sexta-feira, 20 de março de 2026

Combatente de Caatinga - O Sertão como Linha de Defesa do Atlântico Sul

 


Bioma de Caatinga
Em uma concepção de Guerra Assimétrica, entre forças com capacidades militares, tecnológicas ou estratégicas significativamente desiguais, o Exército Brasileiro concebeu a criação de forças especiais, melhor adaptadas, e por assim aptas, a atuar autonomamente em determinados teatros operacionais. Notadamente, o CIGS - Centro de Instrução de Guerra de Selva, na Amazônia, é mais afamado. Com a mesma concepção, em 1996, o Exército Brasileiro criou o Estágio de Adaptação e Operações na Caatinga (EAOC), que posteriormente virou o CIOpC - Centro de Instrução de Operações na Caatinga, em 2005, baseado no 72º Batalhão de Infantaria Motorizado (72º BIMtz), em Petrolina (PE), com a missão de estudar, planejar e desenvolver uma doutrina operacional específica para este ambiente.

O bioma de caatinga, não só é dominante na região nordeste, como tem uma peculiar natureza distinta, com localização estratégica no saliente nordestino que se projeta sobre o "S do Atlântico", um dos eixos do mundo. É um ponto central para defesa nacional e mesmo internacional. Quando em 1942, os EUA ameaçaram invadir o Brasil ante sua neutralidade (Plano Rubber). Os pontos de desembarques visavam justamente os portos de Natal, Recife, e Fortaleza. Do Rio Grande do Norte ao Piauí, o sertão encontra o mar, e margeia a zona da mata no litoral leste. Uma eventual invasão, como a ameáça de 42, demanda forças, que recuadas, no interior, em uma estratégia de defesa em profundidade, saídas desses grotões, fustiguem e rechacem invasores que se aventurem no litoral.

Entre os cursos ministrados no CIOpC estão o Estágio Básico de Combatente de Caatinga, com duração de uma semana, Estágio Avançado de Combatente de Caatinga, com duração de duas semanas e o Estágio de Caçador de Caatinga, com duração também de duas semanas, onde o militar recebe treinamento nas seguintes disciplinas: Características do Ambiente Operacional de Caatinga; Primeiros Socorros; Técnicas Especiais; Topografia; Marchas e Acampamento; Comunicações; Emprego Tático em Operações na Caatinga; Treinamento Físico e Exercício de Desenvolvimento da Liderança. Os cursos ministrados pela CIOpC na caatinga, são reputados mais árduos e difíceis do que o do CIGS na Amazônia.

Uma das áreas mais utilizadas nessa formação militar é o Campo de Instrução Fazenda Tanque do Ferro, que possui uma vasta área de reserva do bioma de caatinga.

A Indumentária do Guerreiro

O uniforme do Combatente de Caatinga é mais reforçado, feito de material mais resistente para proteger o combatente da vegetação espinhosa e do solo pedregoso. Inspirado na indumentária sertaneja, o uniforme é confeccionado em brim na cor cáqui e com aplicação de couro especial nas partes mais atingidas pelos espinhos ou galhos secos. A protetor para a cabeça também é feito de brim, com pala dobrável e extensão para proteger a nuca, mais adequado do que o capacete de kevlar que concentra grande quantidade de calor, além de provocar ruídos em contato com os arbustos e refletir a luz, comprometendo a ocultação do combatente. O coturno é o tradicional com cano de couro, mais resistente do que o do tipo selva com a parte superior de lona. O uso de óculos de acrílico e luvas de couro que protegem o dorso e a palma da mão, permitindo o livre movimento dos dedos.

Primeiro a esquerda, combatente de caatinga opera um anti-tanque leve Carl Gustav (SAAB), a direita,
um ALAC. O ALAC, é um modelo nacional, de uso descartável, sem recuo (oque possibilita seu uso em
locais confinados, pensado para emboscadas) e mais leve do que o Carl Gustav, que é
reutilizável, e comporta uma maior gama de munições. São armas com empregos distintos. 

O armamento empregado é o padrão do Exército Brasileiro, fuzil Imbel IA2 (em substituição ao FAL), calibre 5.56 mm, com uma gradual adoção pelo calibre 7,62mm (mais adequado), pistola Imbel M973, calibre 9 mm, a arma anti-tanque Carl Gustav M3, e o nacional ALAC, ambos calibre 84 mm e a metralhadora FN MAG, calibre 7.62 mm. 

O Modus Operandi

Caçador de Caatinga, usando um fuzil de precisão IMBEL AGLC .308,
de fabricação nacional, com calibre 7,62X51mm NATO e alcance de 500 m. 
A tática operativa das Tropas de Caatinga, diferente das unidades formadas pelo Centro de Instrução de Guerra na Selva - CIGS, que desenvolveu-se em um ambiente amazônico de cobertura florestal densa, visibilidade reduzida e engajamentos a curta distância, favorescendo a especialização de funções, a infiltração silenciosa e o emprego de equipes dedicadas, como os “caçadores”, estruturados para observação prolongada e tiro seletivo. No ambiente da caatinga, a lógica se inverte em aspectos essenciais: a irregularidade do terreno, a escassez de infraestrutura e a alternância entre áreas abertas e vegetação hostil impõem uma doutrina centrada na mobilidade, na autonomia e na capacidade de sustentação da fração em isolamento.

Nesse contexto, a unidade de combatentes de caatinga organiza-se de forma mais flexível, com funções menos rigidamente compartimentadas e maior ênfase na polivalência individual. O deslocamento ocorre, em geral, por trilhas estreitas ou fora de qualquer via definida. O batedor mantém papel central à frente da fração, realizando a leitura do terreno, identificando ameaças e conduzindo a progressão, enquanto os demais elementos se distribuem de modo a preservar o contato visual e a capacidade de reação imediata.

O combate tende a ocorrer em distâncias médias, exigindo disciplina de fogo e bom aproveitamento de coberturas naturais, ainda que esparsas. Nesse cenário, a presença de atiradores com maior capacidade de precisão, eventualmente empregando armamento como o IMBEL AGLC .308 (a ser substituido pela sua nova versão WIN-ISR 100/18 com significativa melhoria no alcance de 500 para 800m, além de mais leve e preciso), amplia o alcance efetivo da fração, sem, contudo, configurar necessariamente equipes especializadas permanentes. A permanência prolongada em posição é limitada por fatores ambientais, como calor intenso e escassez de água, o que favorece uma tática de constante deslocamento, alternando observação, contato e evasão conforme a situação.

Assim, a unidade de caatinga opera como um organismo leve e adaptável, no qual a eficiência não decorre da especialização isolada, mas da integração entre mobilidade, resistência física, gestão logística e conhecimento do terreno. Trata-se de uma forma de combate que privilegia a economia de meios, a iniciativa dos pequenos escalões e a capacidade de manter-se ativo em um ambiente que, mais do que o inimigo, impõe as maiores restrições à ação militar.

Fuzil de precisão IMBEL WIN-ISR 100/18, recentemente lançado (2025/26)
 com alcance de 800m, deverá substituir o AGLC .308

O Emprego de Muares como Meio Logístico

A ausência de infraestrutura na caatinga, ausência de estradas, trilhas estreitas e irregulares, torna o uso de viaturas limitado ou, em muitos trechos, simplesmente inviável. Mesmo veículos militares modernos, como o Agrale Marruá ou blindados, dependem de condições minimamente transitáveis, além de combustível e manutenção. Em áreas profundas da caatinga, isso simplesmente não existe.

Nesse cenário de ausência de infra-estrutura, o emprego de muares, como mulas, burros e jumentos, constitui um elemento logístico essencial em um cenário de guerra assimétrica, sobretudo em áreas onde o terreno pedregoso, a vegetação densa, espinhosa e semiárida, e a ausência de vias transitáveis inviabilizam o uso de viaturas. Adaptados ao clima extremo e capazes de percorrer trilhas estreitas com grande autonomia, esses animais são utilizados no transporte de água, munição, víveres e equipamentos, bem como na evacuação de feridos, garantindo a sustentação de pequenas frações em patrulhas prolongadas e operações em regiões isoladas. Longe de representar um anacronismo, seu emprego reflete uma adaptação pragmática à realidade do semiárido, integrando tradição e eficiência em uma doutrina que privilegia a mobilidade leve e a autossuficiência no ambiente hostil da caatinga.


O Expertize do CIOpC passado para as PMs Estaduais

O BEPI (Batalhão Especializado de Policiamento do Interior), da Polícia Militar de Pernambuco (PMPE), foi criado em 1997, no esteio do CIOpC, localizado no próprio Pernambuco, Petrolina. É uma unidade de elite focada no combate ao crime organizado, tráfico de drogas e roubos no sertão. Alcunhados "Guerreiros da Caatinga", atuando em operações de alto risco, patrulhamento rural e resgate no bioma semiárido. Reputado como o mais bem preparado Batalhão especial das PMs (Polícias Militares) no Brasil, superior ao BOPE (RJ). 

Nesse mesmo sentido, tem ganho notoriedade o COTAR - Comando Tático Rural da Polícia Militar do Ceará (PMCE). Unidade de elite do BEPI/CPChoque, especializada no combate a crimes rurais, assaltos a bancos e carros-fortes. Especializado para o ambiente de caatinga, em operações de alto risco, sobrevivência e patrulhamento tático.

Outras PMs na região tem igualmente capacitado sua unidades para atuação no ambiente de caatinga.Evidenciando a importancia do CIOpC na capacitação dessas unidades, para além da defesa, com repercução na segurança pública nos respectivos Estados da região.


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