ditadura de 64:

Economicamente internacionalizou nossa economia, quebrando diversas empresas privadas nacionais e levando as à fundirem-se ou serem compradas por multinacionais, aumentado assim a dominação da economia brasileira pelo capital estrangeiro. Revogou a Lei de Remessa de Lucros, aumentando a sangria de divisas do Brasil para o exterior. Uma frase de Juracy Magalhães, ministro das Relações Exteriores do governo Castelo Branco, resume bem o pensamento dominante entre os golpistas acerca de como o Brasil devia ser conduzido: "o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil."

A ditadura afundou o Brasil no endividamento externo e na dependência junto ao FMI. Foram tomados empréstimos gigantescos para financiar as famosas "obras faraônicas" (entre essas a desatrosa rodovia Transamazônica, que hoje é um gigantesco lamaçal no meio da selva). Em 1964 o Brasil devia cerca de 6 bilhões de dólares. 20 anos depois, em 1984, o Brasil devia 120 bilhões de dólares. A economia brasileira quebrou, e o resultado foi a famosa "década perdida", a década de 80, na qual a economia não cresceu e a inflação atingiu índices estratosféricos.

Socialmente a ditadura trouxe o arrocho salarial, o aumento da carga tributária e o sucateamento do ensino público à partir de 1972. Aumentou a concentração de terras nas mãos de latifundiários, provocando um grande êxodo rural que provocou um processo de favelização agudo em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. Foi assim que a criminalidade cresceu assustadoramente no Rio de Janeiro e na capital paulista.

O lado nefasto da "obra social" do regime de 1964 acabaria sendo reconhecido por um dos conspíradores, o udenista histórico Afonso Arinos de Melo Franco. No fim da vida, ele assim definiria o fato de seu partido, a UDN, ter sido contra a ditadura de Vargas mas ter, paradoxalmente, apoiado a ditadura militar:
"Fomos contra a ditadura quando ela significou avanço social [ a ditadura Vargas ] e fomos à favor da ditadura quando ela significou retrocesso social [ a ditadura militar ]."
Os defensores da ditadura sempre poderão dizer que a ditadura fez o Brasil sair da posição de 40ª economia do mundo (em 1964) para a de 8ª (nos anos 70), mas isso não significa, nem de longe, que o Brasil ficou mais Soberano ou que se gerou bem estar social. Parafraseando um ministro da própria ditadura, o "bolo cresceu mas não foi distribuído." A riqueza se concentrou violentamente nas mãos de uma minoria. O crescimento econômico do período 1968 - 1973 beneficiou sobretudo as grandes multinacionais instaladas no Brasil. Houve um incrível aumento na geração de riqueza, mas em grande parte essa riqueza não ficou aqui para beneficiar os brasileiros. Ter uma economia grande não significa necessariamente bem-estar para o povo: países como a Argentina e o Uruguai, no nosso continente, e a Áustria, na Europa, tem economias muito menores que a brasileira e no entanto seus povos vivem melhor que os brasileiros.

Enfim, 1964 foi a tragédia maior de nossa História - longe de nos salvar de uma "ameáça comunista" que jamais existiu, foi, isto sim, a vitoria final de Joaquim Silverio dos Reis, o triunfo daqueles que, desde 1945, tramavam a destruicao do modelo nacionalista de desenvolvimento economico gerado por Getulio Vargas. Nao por acaso, os grandes nomes de 1964 foram Carlos Lacerda, Magalhães Pinto, Roberto Marinho, o brigadeiro Eduardo Gomes ( arquiinimigo de Getulio desde 1945, e que foi prontamente nomeado por Castelo Branco para o Ministerio da Aeronáutica ) o marechal Juarez Távora ( outro terrivel, sinistro antigetulista desde os anos 40, que tambem ganhou uma boquinha ministerial sob Castelo Branco )além do próprio Castelo Branco, Costa e Silva, Golbery e outros TODOS antigetulistas históricos, integrantes do famigerado "Grupo Sorbonne" da ESG ( Escola Superior de Guerra ), grupo de "intelectuais" militares direitistas, que inclusive fundaram a ESG em 1949 com toda a assistência de militares norte-americanos para que a ESG fosse uma versao tupiniquim do "War College" norte-americano. Não por acaso, o regime de 1964 foi, repito, feito contra o legado getulista.

Texto de Rodrigo Nunes.


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sexta-feira, 23 de março de 2012

O Modelo Republicano Brasileiro Vs O Modelo Republicano Estadunidense

Bandeira idealizada por Rui Barbosa,
dirá Miguel Lemos:
"cópia servil do pavilhão da república norte-americana"
Embora comumente se diga que a 1º Constituição Republicana fora de inspiração positivista.... não há engano maior, o projeto positivista de Miguel Lemos e Teixeira Mendes fora rejeitado na Constituinte, quando então Júlio de Castilhos, um dos deputados constituintes,  levará para o Rio Grande do Sul implementando-a em toda sua pureza, a consagrando na Constituição de 14 de julho de 1891 do RS, dita Castilhista. Sobre essa constituição dirá Miguel Lemos ser:  
"o código político mais avançado do ocidente".



Quando da instituição da República havia um embate ideológico entre 2 modelos republicanos, o liberal de matiz estadunidense e o positivista baseados nas idéias de August Comte. A distinção entre esses 2 modelos se funda entre a liberdade do homem público subordinado aos interesses coletivos(positivista), e a do homem privado, onde o coletivo é a soma dos interesses individuais(liberal).
Bandeira de São Paulo, de inspiração
maçônica tal como a bandeira estadunidense
ideologia que norteava os liberais e
ex-monarquistas da oligarquia cafeicultora.

O modelo republicano liberal era defendido por ex-monarquistas, proprietários rurais, especialmente pela bancada paulista, para esses os EUA era o modelo republicano a ser seguido. Convinha-lhes a definição individualista do pacto social, a participação popular era evitada e ao definir o interesse público como a soma dos interesses individuais, fonercia a justificativa para a defesa de seus interesses particulares.

O modelo republicano positivista era defendido por pequenos proprietários, militares, profissionais liberais, jornalistas, professores e estudantes. Para essas pessoas, o modelo liberal não era atraente, pois não controlavam recursos de poder econômico e social capazes de se fazerem ouvir. Prezavam os ideais de liberdade, de igualdade, de participação. Igualmente, a idéia de ditadura republicana, o apelo a um executivo forte  e intervencionista, agradava especificamente os militares. Progresso e ditadura, o progresso pela ditadura, pela ação do Estado, eis o ideal de despotismo ilustrado que tinha longas raízes na tradição luso-brasileira, desde os tempos pombalinos do Séc. XVIII. Por último a proposta positivista de incorporação do proletariado a sociedade, de uma política social a ser implementada pelo Estado, abria caminho para a idéia republicana entre o operariado, especialmente estatal.

Flâmula Nacional apresentada por Ramundo Teixeira Mendes e  Miguel Lemos
 em substituição a vergonhosa proposta de Rui Barbosa 

É oportuno compreender a figura do “ditador”, o dictador commteano não se equivale ao déspota ou ao tirano, que governa segundo seus interesses pessoais e muitas vezes usurpando o poder. O Dictador Commteano não usurpa o poder por que na concepção commteana o Poder é legítimo quando exercido para o bem comum e na figura do governante competente, o mais apto a governar, rememora a antiga figura do “dictator” romano nomeado para governar em momentos de críses, é nessas circunstâncias que Vargas irá se reportar a si como “dictator”.

Os positivistas brasileiros, como Benjamin Constant um dos principais difusores da doutrina, desenvolveram uma doutrina que distoava do concebido por Commte, a figura do ditador perpétuo era rejeitada por esses positivistas, carecendo as eleições como fator legitimador para a ocupação do poder, como foi expresso pela Constiuição Castilhista através do instituto da reeleição contínua. A concepção de liberdade desses positivistas, era a que caracterizara as antigas repúblicas de Atenas, Roma e especialmente Esparta. 
Era a liberdade de participar coletivamente do governo, da soberania, era a liberdade de decidir na praça pública os negócios da república. Em contráste, a pseudo-liberdade dos liberais, a que convinha aos novos tempos, era a liberdade do homem privado, a liberdade dos direitos de ir e vir, de propriedade, de opinião, de religião. A pseudo-liberdade dos liberais não exclui o direito de participação política, mas esta se faz agora pela representação e não pelo envolvimento direto como o pregado pelos castilhistas”.

O Sistema Representativo (modelo liberal) foi gestado e parido nos EUA com o fito de privilegiar sua elite financeira, apartando do povo as decisões políticas por meio de representantes. O parlamento é o reduto dessa oligarquia, não por menos, o parlamentarismo é o regime ideal concebido pelos liberais, uma vez que se funda na representação classista, como a eleição desses representantes é determinado pelo poder econômico, majoritariamente o parlamento sempre será um reduto privilegiado da oligarquia sempre a postos para barrar qualquer processo que distoe dos interesses oligárquicos.

Esse modelo de Estado não toca apenas na organização institucional, ele reflete diretamente a política econômica que irá ser seguida. A ocupação do Estado pela oligarquia mediante o parlamento e muitas vezes mesmo o Executivo direcionará as ações do governo no favorecimento daquele setor economicamente dominante. É oque se observa nos embates entre nacionalistas que defendiam um modelo protecionista e industrializante(bancada positivsta) contra os liberais a defender a continuidade da política do Império, permanecendo como uma imensa fazenda da Inglaterra baseados nas teses de Adam Smith.

Esse modelo republicano estadunidense acabou se implantando no Brasil e esse modelo liberal, só terá fim com a Revolução de 30, e o advento da Constituição de 37, que nem se quer teve uma década de vida, sendo estirpada antes mesmo de vigorar quando a oligarquia, agora de par com forças estrangeiras(EUA notadamente), abortaram a Campanha Queremista em que Vargas amoldaria a Constituição de 37 aos tempos de pós-guerra.
De modo que o modelo republicano brasileiro, comprendia um Executivo forte, dando-lhe isenção para governar, concentrando as funções legislativas, em que as leis são elaboradas por órgãos técnicos e isentos, sendo essas leis  submetidas ao crivo popular mediante referendos e plebiscitos, mecanismos de Democracia Direta, ao contrário do modelo republicano estadunidense em que as funções legislativas ficam entregues ao parlamento, tendo ainda o Executivo substanciais limitações em seu exercício pelo parlamento.


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A Política de Floriano Peixoto - Florianismo.