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quinta-feira, 20 de março de 2025

O Catolicismo Tradicional Brasileiro - A Alma do Braʃil.

Há pelo menos dois tipos de catolicismo no Braʃil: o oficial e o popular. Esta dualidade é antiga, desde o período colonial, e muitas vezes em oposição: o catolicismo doméstico dos primeiros colonos, dos chefes de família, e o catolicismo mais Romano, mais universalista, das ordens religiosas e principalmente dos jesuítas. É difícil precisar quais as proporções dos adeptos de um ou outro dos dois tipos de catolicismo, pois não são captáveis por meio de estatísticas.

Tal dualidade não é exclusivamente brasileira, mas universal; em todos os países existiu sempre oposição entre de um lado as necessidades religiosas espontâneamente formuladas pela massa da população aliadas à conservação de antigas tradições religiosas e, de outro lado, a estrutura de uma hierarquia sacerdotal, sustentada por um dogmatismo mais ou menos rígido.

Os sacerdotes, em sua maioria, permanecem nas cidades ou nas zonas mais populosas; no sertão e nas zonas rurais em geral são sempre escassos. As paróquias do interior, muito vastas, raramente dispõem de um vigário ali residindo em permanência, e muitas vezes um só cura tem a seu cargo mais de uma paróquia; a extensão a percorrer é de tal ordem que a maioria das localidades recebe a visita do vigário apenas uma vez por ano.

Mesmo nas cidades, a falta de padres é significativa, como demonstrado por dados de meados do século XX, que revelam uma proporção insuficiente de clérigos para o tamanho da população. A prática religiosa varia consideravelmente entre as classes sociais. As elites, mais instruídas religiosamente e residentes em bairros melhor servidos de padres, apresentam maior frequência de prática religiosa, representando cerca de 15 a 20% dos praticantes regulares.

A instrução religiosa ministrada por sacerdotes é rara e atinge crianças de nível social elevado, as quais seguem cursos de catecismo durante alguns meses, preparando-se para a primeira comunhão. As crianças da plebe, seja em zona urbana, seja rural, são instruídas por seus pais ou parentes, quase sempre analfabetos e que, por sua vez, foram no passado instruídos do mesmo modo. A fé é assim transmitida de geração em geração por uma espécie de inércia conservadora. A grande maioria dos católicos brasileiros recebem-na de herança sem praticamente conhecerem a doutrina. É neste contexto que hoje se difundem cada vez mais o protestantismo e o espiritismo.


2 — Formação do catolicismo popular brasileiro.

Durante todo o período colonial e mesmo após, a carência de párocos e, por conseguinte, de assistência religiosa, forçou o brasileiro a adaptar-se. Tal adaptação, espontânea, expressou-se numa reorganização e reinterpretação do catolicismo tradicional, trazido pelos colonos portugueses de um lado, e do catolicismo oficial, trazido pelos poucos sacerdotes que aqui aportaram, de outro. Neste processo, elementos novos surgiram; elementos antigos ou pertencentes à religião oficial haverem sofrido transformações; dogma e liturgia haverem sido deformados por necessidades locais ou pela imaginação de líderes religiosos falhos de adequada instrução. Apesar das diferenças entre o culto oficial e o culto popular, a grande maioria dos brasileiros se tinham como muito bons católicos, a tradição lhes ditou o apego a esta forma religiosa.

O suposto sincretismo, difundido nas últimas décadas, mais das vezes por autores maçônicos, entre o catolicismo e outras manifestações religiosas, notadamente de matriz africana, é uma falácia. À época colonial até hodiernamente, no meio rural, os cultos africanos foram inexistentes quase por completo. A guisa de exemplo os residentes no quilombo dos Palmares, são reportados como católicos. Bem como as ditas "comunidades quilombolas" remanescentes, são todas católicas, sem resquício de sincretismos com cultos africanos. A manifestação de cultos de origem africana só se verificam a partir do início do século XIX, durante o Império, ainda assim circunscrita a nichos. Fomentados por uma política liberal de condescendência, de cariz maçônico, promovida pela monarquia, especialmente nas grandes cidades, que fomentou o surgimento da maçonaria negra, propiciada por libertos unidos a grupos abolicionistas quase sempre ligados à maçonaria. E por assim, é um fenômeno tardio e eminentemente urbano. No meio rural, a ausência desses grupos, propiciou que o catolicismo popular se conservasse mais 'puro' do que o das cidades, permanecendo fiel às suas origens portuguesas.

O sincretismo com as religiões indígenas foi inexpressivo. Na Amazônia, as sobrevivências  foram  mais visíveis; mas, ao contrário do que se observa com os cultos africanos, quanto mais se penetrar na floresta, mais numerosos haverem sido os elementos de religiões aborígenes associados ao catolicismo. Trata-se, todavia, de fenômeno localizado em área geográfica limitada e precisa, e não de fenômeno difundido em geral no país. E embora ali estejam as crenças muitas vezes embebidas de elementos indígenas, a organização religiosa, as festas revelarem claramente sua origem portuguesa. A pajelança, culto religioso que une catolicismo e religião indígena, não atingiu nunca alguma importância, com sua difusão sido muito restrita.

O Catolicismo no Sertão brasileiro foi mantido muito mais próximo daquele trazido pelos portugueses nos dois primeiros séculos da colonização, e que evoluiu, por assim dizer, fechado sobre si mesmo. Ora, a maior parte dos elementos religiosos trazidos para o Braʃil eram parte, já em Portugal, da religião popular; pois o campones português, especialmente o nortenho, ao emigrar, trouxe consigo suas crenças. Porém, ao persistir, este catolicismo popular veio a cindir em dois: um catolicismo urbano e um rural. Esta divisão se deu com o correr do tempo; a princípio, formavam uma unidade que era o catolicismo popular simplesmente. Mas, à medida que no Braʃil se disseminou um estilo de vida urbano de tipo ocidental, iniciado com a vinda da Família Real para o Rio de Janeiro, o catolicismo popular urbano se distanciou de seu irmão rural. É esta segunda forma do catolicismo popular que nos deteremos.


3 — A civilização tradicional na sociedade brasileira atual.

A civilização rural que hoje encontramos no interior do país é o prolongamento da antiga civilização brasileira, que teve início com a colonização portuguesa. Homogênea em toda a enorme colônia, no fim do século XVII já se havia consolidado. E no fim do século XVIII, apresentava caracteres próprios e inconfundíveis com os de sua matriz lusitana. No século XVIII, já se havia estabilizado esta verdadeira civilização brasileira, muitos de cujos traços persistem hodiernamente em todo o país.

Durante o período colonial, a civilização brasileira tradicional era uma só, tanto na zona rural quanto nas cidades. Práticas religiosas como a Dança de Gonçalo realizavam-se nas igrejas de Salvador, Recife, Rio de Janeiro, etc.. . A transferência da Família Real portuguesa em 1808, e a modernização urbana decorrente de sua instalação no Rio de Janeiro, impeliu o processo de modernização, progredindo cada vez mais, e aos poucos apagando aquela civilização tradicional das cidades maiores, em seguida das pequenas capitais provincianas, para finalmente remanescer nos vilarejos e povoados. Hoje em dia, encontramo-la em grande parte do Norte, do Nordeste, do Centro-Oeste do País.

Todavia, o processo de modernização nunca se espraiou de forma regular e homogênea no espaço brasileiro. Assim mesmo ao pé da Serra do Mar, no pregueado da Serra da Mantiqueira, a pequena distância da capital paulista, inúmeros grupos de vizinhanças mantiveram-se presos ao estilo de vida e conservaram-lhe o catolicismo tradicional. Desta, destaca-se uma minoria de grandes proprietários perfeitamente adaptados à vida moderna; um conjunto de médios fazendeiros, compondo pequena classe intermediária; uma mão de obra assalariada não muito numerosa. O restante, segundo estimativa superficial seria de 60% do total rural, que constitui a maioria da população rural, composta de camponeses no sentido etnológico da palavra. São eles os grandes conservadores da tradicional civilização brasileira.


4 — Composição do catolicismo tradicional.

Devido ao povoamento disperso do interior do País e à falta de indivíduos convenientemente instruídos do ponto de vista religioso, cuja ação poderia ter tornado mais homogêneos doutrina e ritos, a prática religiosa rural apresentou muita variação em torno dos mesmos temas centrais. Em regiões tão afastadas umas das outras quanto a "zona serrana" do Estado de Santa Catarina, os sertões do Nordeste ou as florestas da Amazônia, são encontrados elementos religiosos semelhantes; sua distribuição, porém, não se faz por igual e muitas vezes não figuram em regiões intermediárias. Isto é, surgem num ponto e em seguida muito mais além, mostrando que sua disseminação foi inteiramente irregular. São, todavia, sempre os mesmos elementos.

Por outro lado, embora semelhantes e mantendo o mesmo esquema básico fundamental, os detalhes são diversos quando se passa de uma região para outra. Poderíamos elaborar uma longa lista destas práticas: as penitências; as orações rústicas; as comemorações do Dia de Reis; as festas de São João; a Semana Santa; sem falar nas danças folclóricas como o Boi-bumbá, — danças que animam festas religiosas e profanas.

Bumba-Meu-Boi em Santa Catarina. Manifestação religiosa
presente em todo Braʃil. Ligado a festa de São Gonçalo.
Com os bois simulando touradas. Que por sua vez remete
a antigos festejos celto-lusitanos.
Os variados tipos de Dança de São Gonçalo ilustram a riqueza a que nos estamos referindo. Trata-se de antigo rito religioso português, com função de agradecer ao santo graças alcançadas. Embora proibida pela Igreja durante o século XVIII em Portugal, persistiu no Braʃil e continua a existir até hoje, mesmo em regiões rurais consideradas modernizadas, como as do Estado de São Paulo, e sem mudar de função. Porém, enquanto no norte da Bahia é realizada por duas fileiras de "dançadeiras" que dançam cantando diante do altar, cada fileira tendo à testa dois músicos; enquanto no interior do Estado de São Paulo uma fileira de mulheres dança de par com uma fileira de homens; no Estado de Goiás somente dançam homens em duas fileiras. A coreografia diferente um pouco também, as evoluções das fileiras dançantes não são as mesmas nas diversas regiões. Todavia, os versos cantados são praticamente os mesmos por toda a parte, a variação é mínima. A ordenação da reunião que acompanha a dança é também diferente conforme o lugar: em São Paulo, a verdadeira festa comportando importante procissão; na Bahia, ao contrário, somente a dança é realizada diante do altar e do público. Este exemplo mostra que as variações são apenas de detalhes, uma vez que o objetivo e a função do rito permanecem idênticos por toda parte: a dança tem por fim agradecer ao santo uma graça alcançada. São práticas religiosas semelhantes a esta que formam o acervo do catolicismo tradicional brasileiro.


5 — Os grupos de base da antiga sociedade tradicional brasileira.

A conformação do catolicismo tradicional brasileiro deve-se, em grande medida, à conjugação de dois fatores essenciais: a influência do catolicismo popular português e a escassez de sacerdotes. Em Portugal, a religiosidade popular estruturava-se, e ainda se estrutura, em torno do culto aos santos, cujos padroeiros, venerados em dias solenes, são motivo de orgulho para aldeias e famílias. Essa tradição transladou-se integralmente para o Brasil, onde o culto aos santos permaneceu como eixo fundamental da religiosidade popular. Entretanto, a plena compreensão desse fenômeno exige a consideração das estruturas sociais que sustentam a vida camponesa no Brasil: a família e o grupo de vizinhança.

Diferentemente do modelo aldeão europeu, o brasileiro raramente habita em povoações, erguendo sua morada nas terras que cultiva, em relativo isolamento. Cada família mantém independência econômica, e um conjunto dessas unidades domésticas forma o grupo de vizinhança, denominado “bairro rural” em certas regiões paulistas, mineiras e paranaenses. O bairro rural, usualmente, tem por núcleo uma capela, evidência da presença de um grupo coeso, ainda que disperso geograficamente. Essa configuração espacial, comum a diversas regiões do país, torna a paisagem aparentemente desabitada, mas pontilhada por pequenas ermidas e algumas habitações ao redor.

A vida nesses grupos alterna períodos de isolamento e de reunião, sendo as festividades religiosas os principais momentos de congregação. À aproximação do dia consagrado ao santo padroeiro, as famílias abandonam momentaneamente suas propriedades e, trajando suas melhores vestes, convergem para a capela do bairro, marco simbólico da unidade social que transcende o núcleo doméstico. A participação comum nos festejos reforça os laços de solidariedade entre os membros do grupo, que, além do vínculo familiar, compartilham um espírito comunitário, manifesto tanto na assistência mútua quanto na organização dos ritos festivos. Assim, a capela do bairro rural torna-se o centro gravitacional da vida social e religiosa, consolidando a identidade coletiva de uma população dispersa.


6 — O festeiro e a organização da festa religiosa.

No Brasil tradicional, as festividades em honra ao padroeiro seguiam um modelo padronizado, no qual a figura central era o festeiro, responsável pela organização e pelo custeio parcial do evento. Escolhido anualmente, geralmente entre os sitiantes mais prósperos, cabia-lhe prover a alimentação dos participantes, bem como angariar donativos para complementar os gastos. Para isso, era comum que percorresse a comunidade solicitando contribuições ou que delegasse tal tarefa a um grupo específico, a Folia.

A Folia, composta por um porta-estandarte que conduzia a bandeira do santo, músicos e um animal de carga, visitava os sítios entoando cânticos e recolhendo oferendas. Sua chegada era anunciada por rojões, atraindo os vizinhos e promovendo reuniões espontâneas em menor escala. A bandeira adentrava os lares, sendo reverenciada com orações e ladainhas, enquanto enfermos lhe tocavam as fitas em busca de curas. Os anfitriões, além de alimentarem os foliões, ofertavam gêneros como aves, suínos ou cereais, acompanhando o grupo até a fronteira de suas terras.

Na semana da festa, todas as famílias do bairro rural se dirigiam para a capela, onde erguiam alojamentos improvisados. A preparação do evento envolvia esforços coletivos: homens abasteciam as fogueiras, enquanto mulheres cozinhavam em grandes tachos para garantir a partilha do alimento. O ápice das celebrações incluía refeições comunitárias, rezas, procissões e, ao cair da noite, leilões de prendas, desafios e danças folclóricas. Em comunidades mais integradas e economicamente estáveis, preservavam-se encenações teatrais tradicionais, como conçadas, cavalhadas, Nau Catarineta e Bumba-meu-Boi. Contudo, a encenação exigia recursos e disponibilidade, sendo inviável em bairros mais pobres ou divididos por conflitos internos.

Os custos da festividade eram cobertos por múltiplos peditórios, como as esmolas das folias, os rendimentos dos leilões e as contribuições oriundas das peças teatrais, garantindo um caráter coletivo ao evento. O festeiro, enquanto organizador e figura central, dirigia as cerimônias e distribuía as tarefas. Embora um sacerdote pudesse ser convidado para oficiar a missa, sua presença era secundária, pois o festeiro permanecia como a autoridade máxima da celebração. Essa autonomia frequentemente gerava atritos entre festeiros e clero, sobretudo quando o padre condenava folguedos como a Dança de São Gonçalo, considerados pelos camponeses como expressões legítimas da fé popular. Assim, a festa do padroeiro não apenas consolidava a religiosidade local, mas reafirmava a coesão social e a autossuficiência dos grupos de vizinhança na organização de suas práticas devocionais.


7 — O culto dos santos.

Casa sertaneja com santos de devoção.
Em casas mais abastadas, havia um quarto
exclusivo para orações. Nas casas-grandes
uma capela era sempre erguida junto a casa,
ou em um ponto mais alto da fazenda.
A festividade religiosa ocupa papel central no universo brasileiro, constituindo-se como a manifestação tradicional de devoção ao santo padroeiro local. A crença popular atribui ao patrono poderes sobre a ordem natural, sendo-lhe creditada a capacidade de punir os fiéis negligentes com secas, pragas e outras adversidades. No entanto, a relação entre o santo e a comunidade não se limita à veneração passiva: seus devotos, percebendo-lhe um caráter humanizado, impõem-lhe também sanções quando julgam sua ação injusta, relegando sua imagem a locais menos prestigiosos, privando-a de oferendas ou até castigando.

A imagem sagrada não é meramente representativa, mas a concretização física da presença do santo, que, ao mesmo tempo, se insere na ordem natural, por sua constituição material, e na ordem sobrenatural, por sua essência divina. Assim, a interação entre fiéis e padroeiro assume um caráter de reciprocidade, em que a oferenda feita ao santo não é desinteressada, mas uma forma de pacto, esperando-se a concessão de graças em contrapartida. Se a reciprocidade for rompida, o devoto se julga no direito de compelir o santo a cumprir sua parte.

Cada bairro possui seu padroeiro, e cada lar, seu santo doméstico, que recebe honrarias através de orações e celebrações privadas. As novenas e ladainhas realizadas no oratório familiar representam novas oportunidades para reuniões comunitárias, reforçando os laços sociais entre parentes e vizinhos. Nessas ocasiões, após o término das atividades do dia, os moradores se reúnem para entoar cânticos e proferir preces diante do altar ornamentado, sob a condução de um sacristão especialmente requisitado para presidir as cerimônias.

fragmento do quadro de Frans Post retratando uma capela junto a casa-grande e um engenho.
Ao lado, Casa-Grande do engenho Monjope com sua capela, em Igaraçu-PE.

8 — O Sacristão.

No contexto do catolicismo tradicional brasileiro, o sacristão configura-se como a figura central na preservação e transmissão dos ritos religiosos e das práticas devocionais populares. Detentor do conhecimento acerca de orações, ladainhas e cerimônias, assume o papel de intermediário entre a comunidade e o sagrado, sendo também denominado “tirador de rezas” ou sacristão. Sua função pode ser desempenhada por mulheres de idade avançada, solteironas ou viúvas, sendo, em muitos casos, um ofício transmitido hereditariamente.

O sacristão exerce uma autoridade inconteste em questões espirituais, sendo consultado sobre fenômenos místicos, vidas de santos e o calendário litúrgico. Detém familiaridade com orações específicas para diferentes momentos da existência, nascimento, batismo, morte, e domina a execução de ritos tradicionais, como a Dança de São Gonçalo e diversas penitências e procissões. Ademais, possui um papel organizador nos festejos populares que mesclam o sagrado e o profano, tais como as cavalhadas, o Bumba-meu-Boi, funcionando, assim, como guardião da memória religiosa do grupo.

A remuneração pelo exercício dessa função varia. Embora alguns sacristões atuem gratuitamente em razão de promessas ou votos, a prática remunerada é comum, sendo os honorários ajustados previamente. Em muitas comunidades rurais, ele organiza ritos voltados ao auxílio das almas do purgatório, cujas manifestações são temidas e requerem a intervenção dos vivos. Tais ritos, como a Dança de São Gonçalo ou a Procissão de Covas, assumem formas variadas conforme a região, mas visam ao “refrigério das almas”, promovendo a pacificação dos mortos e evitando suas represálias sobre os vivos.

A presença do sacristão fomenta o surgimento de associações religiosas e grupos penitenciais, que percorrem as capelas e cruzeiros, entoando rezas e cânticos. As penitências, uma das mais reconhecidas reminiscências célticas no catolicismo europeu e, por desiderato, no brasileiro, são organizadas segundo critérios de idade e gênero. Elas desempenham um duplo papel: fortalecem a coesão comunitária e funcionam como um mecanismo de ordem e controle moral, vedando a participação daqueles que nutrem inimizades. A regularidade desses atos litúrgicos está condicionada ao calendário agrícola, intensificando-se nos períodos de entressafra.

"Entre os mais zelosos, há os que fazem promessas de andar descalços em longas jornadas, outros de carregar pesadas cruzes, e não são poucos os que se impõem jejuns rigorosos e cilícios para expiar suas culpas." - Frei Vicente, 1627. 

"Os mais devotos, nas sextas-feiras e na Semana Santa, tomam disciplinas públicas, açoitando-se diante dos altares, pedindo a misericórdia de Deus pelos pecados seus e dos outros." - Giovanni Antonio Andreoni (Antonil), jesuíta italiano, 1711.

"Saíam às ruas encapuzados, descalços, açoitando-se até que o sangue lhes banhasse as costas, em sinal de contrição e sacrifício." - relato sobre a Irmandades da Boa Morte, de Nossa Senhora dos Passos e dos Flagelantes, Bahia.

No seio do catolicismo popular, o sacristão e o festeiro desempenham funções que, na estrutura oficial da Igreja, caberiam ao sacerdote. O festeiro organiza as festividades, enquanto o sacristão mantém o vínculo direto com o transcendente. Essa organização permite que as comunidades rurais preservem certa autonomia religiosa, alheias à hierarquia eclesiástica formal. Esse distanciamento se manifesta, inclusive, na hierarquização dos sacramentos: apenas o batismo mantém um prestígio inquestionável, enquanto outros ritos, como o matrimônio e a extrema-unção, são frequentemente substituídos por práticas costumeiras.

O batismo, essencial por garantir a salvação da criança em um contexto de alta mortalidade infantil, estrutura a rede de compadrio, elemento fundamental para a coesão social. Esse laço ritual cria vínculos de solidariedade intergeracional, garantindo suporte mútuo entre padrinhos e afilhados ao longo da vida: "Minha comadre, aqui está seu filho que levei pagão e lhe entrego cristão". Dizia-se a mãe ao receber da madrinha de volta nos braços, a criança já batizada.

Além do batismo formal, práticas alternativas de compadrio, como os ritos de São João e da Semana Santa, reforçam os laços comunitários, promovendo a integração e a estabilidade social.

A atuação dos sacristões e festeiros revela, assim, a fusão entre religiosidade e organização social no mundo rural brasileiro, onde o catolicismo se perpetua não apenas pela institucionalidade clerical, mas sobretudo pela ação dessas figuras, que asseguram a continuidade das tradições e valores comunitários.

10 — Função dos ritos do catolicismo tradicional brasileiro.

Os ritos do catolicismo popular preservados no meio rural brasileiro desempenham um papel fundamental na consolidação dos laços comunitários. As festividades religiosas reforçam a coesão entre os vizinhos, enquanto as novenas familiares fortalecem os vínculos entre as famílias e os diversos ritos do compadrio promovem a solidariedade entre os indivíduos. A permanência desses ritos, em detrimento de outros, decorre da notável instabilidade do povoamento rural no Braʃil. O caboclo raramente se fixa de modo permanente em uma localidade, pois seus pequenos estabelecimentos agrícolas são precários e a vastidão do território disponível favorece sua mobilidade.

As práticas agrícolas tradicionais, como a coivara e o cultivo itinerante, acentuam essa tendência ao deslocamento. O caboclo cultiva a terra até que esta se esgote, deslocando-se então para novas áreas, onde repete o ciclo de derrubada e plantio. Suas moradias rústicas, feitas de pau-a-pique e cobertas de folhas de pindoba, são facilmente erguidas e abandonadas. Essa mobilidade se estende ao grupo de vizinhança, que, ao mudar-se, transfere também sua capela para um novo local, deixando a antiga sucumbir ao tempo e à vegetação.

Diferente das tradicionais famílias, estanques, em sua endogamia, que permeiam por gerações a mesma localidade. Nas classes baixas a vizinhança raramente é composta por descendentes de um mesmo tronco familiar, ao contrário, um conjunto de famílias conjugais sem laços de parentesco próximo. A mobilidade é regra entre seus membros, e os recém-casados frequentemente partem em busca de melhores condições de vida, integrando-se a novos bairros rurais. Esses núcleos são abertos à chegada de novos integrantes, desde que estes participem ativamente da vida coletiva. Nesse contexto, as festividades religiosas e o compadrio desempenham um papel essencial na integração social, sendo a contribuição para a Folia o primeiro passo para a aceitação na comunidade, processo que se consolida com o estabelecimento de laços de compadrio com famílias locais.


11 — Fatores que dão ao catolicismo tradicional sua fisionomia.

A configuração do catolicismo tradicional no Braʃil foi moldada por fatores estruturais que marcaram a organização social da população rural. A dispersão demográfica em um território vasto, a mobilidade imposta por uma agricultura predatória e a fluidez das comunidades de vizinhança determinaram a forma assumida pela religiosidade popular. Esses fatores, somados à escassez de clérigos e à herança do catolicismo popular português, fizeram com que a população rural selecionasse os ritos e associações religiosas mais adequados às suas necessidades. Assim, práticas como a festa, a novena e o batismo foram preservadas, bem como os grupos de dançadeiras de São Gonçalo e os penitentes, todos voltados ao fortalecimento dos laços sociais e familiares.

No interior desse universo religioso, estruturou-se uma hierarquia peculiar, representada pelo festeiro e pelo sacristão. O primeiro assume a organização das cerimônias coletivas, enquanto o segundo mantém a mediação entre as famílias e o sobrenatural. A religião, nesse contexto, assume primariamente uma função social, e não estritamente espiritual ou moral. Os valores religiosos não são buscados por si mesmos, mas sim como instrumentos para a coesão da comunidade. A melhoria individual se justifica na medida em que contribui para a harmonia social, e não como um fim em si.

Além de seu caráter social, o catolicismo tradicional brasileiro distingue-se por sua natureza utilitária. O culto dos santos, as festas e as novenas operam dentro de uma lógica de troca simbólica (do ut des), na qual os fiéis oferecem devoção e sacrifícios em busca de benefícios concretos. Essa relação pode levar tanto à cólera do santo contra seus devotos quanto ao descontentamento dos fiéis com o santo, resultando em represálias de ambas as partes.

Apesar das variações regionais, os elementos fundamentais dessa religiosidade são homogêneos em todo o território nacional. A estrutura básica é composta por ritos, crenças e um sistema hierárquico mínimo, no qual o festeiro e o sacristão figuram como agentes do culto. Essa simplicidade permite grande flexibilidade, abrindo espaço para inovações espontâneas dentro de um esquema religioso rudimentar e fluido.

O catolicismo tradicional e o bairro rural tradicional refletem-se mutuamente, compartilhando uma mesma lógica de organização precária e adaptável. Contudo, essa configuração é condicionada à manutenção de um modo de vida seminômade e economicamente sustentável. Onde ocorre a fixação definitiva da população e o declínio da prosperidade dos sitiantes, observa-se o empobrecimento da religião. Festividades antes elaboradas tornam-se progressivamente mais modestas, as Folias reduzem seus percursos e as procissões perdem seu apelo comunitário. Com o enfraquecimento da religiosidade popular, desestrutura-se também o bairro rural, cujas famílias passam a coexistir de maneira mais fragmentada e menos solidária.

Assim, o catolicismo tradicional e o bairro rural não apenas surgiram em resposta às mesmas condições, mas também compartilham um destino comum. A decadência de um implica necessariamente a dissolução do outro, pois ambos são elementos interdependentes na estrutura da sociedade rural brasileira.


12 — Conclusão.

O catolicismo tradicional brasileiro, vinculado à estrutura social do bairro rural tradicional, encontra-se sob ameaça em virtude das transformações no mundo rural. O avanço das vias de comunicação, a reorganização fundiária que favorece médias e grandes propriedades e a urbanização crescente tendem a extinguir essa forma específica de religiosidade, substituindo-a por novas configurações religiosas mais institucionalizadas. Além disso, a disseminação do protestantismo e do espiritismo acelera esse processo de dissolução das práticas rústicas.

Embora esse catolicismo tenha resistido ao longo do tempo, ele se apresenta como uma sobrevivência do passado, sem perspectivas claras de adaptação ao futuro. A transformação em curso, porém, não ocorre de forma abrupta, e parte significativa da população rural experimenta uma mudança sutil em sua vivência religiosa, muitas vezes imperceptível sem uma análise mais profunda.

Esse fenômeno provoca repercussões sociais e psicológicas, ainda pouco estudadas, sobretudo pela gradual destruição da configuração social do bairro rural. Paralelamente, observa-se um crescimento do cristianismo institucionalizado, mais alinhado às normas eclesiásticas, que se expande à medida que a sociedade brasileira se urbaniza e moderniza. Diferentemente do que postulam os modelos clássicos de secularização, no Brasil esse processo não resulta na redução da religiosidade, mas no fortalecimento das religiões oficiais em detrimento das manifestações tradicionais. A urbanização, assim, intensifica a polarização entre a religiosidade estruturada das cidades e a fluidez característica da religião popular do campo, acelerando a decadência da civilização tradicional.


O Castilhista


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quinta-feira, 20 de julho de 2023

A Presença Normando-Bretã (francesa) na Formação do Braʃil


No conceito comum, resultante do ensino corrente, os franceses fizeram duas investidas sobre a colônia de Portugal: no Rio de Janeiro e no Maranhão... Ora, a realidade é bem mais estendida. Descoberto o Braʃil, e abandonado pelos seus descobridores, logo, o procuraram os franceses. Acomodaram-se com o gentio, e começaram a explorar o comércio do pau-brasil e outros artigos de escambo.

Praticamente, antecederam aos portugueses, e, até o meio do século XVI, foram mais senhores, e mais usufruíram da terra, que os portugueses, principalmente porque não tiveram que lutar contra o gentio, antes se amparavam nele. Se o gentio do Braʃil tanto se opôs aos portugueses, foi porque estava sob a influência dos franceses. Varnhagen, com toda a razão, considera que o Braʃil era dos franceses, por efeito das muitas naus que por aqui andavam, e que, a estes é que teve de ser conquistado.

A presença do gaulês foi o maior perigo no primeiro século da colônia. A sua grande força vinha da amizade e da assistência do indígena, e o português, empenhado em desalojá-lo, tiveram que levantar os maiores exércitos vistos até então nas Américas. E cedo compreendeu, que precisava granjear a amizade das tribos, e apoiar-se nelas, faziam-se referências oficiais a essa competência de aliança e de boas relações com o gentio. E, assim, o francês obrigou, indiretamente, o Governo Português a uma política humana para com os naturais.

É na defesa da terra contra os franceses que se forja a nacionalidade brasileira. Foi uma luta que acompanhou toda a iniciação na nova pátria, e se, nos primeiros tempos, ela se faz no valor do colono, desde logo surge, entre os defensores, a energia patriótica dos brasileiros, e que é o mesmo valor dos colonos, renovado em tons de mocidade. Então, à medida que os novos ânimos se afirmam, transfere-se a defesa da terra para os seus, e nos últimos feitos decisivos, já são nomes brasileiros os dos capitães vitoriosos.

Editorial 


No tempo em que o território brasileiro ainda hesitava entre os três nomes de Vera Cruz, Santa Cruz e Braʃil, eram principalmente os comerciantes normando-bretões que usavam este último. O nome não se tornou definitivo até o final do século XVI. Este nome gaélico, adotado a partir da homologia entre um produto comercial de grande valor e o espaço onde se situava, indica claramente a aposta que esta terra representava para a França do início do século XVI. Quando o então rei da França, Francisco I, ironicamente, pede a cláusula do Testamento de Adão que excluía a França da partição do novo mundo, incentivando assim os comerciantes franceses virem colher riquezas desta terra: madeira, mas também algodão, papagaios e macacos (animais muito valorizados na Europa ).

Principais portos de origem dos navios franceses para
o Brasil. Rouen era um porto fluvial. 
Os navios franceses partiam especialmente da região da Normandia, antigo assentamento viking, aonde florescia uma indústria têxtil e mobiliária, que demandavam tanto a madeira quanto o pigmento vermelho extraído do pau-brasil. Roupas vermelhas, eram altamente valorizadas à época na Europa. Da Bretanha francesa, ainda hoje um persistente reduto celta, também afluíram muitos, ante sua posição na rota de passagem e tradição portuária. 

Os franceses começam a frequentar o litoral brasileiro, em 1503, pelo capitão normando Binot Paulmier de Gonneville, que aportou em algum ponto do litoral brasileiro (baía de Todos os Santos?). Gonneville partiu com seu navio L'Espoir, do porto de Honfleur, na França, em junho de 1503, com destino ao Braʃil, acompanhado de dois navegadores portugueses, secretamente contratados. Aqui, se depararam com índios carijós, ergueram uma grande cruz de madeira, em uma colina, e passados 6 meses, retornaram para França, levando a bordo um filho do chefe da tribo, batizado como Essomeric. Essomeric educou-se na França e nunca retornou. Casou-se com uma das filhas de Gonneville, herdou seus bens, e teve 14 filhos com ela na França, aonde também foi elevado com título de Barão de Binot. O primeiro, de muitos índios brasileiros, que irão para a França. 

O modus operandi dos franceses, consistia em introduzir um ou mais franceses em uma tribo, a fim de coordenar as atividades de tráfico, davam aos seus chefes utensílios trazidos da Europa e recebiam em troca o trabalho necessário para derrubar e transportar madeiras a bordo dos navios. Esse sistema foi tão comumente usado que encontramos na famosa casa da Ilha Brasil, em Rouen, vários painéis de madeira esculpidos, que datam dos anos 1500-1514, representando o tráfego de madeira do Braʃil. 


As repetidas incursões normando-bretãs, levarão Portugal a uma redefinição da sua política face ao Braʃil. Alarmado com a atividade francesa, Dom João III ao mesmo tempo em que transmitia suas queixas ao rei da França, organizou uma expedição armada sob o comando de Christovam Jacques (1516). Bem como, a emitir um edito ordenando que todos os seus súditos, sob pena de morte, afundassem navios franceses que encontrassem na costa do Braʃil. Oportunidade em que faz erguer na margem direita da foz do rio Igaraçu, a primeira feitoria portuguesa em Pernambuco. 

Em 1525, as saídas do porto de Honfleur com o destino ao Braʃil, eram tão frequentes que os comerciantes decidiram criar uma empresa para o comércio de madeira brasileira. Entre 1526 e 1531, pelo menos vinte navios normandos, ou bretões, foram enviados ao Braʃil, e não se leva em conta os navios que poderiam ter deixado os portos de La Rochelle, Bordeaux ou Marselha. 

Os resultados indefinidos da primeira missão de Christovam Jacques, levam o rei, a enviar uma nova esquadra (1526), ainda sob comando de Jacques, com a missão de combater os franceses e iniciar o povoamento da colônia. Aportando na feitoria de Pernambuco, em Maio de 1527, foi informado, pelo náufrago espanhol D. Rodrigo de Acuña (da expedição de Jofre de Loyassa às Molucas, em 1525), da presença de quatro navios franceses carregando pau-brasil na baía de Todos os Santos. Cristóvão Jaques surpreendeu-os em fins de Junho, matando e aprisionando centenas de franceses. 

Catharina (Paraguaçu), Rainha do Braʃil!

Catedral de Saint Malo, aonde a matriarca dos
brasileiros, Catharina (Paraguaçu) foi batizada.
A apreensão dos três navios bretões (o quarto era do próprio capitão português Cristóvão Jaques, que havia sido roubado), geram uma querela, em que bretões de Saint-Pol de Leon, reivindicam terem descoberto uma parte do Braʃil: " [....] mercadores de vossa terra e ducado de Bretanha, vossos muito humildes servidores e sujeitos, como os ditos supricantes que são mercadores frequentando os mares e muitas diversas terras e entre outras as terras do Braʃil que são muito grandes, as quaes os bretões descubriram e per alguns lugares e os portugueses per outros lugares.". Oque motivou a articulação do navegador bretão Jacques Cartier, junto a Diogo Alvares e Catharina Paraguaçu de seguirem para França, em 1527, aonde foi batizada na Catedral de Saint Malo, na Bretanha, em 30 de julho de 1528, como Katherine du Brézil, o primeiro registro de batismo de uma brasileira, e casou com Diogo Alvares Correia. E assim, foram reconhecidos, pelo próprio rei da França, como soberanos do Braʃil. Lá permaneceram três anos, quando então, retornaram para o Braʃil.

Diogo Álvares Correia "O Caramuru", embora, comumente tratado como náufrago, a verdade, é que sua presença na Bahia é obscura. Diogo Alvares, praticava um ativo escambo com mercadores franceses. Assim, é provável, que tenha vindo com os franceses, e como costumasmente faziam, ficado entre os índios gerenciando a colheita de pau-brasil. As referências a ele, anteriores ao seu casamento com Catharina, indicam que ao seu tempo, ela ainda era um bebê, havendo filhos com outras mulheres indígenas antes, como, principalmente, seria Catharina (Paraguaçu), não propriamente índia, mas, mameluca, fruto das relações normando-tupinambás. Como expressamente menciona padre Anchieta:
"Eram os franceses recebidos com grande alegria pelos Tupinambás, e com tanta familiaridade, que os admitiam a seus segredos, e lhes davam suas filhas por mulheres, como a um dos seus. E assim muitos franceses se casaram com as filhas dos principais, dos quais ainda hoje vivem alguns, e entre eles uma mulher, que já foi moça e formosa, chamada Catarina, filha de um principal chamado Paraguaçu, e de uma francesa, a qual, depois de viúva, se casou com Diogo Álvares, cristão velho, e homem principal na capitania da Bahia." -  padre José de Anchieta.
A esse tempo, os mamelucos franco-brasileiros, já eram numerosos. Daí, a conveniência de sua ida a França, na condição de franco-brasileira, tanto preenchendo o desejo de conhecer sua terra ancestral, como sendo filha de cristão, ser batizada, e assim, casando com Diogo, que por certo não se prestaria a casar com uma "índia" qualquer, mas sim, com uma "branca", como era a preferência dos portugueses, e lá proclamado "Rei do Braʃil". Estratagema dos franceses de se legitimar na terra (alguma semelhança com oque ocorre atualmente... ?). 😌

Catharina era descrita como uma mulher 
de pele clara, olhos castanhos, cabelos
longos negros, de rosto bonito, agradável
e corpo esbelto. 
Em 1530, o rei enviou Martim Afonso de Souza, juntamente com seu irmão Pero Lopes de Sousa, para reorganizar o sistema administrativo colonial vigente no Brasil, abandonando o sistema de feitorias em favor do sistema de capitania hereditária. Logo na sua chegada, na altura do cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, se depara com duas naus francesas, as captura, a tripulação de uma delas foge pra terra. No dia seguinte, avista uma terceira, e após combate que dura toda uma noite, a captura, dando conta de 6 feridos franceses. A expedição, após reerguer a feitoria de Igaraçu, destruída pelos franceses, a guarnece com 13 homens, despacha uma das naus para Portugal com 30 prisioneiros franceses, outra para o Maranhão (foz do Amazonas), e segue para baía de Todos os Santos, e de lá para o Prata. 

Na sua estada na baía de Todos os Santos, Pero Lopes de Souza se surpreende com a população que lá encontra: “A gente desta terra he toda alva; os homês mui bem dispostos, e as molheres mui fermosas, que nam ham nenhúa inveja às da Rua Nova de Lixboa”. A surpresa de Pero Lopes de Sousa, se explica pela relação entre normandos e tupis, que antecederam, em 30 anos, a colonização portuguesa no Braʃil e que se prolongará ao longo de todo o primeiro século de formação do Braʃil, na guerra de expulsão dos franceses. Assim, é que os primeiros colonos portugueses a virem para o Braʃil, se ligarão a essas mulheres fruto dessas relações normando-bretã-tupinambás. É nessa ocasião, que se depara, com o náufrago português Diogo Alvares Correia, o Caramuru, vivendo entre os índios e já com descendência em seu meio. 

A expedição de Martim Afonso de Souza, junto com seu irmão Pero Lopes de Souza, seguem seu curso, e  chegando na baía de Guanabara em 30 de abril de 1531, lá passam três meses. Lá, repete a observação sobre os habitantes do lugar: "A gente deste rio (baía da Guanabara) he como a da baia de todolos Santos; senan quanto he mais gentil gente.".  A baía da Guanabara, a esse tempo, já era bastante conhecida e frequentada por normandos.


Pernambuco, 1530 - A Primeira Tentativa Formal Francesa de se Estabelecer no Braʃil:

Os franceses, em retaliação a ação de Cristóvão Jáques, ocorrido três anos antes na baía de Todos os Santos (1527), bombardearam a feitoria portuguesa no rio Igaraçu (Pernambuco) com a nau "La Pelèrine" (Março de 1531), que zarpara do porto de Marselha para a costa do Braʃil em dezembro de 1530, sob o comando do capitão Jean Du Péret. Transportava 120 homens, 18 canhões, munição e material de construção, em missão "militar, comercial, agrícola e feitorial". Destruída a feitoria de Igaraçu, entre março e maio de 1531, erguem um forte na ile Saint Alexis (ilha de Santo Aleixo), deixando-a guarnecida por 70 homens. Pero Lopes de Souza, voltando de sua expedição no Prata, e zarpando de São Vicente, se defronta com o forte gaulês, bombardeia durante 18 dias forçando a rendição do capitão De la Motte, o enforca com outros 20 franceses, faz 40 prisioneiros e os enviam para Portugal. Essa foi a primeira tentativa francesa, formal, de estabelecimento permanente no Braʃil. 

Ainda em 1548, Luís de Góis advertia Dom João III: "se com tempo e brevidade Vossa Alteza não socorre a estas capitanias e costa do Braʃil, que ainda que nós percamos as vidas e fazendas, Vossa Alteza perderá a terra".

Essa intensa atividade marítima é acompanhada de inúmeros atos de pirataria, tanto em águas brasileiras, quanto nos pontos de passagem obrigatórios das rotas de retorno (Açores, Mar da Irlanda...). É por isso que, num espírito de apaziguamento, os soberanos franceses e portugueses, após a assinatura em Lyon de um tratado de amizade (14 de julho de 1536), convocaram um Tribunal des Prises em Bayonne em 1537, destinado à resolução de conflitos entre armadores franceses e portugueses. Este Tribunal, no entanto, não trouxe nenhum acordo, exceto que Francisco I se comprometeu a proibir seus súditos de comercializar no Braʃil. Mas a partir de 1540 a retomada dos armamentos é considerável: nove navios de Rouen estão armados para o Braʃil; quinze navios Dieppe e navios da Bretanha estão equipados para o mesmo destino. Em 1541, trinta a quarenta navios partiram para a América do Sul, e especialmente para o Braʃil. Em 1546, uma frota de vinte e oito navios partiu de Le Havre para o Braʃil: a bordo de um dos navios um aventureiro alemão: Hans Staden. Em 1548, o agente português Manuel de Araújo informou ao Secretário de Estado que um navio de 55 toneladas sairia de La Rochelle para o Braʃil: "alguns me dixeram que ia a roubar... eu soube certo que levava ferramenta e espadas e alguns espelhos". Em 1549, seis navios deixaram a cidade de Rouen sozinhos, alguns deles de grande tonelagem (Le Cable, 200 toneladas). Durante este primeiro século XVI, "o elemento da permanência francesa no Braʃil (...) era composto por marinheiros: enraizados por alguns anos ou por toda a vida em uma tribo (...), serviam de intermediários para seus compatriotas que passavam ou retornavam de um ano para o outro".


Festa Brasileira em Rouen!

As regiões costeiras francesas, preocupadas com a proibição do comércio com o Braʃil, organizaram em 1550 um "festival brasileiro" em Rouen, por ocasião da visita do rei Henrique II, Catarina de Médici e da corte. Os burgueses de Rouen queriam convencer o seu novo monarca, a voltar atrás na sua proibição de 20 de outubro de 1547, que proibia seus súbditos de "irem para as navegações do Rei de Portugal, como para nenhuma terra descoberta pelos portugueses". Eles apresentaram uma apresentação com 300 índios, incluindo "cinquenta selvagens naturez freschement trazidos do país" e os outros representados por marinheiros franceses. Montaram uma decoração ao ar livre representando a floresta brasileira, com frutas, pássaros e macacos. Várias cenas típicas do Novo Mundo são apresentadas, incluindo o corte e transporte de madeira brasileira, as danças e jogos dos índios, as lutas entre tribos.

O espetáculo foi tão apreciado pela corte que teve que ser repetido. Essa performance só foi possível graças a um intercambio anterior entre França e Braʃil. Os navios, centenas de marinheiros, e dezenas de nativos, atestam a antiguidade das ligações entre a costa atlântica francesa, Normandia e Bretanha, principalmente, e a costa brasileira. Também testemunham o entusiasmo desenvolvido, graças às iniciativas dos comerciantes, graças à política real, revelado pelas obras de poetas como Ronsard, pensadores como Montaigne. Henrique II compreendeu o interesse que o Braʃil poderia representar na política marítima francesa e enviou Guillaume Le Testu para reconhecer sistematicamente a costa e mapeá-la. Sua Cosmografia Universal foi publicada em 1556.

France Antarctique, A Segunda Tentativa Francesa de se Estabelecer no Braʃil:

É assim, que, Henrique II, iniciou uma nova política marítima no Atlântico Sul, com o objetivo de estabelecer um assentamento francês permanente na costa brasileira. William Le Testu foi enviado ao litoral brasileiro em 1551 para elaborar essa nova política. O almirante Coligny foi encarregado pelo rei de fundar uma “França Antártica” na Baía de Guanabara em 1555. Nicolas Durand de Villegaignon, nascido em Provins em 1510, cavalheiro e soldado, cavaleiro de Malta e vice-almirante da Bretanha, foi um dos líderes da expedição. A operação foi originalmente destinada a organizar uma base colonial francesa. Motivos religiosos, não faziam parte do plano original. Coligny não se envolveu na Reforma antes de 1557. Somente após a célebre noite de São Bartolomeu, se previu a colônia como refugio para protestantes. Oque levará ao seu fim!

Nicolas Durand de Villegaignon
De modo que, em 10 de novembro de 1555, Villegaignon, trazendo consigo 600 homens, recrutados, em sua maioria, nas prisões de Paris e Rouen, aporta na baía da Guanabara, à vista do pão de açúcar que os normandos chamavam de Pot de Beurre. Villegaignon estabeleceu-se em uma ilha no centro da baía, que os índios chamavam de Seregipe, e que, atualmente, leva seu nome: Villegaignon. Esta posição tinha a vantagem de controlar o acesso à baía e colocar potenciais inimigos da terra a uma distância segura. Nesta pequena rocha é construído o forte Coligny. Villegaignon proibiu contatos sexuais entre colonos e indígenas. E ao forçar um colono normando, que se recusou, se casar com uma índia, com quem vivia, fomentou a primeira distensão na incipiente colônia francesa, com muitos descontentes, se refugiando no continente aonde uma aldeia foi criada.

O repetido assédio dos índios, e os sucessivos abandonos, levarão Villegaignon a pedir novos reforços ao rei, assim como a seu ex-colega da Universidade de Orleans: Calvino, informando-o da oportunidade de criar no Braʃil uma terra de liberdade religiosa. Ele enviou seu sobrinho 's-Herto-Comte e André Thévet para a França para buscar reforços. Desejando o envio de vários milhares de homens, soldados e navios, mas obteve do rei Henrique II apenas três navios e 300 pessoas, enquanto Calvino não conseguiu reunir mais de 14 genebrinos, incluindo um jovem de 22 anos, Jean de Léry, com algumas mulheres (seis no total) e artesãos. Mas logo surgirão conflitos entre Villegaignon, católico, e os recém-chegados, sobre a presença real de Cristo na Eucaristia (Princípio Católico da Transubstanciação). Os calvinistas decidem não participar mais das tarefas, o que resulta serem privados de comida. Depois de algumas semanas, abandonam o forte para encontrar refúgio no continente. Um desses calvinistas, Jean Cointat, se refugiou em São Vicente, onde pregou suas heresias. Foi então que os jesuítas portugueses acorreram para o local, com padre Anchieta explicando que era necessário evitar que Cointat "vomitasse de seu estômago seus erros fétidos". Cointat foi preso, levado para a Bahia, antes de ser transferido novamente para o Rio em 1567, onde foi enforcado. Entre esses calvinistas em fuga, cinco deles, depois de terem renunciado a um arriscado retorno à Europa, retornaram a Villegaignon em janeiro de 1558, que os mandou jogar em ferros, comprometendo-se a trazê-los de volta à força à fé romana, e executou, afogando, três recalcitrantes.

Em fins de 1558, Villegaignon confiou o comando do Forte Coligny a seu sobrinho Bois-le-Comte e retornou a Paris em busca de novos reforços, desta vez defendendo sua causa aos católicos. Mas os acontecimentos políticos na França (o acidente de Henrique II em julho de 1559, a conspiração de Amboise, a morte de Francisco II (1559-60), a ascensão ao trono do jovem Carlos IX (1560-74) e a luta pela consolidação da regência da rainha-mãe Catarina de Médici), relegaram a segundo plano as preocupações sobre a colonização da América. E do outro lado do Atlântico, 's-Herto-Comte rendeu-se a 15 de Março de 1560, enfrentando as forças portuguesas comandadas pelo governador Mem de Sá. O forte foi arrasado, o que pôs fim à colonização oficial dos franceses nesta parte do Braʃil. Mas a iniciativa privada continuará lá por muito tempo. 

Malogrado a 2ª tentativa formal dos franceses de se estabelecerem no Braʃil, o tráfico de pau-brasil, não para de aumentar na segunda metade do século XVI, mesmo após a União Ibérica (1580). Assim, desde o fracasso de Villegaignon até a morte de Henrique IV, ao longo de quase meio século, pelo menos quinhentos navios normandos mantiveram e desenvolveram as ligações do tradicional tráfego francês com o Braʃil. Mas desta vez os comerciantes franceses favoreceram a região norte, sabendo que os navios que tentaram uma incursão entre São Vicente e Cabo Frio, foram agora sistematicamente queimados pelos portugueses, e as tripulações resgatadas tiveram que se refugiar nas florestas. 

Note-se, apenas, estas duas circunstâncias: no tempo enviavam os franceses mais navios ao Rio de Janeiro, do que os portugueses a todo o Braʃil. Vindo Villegaignon, o célebre almirante chega a um país que era dos seus. Mesmo sem aceitar as pretensões francesas – de que os flibusteiros da Normandia frequentavam a baía de Guanabara, “por vários anos até agora” (antes de 1503), é inegável que esses aventureiros faziam comércio de longa data com o gentio Tamoio-Tupinambá, e conheciam a costa melhor do que os portugueses. Tinham representantes junto das tribos, e que eram os diretores dos trabalhos, do respectivo tráfico. 

Em 1565, um navio francês com 110 homens é relatada na baía de Guanabara: "a região de Cabo Frio é um entrincheiramento sólido; o último reduto francês caiu em 1567 e os sobreviventes, em quatro navios, tentaram se estabelecer na região de Olinda quando foram repelidos por Jorge de Albuquerque, sem maior dano, e confessam a derrota, explicitamente, no reconhecer que a causa lhes ia de mal en pis... 

Em 1569, ainda eles enviavam regularmente as suas naus a Cabo Frio. O célebre combate de São Lourenço, em que a tática de Arariboia conseguiu bater tamoios e franceses, foi provocado por estes – para castigar o chefe temiminó. Uns e outros vieram afrontar os portugueses do Rio de Janeiro, tão fortes se sentiam, ainda. Conta Frei Vicente que os franceses apresentaram-se em 1587, ainda eles animavam os seus fiéis aliados. Quatro anos depois, a propósito de auxiliar as pretensões de Prior do Crato a coroa portuguesa, apresentavam-se navios franceses no Rio de Janeiro, e ainda houve mister a ação de Cristóvão de Barros, contra os restos do gentio, amigo dos mesmos franceses.

A Intensificação do Tráfico de Pau-Brasil ao Norte: 

É na região entre o Cabo de São Agostinho (PE) e de São Roque (RN) que navios franceses ancoram todos os dias em diferentes pontos da costa, onde a presença portuguesa ainda não é afirmada. Em 1581, os franceses construíram um forte na Paraíba, antes de serem derrotados e terem cinco de seus navios queimados. No mesmo ano, quinhentos homens, certamente huguenotes, partiram de La Rochelle, para o Braʃil. 

A década de 1580 foi marcada por um forte tráfico francês nesta região, como evidenciado pelas inúmeras denúncias de mercadores e armadores que foram vítimas de violência por parte dos "espanhóis" (Portugal já se encontrava sob a União Ibérica): em 1582, 18 navios de Rouen foram queimados ao longo da costa brasileira, no ano seguinte, sete outros, ainda de Rouen. Em 1586, sete navios franceses foram relatados chegando à Bahia. Em 1594, dois navios de Dieppe e um de La Rochelle cruzaram Pernambuco. A guerra declarada por Henrique IV contra a Espanha em 17 de janeiro de 1595 dará uma nova intensidade a essas atividades. Em 29 de abril de 1595 cinco navios franceses vêm em auxílio do pirata inglês, Lancaster sitiado pelos portugueses em Pernambuco que ele havia assaltado.

Os Franceses na Paraíba, As Maiores Batalhas Travadas Contra os Franceses no Braʃil:

Ao Norte, na Paraíba, franceses, aliados aos Potiguaras, nas boas graças dos Tabajaras: “Todos os anos, chegavam ali vinte, trinta navios franceses. Partiam; mas em terra ficavam sempre muitos homens para dirigir os trabalhos da colheita do pau-brasil e dos produtos do comércio, assim como para adestrar os corpos de índios... ficavam com eles em boa harmonia, penetravam o interior das terras, sem receios de serem surpreendidos e devorados.”. Mantiveram os franceses feitorias, donde faziam partir formidáveis ataques contra os colonos de Pernambuco, e a resistência desses colonos, através de repetidos revezes, por dezenas de anos, é o maior demonstrativo da invencível pertinácia dos portugueses, assim como da inferioridade dos franceses em confronto, ali, com a gente dos donatários. O fato impressionou à própria retórica de Rocha Pitta, que diz, dos de Pernambuco: “... teve de arrancar a terra, às polegadas, aos franceses, à testa de valente gentio”. Finalmente, a luta se situou nitidamente nas margens do Paraíba.

A longa guerra , em verdadeiros transes aí travada, teve como motivo principal a superioridade de número e de situação, a eficácia da tática do gentio aperfeiçoada pela direção dos franceses. O exército enviado de Pernambuco, para ali, foi o maior que, até então, se levantara no Braʃil. E foi derrotado. Por isso mesmo, a vitória só veio para os portugueses quando estes, na sua repetida política aqui, procuraram dividir o gentio e achar apoio num dos seus bandos. Martim Leão, conseguindo desligar o tabajara Piragibe, dos franceses e potiguaras, conseguiu, finalmente, vencê-los, em 1585. Mas, era tão sólida e permanente a situação dos franceses, que, batidos, abandonando o gentio, recolheram-se à sua feitoria da Baía da Traição, onde a pertinácia do português os foi afrontar. Escarmentado, o gaulês não quis esperar... No entanto, não eram os franceses fáceis em desanimar. 

Celebrada as pazes com o gentio, o Padre Pires escrevendo dali, de Pernambuco, em 1556, se refere: “se fizeram muitos casamentos com mulheres da terra”. Os portugueses casavam mesmo com mulheres de tribos inimigas, como o fizeram com muitas das potiguaras aprisionadas na Paraíba, e daí resultou que uma delas, mulher de um soldado português, salvou o exército no Rio Grande do Norte, indispondo os seus parentes, aliados do francês Rifaut, e trazendo-os à aliança dos colonos.

A celeridade do casamento entre colonos portugueses e "índias" de tribos inimigas desses, em detrimento as índias de tribos já aliadas, revela, mais uma vez, nas entrelinhas, que essas "índias", mais cobiçadas, deveriam ser mamelucas franco-brasileiras. Na ausência de mulheres brancas, preferiam os portugueses casarem com mamelucas, a índias propriamente.   

Toda essa persistência na Paraíba se fez depois da esmagadora derrota no Rio de Janeiro, e do insucesso no Recife. E eles insistiam na Paraíba, ao mesmo tempo que procuravam firmar-se no Rio Real, sempre amparados nos Tupinambás. 

A Expulsão dos Franceses de Sergipe

Aquela mesma gente batida no Rio de Janeiro, batida no Recife, apesar da dura experiência, ainda não desistiu, e, em parte, voltou para as paragens do Rio Real (Sergipe), onde, desde sempre, franceses comerciavam com o gentio. Então, tornou-se mais intenso o movimento, mais formais e cordiais as relações. Sergipe, ostensivamente abandonado até 1575, era a zona de concentração de todas as tribos malquistas com os portugueses de Pernambuco e da Bahia, e os franceses exploraram, com a sua muita habilidade, a animosidade daquele gentio. Nesse estímulo, os índios se tornaram tão ameaçadores, que provocaram a intervenção do tempo de Luiz de Brito, e que foi um desastre para as duas partes. No entanto, as perdas sofridas pelas tribos de Sergipe não chegaram a diminuir-lhes o valor: continuaram fortes e temidos, e os franceses continuaram com eles. Havia estabelecimentos permanentes, com todas as suas consequências, alianças de sangue com as gentes das aldeias, cruzamentos... A luta para conquistar definitivamente aquele pedaço de Braʃil não teve o seguimento nem a intensidade da Paraíba, mas foi além, no tempo. E era tão sólida a posição dos franceses no Rio Real, que eles pensaram em dar, com aquele gentio, o grande golpe no poder português: atacar e tomar a Bahia.

Foi, pela denúncia do plano, que o governo da metrópole resolveu liquidar o caso, incumbindo da empresa a Cristóvão de Barros. A campanha se fez quase que num só ato, sem que a derrota do cacique Boipeba afastasse definitivamente os franceses: em 1596, ainda há um Honoré, prático da barra do Vasa-Barris, em cujas tribos vive normalmente. Em 1593, reforçadas com contingentes que chegam, os franceses oferecem combate aos portugueses, nas águas do Rio Real, e são batidos por Tomé da Rocha. E ainda não é definitiva a eliminação, pois que, em 1595, recomeça a luta, em maiores perigos: uma esquadra poderosa, destinada a atacar a Bahia, destaca parte dos navios para reforçar um estabelecimento no Rio Real, onde a expedição do célebre Pão de Milho chegou a descer para ser, finalmente, batido por Diogo Quadros, num desenvolvimento de lutas que só terminam em 1596. Resta, ainda, alguma coisa; e só no primeiro ano do século XVII são definitivamente eliminados, de Sergipe, os renitentes adversários.

A Conquista do Rio Grande do Norte:

Conquistada a Parahyba, tantos anos agitados e tão desesperada resistência, patentearam a urgência de ocupar o Rio Grande onde os franceses perenemente se refaziam apoiados nos potiguaras com quem comerciavam. Dali, saíam também a roubar os navios que iam e vinham de Portugal, tomando-lhes não só as fazendas, mas, as pessoas, e vendendo-as aos gentios para que as comessem. De lá saíram uma vez treze navios para tomar Cabedelo e o combate durara de uma sexta a uma segunda-feira. Em suas águas chegaram a se reunir vinte navios procedentes de França. Muitos franceses mestiçaram com as mulheres indígenas, muitos filhos de cunhãs se encontravam já de cabelo louro. Três décadas depois, os holandeses, após conquistarem o forte dos Reis Magos (Natal-RN) e incursionarem no interior, testemunham "índios" louros, que não cortavam os cabelos a maneira dos demais, e que viviam apartados, sem se misturar com outros indígenas: "diziam-se, que, antes foram franceses". Ainda hoje resta um vestígio da ascendência e da persistência dos antigos rivais dos portugueses na cabeleira de gente encontrada naquela e nos vizinhos sertões da Paraíba ao Ceará.

Do Ceará para o Norte.... !

A presença dos franceses, para além do Potengy, é que obrigou o Governo-Geral conquistar e fortificar o Ceará. E para lá segue a expedição de Pero Coelho, com o jovem Martim Soares Moreno, guiado por um francês, sem o qual, Pero Coelho não teria feito nada.... diz Frei Vicente. E seguem para a Ibiapaba, aonde os franceses fundaram um povoado no alto da serra, no que hoje é Viçosa do Ceará, aonde comerciavam com os tabajaras. Após meses de refregas e combates, as forças de Pero Coelho conseguem vencer os tabajaras, e celebra pazes com os mesmos, levando presos 40 franceses. 

No litoral, o capitão Souza d'Eça, repele a gente de Du Pratz que atacou o forte do Rosário (forte de Jericoacoara – buraco das tartarugas, no Ceará): desembarcaram quatro bateladas de soldados, diz um dos mesmos franceses aprisionado depois, e são recebidos, na praia, pelo valente e brioso brasileiro Souza d’Eça, à frente de vinte homens, que o resto – trinta – teve de ficar no forte, pelo receio das tribos já levantadas na vizinhança. Dado o encontro, foram as quatro bateladas de franceses forçados a se retirar levando seus mortos e feridos. A frustrada incursão, era alguma coisa de importante: uma nau de 350 toneladas, com trezentos soldados.

Em 1615, há, ainda, uma investida de franceses, mas basta o vigário Baltazar Correia para os repelir.

A France Équinoxiale, a Terceira Tentativa Formal Francesa de Estabelecer no Braʃil: 

A presença francesa no Maranhão antecede 1600, pelo célebre pirata Riffaut. Em 1594, traz o pirata uma grande expedição em 3 navios: perde o maior e, após contratempos, vem deixar no Maranhão os restos da aventura. Teria sido esse o começo do estabelecimento definitivo. 

A colônia se firmara por expedições diferentes, das quais se destacam duas: a de 1612, sob o comando de Ravardièr, em que vieram 500 aventureiros; e a de 1613, em 16 de abril, com Du Pratz, quando vieram 300 homens. Não há dúvida que a feitoria do Maranhão é anterior à vinda definitiva de Ravardière, pois que, na sua chegada, em 1612, ele foi recebido por uma frota de navios de Dieppe, tão bem relacionada e provida, que lhe ofereceu uma ceia, onde não havia motivo para desejar iguarias de França, dizem os cronistas. Os relatos dão conta que o estabelecimento existia desde 1609.

A França Equinocial fizera-se como o coroamento de uma posse comercial de mais de 50 anos, e batizara-se colônia em nome do Rei de França. Essa foi a mais forte e mais formal tentativa francesa sobre o Brasil,  Derrotados por um capitão brasileiro, que o faz com recursos exclusivos do Braʃil, Jerônimo Albuquerque "Maranhão". Jerônimo, ganha a simpatia dos vencidos, e os estimula a ficarem, muitos franceses se estabelecem em definitivo, e se casam com mulheres de famílias açorianas que vem povoar a terra. 

O Despontar da Nacionalidade Brasileira

Bem consideradas as coisas, foi um bem essa insistência do gaulês em assenhorear-se do domínio português na América: o Braʃil, que nasce e se forma entre episódios de valentia e patriotismo, logo se revelou valente e patriota, e foi para essa boa guerra de defesa intransigente que deu os seus primeiros homens. Nenhum outro povo americano teve uma tal iniciação. O primeiro estabelecimento em Pernambuco já foi em contestação com o francês; e se o português primava em tenacidade e sobranceria guerreira, aquele lhe respondia em teimosia e brio militar. Por mais batido que fosse, o francês refazia os recursos, dobrava o esforço, e voltava. O bom auxílio do gentio era mais um motivo para insistir: armava, adestrava a caboclada, acendia-lhe o ódio contra o português, e conduzia os seus exércitos a novos combates: Bertioga, Rio de Janeiro, Cabo Frio, São Gonçalo, Rio Real, Paraíba, Tejucupapo, Rio Grande do Norte, Ibiapaba... Com isto, a ação contra os franceses repercutia na índole política das populações coloniais, que, no movimento de resistência, unia-se para a necessária defesa. Tanto vale dizer: tornava-as mais coesas, e ordeiras, e indispostas contra as facções que enfraquecem. Não fora a presença do inimigo nas águas do Maranhão, e o destemido e valoroso Albuquerque Maranhão teria puxado a espada contra o trêfego intrigante Castelo Branco. Bem antes disto, já a coesão patriótica dos de Pernambuco-Itamaracá tinha conseguido afastar todos os maus efeitos dos dissídios do castelhano Castejón-Morales.

Nos primeiros tempos, eram os franceses os mais insistentes, mas não foram os únicos a disputar com o português a posse do Braʃil. Holandeses, e, mesmo ingleses, tentaram estabelecer-se aqui, e a todos respondeu a intransigente e pertinaz resistência dos portugueses, até que os brasileiros vieram fazer, explicitamente, a defesa da sua pátria. E, com o esforço dessa gente, Portugal conseguiu garantir a posse da colônia. Ao reconhecer o poder do inimigo, em gentes e outros recursos, Estácio de Sá, antes de iniciar maior ação, decidiu seguir até São Vicente, e refazer-se, aí, com os auxílios que os respectivos colonos lhe prestassem. Com os índios e os valentes mamelucos de São Vicente, reunidos, formou ele o melhor da gente com que bateu o francês. Nesse momento, aparecem nomes – José Adorno, Martins Namorado... que, não obstante provirem da Europa, exprimem valores humanos exclusivos do Braʃil. Finda a atividade francesa, o Braʃil estava feito. E quando sobrevém as invasões holandesas, já encontra uma nação que não se deixa absorver, antes, os repelem, e mais do que isso, com força e ânimo para recobrar territórios d'além-mar tomados de Portugal.
Comando nordeste - NE, Círculo Castilhista

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