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quarta-feira, 20 de maio de 2026
A Malha Ferroviária Brasileira, Construtores e Sabotadores.
quarta-feira, 22 de abril de 2026
Democracia Direta, Técnica e Virtuosa: Os Fundamentos do Castilhismo
O Castilhismo, mais do que uma "ideologia gaúcha" localista, como acusam seus detratores, e para além de uma ideologia brasileira, configura-se como uma filosofia política de linhagem clássica. A distinção teórica e prática entre a "Democracia Verdadeira" (castilhista) e o "Parlamentarismo" (liberal) constitui o cerne de uma crítica abrangente ao regime representativo liberal. A tese central que emerge é que o sistema atualmente chamado de democracia não passa de uma oligarquia plutocrata, ao passo que o modelo concebido por Júlio de Castilhos representa a única forma de democracia real para uma nação soberana.
Os castilhistas, influenciados pelo positivismo de Auguste Comte, realizavam uma leitura da história que resgatava a distinção aristotélica entre a política como ética do bem comum e a política como mera disputa de interesses privados. Para além disso, estabelece-se um paralelo histórico sofisticado entre o período dos "Cinco Bons Imperadores" de Roma e o regime castilhista no Rio Grande do Sul (1891–1937), demonstrando que a prosperidade de uma nação não depende do acaso, mas de um sistema de sucessão baseado na virtude e na competência técnica, em oposição tanto à hereditariedade quanto ao clientelismo eleitoral.
A Crítica ao Regime Representativo
O sistema de votar em deputados e senadores para que decidam em nome do povo é uma falácia. O parlamento atua como um filtro corruptor que impede a vontade popular de chegar ao governo, servindo apenas para que a oligarquia financista e seus grupos de pressão comprem influência. Além disso, o parlamento é composto por pessoas sem conhecimento técnico para legislar sobre temas complexos, transformando a política em um "balcão de negócios". O parlamentarismo, associado ao liberalismo, visa proteger interesses oligárquicos contra a autoridade do Estado. Quando o poder é fragmentado entre centenas de parlamentares, ninguém é responsável por nada, o que facilita a corrupção sistêmica.
O Paralelo com Roma: Sucessão por Mérito
O mais próspero período de Roma, e por assim da própria civilização ocidental ocorreu no século II d.C. como o auge da humanidade. O segredo desse período foi a sucessão por adoção: o imperador escolhia o homem mais apto a sucedê-lo, não por laços de sangue, mas por capacidade administrativa e militar. O declínio começou quando Marco Aurélio quebrou essa lógica e nomeou seu filho Cômodo, um herdeiro biológico, porém inepto. O castilhismo vê nesse ciclo a prova de que a virtude e o mérito, e não o acaso hereditário (Monarquia) ou a representação eleitoral (Liberalismo), garantem a prosperidade duradoura.
A Política como "Ciência do Bem Comum": A Conexão com Aristóteles
Para Aristóteles, a Polis (o Estado) é o fim último da vida social, e sua função é promover a "Vida Boa", isto é, a vida virtuosa. Os castilhistas adotam integralmente essa premissa ao afirmarem três princípios fundamentais:
A primazia do todo: O interesse da Nação, entendida como corpo social orgânico, está acima do interesse individual isolado.
O líder virtuoso: Assim como Aristóteles via na Monarquia e na Aristocracia (o governo dos melhores) as formas puras de governo quando focadas no bem comum, os castilhistas viam no seu "Presidente" um magistrado que personificava a virtude técnica e moral.
O repúdio à demagogia: Aristóteles alertava que a Democracia degenerava em Tirania ou Demagogia quando os interesses das massas ou de facções particulares sobrepunham-se à justiça. O castilhismo identifica o parlamentarismo liberal exatamente como essa degeneração: uma arena de demagogos que vendem promessas para satisfazer interesses paroquiais e privados.
A Democracia Direta Castilhista
Diferentemente da democracia direta grega antiga (onde todos votam em tudo), a "Democracia Verdadeira" do castilhismo baseia-se na legitimação direta do Executivo. O chefe do Executivo é eleito para realizar um programa técnico, prestando contas não ao parlamento, mas diretamente ao povo. O castilhismo foi pioneiro ao instituir consultas populares obrigatórias por meio de plebiscitos e referendos. Se o governante perdesse o apoio popular em temas cruciais, deveria ser destituído. Isso é denominado Democracia Orgânica.
A Denúncia do Iluminismo e do Contratualismo
O Castilhismo sustenta que o Iluminismo introduziu uma deturpação decisiva na política ao focar no Contrato Social e no Individualismo. Para um castilhista:
O erro liberal: O Iluminismo, tratou o Estado como um "mal necessário", algo criado por um contrato entre indivíduos isolados para proteger suas propriedades e interesses egoístas. Isso transformou a política em mera ferramenta jurídica de salvaguarda do privado, destruindo sua dimensão ética.
A fragmentação do poder: Ao dividir o poder em "pesos e contrapesos" (Montesquieu), o Iluminismo paralisa o Estado, impedindo-o de agir de forma soberana e técnica. Para o Castilhismo, essa divisão é exatamente o que permite que a plutocracia, os ricos e seus interesses financeiros, controle o governo através de um parlamento fraco e venal.
Política "Orgânica" versus Política "Mecânica"
Os castilhistas argumentam que a política contemporânea (liberal-parlamentar) é mecânica (um jogo de peças, votos e leis abstratas, regido por procedimentos vazios), enquanto a política clássico-castilhista é orgânica. Nessa visão:
A sociedade é um organismo vivo.
O governo é o cérebro desse organismo.
Tentar governar através de brigas parlamentares seria como se os membros do corpo tentassem votar para decidir o que a mão deve fazer; o resultado inevitável é a paralisia ou a doença social.
Essa metáfora orgânica fundamenta a defesa da unidade de comando e da hierarquia técnica como condições de possibilidade para qualquer ação estatal eficaz e justa.
O Executivo como Poder Legislador e o Estado Técnico
Um dos pontos mais centrais do castilhismo é a defesa de que o Executivo deve legislar. No modelo de 1891, as leis eram decretadas pelo governo. Isso garantiria probidade, pois as leis passariam a ter um critério científico e de continuidade, sem as emendas e deturpações causadas pelas trocas de favores parlamentares. A Constituição de 1891 retirava do Parlamento o poder de fazer leis, entregando-o ao Executivo. O argumento é que leis devem ser elaboradas por técnicos, não por "ineptos" que defendem interesses privados. Sem a intermediação de parlamentares, vistos como fantoches de plutocratas, o governante poderia focar no bem comum.
O Castilhismo como Materialização Moderna da Adoção Romana
O castilhismo, por meio do PRR (Partido Republicano Rio-Grandense), funcionou de forma análoga à sucessão romana. O PRR não era apenas uma legenda eleitoral, mas uma escola de formação ideológica que pregava a probidade e a tecnificação. A sucessão de Júlio de Castilhos para Borges de Medeiros e deste para Getúlio Vargas é apresentada como o equivalente moderno da "adoção romana": o líder escolhia o sucessor mais competente dentro de um terreno fértil de quadros preparados. Tanto em Roma quanto no Rio Grande do Sul castilhista, o Executivo não se submetia ao Senado ou ao Parlamento, e a independência do governo frente à assembleia era garantida pela unidade ideológica e pela disciplina hierárquica. Sem essas travas, o governo se dissolve em facções.
O Conceito de "Recall" (Mandato Revocatório)
O castilhismo já previa o que hoje se discute como recall: a possibilidade de o eleitorado retirar o mandato de um governante antes do fim, caso ele se desviasse do interesse público. Isso torna o líder muito mais "escravo" da vontade popular do que um deputado liberal, que, uma vez eleito, fica quatro anos sem prestar contas. Assim, o castilhismo não é uma ditadura, tirania ou regime autoritário, mas uma forma de governo que exige responsabilidade total do líder perante o povo. Os castilhistas buscam a legitimação popular direta, muito mais próxima da "aclamação" clássica do que do "voto mercadoria" das eleições atuais.
As Raízes Saint-Simonianas: Socialismo Industrial e Tecnocracia
O castilhismo bebe diretamente da fonte de Saint-Simon, em uma interpretação que se distancia do senso comum contemporâneo sobre "socialismo". Para os castilhistas, o socialismo de Saint-Simon é a peça-chave que concilia ordem industrial com justiça social sem cair no conflito de classes marxista.
Socialismo como "Industrialismo": Saint-Simon não dividia a sociedade entre burgueses e proletários, mas entre industriais (cientistas, operários, empresários, banqueiros e técnicos: todos os que produzem) e ociosos (nobreza, clero tradicional e burocracia improdutiva). O castilhismo adota essa visão: o empresário nacional que investe e produz é um aliado do trabalhador; o inimigo é o especulador financeiro e o político fisiológico.
Primazia da administração sobre a política: A famosa frase "A administração das coisas substituirá o governo dos homens" fundamenta a tecnocracia. A sociedade deve ser gerida por uma elite de sábios e técnicos, não por políticos profissionais.
O "socialismo capitalista" e a propriedade: Saint-Simon não pregava o fim da propriedade privada, mas sua moralização. A propriedade deveria ser instrumento do progresso nacional. O castilhismo herdou essa visão: não se trata de estatizar tudo (comunismo), mas de o Estado dirigir o capital para que sirva ao Brasil, e não a interesses apátridas e particularistas.
A defesa de que a religião deve focar na melhoria da classe mais pobre é a raiz da tutela moral defendida pelo castilhismo. O Estado não deve ser apenas um gestor de recursos, mas um ente que garante a harmonia social por meio de uma ética superior, ligada ao catolicismo social.
Assim como Saint-Simon e Comte, os castilhistas veem o Iluminismo e a Revolução Francesa como períodos "críticos" ou destrutivos, que derrubaram a velha ordem sem construir nada no lugar. O socialismo saint-simoniano é a proposta para a fase orgânica e construtiva. O liberalismo iluminista é o regime do "egoísmo"; o socialismo castilhista, o regime do "altruísmo social" e da unidade nacional.
O Resgate da Soberania e a Verdade Atávica
A crítica castilhista ao Iluminismo permite ao Castilhismo dialogar tanto com setores da Igreja (por ambos repudiarem a "atomização" social do liberalismo) quanto, mais recentemente, com críticas do identitarismo, seja de esquerda ou de direita, na medida em que este também fragmenta o corpo social em facções estanques. Para o Círculo Castilhista, o modelo liberal é um breve e desastroso parêntese na história da humanidade. O Brasil, por sua formação ibérica e católica, esta destinado a liderar o retorno a essa política da Virtude e da Ordem.
O castilhismo é, portanto, a prova histórica de que o Brasil pode ser próspero se abandonar o modelo liberal de "negociata parlamentar" e adotar um sistema de centralização técnica, onde a sucessão é guiada pelo mérito e pela continuidade de um projeto de Estado. A interpretação de Saint-Simon é historicamente precisa dentro da lógica do socialismo industrial: o socialismo original não era sobre estatização total, mas sobre a governança dos técnicos e produtores em prol da nação, o que se encaixa perfeitamente no modelo de Estado forte e planejado que defendem.
O Brasil só recuperará sua soberania, quando abandonar as ilusões liberais, que entrega o país a interesses estrangeiros e financeiros, e retornar ao regime técnico e de consulta direta que transformou o Rio Grande do Sul e, depois, o Brasil na Era Vargas. O Círculo Castilhista apresenta-se, assim, como o portador de uma "verdade atávica": a de que a política autêntica é a busca do bem comum por meio da virtude, da competência e da unidade orgânica da Nação.
Artigos Correlatos:
A Democracia Verdadeira (Direta) Contra o Parlamentarismo (Oligarquia).
O que é o Castilhismo?
Raymundo Monte Arraes, Teórico do Castilhismo.
Castilhismo, Orígens.
O Modelo Republicano Brasileiro vs O Modelo Estadunidense.
A Consolidação da República.
Senador Pinheiro Machado, A Projeção do Castilhismo à Nível Nacional.
O Estado Castilhista.
A Rejeição do Corporativismo pelo Castilhismo.
Diferenças Entre o Modelo Republicano Brasileiro (Castilhista) e o Estadunidense (Liberal).
Bautista Vidal e o Trabalhismo.
O Castilhismo Como Herdeiro dos Valores Clássicos.
As Raízes Socialistas no Pensamento Getulista.
Vargas Fascista?
A Contribuição de Alberto Pasqualini Para O Trabalhismo Brasileiro.
As Relações da Igreja Com a Monarquia e o Castilhismo..
sexta-feira, 20 de março de 2026
Combatente de Caatinga - O Sertão como Linha de Defesa do Atlântico Sul
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| Combatente de Caatinga e seu respectivo Bioma |
- Gorro: O antigo “beija-santo” foi substituído por um gorro tipo tropical mais leve e adaptado ao calor extremo.
- Camuflagem: Tecido e peças de couro foram recalibrados com padrão OTAN para regiões semiáridas (tons bege/areia). Reduz assinatura visual e térmica para melhor integração na vegetação espinhenta e pedregosa da Caatinga.
- Peças de couro: Agora são articuladas (braços e pernas), dando muito mais mobilidade e conforto (o modelo antigo era rígido e quente).
- Proteções: Proteções embutidas nas articulações de joelhos e cotovelos (melhoria significativa de segurança).
- Tecidos avançados (parceria Exército + SENAI CETIQT, fabricados pela BDS Confecções):Filtro UVA/UVB (proteção solar intensa), Proteção contra chamas, Proteção bacteriológica anti-odor.
- Coturno: Novo modelo especial de Caatinga em cor Coyote (bege), com solado adaptado ao terreno pedregoso e melhor dissipação de calor (o antigo era preto e acumulava calor).
- Modelagem geral: Nova disposição de bolsos, corte mais ergonômico e ajustes para melhor ajuste corporal.
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| Caçador de Caatinga, usando um fuzil de precisão IMBEL AGLC .308, de fabricação nacional, com calibre 7,62X51mm NATO e alcance de 500 m. |
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| Fuzil de precisão IMBEL WIN-ISR 100/18, recentemente lançado (2025/26) com alcance de 800m, deverá substituir o AGLC .308 |
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| Comando Leste - Círculo Castilhista |
segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
André Vidal de Negreiros — O Arquétipo do Santo-Guerreiro Restaurador da Ordem
O Guerreiro não é meramente o
homem da violência, mas aquele que ordena o caos, que se submete a uma causa
transcendente, que aceita a disciplina, o sacrifício e a dor como preço da
preservação do mundo. O Guerreiro autêntico não luta por si, mas por aquilo que
o ultrapassa: a ordem justa, a tradição, a nação e o sagrado. Sob essa
chave simbólica, a trajetória de André Vidal de Negreiros se eleva da crônica
militar ao plano do mito fundador da nacionalidade brasileira.
Na mitologia céltica, particularmente no mundo galaico e irlandês, essa função é encarnada por Ogma (Ogmios, na Gália), o Hércules ibérico. Ogma é o deus da força disciplinada, da eloquência que subjuga, do braço que combate e da palavra que ordena. Descrito como um homem idoso, armado de clava e coberto por uma pele de leão, encadeado pelos seus séquitos por correntes de ouro e ambar que saem de sua boca e se ligam a suas orelhas, e o seguem alegres e felizes. Imagem perfeita do líder que conduz pelo exemplo, pela autoridade interior e pela fidelidade à ordem cósmica. Diferente do bruto destruidor, Ogma vence porque submete o inimigo pela superioridade moral, espiritual e estratégica.
É sob essa luz arquetípica que se pode compreender, em profundidade histórica e simbólica, a figura de André Vidal de Negreiros. Assim como Ogma surge nos mitos quando o mundo ameaça sucumbir ao caos, André Vidal de Negreiros emerge na História do Braʃil quando a terra se encontra profanada pelo domínio estrangeiro, mercantil e herético. A ocupação holandesa não foi apenas um conflito econômico ou territorial: representou uma ruptura da ordem espiritual, da continuidade católica, jurídica e simbólica que estruturava a civilização luso-brasileira. Contra esse estado de desagregação, Vidal não se apresenta como um aventureiro, mas como o Guerreiro Predestinado, aquele que compreende que a guerra, quando justa, é um ministério.
O Chamado do Guerreiro
Tal como nos mitos antigos, o arquétipo do Guerreiro manifesta-se cedo. Aos dezoito anos, André Vidal alista-se voluntariamente, “às suas custas”. Abdica precocemente da vida privada, da família e do conforto, consagrando-se integralmente à missão. Sua guerra não é mercenária; é religiosa, civilizacional e territorial. Defende simultaneamente a fé católica, a soberania da terra e a continuidade da ordem luso-brasileira contra um inimigo que não se apresentava apenas como potência estrangeira, mas como princípio dissolvente: o calvinismo mercantil da Companhia das Índias Ocidentais, fundado no lucro, na rapina e na negação sacramental do mundo.
Desde cedo, Vidal encarna o Guerreiro disciplinado, sereno, estrategista, imune à vaidade. Sua bravura não é caótica; é orientada. Seus superiores reconhecem nele não apenas coragem, força física, mas algo mais raro: instinto de guerra justa, rapidez de execução, clareza de propósito e desapego pessoal. Não luta para ser visto; luta porque não lutar seria trair.
Como Ogma, Vidal reúne em si força e inteligência, braço e estratégia. Quando os comandantes europeus conjecturavam qual estratégia seguir, após sofrerem sucessivas derrotas, e queriam continuar insistindo nas fracassadas táticas europeias. Foi André Vidal quem compreendeu, contra a soberba dos reinóis, que a guerra contra os holandeses exigia outra lógica: a guerrilha, a emboscada, a Guerra Brasílica, foi ele quem traçou o caminho para a vitória. Essa inteligência tática é oque diferencia, na guerra, os vencedores dos derrotados. E foi precisamente essa compreensão que pois fim ao mito da invencibilidade holandesa.
Ogma no Campo de Batalha: a Guerra como Ordem
Assim como Ogma submete inimigos não apenas pela força, mas pela autoridade que emana da sua presença, Vidal torna-se o eixo organizador da guerra de restauração. É dele que parte a iniciativa de distribuir o hábito da Ordem de Cristo para Henrique Dias, Felipe Camarão... que persuade Camarão a voltar a luta após se intrigar com o Conde napolitano Bagnuoli. Aparentando a mesma debilidade de Ogma, Vidal consegue salvo conduto para adentrar em Recife, então bastião holandês, arregimentar apoio, organizar a Insurreição. Converte inimigos em aliados, as inúmeras defecções entre católicos das tropas holandesas que passam para o lado dos brasileiros. Converte mesmo protestantes a Fé-Católica, figurando inclusive como padrinho de batismo de vários oficiais holandeses que finda a guerra sentam praça no Braʃil. Quando as lideranças vacilam, negociam, tergiversam ou preferem a diplomacia frouxa à decisão armada, é Vidal quem sustenta o fio da continuidade histórica. Ele compreende o que muitos não ousam admitir: há momentos em que a paz negociada é apenas a máscara da rendição.
Na II Batalha de Salvador (1638), da Casa-Forte, nas Batalhas dos Guararapes, onde Vidal assume plenamente a função de eixo ordenador da guerra. Cai o mito da invencibilidade holandesa. Ali se revela plenamente o arquétipo. Diante da tibieza inicial dos comandantes e da hesitação estratégica, emerge a decisão popular e, logo após, a inteligência militar dos homens forjados no combate irregular, entre eles Vidal. As companhias de emboscada, o ataque relâmpago, a negação do cerco completo ao inimigo: tudo isso expressa a guerra orgânica, própria de quem conhece a terra e luta por ela como extensão do próprio corpo.
O Guerreiro Contra o Próprio Reino
Um dos traços mais elevados do arquétipo do Guerreiro é sua disposição de enfrentar não apenas o inimigo externo, mas também a covardia interna. Vidal não hesita em confrontar a frouxidão da Coroa portuguesa quando esta prefere perder províncias a sustentar a guerra. Sua carta, altiva e quase trágica, ecoa o gesto dos heróis antigos que, diante de reis indecisos, assumem para si a responsabilidade histórica.
Aqui, Vidal aproxima-se não apenas de Ogma, mas de figuras como Cú Chulainn, que luta mesmo quando sabe que será abandonado. A soberania, para o Guerreiro, não é um favor concedido de cima, mas algo que se conquista, sustenta e paga com sangue. Se Portugal hesita, Vidal luta. Se a diplomacia trai, Vidal insiste. Se todos desejam encerrar a guerra, Vidal quer “completar a obra de limpeza”.
E ele estava certo.
A Vitória e o Despojamento
O arquétipo do Guerreiro não termina na vitória, mas no desapego. Vidal não se corrompe com o triunfo. Recusa glórias, comendas, prestígios. Governa com espírito público, não como senhor de espólio. Em Angola, pacifica. No Maranhão, protege indígenas. Em Pernambuco, enfrenta conflitos internos sem transformar o poder em instrumento pessoal.
Ferido, aleijado, envelhecido pela guerra, Vidal jamais se entrega ao ressentimento. Seu amor não se fixa em posses, mulheres ou títulos, mas na pátria como realidade espiritual. Como Ogma, cuja força se manifesta também na palavra e na lei, Vidal encerra sua vida dedicando bens aos órfãos, aos velhos, aos desvalidos. O Guerreiro, quando amadurece, transforma a espada em proteção social, sem jamais renegar o combate que o definiu.
O Sentido do Mito
André Vidal de Negreiros não é apenas um personagem histórico; é um mito da formação brasileira. Ele encarna o Guerreiro que luta para restaurar a ordem, não para instaurar o caos; que combate para preservar a tradição, as raízes lusitanas no qual a Fé-Católica é o eixo central da nacionalidade nascente; que aceita a violência apenas como último recurso para impedir uma violência maior: a destruição da fé, da terra e da soberania.
Assim como Ogma/Ogmios representa a força que ordena, que vincula, que conduz, Vidal foi o braço armado da lusitanidade, da continuidade católica e soberana do Braʃil. Enquanto houvesse a pegada do invasor no chão brasileiro, ali estaria ele para apagá-la. E se precisasse morrer, morreria; mas enquanto vivesse, lutaria.
Esse é o legado do Guerreiro: ensinar que há momentos em que viver sem lutar é viver sem honra e que a verdadeira paz só nasce quando o caos é vencido, nunca tolerado.
quinta-feira, 25 de setembro de 2025
O Império Brasileiro - 2ª Parte: Do Prata ao Amazonas! Do Atlântico aos Andes! É o Braʃil que se Expande!
O Arrasamento das Missões (1631-32)
Os brasileiros, desprovidos de tudo, enfrentaram tribos ainda em pleno vigor, outras admiravelmente organizadas pelos jesuítas, em aglomerações como as de Guaíra contando 200.000 almas.
Um dos poucos espanhóis desbravadores do sertão no Prata, Irala, tinha levado a sua gente até o alto Uruguai, Paraguai, Paraná. Pois, veio mais população espanhola, na ambição por ouro, e resultou fundarem, sucessivamente, três povoações: Oitiveros, Ciudad Real e Vila Rica. Mas, dado o regime da colonização castelhana, isolaram-se esses pueblos no Paraná, degradaram-se em barbárie, por esse mesmo isolamento, e houve que entregar a obra de civilização dos sertões, com o respectivo gentio, aos jesuítas, estabelecendo suas reduções no que é hoje o oeste do Paraná.
O propósito das reduções jesuíticas era manter as tribos, e os territórios, contra a atividade dos paulistas. Nem por isso, evitaram o aniquilamento de Guairá, incluso, as povoações civis, também destruídas. Os espanhóis fizeram a primeira Missão, de Loreto, e não tardou formarem-se outras, como a de São Ignácio-Guaçu. Em breve, havia para mais de 120.000 guaranis aldeados, e com eles, as respectivas possessões avançaram até o coração do continente, a entestar com os redutos brasileiros. A energia de expansão do paulista não o permitiu, e o domínio castelhano foi extirpado, dali, até às raízes.
E foi assim que todo o alto Paraná se incorporou ao Braʃil. Bandeirantes homens, diante de quem, apesar de quantas ferezas e crimes lhes sejam imputados, um historiador inglês, não se contém, e transborda de admiração, em longos elogios. Para quem, não terá havido, pela América, mais bravura, e patriotismo, e intrepidez: “Homens de indômita coragem, e a toda prova para os sofrimentos. Eram os paulistas incansáveis nas suas explorações... Uma raça de homens mais ousados, ainda, que os primeiros conquistadores. Ao passo que extinta era nos espanhóis do Paraguai toda atividade e empresa”.
A Expedição de Pedro Teixeira à Quito (1637–39):
Quando o acaso despejou Orellana e os seus no Amazonas, cujas vagas em declive o levaram até o oceano. Ainda não era conhecido o alto Amazonas, quando outro acaso arrastou, também águas abaixo, de Napo até o Pará, os dois leigos franciscanos, André de Toledo e Domingos de Brieba. Era no tempo dos Filipes, e Castela podia, sem mais objeções, assentar-se comodamente por todo o vale do Amazonas. Para o Braʃil, a tarefa se apresentava bem mais difícil; não bastava ser arrastado pela corrente do rio-mar para percorrê-lo; era preciso o esforço de subir, não, francamente, como o faziam os franceses do São Lourenço, mas devendo disputar o passo a ingleses e holandeses. E tudo se fez.
O governo de Lisboa deu o comando da expedição ao reinol Pedro Teixeira com os proventos e as glórias de subir o Amazonas até Quito. O mesmo Pedro Teixeira que anos antes destruiu os fortes holandeses no Xingu (1625) e na confluência do Maracapucu e o Amazonas (1628). E ele subiu... porque teve dois pilotos brasileiros a guiá-lo, o pernambucano Pedro da Costa Favela e o fluminense Bento Rodrigues da Costa. Foi este quem, bem explicitamente, seguiu adiante, mostrando o caminho, fazendo as relações com as tribos.
A Conquista do Amazonas
Quando os batavos pretenderam ficar no Amazonas, eram as Províncias Unidas a nação mais poderosa do mundo. De certo momento em diante, senhores de Pernambuco, tinham os holandeses facilidades especiais, como não havia para os outros. Assim se explica terem se demorado mais tempo naquele Norte do que os ingleses, e mantido por ali um comércio mais seguido do que o de qualquer outro povo. Diz, no tempo, o padre Antônio Vieira que, que só para o transporte de peixe-boi, eles mandavam 20 navios, por ano, às costas do Pará.
Durante o governo de Caldeira Castelo Branco, Bento Maciel, dirige um ataque contra os fortes holandeses de Gurupá, que foram tomados, apesar de defendidos por uma forte guarnição de 300 europeus. Foi essa primeira grande derrota deles, ali. Na mesma ocasião, destruíram-se engenhos de açúcar que lhes pertenciam, e que demonstrava o intuito de fazerem colonização estável. Depois virá Luiz Aranha, orientado por pilotos brasileiros de Pernambuco e Maranhão, e relata: “... fiz pazes... grande número de gentio. E o persuadi que me acompanhasse com as suas canoas e armas e com ele rendi e tomei duas fortalezas holandesas que naquele grã-rio tinham situadas, uma chamada Matutu. E outra de Nassau cativando-os a todos... assim botei uma nau a fundo”. Conta Frei Vicente do Salvador que, num desses ataques de Luiz Aranha, Bento Maciel teve que vir em quatro canoas, “ao socorro da caravela em que Aranha atacava ao holandês; a gente de Bento Maciel atacando a nau flamenga a machado, abriram-lhe o costado e a fizeram ir a pique, matando a ferro e fogo a tripulação de cento e vinte homens”. Dois a três anos depois, sucede os feitos de Pedro Teixeira no Xingu (1625), matando a maior parte das respectivas guarnições. Os poucos que escaparam, sob a conduta do tenente Bruine, vieram trazer a triste noticia ao Almirante Lucifer, que se achava no Oiapoque, aonde, como representante da Companhia batava das Índias Ocidentais, tratava de levantar um forte. Para depois em 1628, tomar e desmantelar o forte holandês levantado na confluência do Maracapucu e o Amazonas.
Os holandeses insistem e, em 1629, Bento Maciel os bate de novo, e lhes toma fortificações. Não desanimam ainda: em 1639, mandam um navio de 20 canhões, em operações cb~tht Gurupá, navio que foi tomado por Cáceres. Gurupá era ponto vivamente procurado. Não conseguiram tomá-lo, mas insistiram: só num ano — 1647, mandaram ali 8 navios fazer resgates. Durante todo esse tempo, oies, assim como os franceses, tiveram o apoio efetivo dos nhecngafbas, numeroso e valente gentio de Marajó. Note-se, agora: tudo isto se fazia sem os necessários auxílios da metrópole. Em 1624, o pernambucano Antônio Barreiros, capitão-mor do Maranhão, dizia ao rei: “... tive do governador de Pernambuco Matias de Albuquerque um aviso da parte de V. Maj. de inimigos e como me vejo sem socorro algum de pólvora, ou munições, para defesa desta tão desfavorecida conquista...”. Nem o pobre Matias podia mandar o que ele mesmo não tinha, que os sucessos de cinco anos depois bem demonstraram o abandono do próprio Pernambuco, a jóia do Braʃil de então.
De toda essa freqüência de estrangeiros no Amazonas, resultou ficarem estabelecidos no Pará, com a colônia aí feita: “50 ingleses, franceses e irlandeses, alguns deles casados e antigos moradores de Lucena, gente. muito prejudicial e nociva... aliados com esse corsário ubrandogos, e seu filho”. O corsário é o mesmo chamado, por outros, de Andregus e Raldregues, e que aparece como a alma dos tratos que o invasor ainda mantém na terra; é aprisionado, assim como o filho, e desterrados para as terras do Itapicuni. Tais estranhos são nocivos porque “não convém que vão para a Holanda nem Europa, por serem muito práticos e grandes línguas de gentio...”.
Tais façanhas, não teriam garantido para o Braʃil aqueles remotos sertões se os Paulistas, que já dominavam todo o centro-oeste, não viessem de lá com as suas conquistas, até as terras amazônicas, consolidando com seu valioso prestígio o domínio brasileiro.
Em 1662, o Tocantins já era perfeitamente conhecido deles, e livremente percorrido pela bandeira de Paschoal Paes de Araújo, o mesmo que fez recuar o comandante português Mota Falcão, mandado contra ele com uma forte expedição de tropas regulares, a título de proteger os índios guajurus. Nos seus dias, já Manuel Correia percorrera o Araguaia, subindo até o pequeno afluente Araiés, onde, em 1670, descobriu minas que, por longínquas, não puderam ser desde logo exploradas. No ano precedente, os bandeirantes Gonçalo Paes e Manuel Brandão repetiram a façanha de Pascoal Paes, em sentido inverso – subindo o Tocantins até o Araguaia. Oito anos depois, o brasileiro Amaro Leite chegou com a sua expedição ao rio afluente que tomou o nome de Rio das Mortes, devido à grande mortandade produzida pelas febres. Outros pretendem que a denominação provém do terrível massacre praticado pelos índios carajás e araiés sobre os companheiros.
Em abril de 1674, uma Carta Régia de Lisboa tem de gritar, sobre a extensão do continente: “Cabo da tropa da gente de São Paulo que vos achais nas cabeceiras do rio Tocantins e Grão-Pará: eu vos envio muito saudar!...”.
O Estabelecimento da Rota Fluvial Prata-Amazonas:
Em 1650 sob ordens secretas de D. João IV, o bahiano Antônio Pereira de Azevedo, que já havia em 1648 destruido uma Missão castelhana no Itatin, foi designado junto com Raposo Tavares, para chefiar uma numerosa bandeira que partiu de São Paulo seguindo os rios Tietê, Paraná e Paraguai, indo para o oeste até os altiplanos bolivianos onde nasce o rio Mamoré, afluente do Amazonas, seguindo o rio Madeira, depois o Amazonas até chegar a Gurupá (PA), na sua foz. Foi oque deu ensejo, posteriormente, para a formação de uma grande bandeira fluvial comandada pelo sargento-mor Francisco de Melo Palheta, que partiu de Belém em 1722 com a incumbência de fazer um minucioso levantamento sobre todo o curso do rio Madeira, seus habitantes, atividades econômicas dos colonos, dos padres lusitanos e dos concorrentes estrangeiros, já que a coleta e comercialização das drogas do sertão amazônico eram bastante rendosas. Assim era desbravada a rota fluvial Guaporé-Mamoré-Madeira-Amazonas que ligava Vila Bela da Santíssima Trindade (MT), centro aurífero no vale do Guaporé a Belém - PA, e daí para Lisboa.
O mesmo Palheta participaria de uma expedição em 1727 para a região conflagrada do Cabo do Norte (Amapá), quando trouxe de Caiena as primeiras mudas de café para o Brasil e que constituíram no principal produto de um importante ciclo econômico.
Para o sul!
O ministro Lopo de Saldanha, português, quando procura o remédio possível para a mísera situação do sul, manda que recorram aos paulistas “que com o só provimento de pólvora e chumbo, têm penetrado e descoberto a maior parte do Brasil”. O ministro evocava uma tradição viva: bastou que se falasse na ida de paulistas para ali, e a onda de tapes e castelhanos estremeceu.
Em 1680 o governador do Rio de Janeiro Manoel Lobo, ordenou que erguesse uma fortaleza, diante de Buenos Aires. A fortaleza de Colônia do Sacramento, que visava assegurar o domínio da riba setentrional do Prata, fixando a fronteira natural do Brasil (omitia praeclara).
Esses esforços luso-brasileiros, era o coroamento das incurções bandeirantes para o sul, empreendidas, desde pelo menos 1636. Em 1638, após o arrasamento das Missões do Tape por Antônio Raposo Tavares, uma poderosa bandeira avançou pela margem direita do Rio Uruguai. Três anos depois, em 1641, uma outra incursão bandeirante, composta por 400 paulistas e cerca de 2000 tupis comandada por Manoel Pires, genro de Antônio Raposo Tavares, desciam o Mbororé, afluente do rio Uruguai.
quem deu a Portugal o faro daquele Sul foi um Paulista, o grande Fernão Paes Leme: os castelhanos e os seus índios adiantaram-se até onde os paulistas consideravam do Braʃil, e o bandeirante, “descendo da cidade de São Paulo com muitos naturais intrépidos e esforçados, os quais, apresentando batalhas aos castelhanos e seus confederados, por várias vezes lhes fizeram viva guerra. Constrangidos do ferro, e temido da mortandade, desalojaram de muitas aldeias, e se retiraram para os seus domínios perseguidos, fugindo maltratados”.
Se pretendia, ainda, implantar mais duas colônias, uma no local onde os espanhóis ergueriam Montevideo - o que já, em 1723, chegaram a intentar - e outra no Cabo Negro, afim de estabelecer conexões permanentes entre os povoados, concretizando a velha aspiração lusitana de dominar o estuário do Rio da Prata.
Bastava que o Estado português aproveitasse essa tradição, em vez de entregar o caso às suas tropas degradadas, e o Braʃil estaria onde o quiseram levar depois. Finalmente, salvou-se a parte onde se imprimiu o traço dos bandeirantes. Em 1703, o paulista Domingos da Figueira fez a viagem até o Colônia do Sacramento, e consignou-a em roteiro completo, com todas as indicações e descrições subsidiárias. Aí, já ele assinala – que em St. Marta há povoamento e criação de gado, pelo brasileiro Domingos de Brito. Capistrano, em comentário, referindo-se a esse roteiro, nota: “Os paulistas poderiam ser encarregados de fazer um caminho menos longo e menos exposto ao inimigo do que o usado até então. O interesse, porém, visava a outro ponto e resumia-se todo nos lucros auferidos do contrabando com os espanhóis.
Ao passo que os representantes do Estado português inutilizavam a tentativa, e estragavam a mesma posse militar, os Cosme da Silveira e Antonio de Souza estabeleciam as primeiras fazendas de criação, nos campos de Viamão e Capivari (1717). Pouco depois, com os outros Paulistas, abria-se a estrada ainda hoje seguida pelas tropas – de São Paulo ao Rio Grande. Anos depois, quando foi preciso salvar, ali, a tradição brasileira, vigorosamente combatida por Ceballos, valeram especialmente os destemidos esforços dos Paulistas – fundando e mantendo a colônia de Iguatemi, explorando e garantindo a posse dos campos de Guarapuava, ao mesmo tempo que cortavam todo aquele Sul de estradas, por onde pudessem acudir prontamente, em boa estratégia, os reforços militares necessários.
Num dos piores momentos dessa campanha, chegou a combater um exército de Paulistas que acorreram para libertar a Colônia do Sacramento, cercada e ameaçada pelos castelhanos de Buenos Aires.
Descoberta do Ouro em Mato Grosso (1690) – As Monções:
Reflita-se: embora já sistematizado a rota para as minas de Cuiabá, desde 1650, todo o caminho se fazia, ainda, de São Paulo até lá, tendo, como escalas, seis ou sete casais de roceiros, nos intervalos de dezenas e dezenas de léguas de natureza crua, apenas percorrida pelos sertanistas e tribos Inimigas.
Em 1797, relatava, o sargento-mor de engenheiros, Ricardo de Almeida Serra: "A viagem que se faz de São Paulo a Cuiabá, é pelos rios Tietê, Paraná, Pardo Camapuã, Coxim, Taquari, Paraguai, Porrudos e Cuiabá, descem do uns e subindo outros, nos quais se passam mais de 10 cachoeiras... 600 léguas de navegação, em que se gastam seis meses”. Faltou mencionar: que as longas e ásperas léguas se faziam tendo o gentio inimigo ao lado, ou pelas costas, a alvejar do mato, os viajantes, que não tinham melhor garantia, nem outro resguardo além da impávida valentia.
Em Socorro do Braʃil!
Antes do descobrimento das minas havia mais de cem famílias paulistas entregues à criação de gado nas cabeceiras do rio São Francisco, de onde se irradiará aquele núcleo, subindo o São Francisco para se entroncar com sesmeiros da Casa da Torre.
A Bahia era então o centro político-administrativo do Braʃil. São Paulo emergia como base do bandeirismo e expansão territorial. Desse modo, muitos filhos de famílias nobres baianas se casaram com paulistas para ampliar terras no interior, tomando parte nas expedições (entradas). Quase todas familias tradicionais paulistas tem laços de sangue com famílias bahianas advindas desse período.
Lembremo-nos dos termos em que o paulista Domingos Jorge, desbravador do Piauí, ali se encontra, nos afastados sertões, com o explorador pernambucano Domingos Sertão. Quando os dois valentes se confraternizam para completar a conquista do território, que não será somente para eles, mas, sobretudo, para o Braʃil, em que se identificam.
Ameaçada a Bahía pelos gueréns (1668), vêm os terços de Paulistas a defender a civilização que já era brasileira, contra a fúria selvagem. É uma das mais violentas investidas dos aimorés. Barbosa Calheiros, Paulista de estirpe, apesar de todo o seu valor, sucumbe numa das primeiras refregas. Vem outro paulista substituí-lo, esse João Amaro, que Southey chama famoso caudilho. Então, comentando o caso, o historiador inglês acentua: o que distingue o Braʃil é, “... não ter havido mesquinhas considerações de interesses privados ou locais, que obstassem a dar-se a esse paulista a inteira direção da empresa”. E tão conscienciosamente se desempenhou da sua tarefa, continua o historiador, que durante meio século não se ouviu falar de índios levantados. A grande sesmaria de terras, e outros favores, com que o recompensam, não o prendem: João Amaro volta a sua atividade de bandeirante; mas a sua passagem fica assinalada na povoação fundada pelos seus paulistas, e que é hoje, a cidade de Santo Amaro-BA.
Mais tarde, para resolver o caso dos negros do quilombo dos Palmares, de novo apelaram para o valor guerreiro dos paulistas. Fez-se um verdadeiro tratado, com o bandeirante Domingos Jorge Velho, que, à frente de mil dos seus conterrâneos, marchou do sertão do Piancó, na Bahía, a Garanhuns, em Pernambuco, e, aí, em combinação com as forças do valente pernambucano Bernardo Vieira de Melo, conseguiu dar o grande golpe nos negros aldeados. Desta segunda passagem de paulistas, restam as povoações de São Caetano, Anadia e Atalaia nas Alagoas, fundadas pelos soldados de Jorge Velho, nas sesmarias que lhes foram doadas.
Houve um momento em que lhes foi dado lutarem até nas terras do Amazonas: o Paulista Paschoal Paes, foi quem resolveu, para eles, o caso das tribos hostis de entre Tocantins e Amazonas, assim como regularizou o tráfico fluvial entre Goiás e Pará.
A Solidariedade Nacional
Desde que existiu, o Braʃil foi uma pátria, solidária em sentimentos e em ação. E tanto é assim que a metrópole conta sempre com esta solidariedade das gentes, e recomendava explicitamente aos seus representantes: “Tanta obrigação tem o governador de uma capitania de defendê-la, como de mandar as forças dela ao socorro de qualquer outra que precisar do seu auxílio; sendo certo de que nesta recíproca união consiste essencialmente a maior força de um Estado”.
Não há rivalidades que estorvem. Quando o holandês ataca a Bahia, e é preciso defendê-la, o então governador Furtado de Mendonça, desavindo com o Bispo, aceita a intervenção de Simão da Guerra, e fazem-se pazes. Antes de tudo, não passara, o caso, de discussões e contendas mansas – “Estas são as guerras civis da terra”, comenta, sem malícia, a sinceridade de Frei Vicente, o mesmo que tanto se horroriza do facciosismo espanhol que deviam cooperar na Paraíba.
Sem essa tradição, o povo da Bahia não se teria amotinado, reclamando que viessem socorros para amparar o Rio de Janeiro, atacado por Duguay-Trouin, mal defendido pela covardia do reinol Castro Moraes. Em outros transes, no momento em que foi preciso, milícias locais, de Pernambuco e Bahia, vieram em socorro a Colônia do Sacramento ao sul.
“Dê mão aos nossos, que lá estão... ainda que não seja um subordinado, e não haja obrigação legal... ”. Dizia-se aos que se dirigiam para as conquistas no Pará. Nesse espírito de solidariedade se fez a tradição brasileira. De um extremo ao outro, os brasileiros se sentem possuídos de um dever patriótico. Com esse espírito de solidariedade nacional, descortinam-se interesses políticos superiores, a que se subordinam ambições e zelos pessoais. Há personalidades fortes, que dominam sucessos e conduzem destinos; mas quando os motivos puramente individuais se chocam com tais interesses, é o proveito geral que prevalece.
No Maranhão, Jerônimo Albuquerque sopita o impulso de enfrentar e corrigir a insolencia do reinol Castelo Branco; o valente contém a espada, cujo valor deve ser para bater o inimigo comum. Naquele Pará, cuja selvageria ambiente parecia ter envenenado a alma do colono, desencadeiam-se as ambições, e a maldade se impõe, muitas vezes. Agitam-se ambições e ódios; mas, no momento de deflagarem-se em luta aberta, os de valor feroz, como Bento Maciel, os intrépidos capitães que são Fragoso, Antonio de Albuquerque, Souza d’Eça... contêm-se, e evitam a guerra civil, nos mesmos motivos patrióticos por que enfrentaram e venceram franceses, holandeses e ingleses. Enquanto isto, o historiador argentino Mejía, é obrigado a reconhecer que – “o mais cruel inimigo do Prata era o Peru”.
O Braʃil, tão bem unificado em sentimento patriótico, tais qualidades de destaque não são exclusivas, nessa, ou naquela província, as qualidades dos paulistas estendiam-se a outros brasileiros: “Pernambucanos e paraenses eram igualmente intrépidos em dominar territórios”.
Não se conhecem, nos dois primeiros séculos de formação do Braʃil, nem guerras civis, nem lutas de facção. O pior período, nos tateios da organização, quando vivem os homens na prática constante da guerra, cordialmente unidos, lutando, apenas, contra o estrangeiro, se passa numa relativa paz interna. Somente quando a metrópole bragantina, degradada em "sanguessuga de tributos", impôs monopólios lesivos através de companhias de comércio, é que surgiram as primeiras fraturas. É quando os Braganças separam as populações com as garantias feitas ao reinol insolente e ganancioso, incapaz de qualquer atividade que não seja a rapina mercantil. Os levantes de Maneta, Beckman (1648) e Filipe dos Santos (1720) não expressavam divisões regionais, mas reação contra a "espoliação tenaz, implacável" da metrópole. Os conflitos posteriores — Emboabas (1708-09), Mascates (1710-11), Inconfidência (1789) — foram de caráter econômico, reflexo de um povo que, já organizado e produtivo, reluta em deixar-se roubar. Essa foi a chaga colonial cujas sequelas ainda perduram.
O Império Brasileiro - 1ª Parte: Da Conquista à Reconquista e à Nobreza da Terra.
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