quinta-feira, 18 de junho de 2026

A Seleção Brasileira dos Ignorados - O Time dos Sonhos que a Nike-BETs-CBF lhe Priva de Ver TODAS as Copas.

A Confederação Brasileira de Desportos (CBD), criada em 1914, deixou de existir em 1979, quando surgiu a CBF — Confederação Brasileira de Futebol, uma atecnia grotesca de denominação jurídica. Trata-se, na realidade, de uma federação, e não de uma confederação, embora essa aberração tenha sido validada. Não é, contudo, esse o nosso propósito temático nestas breves linhas. O que importa destacar é que, nesse modelo que surgia, com o aval e o incentivo da FIFA, gestaram-se os mecanismos que possibilitaram o controle do futebol brasileiro por uma entidade privada, alheia à representação esportiva nacional. Em 1989, Ricardo Teixeira ascendia à presidência da entidade. E os efeitos dessa nova estrutura já se fizeram sentir na Copa do Mundo de 1990, na Itália. 

A partir de então, Sebastião Lazaroni foi alçado ao comando técnico da Seleção e passou a privilegiar atletas que atuavam no futebol europeu. Junto com eles, importou sistemas táticos pouco afeitos à tradição brasileira, como o 3-5-2. Estranho para os jogadores que atuavam no Brasil, mas não para aqueles que jogavam na Europa, num claro expediente para privilegiar esse tipo de atleta. Um efeito visível dessa política foi deixar fora da Copa do Mundo de 1990 o então camisa 10 do Corinthians, Neto. À época, Neto era o melhor meia-esquerda do Brasil e, indiscutivelmente, o melhor camisa 10 em atividade no cenário nacional. Já havia sido titular da seleção pré-olímpica de 1987 e conquistado a medalha de prata em Seul, em 1988. E, pasmem, pela primeira vez na história, o Brasil foi a uma Copa do Mundo sem um meia armador de ofício, rompendo com uma tradição que remontava às gerações de Didi, Pelé, Gérson, Rivellino, Zico e Sócrates. Concomitantemente, surgiram disputas por "prêmios" oferecidos por patrocinadores entre os jogadores, o que contribuiu para dividir o elenco. 

Nas Eliminatórias para a Copa de 1994, o caso da convocação de Romário é paradigmático. Tudo começou no amistoso entre Brasil e Alemanha, em Porto Alegre, no qual a seleção brasileira derrotou com relativa facilidade a Alemanha, campeã mundial de 1990. A partida demonstrava que o Brasil, mesmo com um time circunstancial, possuía jogadores suficientes para ter vencido a Copa de 1990 com os pés nas costas. Voltando a Romário, nesse amistoso o "Baixinho" foi deixado no banco de reservas, inexplicavelmente. Romário vivia grande fase na Europa e, demonstrando insatisfação, reclamou da situação. Desde então, a dupla dinâmica Parreira e Zé Galo deixou de convocá-lo.Segundo seus críticos, a presença de um Romário incontestável e titular absoluto restringiria a constante rotatividade de jogadores, que favoreceria a valorização de seus passes e a obtenção de comissões decorrentes de futuras transferências para o exterior. Fato é que desde então, a rotatividade de jogadores, muitos dos quais, ilustres desconhecidos, passou a ser uma constante nas convocações. O restante da novela todos conhecem. Outro fato inusitado, que costuma passar despercebido: à época, Taffarel era o terceiro goleiro do Parma e sequer figurava no banco de reservas. Ainda assim, foi estranhamente alçado à condição de titular absoluto da Seleção, mesmo após falhas marcantes, como a que resultou na primeira derrota do Brasil em Eliminatórias, diante da "poderosa" Bolívia (tremei!). Outro grande nome deixado de fora da lista de convocados foi o Palhinha do São Paulo, mais do que o Rai, o cérebro da equipe do São Paulo comandado pelo Telê Santana, campeão mundial sobre o badalado Barcelona. Ausência, ofuscada, em parte, pelo coro que se fazia em torno do Romário. Mais uma vez o Brasil ia para uma Copa do Mundo sem um meia-armador. 

Desde o Lazaroni passando pela dupla Parreira - Zé Galo, Filipão, dentre outros.... a enfase em times defensivos não é um acaso. Times ofensivos exigem conjunto, entrosamento, oque demanda um time fixo, algo incompatível com o esquema de ciranda de jogadores. A seleção de 94, e mesmo a anterior de 90, e doravante todas as posteriores, reflete esse cenário. Um meio campo formado por: Mauro Silva, Dunga, Mazinho e Zinho. Dois volantes e dois meias recuados com orientação para marcar. Tendo a frente apenas Romário e Bebeto. Bebeto no que pese o gol contra o "poderoso" EUA, no minguado 1 X 0 (imagina o Brasil ficar na oitavas contra os EUA.... quase aconteceu) foi figura apagada durante todo mundial. Não propriamente culpa dele, mas pelo isolamento do setor de ataque. Que só funcionou pelas jogadas individuais do Romário. 

Após 94 também foi o marco em que findou o contrato com a UMBRO fornecedora do material esportivo, e deu inicio as tenebrosas transações com a Nike com sua contratação em 1996. Se antes pairavam suspeitas, a CPI Nike-CBF acusou a interferência da marca estadunidense em calendários, amistosos e convocações, além do favorecimento de jogadores, cuja presença na Seleção contribuiria para sua valorização no mercado internacional. Também foram levantadas acusações sobre comissões, intermediações e conflitos de interesse envolvendo dirigentes da CBF e que resultou no afastamento do então presidente Ricardo Teixeira. 


Nada é tão ruim que não possa Piorar!

Fora Ricardo Teixeria, nem por isso o contrato com a Nike foi rompido, afinal todos precisam viver $$$$$$. Não bastasse, em 2018, Michel Temer por intermédio da lei 13.756 criou a figura das BETs, casas de apostas esportivas, com regulamentação do setor ocorrida em 2023-24. Regulamentadas, essas apostas já ocorriam de forma clandestina, caso Ivens Mendes (1997), quando o então chefe da Comissão Nacional de Arbitragem da CBF, Ivens Mendes, foi gravado negociando favorecimentos a dirigentes de clubes em troca de vantagens. O escândalo levou à sua saída e revelou suspeitas de influência sobre arbitragens. Em 2005 novo escandalo A Máfia do Apito, o árbitro Edílson Pereira de Carvalho foi acusado de manipular partidas do Campeonato Brasileiro em associação com apostadores. Onze jogos apitados por ele foram anulados e repetidos.Em 2022-23 o maior escândalo de apostas da história do futebol brasileiro. O Ministério Público de Goiás descobriu uma organização criminosa que aliciava jogadores para provocar: cartões amarelos; pênaltis; expulsões; outros eventos específicos utilizados em apostas. As investigações apontaram manipulações na: Série A e B de 2022; campeonatos estaduais de 2023. Mais de vinte pessoas foram denunciadas, entre atletas e apostadores. As Denúncias de John Textor sobre o Brasileirão de 2023: John Textor afirmou possuir evidências estatísticas de manipulação em partidas do Campeonato Brasileiro de 2023 e apresentou relatórios ao Ministério Público. 


Uma Seleção de Agenciados - A Lista de Convocados pelo Ancelotti em 2026:

Dos 26 convocados pelo técnico Ancelotti para seleção brasileira, 12 figuram direta e indiretamente em listas de casas de apostas:

Neymar é embaixador da Blaze e chegou a fazer publicidade para a empresa logo após sua convocação para a Copa de 2026.

Vinícius Júnior mantém acordo comercial com a Betnacional, além de diversos outros patrocinadores.

Lucas Paquetá é o caso mais conhecido envolvendo apostas, ele foi formalmente investigado pela Federação Inglesa por suposta manipulação de cartões para beneficiar apostadores.

JogadorClubePatrocinador de apostas
NeymarSantosNovibet
DaniloBotafogoVBet
Alex SandroFlamengoBetano
Léo PereiraFlamengoBetano
Lucas PaquetáFlamengoBetano
Igor ThiagoBrentfordHollywoodbets
RayanBournemouthBJ88
WesleyRomaEurobet.live*
(4º jogador do Flamengo citado pela reportagem)FlamengoBetano

Convocados de clubes que exibem casas de apostas em posições secundárias da camisa (mangas ou parte superior):

Douglas Santos (Zenit – Winline);

Luiz Henrique (Zenit – Winline);

Ederson (Fenerbahçe – Nesine).


A Seleção dos Ignorados:

A título meramente ilustrativo, podemos montar uma Seleção apenas com nomes que ficaram fora da Copa e podeis observar o contraste da mediocridade que é o time da Nike-Bets-CBF do que seria uma verdadeira Seleção Brasileira. Eis a lista:

  • Goleiro: Gabriel Brazão
  • Lateral-direito: William
  • Zagueiros: Beraldo e Fabrício Bruno
  • Lateral-esquerdo: Lucas Piton
  • Volante: Jorginho Frello
  • Meia-esquerda: Matheus Pereira
  • Meia-direita: Raphael Veiga
  • Ponta-esquerda: Savarino
  • Centroavante: Kaio Jorge
  • Ponta-direita: Yuri Alberto
  • Para uma variação mais defensiva, sacaria o Yuri Alberto e poria o meio-campista Breno Bidon. 


    Gabriel Brazão goleiro do Santos F.C.: Foi o goleiro mais exigido do campeonato brasileiro em 2025, líder em número de defesas (127), atuando em um time de defesa mais exposta e que exige mais do goleiro. E Brazão deu conta do recado. Atestando objetivamente como um dos melhores goleiros do Brasil. Nunca foi convocado para seleção brasileira.

    Beraldo e Fabricio Bruno: essa dupla de zaga, estreiou contra a Inglaterra, na estreia do técnico Dorival Junior, e foi o grande destaque da partida que deu solidez defensiva, ante as duas laterais debeis e um time montado de improviso, e que igualmente repetiu sua boa performance no jogo seguinte contra a Espanha. Estranhamente.... após esses dois testes de fogo, que passaram com louvor, não mais foram convocados. Dorival voltou a convocar Marquinhos e outros pernas de paus, para sua desgraça.  

    William, lateral direito do Cruzeiro: desde 2024 tem se destacado no brasileirão como um dos melhores laterais do campeonato, em 2025, ele foi um dos jogadores mais regulares do Cruzeiro. É um lateral equilibrado defensivamente, cruza bem e participa da construção. 

    Lucas Piton, lateral esquerdo do Vasco: em 2025 foi o lateral com mais assistências no Brasileirão, com 7 passes para gol na competição. No total, somou 10 assistências e 1 gol em 48 partidas na temporada. Atuou em 29 dos 30 jogos do Vasco no Brasileirão (como titular), demonstrando grande consistência e importância tática. Seus cruzamentos precisos foram uma das principais armas do time, especialmente na ligação com o atacante Vegetti.

    Jorginho Frello, volante ex-Arsenal atualmente no Flamengo: Frello se notabiliza por ser um maestro do meio-campo que combina precisão nos passes curtos com a capacidade de infiltrar bolas longas e verticais para quebrar linhas defensivas. Em uma partida contra o Grêmio pelo Brasileirão de 2026, Jorginho completou 121 passes de 125 tentados (97% de acerto). A análise estatística da partida destacou que seus passes não são apenas horizontais, mas em grande quantidade verticais, ou seja, ele avançou a bola em direção ao ataque com frequência. Nesse mesmo jogo contra o Grêmio, ele acertou 100% dos passes longos que tentou (4/4) . Na temporada de 2025, seus números de passes longos também foram expressivos. Ele registrou 45 passes longos certos com uma taxa de acerto de 60,8% . Sua capacidade de circular a bola com segurança é um dos seus maiores trunfos. Em 2025, ele teve uma taxa de 91,3% de passes certos , e seu estilo ajuda a equipe a ter alto índice de posse de bola. Como volante, também é um jogador combativo, tendo estabelecido um recorde no Flamengo com 7 desarmes em uma única partida do Brasileirão em 2025.

    Raphael Veiga, ex- meia do Palmeiras, atualmente no : Em 2023, seus números de passes progressivos (6.82 por 90') e cruzamentos (8.18 por 90') eram altos, e ele era o principal cobrador de escanteios e faltas do time. Porém, em 2025, lesões fizeram seu desempenho cair, ainda sim, com boas atuações, abaixo porém do que vinha apresentando em temporadas passadas. Seus dados de criação no Brasileirão foram razoáveis. Em 25 jogos (1.067 minutos), ele teve 2 gols e 4 assistências, com uma média de 0.34 assistências por 90 minutos. Ele também teve 64 cruzamentos na temporada, mostrando que continuou tentando criar jogadas. Em 2026 em 15 jogos (sendo titular em 9), Veiga já marcou 2 gols e deu 2 assistências. Em comparação com 2025, sua média de participação em gols por jogo melhorou. Se notabiliza também por um chute forte fora da área.

    Matheus Pereira, meia-atacante do Cruzeiro: desde 2024, Matheus é destaque do brasileirão em sua posição. Em 2025, em 34 jogos (32 como titular), marcou 7 gols e deu 7 assistências no Brasileirão. Somando todas as competições, seus números são ainda mais expressivos: 13 gols e 8 assistências em 45 jogos. Sua média de 0.93 finalizações certas por jogo e de 0.23 assistências por jogo confirmam seu papel de protagonista no ataque. Ele também foi um dos líderes em cruzamentos (175) e faltas sofridas (111), o que mostra o quanto a defesa adversária o tinha como alvo. Atua como um "camisa 10", com a missão de ser o articulador do ataque, servindo os atacantes e aparecendo bem para finalizar de fora da área. Qualquer seleção no mundo o teria como titular absoluto! Mas não o time da Nike-Bets-CBF.... 

    Savarino, atacante, ex-Botafogo, atualmente no Fuminense: talvez o jogador mais técnico e inteligente em atividade no Brasil. Craque da Libertadores, joga fácil. Atua nos dois lados do campo. Em 2025 ele criou 49 chances para os companheiros e teve uma média de passes bem-sucedidos de 84.9%. Disputou 27 jogos (24 como titular), marcando 4 gols e distribuindo 3 assistências. Em uma outra análise, seus números são de 4 gols e 2 assistências em 19 jogos. 

    Kaio Jorge, centro-avante do Cruzeiro: em 2025, foi o artilheiro do Brasileirão, com 21 gols . Sua capacidade de finalização foi um dos pilares do ataque do Cruzeiro, que terminou a competição na terceira colocação. Também foi o artilheiro da Copa do Brasil, com 5 gols. Ao conquistar a artilharia das duas competições no mesmo ano, ele se juntou a um seleto grupo de jogadores que conseguiram esse feito no Brasil, como Gabigol, Hulk e Cano. Em 33 partidas como titular no Brasileirão, ele marcou 21 gols e deu 8 assistências . A dupla com Matheus Pereira foi um dos grandes trunfos do time. Em 2026, disputou 26 partidas na temporada, marcando 14 gols e dando 2 assistências . No Campeonato Mineiro, ele foi decisivo, marcando 7 gols em 7 jogos, incluindo o gol do título na final contra o rival Atlético-MG. 

    Yuri Alberto, atacante do Corinthians:  em 2024 marcou impressionantes 31 gols, em 2025, terminou o ano como artilheiro do Corinthians, com 19 gols em 58 jogos, além de 3 assistências . Em parte sua queda de desempenho é atribuivel a lesões, contando apenas 24 anos, ainda tem bastante potencial a oferecer.

    Nomes em paralelo:

    Breno Bidon, meio campista do Corinthians: em 2025, com apenas 20 anos, Bidon deixou de ser uma promessa e se estabeleceu como titular absoluto do Corinthians. O ponto alto da temporada foi seu papel decisivo na conquista da Copa do Brasil, sendo titular e um dos destaques nas finais contra o Vasco. Disputou 56 jogos, marcando 1 gol e dando 1 assistência. Atuou em várias funções no meio-campo, desde segundo volante até meia-atacante, mostrando grande capacidade tática. Mesmo não sendo um artilheiro, seus números entre os jogadores sub-20 do Brasileirão foram impressionantes: liderou em passes certos (1.591), passes longos certos (93), desarmes (82), interceptações (30) e bolas recuperadas (205). Bidon é um jogador bastante versatil a atuar como segundo volante juntamente com Jorginho Frello ou susbstituindo, conforme a preferencia, Matheus Pereira ou Raphael Veiga. 

    Pedro, centro-avante do Flamengo: em 2025, apesar das lesões, Pedro somou 15 gols e 7 assistências em 39 partidas na temporada . Em um recorte apenas do Brasileirão, foram 12 gols e 6 assistências em 21 jogos. Em 2026 em seus primeiros 11 jogos marcou 6 gols e dado 2 assistências. É um centro-avante de área, uma peça a se lançar mão conforme peça o esquema tático, e nesse setor, ele é o melhor em atuação. Embora já tenha sido convocado na seleção brasileira, nunca foi devidamente utilizado, preterido por outros jogadores de qualidade duvidosa.... 


    A Variante Tática

    A entrada de Breno Bidon e a manutenção de Beraldo/Fabricio Bruno, é um bloco de concreto técnico. É um time que, em uma Copa do Mundo, não sentiria a pressão de "ter que resolver" no drible individual, porque o sistema de passes resolveria por eles.

    O mais fascinante nessa formação é que ela não é uma seleção de "segunda linha", como muitos poderiam rotular por não ter nomes que atuam em gigantes europeus. É uma seleção de primeira linha em conceito.

    Se esse time entrasse em campo, o mundo veria uma equipe que domina os fundamentos:

    Sustentação (Jorginho/Bidon)

    Criação em bloco (Matheus/Veiga)

    Movimentação tática (Kaio Jorge/Savarino)

    Saída limpa (Beraldo/Fabricio Bruno)

    1. A Estrutura Tática: O "Losango de Elite"

    A escalação final: Brazão; William, Beraldo, Fabrício Bruno, Piton; Jorginho, Breno Bidon, Matheus Pereira, Raphael Veiga; Savarino, Kaio Jorge, configura um sistema de 4-4-2 (Losango) ou 4-3-2-1 fluido.

    A transição do 4-3-3 anterior para a inclusão de Breno Bidon estabelece um "piso" de segurança defensiva. A dupla de volantes (Jorginho/Bidon) libera a criatividade sem negligenciar a transição defensiva.

    A "Redundância Criativa": O coração do time reside na coexistência de Matheus Pereira e Raphael Veiga. Ao contrário de seleções que centralizam a criação em um único jogador (facilmente neutralizado), este modelo oferece múltiplas rotas de passe. Se um armador é dobrado, o outro assume o protagonismo, forçando a defesa adversária a uma escolha constante de "quem abandonar".


    2. Justificativa das Escolhas Individuais

    O Eixo de Saída (Beraldo/Fabrício Bruno): A dupla justifica-se pela capacidade de progressão vertical com a bola nos pés. Diferente de zagueiros puramente de choque, eles integram o primeiro terço de criação, permitindo que a linha defensiva atue alta, encurtando o campo para os meias.

    O Papel de Kaio Jorge: Ele é a peça-chave que dá "inteligência" ao ataque. Por não ser um centroavante estático, ele atua como o pivô de elo, conectando os dois meias aos espaços vazios. Ele desconstrói as linhas de marcação adversárias através da mobilidade, algo que um "9" tradicional raramente consegue em blocos baixos.

    O Diferencial de Savarino: Sua inclusão como atacante associativo garante que o time não dependa de pontas de drible isolado, mas sim de triangulações contínuas, mantendo a posse qualificada e a desestabilização da zaga rival.


    3. Potencialidade Tática: A "Roda" de Passes

    O potencial deste time reside na geometria do campo. O time é desenhado para jogar em espaços curtos e médios, utilizando a leitura de jogo (cognição) em vez da explosão (física).

    Ao adotar um padrão de circulação baseado em passes de ruptura e triangulações coordenadas pelos dois meias, a equipe torna-se um "pesadelo" para seleções que dependem de transições rápidas. O Brasil, neste modelo, não joga o jogo do adversário; ele dita o ritmo, forçando o rival a um desgaste mental e físico acumulado pela perseguição da bola.

    A entrada de Bidon resolve a vulnerabilidade contra contra-ataques que a formação inicial apresentava. O time ganha a capacidade de controlar tempos de jogo: acelerar quando a brecha surge e cadenciar para descansar com a bola quando necessário.


    4. Avaliação de Potencial: O Teto da Seleção

    Analiticamente, esta seleção possui um potencial que a posiciona entre as 10 melhores do mundo, com uma característica rara: o encaixe funcional supera a soma das partes.

    Embora nomes como França e Inglaterra possuam "superastros" individuais, a seleção proposta possui maior coerência coletiva. Em um mata-mata de Copa do Mundo, a estabilidade tática e a inteligência dos articuladores seriam fatores determinantes para anular a vantagem física das potências europeias.

    O valor técnico deste time não reside na reputação de mercado, mas na geometria das conexões. A formação sintetiza um retorno ao futebol associativo brasileiro, modernizado pela ocupação racional dos espaços e pela disciplina tática de um meio-campo equilibrado, tornando-a capaz de "colocar na roda" adversários que dependam apenas de talento individual fragmentado.

    Olhando para o cenário de 2026, é difícil encontrar uma seleção (mesmo entre as potências) que tenha um encaixe de peças tão lógico e funcional quanto o esboçado. Enquanto os outros times brasileiros dependem de que o ponta "acorde inspirado", esse time depende apenas da execução do modelo. E no futebol de seleções, a estabilidade do modelo é o que vence campeonatos. Essa seleção jogaria o futebol como ele deveria ser jogado: com a bola no chão, com inteligência e, acima de tudo, com respeito à geometria do campo. 


    Uma Seleção de 82 Melhorada!

    Essa formação monta um time com identidade de jogo clara, que valoriza a posse, o passe e a inteligência tática, em vez do jogo de transições e drible usados pelos atuais técnicos retranqueiros. Taticamente essa formação se aproxima, com ajustes modernos, do espírito da Seleção de 1982, e em alguns aspectos pode ser vista como uma versão "corrigida" para os problemas que derrubaram aquele time.

    A Seleção de Telê Santana jogava num 4-2-2-2 com uma volância dupla (Cerezo e Falcão), dois meias criativos por dentro (Sócrates e Zico) e um ataque móvel (Serginho Chulapa centralizado e Éder como um ponta-esquerda construtor). Os laterais (Leandro e Júnior) eram peças-chave na saída e no apoio. O time dominava os jogos com posse, tabelas e infiltrações, mas sofria com a transição defensiva, especialmente porque Cerezo e Falcão não eram volantes de contenção pura, e os meias não recomponham com intensidade. O gol de Paolo Rossi em 82 nasce exatamente de um erro de saída de bola no meio-campo.

    A Síntese da "Correção Histórica"

    Essa formação é uma "versão 2026 de 82, porém corrigida". Ao inserir jogadores que possuem mecanismos de recomposição (como Savarino, Veiga e o próprio Breno Bidon), tem-se uma estrutura que retém a arte do passe, mas que sobrevive ao "físico" do jogo moderno. Em vez de esperar que um único gênio resolva, a "gênese" da jogada esta distribuida entre os dois meias-armadores. Isso cria um time que é, essencialmente, impossível de marcar por perseguição individual. Como dobrar a marcação em Matheus Pereira se o Raphael Veiga está livre na mesma linha? Como anular o Savarino se o Piton está dando profundidade?


    Uma releitura moderna (4-2-3-1 ou 4-1-4-1 ofensivo)

    Função em 82

    Nome em 82

    Paralelo na sua escalação

    Diferença crucial (a "melhora")

    Goleiro

    Waldir Peres

    Brazão

    Brazão é mais ágil, joga melhor com os pés e é mais confiável que Waldir Peres. Ganho claro.

    Lateral-direito

    Leandro

    William

    Leandro era mais zagueiro, William é mais ala ofensivo. Ambos técnicos, mas William no apoio constante lembra mais o Leandro de 86 (quando virou zagueiro).

    Zagueiros

    Oscar / Luizinho

    Beraldo / Fabricio Junior

    Oscar era um defensor técnico e sereno, parecido com Beraldo. Luizinho era o marcador. A dupla atual tem saída de bola mais qualificada. Ganho moderno.

    Lateral-esquerdo

    Júnior

    Piton

    Júnior era um meia-armador que jogava na lateral. Piton é ofensivo, mas não construtor central. Aqui 82 ainda leva vantagem, embora Piton dê amplitude.

    Volante de saída

    Falcão

    Jorginho

    Falcão era um "regista" avant la lettre, chegava na área. Jorginho é um construtor de trás, mais posicional, mas igualmente cerebral e de passe refinado.

    Volante de ofício

    Toninho Cerezo

    (Não existe exato na sua formação)

    A principal melhoria tática: colocar Jorginho sozinho, mas com Veiga e Matheus Pereira ajudando. Em 82, Cerezo era o "carregador de piano", mas não tinha intensidade defensiva. Seu time, com Savarino e Matheus Pereira pelos lados, teria mais recomposição do que Zico e Éder jamais tiveram.

    Meia-armador

    Sócrates

    Raphael Veiga (ou Matheus Pereira)

    Sócrates era mestre do passe e da cadência, mas não marcava. Veiga é um armador moderno que faz gols e tem fôlego para voltar. Menos talento puro, mas mais participação sem bola.

    Meia-atacante/Ponta

    Zico

    Matheus Pereira (por dentro)

    Zico é incomparável em talento bruto. Mas Matheus Pereira atuando como um "falso ponta" que vem para dentro, tabela e dá passes verticais — como Zico fazia partindo da meia-direita — cria um dinamismo parecido. Sua leitura é que o time teria um Zico "coletivo", alguém que pensa o jogo.

    Ponta esquerda construtora

    Éder

    Savarino

    Aqui o paralelo é quase exato. Éder era um ponta que arrematava, mas também construía, tabelava e dava passes. Savarino é exatamente isso no futebol moderno. Ambos são canhotos elegantes, associativos e inteligentes. Savarino é o "Éder que volta para marcar".

    Centroavante

    Serginho Chulapa

    Kaio Jorge

    Serginho era mais possante. Kaio Jorge é mais móvel, técnico e sai da área. Isso ajuda na fluidez, mas falta o "pivô de força" que Serginho oferecia. O ataque ganha em movimentação e perde um pouco em poder de choque.

    Ponta direita aguda

    (Não havia em 82; o time fechava com Zico e Leandro)

    Yuri Alberto

    Isso é inovação tática: colocar um finalizador de verdade na ponta direita, invertendo o perfil em relação ao Savarino. Yuri Alberto cortando para dentro e finalizando lembra um atacante de área partindo de fora, algo que 82 não tinha. Dá mais poder de fogo.


    Essa formação proposta de 2026 apresentaria uma transição defensiva muito mais sólida. Savarino, Yuri Alberto e até Veiga trabalham defensivamente muito mais do que Zico e Éder faziam. Isso reduz o maior defeito de 82: a exposição após perda da posse. Brazão é muito superior ao contestado Waldir Peres. Laterais equilibrados. Leandro e Júnior eram fora de série, mas Piton e William dariam amplitude sem abandonar tanto a defesa. Bola parada ofensiva. Com Fabricio Bruno, Kaio Jorge e Yuri Alberto, o time teria mais estatura e impulsão do que o time de 82.

    Se comparamos essa formação com a Espanha de 2010.... Savarino é exatamente o tipo de jogador que desmonta um ferrolho suíço que a Espanha foi incapaz de furar: flutua, tabela, encontra passes entrelinhas. Matheus Pereira tem o drible curto e a visão de jogo para achar espaços onde não parecem existir. Yuri Alberto é um finalizador muito mais agressivo e presente na área do que David Villa ou Torres em 2010. Kaio Jorge oferece mobilidade e técnica para sair da área e abrir espaços. Jorginho contra uma Suíça retrancada teria tempo para ditar o ritmo e achar passes verticais.

    Essa escalação tem muito mais recursos ofensivos e variação tática do que a guisa de comparação, a Espanha de 2010. Ela não ficaria trocando passes horizontais sem achar penetração, tem dribladores, finalizadores e jogadores de infiltração. A Suíça de 2010 que carimbou a faixa da Espanha em 2010, sofreria muito mais contra esse time do que sofreu contra a Espanha do tiki-taka lento.

    Ao comparar com a Espanha de 2010, toca-se na ferida tática: o tiki-taka carecia de finalização agressiva. Enquanto a Espanha de 2010 priorizava a posse pela posse, a formação proposta prioriza a posse pela penetração. Yuri Alberto e Kaio Jorge, nesse sistema, funcionam como "agressores" da linha defensiva. Eles não ficam esperando a bola chegar; eles buscam o espaço de ruptura. É uma Espanha com "fome de gol" de Brasil.

    Esse time corrige os defeitos de 82 (transição defensiva) e 98 (dependência de um craque), e que tem mais poder de fogo que a Espanha de 2010. Não é exagero dizer que, se esse time fosse a campo e tivesse entrosamento, seria o melhor time do mundo atual e candidato fortíssimo ao título de 2026. É conceitualmente, uma versão 2026 da filosofia de 1982: posse, infiltração, laterais ofensivos, inteligência coletiva, mas com a correção essencial da intensidade sem bola, que foi a ruína daquele time mágico. Com um treinador que goste de posse (um Jorge Jesus, por exemplo), esse time jogaria o futebol mais bonito que a Seleção poderia apresentar hoje. Encantaria e faria frente a qualquer seleção do mundo.


    Por que esta Seleção seria, em tese, a melhor do mundo em 2026?

    Seleções como a França ou Inglaterra, hoje, baseiam-se em "momentos de brilhantismo" (Mbappé, Bellingham, etc.). Essa seleção baseia-se em sistemas de jogo. No futebol de seleções, onde o treinamento é curto, o time que tem uma identidade clara de como mover a bola e como reagir à perda da posse ganha uma vantagem competitiva brutal sobre seleções que jogam no "improviso qualificado".

    Um time que sabe exatamente o que fazer com a bola sob pressão, graças a Jorginho e ao seu meio-campo articulador, não entra em pânico quando o adversário marca pressão alta. Ele usa o passe para "quebrar" essa pressão.Todos sabem o que fazer. O drible é compensado pelo passe, a criatividade é compensada pela intensidade defensiva. Ninguém está "sobrando" no campo; todos têm um par ou uma linha de passe próxima.

    Essa escalação prova de que o problema da Seleção Brasileira não é a falta de talentos, como a mídia sugere, mas a falta de proposito para o ataque. Desnudando o esquema de retranca projetado para a ciranda de jogadores, que sacrifica o talento. Se essa Seleção existisse, ela não seria apenas "boa"; ela seria a referência técnica do planeta, porque devolveria ao futebol a racionalidade associativa que os esquemas de favorecimentos e negociatas tem destruido.

    quarta-feira, 20 de maio de 2026

    A Malha Ferroviária Brasileira, Construtores e Sabotadores.

     


    Desde a primeira ferrovia de Mauá (1854) até o fim da monarquia, com Dom Pedro II (1889), a extensão total da malha ferroviária do Brasil Império atingiu 9.583 km. A guisa de comparação, a Argentina, no mesmo período, com um território quatro vezes menor e uma população muito mais ínfima, que à época se resumia a uma única cidade de envergadura, Buenos Aires, detinha 9.432 km de ferrovias. Outra comparação reveladora é com os Estados do Sul dos EUA (excluindo os do Norte, mais industrializados), eminentemente agrícolas e escravocratas, que, em 1861, antes da eclosão da Guerra Civil Americana, contavam com 15 mil km de malha ferroviária. Outro paralelo é a Rússia, ainda 'feudal' e agrícola, que, em 1880, já contava com 15.500 km de ferrovias! Até 1890, expandiu para 21.000 km! O que, mais uma vez, ante tantas outras evidências, desmonta as deslavradas mentiras monarquistas, destinadas a enganar trouxas, sobre um Império próspero e desenvolvido. Cabe assinalar que essa parca extensão, no Brasil, era fruto quase exclusivamente de iniciativas privadas, ao passo que, na Argentina, como na Rússia Czarista, sua rede ferroviária foi estendida com forte aparato estatal. E é justamente pela mão do Estado que o Brasil observará, na República Velha, sua expansão ferroviária.


    A República Velha e o Verdadeiro Ciclo de Expansão

    A República marcou o início do verdadeiro ciclo de expansão ferroviária brasileira em escala nacional. Ao contrário do período imperial, em que as linhas surgiam de forma fragmentada e majoritariamente subordinadas aos interesses privados exportadores, a República Velha consolidou uma política mais ampla de integração territorial e modernização logística.

    Os presidentes que mais expandiram a malha ferroviária do Brasil foram aqueles que governaram entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX, período em que houve forte investimento em infraestrutura ferroviária. Os principais destaques são:

    Prudente de Morais (1894-98): Registrou a construção de 2.265 km de ferrovias.

    Campos Sales (1898-1902): Adicionou 1.078 km à malha nacional.

    Afonso Pena (1906-09) e Nilo Peçanha (1909-10): Sob o governo de Afonso Pena, houve cerca de 2.500 km construídos. Seu falecimento antes de encerrar o mandato, entre 1909 e 1910, no governo de Nilo Peçanha, foram inaugurados mais 2.000 km de malha, fruto de obras e contratos já iniciados e ajustados anteriormente no governo de Afonso Pena. Isso totalizou 4.500 km de ferrovias construídas no Brasil, um verdadeiro salto como nunca houvera havido, até então, em tão curto espaço de tempo. Em 1906, a malha estava em torno de 16.000 km e, em 1909, chegou a aproximadamente 18.500 km.

    Hermes da Fonseca (1910-14): Seu governo realizou o maior "boom" ferroviário da história do Brasil (entre 1907 e 1914), com 4.767 km de linhas férreas construídas, impulsionado pelos lucros do café e pela política de arrendamentos de ferrovias pelo governo federal. Ele é o verdadeiro campeão de expansão em um único mandato republicano.

    Epitácio Pessoa (1919-22): Apresentou um crescimento relevante de aproximadamente 1.500 km.

    Arthur Bernardes (1922-26): Em 1922 (ano do Centenário da Independência), a malha ferroviária estava próxima de 26.500 km (fontes apontam que o Brasil já possuía aproximadamente 29.000 km de ferrovias, curiosamente quase a mesma extensão da malha operacionalizada que o país possui hoje). Bernardes entregou efetivamente no curso do seu governo 2.172 km de novas linhas férreas (atingindo cerca de 28.500 km em 1926). De igual modo que sucedeu com Afonso Pena, seu sucessor acabou colhendo os frutos de sua gestão.

    Washington Luís (1926-1930): Inaugurou mais 2.500 km, em grande parte linhas já iniciadas por Arthur Bernardes. Durante seu governo, a malha cresceu em torno desses 2.500 km, embora ele tenha adotado o lema "governar é abrir estradas".


    A Era Vargas (1930-45 / 1951-54): Expansão e Modernização das Vias Férreas Brasileiras:

    Com a ascensão de Getúlio Vargas, o ritmo de expansão manteve-se expressivo em seu primeiro período, acrescendo 4.000 novos quilometros de linhas férreas para o Brasil, com a malha ferrovirária brasileira chegando a um total de 34.000 km. Havendo uma estagnação na década de 1950, em seu segundo mandato, sua prioridade se voltou para a consecução da Petrobrás e da Eletrobrás, além de ter sido um mandato incompleto com seu trágico desfecho. 

    Antes de Vargas, as locomotivas eram a vapor, e as locomotivas elétricas já eram uma realidade, com maior capacidade de carga, velocidade e menor custo logístico. E Vargas deu início a modernização de todas, antiquadas, linhas férreas brasileiras. Caso da Estrada de Ferro Central do Brasil (EFCB). Também foi com Vargas que passou-se a padronizar as bitolas, que, anteriormente, diferia conforme as empresas contratadas para a construção dos ramais. Esse grave erro não foi fruto do acaso, visava impedir a integração ferroviária nacional, fenomeno também observado na Argentina, que teve suas vias férreas construidas por companhias inglesas. 


    Jucelino Kubitcheck (1956-61), O Começo do Fim:

    No governo JK, o Brasil atingiu o seu pico histórico de malha ferroviária, girando entre 37.000 km e 38.200 km, quando passa a decair com o próprio JK, que deu início ao processo de desativação de ramais, tidos, por deficitários. 

    No seu governo foram acrescidos entre 850 à 1.000 km de novos ramais, contudo, eram ferrovias inciadas ainda no governo Vargas, oriundas de seu Plano de Metas (Vargas), e conclusas em seu mandato (JK). Exemplo foi a conclusão de trechos da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil bem como as ligações na Rede Mineira de Viação que haviam sido iniciados décadas antes tanto no primeiro governo Vargas (1930-45), como em seu segundo governo (1951-54). Não houve nenhum acréscimo de novas ferrovias originárias do seu mandato, mas sim o início das desativações de ramais. 
     
    A desativação física de ramais foi simbólica (menos de 200 km efetivos). O que JK fez, na verdade, foi preparar o terreno legal e institucional: Criou a RFFSA - Rede Ferroviária Federal S.A. (1957) unificando as ferrovias federais para mapear quais eram deficitárias e desativá-las, esse foi o real intuito de sua criação. Sem a unificação, o governo federal não poderia desativar ferrovias sob controle estaduais mediante sua federalização. Foi criado o conceito de "Ramal Antieconômico", dando ensejo a diretriz de que ramais de baixa densidade deveriam ser fechados e substituídos por rodovias.

    Assim, no governo JK, a malha operada pela RFFSA permaneceu estável (entre 28.460 km em 1957 para 28.583 km em 1960). 


    A Ditadura Militar (1964–85): O Trator da Erradicação:

    Se JK planejou, os governos militares executaram a erradicação com força máxima. O processo ocorreu em etapas cirúrgicas:

    Sob o governo de Castelo Branco, foi criado o GESFRA (Grupo Executivo para Substituição de Ferrovias e Ramais Antieconômicos).

    Governo Costa e Silva, O "Boom" da Erradicação (1966–70): Somente nesses quatro anos de forte repressão, foram eliminados 3.926 km de vias férreas.

    Governo Médici (1969-74): Em 1974, o total de ramais completamente erradicados pela Ditadura já somava 4.881 km (algumas fontes apontam até 7.500 km computados os trechos que tiveram o tráfego permanentemente suspenso à espera da retirada dos trilhos).

    Cidades inteiras do interior (especialmente em redes como a Leopoldina, no Rio/Minas, e a Rede Nordeste) viram seus trilhos serem literalmente arrancados e vendidos como sucata. O pretexto era puramente contábil: eliminar o déficit financeiro da RFFSA a qualquer custo.

    Foi o período de maior encolhimento e destruição sistemática da malha ferroviária da história do Brasil, totalizando entre 6.000 km e 8.000 km de linhas desativadas ou erradicadas.


    A Éra FHC (1995-2002), Privatização e Desmonte:

    O processo de desmonte do sistema ferroviário brasileiro atingiria uma etapa terminal e decisiva durante o governo de Fernando Henrique Cardoso (1995–2002). Sob a cartilha das reformas neoliberais e os ditames do Consenso de Washington, o patrimônio ferroviário construído pelo Estado ao longo de um século foi liquidado. Sob o pretexto de reduzir prejuízos fiscais, modernizar a infraestrutura e atrair capitais privados, a RFFSA foi fragmentada em seis malhas regionais e transferida para o controle privado por meio de concessões de 30 anos.

    O processo, contudo, foi marcado por um profundo prejuízo ao erário público. A privatização da RFFSA arrecadou um valor irrisório, cerca de R$ 1,76 bilhão pelo leilão de suas malhas. O escândalo maior residiu na aceitação generalizada das chamadas "moedas podres" como forma de pagamento. Trata-se de títulos da dívida pública emitidos pelo próprio governo que haviam se desvalorizado drasticamente no mercado devido à inadimplência do Estado; esses papéis sem liquidez eram comprados por consórcios privados com enormes deságios (por uma fração do valor de face) e aceitos pelo governo FHC pelo valor integral na hora de arrematar as ferrovias. Na prática, o patrimônio público foi entregue em troca de papéis de dívida quase sem valor real de mercado.

    Paralelamente, em 1997, o governo consumou a privatização da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) por R$ 3,3 bilhões, valor risível, dado o tamanho das reservas minerais da empresa. Esse leilão desferiu outro golpe no sistema ferroviário nacional, pois a venda da mineradora incluiu, de porteira fechada, o controle de duas das ferrovias mais modernas, eficientes e lucrativas do país: a Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM) e a Estrada de Ferro Carajás (EFC). Em vez de servirem a um projeto nacional integrado de transportes, essas joias da infraestrutura estatal passaram a funcionar como meros sistemas logísticos cativos a serviço da exportação de minério de ferro por um ente privado.

    Na prática, o modelo de concessões da década de 1990 priorizou quase exclusivamente esses corredores de exportação de alta rentabilidade (minério e commodities agrícolas), abandonando o restante do território. As concessionárias privadas fecharam os olhos para os ramais do interior considerados de baixa lucratividade, interrompendo o tráfego e deixando milhares de quilômetros de trilhos, locomotivas e vagões se deteriorarem ao relento.

    O impacto social foi devastador. Diversas estações históricas foram abandonadas e convertidas em ruínas, cidades do interior perderam subitamente suas conexões logísticas e econômicas, e o transporte ferroviário de passageiros de longa distância foi virtualmente extinto do território nacional. O direito de locomoção sobre trilhos foi suprimido da população, sobrevivendo apenas em sistemas metropolitanos de passageiros (trens urbanos e metrôs) ou em raras linhas remanescentes de exploração turística e mineradora.

    Conclusão:
    O período áureo de expansão ferroviária institucional no Brasil ocorreu entre 1890 e 1945, com destaque para Prudente de Morais, Afonso Penna, Hermes da Fonseca, Arthur Bernardes, Washington Luís e Getúlio Vargas (1930-45). Após isso, o Brasil priorizou as rodovias. A partir do governo JK (Plano de Metas) e consolidando-se nos anos 1960/70 (Ditadura Militar), quando o Brasil sofreu uma radical substituição do modelo ferroviário pelo rodoviário, com fito de beneficiar e atrair multinacionais automobilísticas, resultando no sucateamento e posterior erradicação de milhares de quilômetros de trilhos. O Desmonte final, veio com FHC privatizando a RFFSA e praticamente extinguindo os ramais de passageiros.


    Período Presidente Ferrovias construídas (km)
    7 Mar. 1871 – 25 Jun. 1875 Rio Branco 597
    25 Jun. 1875 – 5 Jan. 1878 Cotegipe 1.071
    5 Jan. 1878 – 28 Mar. 1880 Sinimbu (Liberal) 530
    28 Mar. 1880 – 21 Jan. 1882 Saraiva (Liberal) 840
    21 Jan. 1882 – 3 Jul. 1882 Martinho Campos (Liberal) 245
    3 Jul. 1882 – 24 Mai. 1883 Paranaguá (Liberal) 698
    24 Mai. 1883 – 6 Jun. 1884 Lafaiete (Liberal) 654
    6 Jun. 1884 – 6 Mai. 1885 Dantas (Liberal) 1.164
    6 Mai. 1885 – 20 Ago. 1885 Saraiva (Liberal) 146
    20 Ago. 1885 – 10 Mar. 1888 Cotegipe (Conservador) 1.572
    10 Mar. 1888 – 7 Jun. 1889 João Alfredo (Conservador) 709
    7 Jun. 1889 – 15 Nov. 1889 Ouro Preto (Liberal) 63
    15 Nov. 1889 – 21 Jan. 1891 Deodoro - Rui 445
    22 Jan. 1891 – 23 Nov. 1891 Deodoro - Araripe / Lucena 620
    23 Nov. 1891 – 15 Nov. 1894 Floriano Peixoto 1.255
    15 Nov. 1894 – 15 Nov. 1898 Prudente de Morais 2.265
    15 Nov. 1898 – 15 Nov. 1902 Campos Sales 1.078
    15 Nov. 1902 – 15 Nov. 1906 Rodrigues Alves 1.519
    15 Nov. 1906 – 14 Jun. 1909 Afonso Pena 2.186
    14 Jun. 1909 – 15 Nov. 1910 Nilo Peçanha 2.070
    15 Nov. 1910 – 15 Nov. 1914 Hermes Fonseca 4.767
    15 Nov. 1914 – 15 Nov. 1918 Venceslau Brás 1.518
    15 Nov. 1918 – 28 Jul. 1919 Delfim Moreira 279
    28 Jul. 1919 – 15 Nov. 1922 Epitácio Pessoa 1.281
    15 Nov. 1922 – 15 Nov. 1926 Artur Bernardes 2.172
    15 Nov. 1926 – 24 Out. 1930 Washington Luís 1.038
    3 Nov. 1930 – 31 Dez. 1942 Vargas 2.332
    3 Nov. 1930 – 31 Dez. 1943 Vargas 201
    3 Nov. 1930 – 31 Dez. 1944 Vargas 229


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    quarta-feira, 22 de abril de 2026

    Democracia Direta, Técnica e Virtuosa: Os Fundamentos do Castilhismo


    "Lá [no Rio Grande do Sul] o Presidente do Estado propõe a lei que toma a forma plebiscitária, com a publicidade ampla, a colaboração direta do povo na apresentação de emendas e referendum dos Conselhos Municipais. São os imperativos categóricos da ordem social, impondo-se como necessidades iniludíveis, e vencendo as frágeis barreiras erguidas por preconceitos teóricos em equilíbrio instável, no trapézio mirífico da divisão de poderes..."

    Getúlio Vargas

    Uma Filosofia Política de Linhagem Clássica

    O Castilhismo, mais do que uma "ideologia gaúcha" localista, como acusam seus detratores, e para além de uma ideologia brasileira, configura-se como uma filosofia política de linhagem clássica. A distinção teórica e prática entre a "Democracia Verdadeira" (castilhista) e o "Parlamentarismo" (liberal) constitui o cerne de uma crítica abrangente ao regime representativo liberal. A tese central que emerge é que o sistema atualmente chamado de democracia não passa de uma oligarquia plutocrata, ao passo que o modelo concebido por Júlio de Castilhos representa a única forma de democracia real para uma nação soberana.

    Os castilhistas, influenciados pelo positivismo de Auguste Comte, realizavam uma leitura da história que resgatava a distinção aristotélica entre a política como ética do bem comum e a política como mera disputa de interesses privados. Para além disso, estabelece-se um paralelo histórico sofisticado entre o período dos "Cinco Bons Imperadores" de Roma e o regime castilhista no Rio Grande do Sul (1891–1937), demonstrando que a prosperidade de uma nação não depende do acaso, mas de um sistema de sucessão baseado na virtude e na competência técnica, em oposição tanto à hereditariedade quanto ao clientelismo eleitoral.


    A Crítica ao Regime Representativo

    O sistema de votar em deputados e senadores para que decidam em nome do povo é uma falácia. O parlamento atua como um filtro corruptor que impede a vontade popular de chegar ao governo, servindo apenas para que a oligarquia financista e seus grupos de pressão comprem influência. Além disso, o parlamento é composto por pessoas sem conhecimento técnico para legislar sobre temas complexos, transformando a política em um "balcão de negócios". O parlamentarismo, associado ao liberalismo, visa proteger interesses oligárquicos contra a autoridade do Estado. Quando o poder é fragmentado entre centenas de parlamentares, ninguém é responsável por nada, o que facilita a corrupção sistêmica.


    O Paralelo com Roma: Sucessão por Mérito

    O mais próspero período de Roma, e por assim da própria civilização ocidental ocorreu no século II d.C. como o auge da humanidade. O segredo desse período foi a sucessão por adoção: o imperador escolhia o homem mais apto a sucedê-lo, não por laços de sangue, mas por capacidade administrativa e militar. O declínio começou quando Marco Aurélio quebrou essa lógica e nomeou seu filho Cômodo, um herdeiro biológico, porém inepto. O castilhismo vê nesse ciclo a prova de que a virtude e o mérito, e não o acaso hereditário (Monarquia) ou a representação eleitoral (Liberalismo), garantem a prosperidade duradoura.


    A Política como "Ciência do Bem Comum": A Conexão com Aristóteles

    Para Aristóteles, a Polis (o Estado) é o fim último da vida social, e sua função é promover a "Vida Boa", isto é, a vida virtuosa. Os castilhistas adotam integralmente essa premissa ao afirmarem três princípios fundamentais:

    A primazia do todo: O interesse da Nação, entendida como corpo social orgânico, está acima do interesse individual isolado.

    O líder virtuoso: Assim como Aristóteles via na Monarquia e na Aristocracia (o governo dos melhores) as formas puras de governo quando focadas no bem comum, os castilhistas viam no seu "Presidente" um magistrado que personificava a virtude técnica e moral.

    O repúdio à demagogia: Aristóteles alertava que a Democracia degenerava em Tirania ou Demagogia quando os interesses das massas ou de facções particulares sobrepunham-se à justiça. O castilhismo identifica o parlamentarismo liberal exatamente como essa degeneração: uma arena de demagogos que vendem promessas para satisfazer interesses paroquiais e privados. 


    A Democracia Direta Castilhista

    Diferentemente da democracia direta grega antiga (onde todos votam em tudo), a "Democracia Verdadeira" do castilhismo baseia-se na legitimação direta do Executivo. O chefe do Executivo é eleito para realizar um programa técnico, prestando contas não ao parlamento, mas diretamente ao povo. O castilhismo foi pioneiro ao instituir consultas populares obrigatórias por meio de plebiscitos e referendos. Se o governante perdesse o apoio popular em temas cruciais, deveria ser destituído. Isso é denominado Democracia Orgânica.


    A Denúncia do Iluminismo e do Contratualismo

    O Castilhismo sustenta que o Iluminismo introduziu uma deturpação decisiva na política ao focar no Contrato Social e no Individualismo. Para um castilhista:

    O erro liberal: O Iluminismo, tratou o Estado como um "mal necessário", algo criado por um contrato entre indivíduos isolados para proteger suas propriedades e interesses egoístas. Isso transformou a política em mera ferramenta jurídica de salvaguarda do privado, destruindo sua dimensão ética.

    A fragmentação do poder: Ao dividir o poder em "pesos e contrapesos" (Montesquieu), o Iluminismo paralisa o Estado, impedindo-o de agir de forma soberana e técnica. Para o Castilhismo, essa divisão é exatamente o que permite que a plutocracia, os ricos e seus interesses financeiros, controle o governo através de um parlamento fraco e venal.


    Política "Orgânica" versus Política "Mecânica"

    Os castilhistas argumentam que a política contemporânea (liberal-parlamentar) é mecânica (um jogo de peças, votos e leis abstratas, regido por procedimentos vazios), enquanto a política clássico-castilhista é orgânica. Nessa visão:

    A sociedade é um organismo vivo.

    O governo é o cérebro desse organismo.

    Tentar governar através de brigas parlamentares seria como se os membros do corpo tentassem votar para decidir o que a mão deve fazer; o resultado inevitável é a paralisia ou a doença social.

    Essa metáfora orgânica fundamenta a defesa da unidade de comando e da hierarquia técnica como condições de possibilidade para qualquer ação estatal eficaz e justa.


    O Executivo como Poder Legislador e o Estado Técnico

    Um dos pontos mais centrais do castilhismo é a defesa de que o Executivo deve legislar. No modelo de 1891, as leis eram decretadas pelo governo. Isso garantiria probidade, pois as leis passariam a ter um critério científico e de continuidade, sem as emendas e deturpações causadas pelas trocas de favores parlamentares. A Constituição de 1891 retirava do Parlamento o poder de fazer leis, entregando-o ao Executivo. O argumento é que leis devem ser elaboradas por técnicos, não por "ineptos" que defendem interesses privados. Sem a intermediação de parlamentares, vistos como fantoches de plutocratas, o governante poderia focar no bem comum.


    O Castilhismo como Materialização Moderna da Adoção Romana

    O castilhismo, por meio do PRR (Partido Republicano Rio-Grandense), funcionou de forma análoga à sucessão romana. O PRR não era apenas uma legenda eleitoral, mas uma escola de formação ideológica que pregava a probidade e a tecnificação. A sucessão de Júlio de Castilhos para Borges de Medeiros e deste para Getúlio Vargas é apresentada como o equivalente moderno da "adoção romana": o líder escolhia o sucessor mais competente dentro de um terreno fértil de quadros preparados. Tanto em Roma quanto no Rio Grande do Sul castilhista, o Executivo não se submetia ao Senado ou ao Parlamento, e a independência do governo frente à assembleia era garantida pela unidade ideológica e pela disciplina hierárquica. Sem essas travas, o governo se dissolve em facções.


    O Conceito de "Recall" (Mandato Revocatório)

    O castilhismo já previa o que hoje se discute como recall: a possibilidade de o eleitorado retirar o mandato de um governante antes do fim, caso ele se desviasse do interesse público. Isso torna o líder muito mais "escravo" da vontade popular do que um deputado liberal, que, uma vez eleito, fica quatro anos sem prestar contas. Assim, o castilhismo não é uma ditadura, tirania ou regime autoritário, mas uma forma de governo que exige responsabilidade total do líder perante o povo. Os castilhistas buscam a legitimação popular direta, muito mais próxima da "aclamação" clássica do que do "voto mercadoria" das eleições atuais.


    As Raízes Saint-Simonianas: Socialismo Industrial e Tecnocracia

    O castilhismo bebe diretamente da fonte de Saint-Simon, em uma interpretação que se distancia do senso comum contemporâneo sobre "socialismo". Para os castilhistas, o socialismo de Saint-Simon é a peça-chave que concilia ordem industrial com justiça social sem cair no conflito de classes marxista.

    Socialismo como "Industrialismo": Saint-Simon não dividia a sociedade entre burgueses e proletários, mas entre industriais (cientistas, operários, empresários, banqueiros e técnicos: todos os que produzem) e ociosos (nobreza, clero tradicional e burocracia improdutiva). O castilhismo adota essa visão: o empresário nacional que investe e produz é um aliado do trabalhador; o inimigo é o especulador financeiro e o político fisiológico.

    Primazia da administração sobre a política: A famosa frase "A administração das coisas substituirá o governo dos homens" fundamenta a tecnocracia. A sociedade deve ser gerida por uma elite de sábios e técnicos, não por políticos profissionais.

    O "socialismo capitalista" e a propriedade: Saint-Simon não pregava o fim da propriedade privada, mas sua moralização. A propriedade deveria ser instrumento do progresso nacional. O castilhismo herdou essa visão: não se trata de estatizar tudo (comunismo), mas de o Estado dirigir o capital para que sirva ao Brasil, e não a interesses apátridas e particularistas.

    A defesa de que a religião deve focar na melhoria da classe mais pobre é a raiz da tutela moral defendida pelo castilhismo. O Estado não deve ser apenas um gestor de recursos, mas um ente que garante a harmonia social por meio de uma ética superior, ligada ao catolicismo social.

    Assim como Saint-Simon e Comte, os castilhistas veem o Iluminismo e a Revolução Francesa como períodos "críticos" ou destrutivos, que derrubaram a velha ordem sem construir nada no lugar. O socialismo saint-simoniano é a proposta para a fase orgânica e construtiva. O liberalismo iluminista é o regime do "egoísmo"; o socialismo castilhista, o regime do "altruísmo social" e da unidade nacional.


    O Resgate da Soberania e a Verdade Atávica

    A crítica castilhista ao Iluminismo permite ao Castilhismo dialogar tanto com setores da Igreja (por ambos repudiarem a "atomização" social do liberalismo) quanto, mais recentemente, com críticas do identitarismo, seja de esquerda ou de direita, na medida em que este também fragmenta o corpo social em facções estanques. Para o Círculo Castilhista, o modelo liberal é um breve e desastroso parêntese na história da humanidade. O Brasil, por sua formação ibérica e católica, esta destinado a liderar o retorno a essa política da Virtude e da Ordem.

    O castilhismo é, portanto, a prova histórica de que o Brasil pode ser próspero se abandonar o modelo liberal de "negociata parlamentar" e adotar um sistema de centralização técnica, onde a sucessão é guiada pelo mérito e pela continuidade de um projeto de Estado. A interpretação de Saint-Simon é historicamente precisa dentro da lógica do socialismo industrial: o socialismo original não era sobre estatização total, mas sobre a governança dos técnicos e produtores em prol da nação, o que se encaixa perfeitamente no modelo de Estado forte e planejado que defendem.

    O Brasil só recuperará sua soberania, quando abandonar as ilusões liberais, que entrega o país a interesses estrangeiros e financeiros, e retornar ao regime técnico e de consulta direta que transformou o Rio Grande do Sul e, depois, o Brasil na Era Vargas. O Círculo Castilhista apresenta-se, assim, como o portador de uma "verdade atávica": a de que a política autêntica é a busca do bem comum por meio da virtude, da competência e da unidade orgânica da Nação.



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    sexta-feira, 20 de março de 2026

    Combatente de Caatinga - O Sertão como Linha de Defesa do Atlântico Sul

     


    Combatente de Caatinga
    e seu respectivo Bioma 
    Em uma concepção de Guerra Assimétrica, entre forças com capacidades militares, tecnológicas ou estratégicas significativamente desiguais, o Exército Brasileiro concebeu a criação de forças especializadas, melhor adaptadas, e por assim aptas, a atuar autonomamente em determinados teatros operacionais. Notadamente, o afamado CIGS - Centro de Instrução de Guerra de Selva, na Amazônia. Com a mesma concepção, em 1996, o Exército Brasileiro criou o Estágio de Adaptação e Operações na Caatinga (EAOC), que posteriormente virou o CIOpC - Centro de Instrução de Operações na Caatinga, em 2005, sediado no 72º Batalhão de Infantaria Motorizado (72º BIMtz), renomeado em 2023 como 72º Batalhão de Infantaria de Caatinga (72º BI CAAT), em Petrolina (PE), com a missão de estudar, planejar e desenvolver uma doutrina operacional específica para este ambiente.

    O bioma de caatinga, não só é dominante na região nordeste, como tem uma peculiar natureza distinta, com localização estratégica no saliente nordestino que se projeta sobre o "S do Atlântico", um dos eixos do mundo. É um ponto central para defesa nacional e mesmo internacional. Quando em 1942, os EUA ameaçaram invadir o Brasil ante sua neutralidade (Plano Rubber). Os pontos de desembarques visavam justamente os portos de Natal, Recife, e Fortaleza. Do Rio Grande do Norte ao Piauí, o sertão encontra o mar, e margeia a zona da mata no litoral leste. Uma eventual invasão, como a ameáça de 42, demanda forças, que recuadas, no interior, em uma estratégia de defesa em profundidade, saídas desses grotões, fustiguem e rechacem invasores que se aventurem no litoral.

    Entre os cursos ministrados no CIOpC estão o Estágio Básico de Combatente de Caatinga, com duração de uma semana, Estágio Avançado de Combatente de Caatinga, e o Estágio de Caçador de Caatinga, ambos com duração de duas semanas, onde o militar recebe treinamento nas seguintes disciplinas: Características do Ambiente Operacional de Caatinga; Primeiros Socorros; Técnicas Especiais; Topografia; Marchas e Acampamento; Comunicações; Emprego Tático em Operações na Caatinga; Treinamento Físico e Exercício de Desenvolvimento da Liderança. Os cursos ministrados pela CIOpC na caatinga, são reputados mais árduos e difíceis do que o do CIGS na Amazônia.

    Uma das áreas mais utilizadas nessa formação militar é o Campo de Instrução Fazenda Tanque do Ferro, que possui uma vasta área de reserva do bioma de caatinga.

    A Indumentária do Guerreiro

    Apresentação das mudanças no uniforme do combatente de Caatinga em 2021. Essa imagem de apresentação mescla uniformes e armamentos antigos com os novos integrados pelo Projeto COBRA. Da esquerda para direita, o segundo infante apresenta o uniforme inicial, portando ainda um FAL (substituido pelo IMBEL AI2), o quinto infante, ou o primeiro do lado direito traja o novo uniforme portando um IA2 IMBEL. (A fucinheira é lembrança do Estado de Exceção da COVID que nos forçou a essa cena ridicula de uso em locais ao ar livre). Ao fundo, busto do General Sampaio, cearense, patrono da infantaria brasileira. 

    O uniforme do Combatente de Caatinga é mais reforçado, feito de material mais resistente para proteger o combatente da vegetação espinhosa e do solo pedregoso. Inspirado na indumentária sertaneja, o uniforme é confeccionado em brim na cor cáqui e com aplicação de couro especial nas partes mais atingidas pelos espinhos ou galhos secos. A protetor para a cabeça também é feito de brim, com pala dobrável e extensão para proteger a nuca, mais adequado do que o capacete de kevlar que concentra grande quantidade de calor, além de provocar ruídos em contato com os arbustos e refletir a luz, comprometendo a ocultação do combatente. O coturno é o tradicional com cano de couro, mais resistente do que o do tipo selva com a parte superior de lona. O uso de óculos de acrílico e luvas de couro que protegem o dorso e a palma da mão, permitindo o livre movimento dos dedos.

    Em 2021, foi apresentada uma nova versão do uniforme de Caatinga integrada ao Projeto COBRA (programa de modernização do equipamento individual do soldado do Exército Brasileiro). O uniforme inicial (jaqueta laranja estilo gibão, calça bege com reforços, gorro boonie e couro rígido) recebeu várias melhorias para resolver problemas antigos de calor, espinhos, mobilidade e camuflagem:
    • Gorro: O antigo “beija-santo” foi substituído por um gorro tipo tropical mais leve e adaptado ao calor extremo.
    • Camuflagem: Tecido e peças de couro foram recalibrados com padrão OTAN para regiões semiáridas (tons bege/areia). Reduz assinatura visual e térmica para melhor integração na vegetação espinhenta e pedregosa da Caatinga.
    • Peças de couro: Agora são articuladas (braços e pernas), dando muito mais mobilidade e conforto (o modelo antigo era rígido e quente).
    • Proteções: Proteções embutidas nas articulações de joelhos e cotovelos (melhoria significativa de segurança).
    • Tecidos avançados (parceria Exército + SENAI CETIQT, fabricados pela BDS Confecções):Filtro UVA/UVB (proteção solar intensa), Proteção contra chamas, Proteção bacteriológica anti-odor.
    • Coturno: Novo modelo especial de Caatinga em cor Coyote (bege), com solado adaptado ao terreno pedregoso e melhor dissipação de calor (o antigo era preto e acumulava calor).
    • Modelagem geral: Nova disposição de bolsos, corte mais ergonômico e ajustes para melhor ajuste corporal.
    Essas mudanças foram testadas em campo durante o Estágio de Adaptação e Operações na Caatinga (EAOC) e receberam avaliação “Muito Bom/Excelente” em conforto, mobilidade e proteção.

    Primeiro a esquerda, combatente de caatinga opera um anti-tanque leve Carl Gustav (SAAB), a direita,
    um ALAC. O ALAC, é um modelo nacional, de uso descartável, sem recuo (oque possibilita seu uso em
    locais confinados, pensado para emboscadas) e mais leve do que o Carl Gustav, que é
    reutilizável, e comporta uma maior gama de munições. São armas com empregos distintos. 

    O armamento empregado é o padrão do Exército Brasileiro, fuzil Imbel IA2 (em substituição ao FAL), calibre 5.56 mm, com uma gradual adoção pelo calibre 7,62mm (mais adequado), pistola Imbel M973, calibre 9 mm, a arma anti-tanque Carl Gustav M3, e o nacional ALAC, ambos calibre 84 mm e a metralhadora FN MAG, calibre 7.62 mm. 

    O Modus Operandi

    Caçador de Caatinga, usando um fuzil de precisão IMBEL AGLC .308,
    de fabricação nacional, com calibre 7,62X51mm NATO e alcance de 500 m. 
    A tática operativa das Tropas de Caatinga, diferente das unidades formadas pelo Centro de Instrução de Guerra na Selva - CIGS, que desenvolveu-se em um ambiente amazônico de cobertura florestal densa, visibilidade reduzida e engajamentos a curta distância, favorescendo a especialização de funções, a infiltração silenciosa e o emprego de equipes dedicadas, como os “caçadores”, estruturados para observação prolongada e tiro seletivo. No ambiente da caatinga, a lógica se inverte em aspectos essenciais: a irregularidade do terreno, a escassez de infraestrutura e a alternância entre áreas abertas e vegetação hostil impõem uma doutrina centrada na mobilidade, na autonomia e na capacidade de sustentação da fração em isolamento.

    Nesse contexto, a unidade de combatentes de caatinga organiza-se de forma mais flexível, com funções menos rigidamente compartimentadas e maior ênfase na polivalência individual. O deslocamento ocorre, em geral, por trilhas estreitas ou fora de qualquer via definida. O batedor mantém papel central à frente da fração, realizando a leitura do terreno, identificando ameaças e conduzindo a progressão, enquanto os demais elementos se distribuem de modo a preservar o contato visual e a capacidade de reação imediata.

    O combate tende a ocorrer em distâncias médias, exigindo disciplina de fogo e bom aproveitamento de coberturas naturais, ainda que esparsas. Nesse cenário, a presença de atiradores com maior capacidade de precisão, eventualmente empregando armamento como o IMBEL AGLC .308 (a ser substituido pela sua nova versão WIN-ISR 100/18 com significativa melhoria no alcance de 500 para 800m, além de mais leve e preciso), amplia o alcance efetivo da fração, sem, contudo, configurar necessariamente equipes especializadas permanentes. A permanência prolongada em posição é limitada por fatores ambientais, como calor intenso e escassez de água, o que favorece uma tática de constante deslocamento, alternando observação, contato e evasão conforme a situação.

    Assim, a unidade de caatinga opera como um organismo leve e adaptável, no qual a eficiência não decorre da especialização isolada, mas da integração entre mobilidade, resistência física, gestão logística e conhecimento do terreno. Trata-se de uma forma de combate que privilegia a economia de meios, a iniciativa dos pequenos escalões e a capacidade de manter-se ativo em um ambiente que, mais do que o inimigo, impõe as maiores restrições à ação militar.

    Fuzil de precisão IMBEL WIN-ISR 100/18, recentemente lançado (2025/26)
     com alcance de 800m, deverá substituir o AGLC .308

    O Emprego de Muares como Meio Logístico

    A ausência de infraestrutura na caatinga, ausência de estradas, trilhas estreitas e irregulares, torna o uso de viaturas limitado ou, em muitos trechos, simplesmente inviável. Mesmo veículos militares modernos, como o Agrale Marruá ou blindados, dependem de condições minimamente transitáveis, além de combustível e manutenção. Em áreas profundas da caatinga, isso simplesmente não existe.

    Nesse cenário de ausência de infra-estrutura, o emprego de muares, como mulas, burros e jumentos, constitui um elemento logístico essencial em um cenário de guerra assimétrica, sobretudo em áreas onde o terreno pedregoso, a vegetação densa, espinhosa e semiárida, e a ausência de vias transitáveis inviabilizam o uso de viaturas. Adaptados ao clima extremo e capazes de percorrer trilhas estreitas com grande autonomia, esses animais são utilizados no transporte de água, munição, víveres e equipamentos, bem como na evacuação de feridos, garantindo a sustentação de pequenas frações em patrulhas prolongadas e operações em regiões isoladas. Longe de representar um anacronismo, seu emprego reflete uma adaptação pragmática à realidade do semiárido, integrando tradição e eficiência em uma doutrina que privilegia a mobilidade leve e a autossuficiência no ambiente hostil da caatinga.


    O Expertize do CIOpC passado para as PMs Estaduais

    O BEPI (Batalhão Especializado de Policiamento do Interior), da Polícia Militar de Pernambuco (PMPE), foi criado em 1997, no esteio do CIOpC, localizado no próprio Pernambuco, Petrolina. É uma unidade de elite focada no combate ao crime organizado, tráfico de drogas e roubos no sertão. Alcunhados "Guerreiros da Caatinga", atuando em operações de alto risco, patrulhamento rural e resgate no bioma semiárido. Tido como o mais bem preparado Batalhão especial das PMs (Polícias Militares) no Brasil, superior ao BOPE (RJ). 

    Nesse mesmo sentido, tem ganho notoriedade o COTAR - Comando Tático Rural da Polícia Militar do Ceará (PMCE). Unidade de elite do BEPI/CPChoque, especializada no combate a crimes rurais, assaltos a bancos e carros-fortes. Especializado para o ambiente de caatinga, em operações de alto risco, sobrevivência e patrulhamento tático.

    Outras PMs na região tem igualmente capacitado suas unidades para atuação no ambiente de caatinga.Evidenciando a importancia do CIOpC na capacitação dessas unidades, para além da defesa, com repercução na segurança pública nos respectivos Estados da região.

    Comando Leste - Círculo Castilhista


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