O Arquétipo do Amante é o conector apaixonado que une opostos pela vitalidade sensual e o amor, celebrando a beleza da terra e da união cultural, mediador civilizacional, matriz de alianças, figura de passagem entre mundos, fundador por união, não por conquista. Por vezes, são traços que nos leva ao amante trágico e apaixonado que une reinos através da paixão proibida/transcendente, Romeu e Julieta, ou o herói que "casa" com a deusa local da terra, lenda céltica de Tristão e Isolda.
A fundação mítica do Brasil frequentemente se apoia em narrativas de encontros, naufrágios e alianças de sangue. No centro dessa tapeçaria épica destaca-se a figura de Diogo Álvares Correia, o Caramuru. Eternizado pelo poema oitocentista de Frei José de Santa Rita Durão, o drama de Caramuru, Paraguaçu e Moema transcende o mero registro histórico-literário: ele funciona como uma poderosa atualização do Arquétipo do Amante.O que torna a saga de Caramuru verdadeiramente fascinante, contudo, é como sua estrutura dramática espelha, de forma quase simbiótica, os eixos centrais da mitologia céltica do amor. Distante de ser um decalque simplista, o mito fundacional brasileiro opera uma síntese entre as lendas de Tristão e Isolda, Diarmuid e Gráinne e o trágico destino da deusa Clíodhna, oferecendo uma perspectiva única sobre as forças criadoras e destrutivas do Eros.
Dos três patriarcas de maior vulto na fundação do Brasil: Diogo Alvares Correia "O Caramuru", João Ramalho, e Jeronimo d'Albuquerque..... Diogo Álvares se eleva como melhor expressão do Arquétipo do Amante. Embora João Ramalho e Jerônimo de Albuquerque tenham, igualmente, gerado proles numerosas e que constituiram em núcleos irradiadores civilizacionais do Brasil, suas uniões se basearam na mancebia pragmática e na conveniência das alianças nativas, nenhum deles elevou sua ligação ao altar do sacramento. Sua presença na Terra (seguramente anterior à 1509), confere-lhe também uma anterioridade mítica primeva, como o náufrago absoluto que é engolido e refundado pelo território.
O Casamento Sagrado (Hieros Gamos) e a Soberania: O amadurecimento do Amante em Caramuru exige a validação de sua escolha perante o Cosmos e a História. O traslado de Catharina Paraguaçu à Europa é a consagração jurídica e espiritual de sua união. Ao casar-se legitimamente em França, com o batismo cristão de sua esposa como Catherina du Brèsil, o casal é acolhido pela corte de Henrique II e Catarina de Médici não como súditos ou intermediários coloniais, mas como os legítimos soberanos do Brasil.
A saga de Diogo Álvares transmuta-se em aliança dinástica. Só em Caramuru o Eros se converte em Logos fundacional, pois sua união é a única chancelada pela realeza e legitimada pelo sacramento, transformando o afeto individual na certidão de nascimento mística e jurídica da nação brasileira.
Quando observado à luz dos antigos mitogemas célticos do amor, a história de Caramuru, Paraguaçu e Moema revela-se uma profunda homologia mítica: uma gramática simbólica comum, na qual o mar, o desejo, a travessia e o sacrifício unem-se em torno do Arquétipo do Amante.
Como nas velhas narrativas da Irlanda, da Bretanha e das costas atlânticas da Europa, o oceano não surge apenas como cenário. Ele é a fronteira entre mundos, ponte entre civilizações, ventre iniciático e túmulo ritual. Tal como era, em tempos pré-romanos, o rio Lima, entre a Lusitânia e Galiza, temido pelos antigos soldados romanos que o tinham como o rio do esquecimento, um limiar onde a memória da pátria poderia dissolver-se, também o Atlântico opera como um rio cósmico de transformação. Quem o atravessa deixa de pertencer inteiramente ao mundo anterior.
Do mesmo modo, nas tradições arturianas, a travessia para Avalon representa o abandono da ordem comum e a entrada num espaço suspenso entre vida, morte e eternidade. O oceano Atlântico do mito brasileiro assume função semelhante: Portugal desaparece atrás da linha do horizonte e, diante das praias ultraequinocialis, inicia-se uma nova ordem histórica, humana e espiritual.
Ao deixar as praias do Brasil rumo à França, Diogo Álvares não vive apenas uma jornada de retorno; ele se torna o vértice de um triângulo amoroso idêntico à estrutura de uma das maiores lendas arturianas e célticas: Tristão e Isolda. A inclusão de Moema na narrativa altera profundamente a dinâmica do herói.
No mito céltico, Tristão divide-se entre duas mulheres de mesmo nome: Isolda da Irlanda (seu verdadeiro amor, místico e proibido) e Isolda das Mãos Brancas (sua esposa legal na Bretanha, a quem ele rejeita no leito amoroso).O paralelo com o poema brasileiro é cirúrgico:Paraguaçu assume o papel de Isolda da Irlanda: a escolhida, a iniciadora mística que cruza o oceano com o herói para validar sua união no Velho Mundo. Moema personifica Isolda das Mãos Brancas: a preterida, aquela cuja intensidade do amor não encontra eco no herói.O desfecho de ambas as rejeitadas converge na dor e na morte. No mito céltico, enquanto Isolda das Mãos Brancas sucumbe ao desgosto após mentir sobre as velas do navio que traria a cura para Tristão, Moema traduz essa agonia em ato físico, lançando-se às águas e agarrando-se ao leme da nau até que o fôlego lhe escape. Ambas representam a dolorosa condição da "outra", cuja existência é consumida pela recusa do amado.
No épico brasileiro, essa polaridade reaparece sob nova forma. Catarina Paraguaçu assume o papel da mulher escolhida: a companheira iniciática que cruza o oceano ao lado do herói, legitimando sua união. Já Moema encarna a mulher abandonada, consumida pela intensidade de um amor sem retorno. Mas o paralelo não reside apenas na rivalidade amorosa. Em ambas as tradições, o amor desloca o herói para fora da ordem comum. Tristão afasta-se da estabilidade feudal, e Caramuru abandona definitivamente o mundo português original. O oceano torna-se então o espaço da metamorfose. O homem que retorna jamais é o mesmo que partiu.
Se a estrutura narrativa de Caramuru emula Tristão, o destino fatal de Moema encontra seu duplo metafísico na trágica lenda irlandesa de Clíodhna (Clíodna), a deusa do amor e da beleza do Outromundo (Tír na nÓg).Apaixonada pelo mortal Ciabhán, Clíodhna abandona seu reino divino para viver o amor na terra dos homens. Todavia, enquanto dormia na praia esperando pelo retorno de seu amado, uma onda gigante enviada pelo deus do mar a tragou, afogando-a antes que a união se consumasse.A analogia elementar com o Canto VI do poema de Santa Rita Durão é espantoso:
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Dimensão |
Mito Céltico (Clíodhna) |
Épico Brasileiro (Moema) |
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Arquétipo |
Deusa da beleza e do amor incondicional |
Índia de "gentileza" e formosura extremas |
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Transgressão |
Abandona o Outromundo por um mortal |
Rompe com os limites de sua tribo pelo europeu |
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Nexo Elemental |
Arrastada e sufocada pelo mar |
Afoga-se voluntariamente nas águas do oceano |
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Simbologia |
O amor que transcende e morre na imensidão |
O amor que destrói ao perder o chão (e o leme) |
A água, em ambas as tradições, atua como o útero e o túmulo de Eros. Para Moema, soltar o leme em meio ao desmaio final é o equivalente ao sono de Clíodhna na praia: a entrega absoluta do eu a um sentimento que a imensidão do oceano engole, mas imortaliza.
Um terceiro eixo liga o épico brasileiro à tradição feniana de Diarmuid e Gráinne. Na lenda irlandesa, Gráinne (prometida ao envelhecido chefe guerreiro Fionn mac Cumhaill) apaixona-se pelo jovem Diarmuid e o obriga a fugir com ela. O casal passa dezesseis anos escondendo-se em florestas e cavernas, sob a perseguição implacável e ciumenta de Fionn.No contexto brasileiro, o tema da perseguição movida pelo ciúme reaparece, mas sofre uma fascinante inversão:Na Irlanda, é o homem traído (Fionn), símbolo da autoridade e do status quo patriarcal, quem caça o casal pelas matas.No Brasil, é a mulher rejeitada (Moema) quem assume o papel ativo de perseguidora, caçando o casal que parte, trocando a densidade da floresta pela liquidez do mar aberto.Enquanto a caçada de Fionn dura anos e termina em uma reconciliação tensa (antes da morte trágica de Diarmuid por um javali), a perseguição de Moema condensa-se em minutos ou horas de desespero heroico e trágico. Moema, portanto, absorve a fúria do perseguidor traído de Diarmuid, mantendo viva a chama do amor obsessivo que recusa a perda.
Outro ponto de convergênte com o ciclo de Diarmuid é o mitogema da arma prodigiosa. Na lenda irlandesa, Diarmuid recebe de seu pai adotivo, o deus Óengus, armas de poder sobrenatural, a espada Moralltach, essenciais para garantir sua proteção contra forças esmagadoras. De forma análoga, Caramuru se serve de seu bacamarte. O impacto do disparo, interpretado pelos Tupinambás como um domínio quase divino sobre o trovão, opera na narrativa fundacional a mesma função da arma mágica céltica: um instrumento de intervenção providencial que confere ao herói o prestígio necessário para salvaguardar sua vida e o seu amor na terra nova.
O poema de Santa Rita Durão alcança uma sofisticação psicológica que nenhuma das lendas célticas atinge de forma isolada. Ele distribui as faces claras e escuras do Arquétipo do Amante entre seus protagonistas. Diogo Álvares e Paraguaçu representam o amadurecimento do Amante que se conecta aos arquétipos do Rei e da Rainha. Eles não buscam apenas a paixão destrutiva e adúltera (como Tristão e Isolda); eles realizam o casamento, cruzam fronteiras transculturais, geram descendência (os brasileiros) e constroem um legado civilizacional. É o amor gerativo, que une dois mundos (Portugal e a nação Tupi) para fundar uma nova identidade.
Moema encarna, com precisão cirúrgica, a Sombra do Amante Rejeitado. Quando o impulso de conexão do Amante não é correspondido, ele degenera em possessividade, inveja e autodestruição:"Não vinha menos bela do que irada; / Era Moema, que de inveja geme..."— Santa Rita Durão, Canto VI.Sua raiva ("bárbaro... tigre e não homem") e sua incapacidade de deixar o amado partir a conduzem ao colapso do ego. Ela se destrói porque, na lógica da sombra do Amante, a vida sem a fusão com o outro perde a razão de existir.
A genialidade inconsciente da tradição que gerou a saga de Caramuru reside em não reduzir a fundação do Brasil a uma fábula idílica ou a uma tragédia absoluta.Ao fundir o eixo terrestre e gerativo de Diarmuid (o refúgio e o casamento na terra) com o eixo marítimo e trágico de Tristão e Clíodhna (a dor e a morte nas águas), o nascimento mítico do Brasil assume contornos únicos. O Eros que funda a nação brasileira é simultaneamente criador e destruidor, redentor e assassino. Para que a união transcultural de Caramuru e Paraguaçu prospere e gere os alicerces dos brasileiros, a história cobra o seu tributo de sangue e lágrimas nas águas do Atlântico: o sacrifício de Moema, a eterna Amante sacrificada no altar da fundação nacional.
Caramuru cruza esse oceano e deixa de ser plenamente europeu. Paraguaçu atravessa-o e deixa de pertencer apenas ao universo tupinambá. Moema perece nele e torna-se eterna. Assim, o Atlântico não é mero caminho geográfico da fundação brasileira. Ele é o próprio agente espiritual da metamorfose. Nas águas profundas do oceano desaparecem antigas identidades e nasce uma nova civilização atlântica: brasileira, marítima, trágica e geradora.
Mas a obra do Amante não se encerra na travessia; ela apenas ali principia. Pois todo Hieros Gamos autêntico reclama sua consumação na fecundidade. Da união sacramental de Diogo Álvares Correia e Catharina Paraguaçu não surgiu apenas um casal lendário, mas uma das mais nobres e antigas linhagens formadoras do Brasil. Sua descendência irradiou-se pelos primeiros séculos da colonização, entrelaçando-se às mais diversas famílias da terra nascente, multiplicando-se em sucessivas gerações que fariam da antiga aliança entre o português e a princesa normanda-tupinambá um dos mais vigorosos troncos genealógicos da nacionalidade. Antes mesmo que existisse um povo brasileiro plenamente consciente de si, já existia a sua estirpe.
Nessa perspectiva mítica, Caramuru não figura apenas como patriarca, mas como o grande semeador da nacionalidade; e Catharina Paraguaçu, elevada pelo sacramento, pela diplomacia régia e pela memória épica, converte-se na Grande Matriarca do Brasil. Catharina como fruto das relações normando-bretãs com tupinambás, sua ascendência ao velho mundo, parece encontrar seu pleno cumprimento ao reencontrar, nas praias da Bahia, a terra destinada a gerar uma nova civilização celto-atlântica. O antigo imaginário céltico conhecia a soberania feminina da terra personificada em Éire, cuja união legítima com o rei conferia fecundidade e legitimidade ao reino. De modo análogo, tal se apresenta Catharina Paraguaçu como a Senhora da Terra Brasileira, aquela cuja união sacramental com Caramuru não apenas reconciliou dois mundos, mas investiu simbolicamente a nova pátria de sua primeira realeza espiritual.
Assim, o mito fundacional brasileiro completa o seu arco heroico. O náufrago torna-se patriarca; a princesa bretã-tunpinambá torna-se rainha; o amor converte-se em dinastia; e a dinastia transforma-se em povo. Da convergência entre o Atlântico europeu e o Atlântico indígena, ergue-se uma descendência cuja grandeza não reside apenas no número, mas na vocação histórica de sintetizar continentes, sangues e tradições. Se Moema representa o sacrifício pelo qual toda fundação exige seu tributo, Caramuru e Catharina representam a recompensa da História: uma prole tão fecunda que nela a própria nação brasileira reconhece, ainda hoje, um de seus mais antigos berços genealógicos, como se toda a posteridade do Brasil fosse, e é, a prolongação da floração daquele primeiro e sagrado casamento celebrado no Brasil.







