domingo, 26 de julho de 2026

Diogo Álvares Correia, O Caramuru. O Arquétipo do Amante no Mito Fundador do Brasil

O Arquétipo do Amante é o conector apaixonado que une opostos pela vitalidade sensual e o amor, celebrando a beleza da terra e da união cultural, mediador civilizacional, matriz de alianças, figura de passagem entre mundos, fundador por união, não por conquista. Por vezes, são traços que nos leva ao amante trágico e apaixonado que une reinos através da paixão proibida/transcendente, Romeu e Julieta, ou o herói que "casa" com a deusa local da terra, lenda céltica de Tristão e Isolda.

A fundação mítica do Brasil frequentemente se apoia em narrativas de encontros, naufrágios e alianças de sangue. No centro dessa tapeçaria épica destaca-se a figura de Diogo Álvares Correia, o Caramuru. Eternizado pelo poema oitocentista de Frei José de Santa Rita Durão, o drama de Caramuru, Paraguaçu e Moema transcende o mero registro histórico-literário: ele funciona como uma poderosa atualização do Arquétipo do Amante.O que torna a saga de Caramuru verdadeiramente fascinante, contudo, é como sua estrutura dramática espelha, de forma quase simbiótica, os eixos centrais da mitologia céltica do amor. Distante de ser um decalque simplista, o mito fundacional brasileiro opera uma síntese entre as lendas de Tristão e Isolda, Diarmuid e Gráinne e o trágico destino da deusa Clíodhna, oferecendo uma perspectiva única sobre as forças criadoras e destrutivas do Eros.

Dos três patriarcas de maior vulto na fundação do Brasil: Diogo Alvares Correia "O Caramuru", João Ramalho, e Jeronimo d'Albuquerque.....  Diogo Álvares se eleva como melhor expressão do Arquétipo do Amante. Embora João Ramalho e Jerônimo de Albuquerque tenham, igualmente, gerado proles numerosas e que constituiram em núcleos irradiadores civilizacionais do Brasil, suas uniões se basearam na mancebia pragmática e na conveniência das alianças nativas, nenhum deles elevou sua ligação ao altar do sacramento. Sua presença na Terra (seguramente anterior à 1509), confere-lhe também uma anterioridade mítica primeva, como o náufrago absoluto que é engolido e refundado pelo território.

O Casamento Sagrado (Hieros Gamos) e a Soberania: O amadurecimento do Amante em Caramuru exige a validação de sua escolha perante o Cosmos e a História. O traslado de Catharina Paraguaçu à Europa é a consagração jurídica e espiritual de sua união. Ao casar-se legitimamente em França, com o batismo cristão de sua esposa como Catherina du Brèsil, o casal é acolhido pela corte de Henrique II e Catarina de Médici não como súditos ou intermediários coloniais, mas como os legítimos soberanos do Brasil.

A saga de Diogo Álvares transmuta-se em aliança dinástica. Só em Caramuru o Eros se converte em Logos fundacional, pois sua união é a única chancelada pela realeza e legitimada pelo sacramento, transformando o afeto individual na certidão de nascimento mística e jurídica da nação brasileira.

Quando observado à luz dos antigos mitogemas célticos do amor, a história de Caramuru, Paraguaçu e Moema revela-se uma profunda homologia mítica: uma gramática simbólica comum, na qual o mar, o desejo, a travessia e o sacrifício unem-se em torno do Arquétipo do Amante.

Como nas velhas narrativas da Irlanda, da Bretanha e das costas atlânticas da Europa, o oceano não surge apenas como cenário. Ele é a fronteira entre mundos, ponte entre civilizações, ventre iniciático e túmulo ritual. Tal como era, em tempos pré-romanos, o rio Lima, entre a Lusitânia e Galiza, temido pelos antigos soldados romanos que o tinham como o rio do esquecimento, um limiar onde a memória da pátria poderia dissolver-se, também o Atlântico opera como um rio cósmico de transformação. Quem o atravessa deixa de pertencer inteiramente ao mundo anterior.

Do mesmo modo, nas tradições arturianas, a travessia para Avalon representa o abandono da ordem comum e a entrada num espaço suspenso entre vida, morte e eternidade. O oceano Atlântico do mito brasileiro assume função semelhante: Portugal desaparece atrás da linha do horizonte e, diante das praias ultraequinocialis, inicia-se uma nova ordem histórica, humana e espiritual.

Ao deixar as praias do Brasil rumo à França, Diogo Álvares não vive apenas uma jornada de retorno; ele se torna o vértice de um triângulo amoroso idêntico à estrutura de uma das maiores lendas arturianas e célticas: Tristão e Isolda. A inclusão de Moema na narrativa altera profundamente a dinâmica do herói.   

No mito céltico, Tristão divide-se entre duas mulheres de mesmo nome: Isolda da Irlanda (seu verdadeiro amor, místico e proibido) e Isolda das Mãos Brancas (sua esposa legal na Bretanha, a quem ele rejeita no leito amoroso).O paralelo com o poema brasileiro é cirúrgico:Paraguaçu assume o papel de Isolda da Irlanda: a escolhida, a iniciadora mística que cruza o oceano com o herói para validar sua união no Velho Mundo. Moema personifica Isolda das Mãos Brancas: a preterida, aquela cuja intensidade do amor não encontra eco no herói.O desfecho de ambas as rejeitadas converge na dor e na morte. No mito céltico, enquanto Isolda das Mãos Brancas sucumbe ao desgosto após mentir sobre as velas do navio que traria a cura para Tristão, Moema traduz essa agonia em ato físico, lançando-se às águas e agarrando-se ao leme da nau até que o fôlego lhe escape. Ambas representam a dolorosa condição da "outra", cuja existência é consumida pela recusa do amado.

No épico brasileiro, essa polaridade reaparece sob nova forma. Catarina Paraguaçu assume o papel da mulher escolhida: a companheira iniciática que cruza o oceano ao lado do herói, legitimando sua união. Já Moema encarna a mulher abandonada, consumida pela intensidade de um amor sem retorno. Mas o paralelo não reside apenas na rivalidade amorosa. Em ambas as tradições, o amor desloca o herói para fora da ordem comum. Tristão afasta-se da estabilidade feudal, e Caramuru abandona definitivamente o mundo português original. O oceano torna-se então o espaço da metamorfose. O homem que retorna jamais é o mesmo que partiu.

Se a estrutura narrativa de Caramuru emula Tristão, o destino fatal de Moema encontra seu duplo metafísico na trágica lenda irlandesa de Clíodhna (Clíodna), a deusa do amor e da beleza do Outromundo (Tír na nÓg).Apaixonada pelo mortal Ciabhán, Clíodhna abandona seu reino divino para viver o amor na terra dos homens. Todavia, enquanto dormia na praia esperando pelo retorno de seu amado, uma onda gigante enviada pelo deus do mar a tragou, afogando-a antes que a união se consumasse.A analogia elementar com o Canto VI do poema de Santa Rita Durão é espantoso:

Dimensão

Mito Céltico (Clíodhna)

Épico Brasileiro (Moema)

Arquétipo

Deusa da beleza e do amor incondicional

Índia de "gentileza" e formosura extremas

Transgressão

Abandona o Outromundo por um mortal

Rompe com os limites de sua tribo pelo europeu

Nexo Elemental

Arrastada e sufocada pelo mar

Afoga-se voluntariamente nas águas do oceano

Simbologia

O amor que transcende e morre na imensidão

O amor que destrói ao perder o chão (e o leme)

A água, em ambas as tradições, atua como o útero e o túmulo de Eros. Para Moema, soltar o leme em meio ao desmaio final é o equivalente ao sono de Clíodhna na praia: a entrega absoluta do eu a um sentimento que a imensidão do oceano engole, mas imortaliza.

Um terceiro eixo liga o épico brasileiro à tradição feniana de Diarmuid e Gráinne. Na lenda irlandesa, Gráinne (prometida ao envelhecido chefe guerreiro Fionn mac Cumhaill) apaixona-se pelo jovem Diarmuid e o obriga a fugir com ela. O casal passa dezesseis anos escondendo-se em florestas e cavernas, sob a perseguição implacável e ciumenta de Fionn.No contexto brasileiro, o tema da perseguição movida pelo ciúme reaparece, mas sofre uma fascinante inversão:Na Irlanda, é o homem traído (Fionn), símbolo da autoridade e do status quo patriarcal, quem caça o casal pelas matas.No Brasil, é a mulher rejeitada (Moema) quem assume o papel ativo de perseguidora, caçando o casal que parte, trocando a densidade da floresta pela liquidez do mar aberto.Enquanto a caçada de Fionn dura anos e termina em uma reconciliação tensa (antes da morte trágica de Diarmuid por um javali), a perseguição de Moema condensa-se em minutos ou horas de desespero heroico e trágico. Moema, portanto, absorve a fúria do perseguidor traído de Diarmuid, mantendo viva a chama do amor obsessivo que recusa a perda.

Outro ponto de convergênte com o ciclo de Diarmuid é o mitogema da arma prodigiosa. Na lenda irlandesa, Diarmuid recebe de seu pai adotivo, o deus Óengus, armas de poder sobrenatural, a espada Moralltach, essenciais para garantir sua proteção contra forças esmagadoras. De forma análoga, Caramuru se serve de seu bacamarte. O impacto do disparo, interpretado pelos Tupinambás como um domínio quase divino sobre o trovão, opera na narrativa fundacional a mesma função da arma mágica céltica: um instrumento de intervenção providencial que confere ao herói o prestígio necessário para salvaguardar sua vida e o seu amor na terra nova.

O poema de Santa Rita Durão alcança uma sofisticação psicológica que nenhuma das lendas célticas atinge de forma isolada. Ele distribui as faces claras e escuras do Arquétipo do Amante entre seus protagonistas. Diogo Álvares e Paraguaçu representam o amadurecimento do Amante que se conecta aos arquétipos do Rei e da Rainha. Eles não buscam apenas a paixão destrutiva e adúltera (como Tristão e Isolda); eles realizam o casamento, cruzam fronteiras transculturais, geram descendência (os brasileiros) e constroem um legado civilizacional. É o amor gerativo, que une dois mundos (Portugal e a nação Tupi) para fundar uma nova identidade.

Moema encarna, com precisão cirúrgica, a Sombra do Amante Rejeitado. Quando o impulso de conexão do Amante não é correspondido, ele degenera em possessividade, inveja e autodestruição:"Não vinha menos bela do que irada; / Era Moema, que de inveja geme..."— Santa Rita Durão, Canto VI.Sua raiva ("bárbaro... tigre e não homem") e sua incapacidade de deixar o amado partir a conduzem ao colapso do ego. Ela se destrói porque, na lógica da sombra do Amante, a vida sem a fusão com o outro perde a razão de existir.

A genialidade inconsciente da tradição que gerou a saga de Caramuru reside em não reduzir a fundação do Brasil a uma fábula idílica ou a uma tragédia absoluta.Ao fundir o eixo terrestre e gerativo de Diarmuid (o refúgio e o casamento na terra) com o eixo marítimo e trágico de Tristão e Clíodhna (a dor e a morte nas águas), o nascimento mítico do Brasil assume contornos únicos. O Eros que funda a nação brasileira é simultaneamente criador e destruidor, redentor e assassino. Para que a união transcultural de Caramuru e Paraguaçu prospere e gere os alicerces dos brasileiros, a história cobra o seu tributo de sangue e lágrimas nas águas do Atlântico: o sacrifício de Moema, a eterna Amante sacrificada no altar da fundação nacional.

Caramuru cruza esse oceano e deixa de ser plenamente europeu. Paraguaçu atravessa-o e deixa de pertencer apenas ao universo tupinambá. Moema perece nele e torna-se eterna. Assim, o Atlântico não é mero caminho geográfico da fundação brasileira. Ele é o próprio agente espiritual da metamorfose. Nas águas profundas do oceano desaparecem antigas identidades e nasce uma nova civilização atlântica: brasileira, marítima, trágica e geradora.

Mas a obra do Amante não se encerra na travessia; ela apenas ali principia. Pois todo Hieros Gamos autêntico reclama sua consumação na fecundidade. Da união sacramental de Diogo Álvares Correia e Catharina Paraguaçu não surgiu apenas um casal lendário, mas uma das mais nobres e antigas linhagens formadoras do Brasil. Sua descendência irradiou-se pelos primeiros séculos da colonização, entrelaçando-se às mais diversas famílias da terra nascente, multiplicando-se em sucessivas gerações que fariam da antiga aliança entre o português e a princesa normanda-tupinambá um dos mais vigorosos troncos genealógicos da nacionalidade. Antes mesmo que existisse um povo brasileiro plenamente consciente de si, já existia a sua estirpe.

Nessa perspectiva mítica, Caramuru não figura apenas como patriarca, mas como o grande semeador da nacionalidade; e Catharina Paraguaçu, elevada pelo sacramento, pela diplomacia régia e pela memória épica, converte-se na Grande Matriarca do Brasil. Catharina como fruto das relações normando-bretãs com tupinambás, sua ascendência ao velho mundo, parece encontrar seu pleno cumprimento ao reencontrar, nas praias da Bahia, a terra destinada a gerar uma nova civilização celto-atlântica. O antigo imaginário céltico conhecia a soberania feminina da terra personificada em Éire, cuja união legítima com o rei conferia fecundidade e legitimidade ao reino. De modo análogo, tal se apresenta Catharina Paraguaçu como a Senhora da Terra Brasileira, aquela cuja união sacramental com Caramuru não apenas reconciliou dois mundos, mas investiu simbolicamente a nova pátria de sua primeira realeza espiritual.

Assim, o mito fundacional brasileiro completa o seu arco heroico. O náufrago torna-se patriarca; a princesa bretã-tunpinambá torna-se rainha; o amor converte-se em dinastia; e a dinastia transforma-se em povo. Da convergência entre o Atlântico europeu e o Atlântico indígena, ergue-se uma descendência cuja grandeza não reside apenas no número, mas na vocação histórica de sintetizar continentes, sangues e tradições. Se Moema representa o sacrifício pelo qual toda fundação exige seu tributo, Caramuru e Catharina representam a recompensa da História: uma prole tão fecunda que nela a própria nação brasileira reconhece, ainda hoje, um de seus mais antigos berços genealógicos, como se toda a posteridade do Brasil fosse, e é, a prolongação da floração daquele primeiro e sagrado casamento celebrado no Brasil.


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quinta-feira, 18 de junho de 2026

A Seleção Brasileira dos Ignorados - O Time dos Sonhos que a Nike-BETs-CBF lhe Priva de Ver TODAS as Copas.

A Confederação Brasileira de Desportos (CBD), criada em 1914, deixou de existir em 1979, quando surgiu a CBF — Confederação Brasileira de Futebol, uma atecnia grotesca de denominação jurídica. Trata-se, na realidade, de uma federação, e não de uma confederação, embora essa aberração tenha sido validada. Não é, contudo, esse o nosso propósito temático nestas breves linhas. O que importa destacar é que, nesse modelo que surgia, com o aval e o incentivo da FIFA, gestaram-se os mecanismos que possibilitaram o controle do futebol brasileiro por uma entidade privada, alheia à representação esportiva nacional. Em 1989, Ricardo Teixeira ascendia à presidência da entidade. E os efeitos dessa nova estrutura já se fizeram sentir na Copa do Mundo de 1990, na Itália. 

A partir de então, Sebastião Lazaroni foi alçado ao comando técnico da Seleção e passou a privilegiar atletas que atuavam no futebol europeu. Junto com eles, importou sistemas táticos pouco afeitos à tradição brasileira, como o 3-5-2. Estranho para os jogadores que atuavam no Brasil, mas não para aqueles que jogavam na Europa, num claro expediente para privilegiar esse tipo de atleta. Um efeito visível dessa política foi deixar fora da Copa do Mundo de 1990 o então camisa 10 do Corinthians, Neto. À época, Neto era o melhor meia-esquerda do Brasil e, indiscutivelmente, o melhor camisa 10 em atividade no cenário nacional. Já havia sido titular da seleção pré-olímpica de 1987 e conquistado a medalha de prata em Seul, em 1988. E, pasmem, pela primeira vez na história, o Brasil foi a uma Copa do Mundo sem um meia armador de ofício, rompendo com uma tradição que remontava às gerações de Didi, Pelé, Gérson, Rivellino, Zico e Sócrates. Concomitantemente, surgiram disputas por "prêmios" oferecidos por patrocinadores entre os jogadores, o que contribuiu para dividir o elenco. 

Nas Eliminatórias para a Copa de 1994, o caso da convocação de Romário é paradigmático. Tudo começou no amistoso entre Brasil e Alemanha, em Porto Alegre, no qual a seleção brasileira derrotou com relativa facilidade a Alemanha, campeã mundial de 1990. A partida demonstrava que o Brasil, mesmo com um time circunstancial, possuía jogadores suficientes para ter vencido a Copa de 1990 com os pés nas costas. Voltando a Romário, nesse amistoso o "Baixinho" foi deixado no banco de reservas, inexplicavelmente. Romário vivia grande fase na Europa e, demonstrando insatisfação, reclamou da situação. Desde então, a dupla dinâmica Parreira e Zé Galo deixou de convocá-lo.Segundo seus críticos, a presença de um Romário incontestável e titular absoluto restringiria a constante rotatividade de jogadores, que favoreceria a valorização de seus passes e a obtenção de comissões decorrentes de futuras transferências para o exterior. Fato é que desde então, a rotatividade de jogadores, muitos dos quais, ilustres desconhecidos, passou a ser uma constante nas convocações. O restante da novela todos conhecem. Outro fato inusitado, que costuma passar despercebido: à época, Taffarel era o terceiro goleiro do Parma e sequer figurava no banco de reservas. Ainda assim, foi estranhamente alçado à condição de titular absoluto da Seleção, mesmo após falhas marcantes, como a que resultou na primeira derrota do Brasil em Eliminatórias, diante da "poderosa" Bolívia (tremei!). Outro grande nome deixado de fora da lista de convocados foi o Palhinha do São Paulo, mais do que o Rai, o cérebro da equipe do São Paulo comandado pelo Telê Santana, campeão mundial sobre o badalado Barcelona. Ausência, ofuscada, em parte, pelo coro que se fazia em torno do Romário. Mais uma vez o Brasil ia para uma Copa do Mundo sem um meia-armador. 

Desde o Lazaroni passando pela dupla Parreira - Zé Galo, Filipão, Dunga, Tite, dentre outros.... a enfase em times defensivos não é um acaso. Times ofensivos exigem conjunto, entrosamento, oque demanda um time fixo, algo incompatível com o esquema de ciranda de jogadores. A seleção de 94, e mesmo a anterior de 90, e doravante todas as posteriores, reflete esse cenário. Um meio campo formado por: Mauro Silva, Dunga, Mazinho e Zinho. Dois volantes e dois meias recuados com orientação para marcar. Tendo a frente apenas Romário e Bebeto. Bebeto no que pese o gol contra o "poderoso" EUA, no minguado 1 X 0 (imagina o Brasil ficar na oitavas contra os EUA.... quase aconteceu) foi figura apagada durante todo mundial. Não propriamente culpa dele, mas pelo isolamento do setor de ataque. Que só funcionou pelas jogadas individuais do Romário. 

Após 94 também foi o marco em que findou o contrato com a UMBRO fornecedora do material esportivo, e deu inicio as tenebrosas transações com a Nike com sua contratação em 1996. Se antes pairavam suspeitas, a CPI Nike-CBF acusou a interferência da marca estadunidense em calendários, amistosos e convocações, além do favorecimento de jogadores, cuja presença na Seleção contribuiria para sua valorização no mercado internacional. Também foram levantadas acusações sobre comissões, intermediações e conflitos de interesse envolvendo dirigentes da CBF e que resultou no afastamento do então presidente Ricardo Teixeira. 


Nada é tão ruim que não possa Piorar!

Fora Ricardo Teixeria, nem por isso o contrato com a Nike foi rompido, afinal todos precisam viver $$$$$$. Não bastasse, em 2018, Michel Temer por intermédio da lei 13.756 criou a figura das BETs, casas de apostas esportivas, com regulamentação do setor ocorrida em 2023-24. Regulamentadas, essas apostas já ocorriam de forma clandestina, caso Ivens Mendes (1997), quando o então chefe da Comissão Nacional de Arbitragem da CBF, Ivens Mendes, foi gravado negociando favorecimentos a dirigentes de clubes em troca de vantagens. O escândalo levou à sua saída e revelou suspeitas de influência sobre arbitragens. Em 2005 novo escandalo A Máfia do Apito, o árbitro Edílson Pereira de Carvalho foi acusado de manipular partidas do Campeonato Brasileiro em associação com apostadores. Onze jogos apitados por ele foram anulados e repetidos.Em 2022-23 o maior escândalo de apostas da história do futebol brasileiro. O Ministério Público de Goiás descobriu uma organização criminosa que aliciava jogadores para provocar: cartões amarelos; pênaltis; expulsões; outros eventos específicos utilizados em apostas. As investigações apontaram manipulações na: Série A e B de 2022; campeonatos estaduais de 2023. Mais de vinte pessoas foram denunciadas, entre atletas e apostadores. As Denúncias de John Textor sobre o Brasileirão de 2023: John Textor afirmou possuir evidências estatísticas de manipulação em partidas do Campeonato Brasileiro de 2023 e apresentou relatórios ao Ministério Público. 


Uma Seleção de Agenciados - A Lista de Convocados pelo Ancelotti em 2026:

Dos 26 convocados pelo técnico Ancelotti para seleção brasileira, 12 figuram direta e indiretamente em listas de casas de apostas:

Neymar é embaixador da Blaze e chegou a fazer publicidade para a empresa logo após sua convocação para a Copa de 2026.

Vinícius Júnior mantém acordo comercial com a Betnacional, além de diversos outros patrocinadores.

Lucas Paquetá é o caso mais conhecido envolvendo apostas, ele foi formalmente investigado pela Federação Inglesa por suposta manipulação de cartões para beneficiar apostadores.

JogadorClubePatrocinador de apostas
NeymarSantosNovibet
DaniloBotafogoVBet
Alex SandroFlamengoBetano
Léo PereiraFlamengoBetano
Lucas PaquetáFlamengoBetano
Igor ThiagoBrentfordHollywoodbets
RayanBournemouthBJ88
WesleyRomaEurobet.live*
(4º jogador do Flamengo citado pela reportagem)FlamengoBetano

Convocados de clubes que exibem casas de apostas em posições secundárias da camisa (mangas ou parte superior):

Douglas Santos (Zenit – Winline);

Luiz Henrique (Zenit – Winline);

Ederson (Fenerbahçe – Nesine).


A Seleção dos Ignorados:

A título meramente ilustrativo, podemos montar uma Seleção apenas com nomes que ficaram fora da Copa e podeis observar o contraste da mediocridade que é o time da Nike-Bets-CBF do que seria uma verdadeira Seleção Brasileira. Eis a lista:

  • Goleiro: Gabriel Brazão
  • Lateral-direito: William
  • Zagueiros: Beraldo e Fabrício Bruno
  • Lateral-esquerdo: Lucas Piton
  • Volante: Breno Bidon
  • Meia-esquerda: Matheus Pereira
  • Meia-direita: Raphael Veiga
  • Ponta-esquerda: Pedro
  • Centroavante: Kaio Jorge
  • Ponta-direita: Yuri Alberto

  • Gabriel Brazão goleiro do Santos F.C.: Foi o goleiro mais exigido do campeonato brasileiro em 2025, líder em número de defesas (127), atuando em um time de defesa mais exposta e que exige mais do goleiro. E Brazão deu conta do recado. Atestando objetivamente como um dos melhores goleiros do Brasil. Nunca foi convocado para seleção brasileira.

    Beraldo e Fabricio Bruno: essa dupla de zaga, estreiou contra a Inglaterra, na estreia do técnico Dorival Junior, e foi o grande destaque da partida que deu solidez defensiva, ante as duas laterais debeis e um time montado de improviso, e que igualmente repetiu sua boa performance no jogo seguinte contra a Espanha. Estranhamente.... após esses dois testes de fogo, que passaram com louvor, não mais foram convocados. Dorival voltou a convocar Marquinhos e outros pernas de paus, para sua desgraça.  

    William, lateral direito do Cruzeiro: desde 2024 tem se destacado no brasileirão como um dos melhores laterais do campeonato, em 2025, ele foi um dos jogadores mais regulares do Cruzeiro. É um lateral equilibrado defensivamente, cruza bem e participa da construção. 

    Lucas Piton, lateral esquerdo do Vasco: em 2025 foi o lateral com mais assistências no Brasileirão, com 7 passes para gol na competição. No total, somou 10 assistências e 1 gol em 48 partidas na temporada. Atuou em 29 dos 30 jogos do Vasco no Brasileirão (como titular), demonstrando grande consistência e importância tática. Seus cruzamentos precisos foram uma das principais armas do time, especialmente na ligação com o atacante Vegetti.

    Breno Bidon, meio campista do Corinthians: em 2025, com apenas 20 anos, Bidon deixou de ser uma promessa e se estabeleceu como titular absoluto do Corinthians. O ponto alto da temporada foi seu papel decisivo na conquista da Copa do Brasil, sendo titular e um dos destaques nas finais contra o Vasco. Disputou 56 jogos, marcando 1 gol e dando 1 assistência. Atuou em várias funções no meio-campo, desde segundo volante até meia-atacante, mostrando grande capacidade tática. Mesmo não sendo um artilheiro, seus números entre os jogadores sub-20 do Brasileirão foram impressionantes: liderou em passes certos (1.591), passes longos certos (93), desarmes (82), interceptações (30) e bolas recuperadas (205). Bidon é um jogador bastante versatil a atuar como segundo volante juntamente com Jorginho Frello ou susbstituindo, conforme a preferencia, Matheus Pereira ou Raphael Veiga. 

    Raphael Veiga, ex- meia do Palmeiras, atualmente no : Em 2023, seus números de passes progressivos (6.82 por 90') e cruzamentos (8.18 por 90') eram altos, e ele era o principal cobrador de escanteios e faltas do time. Porém, em 2025, lesões fizeram seu desempenho cair, ainda sim, com boas atuações, abaixo porém do que vinha apresentando em temporadas passadas. Seus dados de criação no Brasileirão foram razoáveis. Em 25 jogos (1.067 minutos), ele teve 2 gols e 4 assistências, com uma média de 0.34 assistências por 90 minutos. Ele também teve 64 cruzamentos na temporada, mostrando que continuou tentando criar jogadas. Em 2026 em 15 jogos (sendo titular em 9), Veiga já marcou 2 gols e deu 2 assistências. Em comparação com 2025, sua média de participação em gols por jogo melhorou. Se notabiliza também por um chute forte fora da área.

    Matheus Pereira, meia-atacante do Cruzeiro: desde 2024, Matheus é destaque do brasileirão em sua posição. Em 2025, em 34 jogos (32 como titular), marcou 7 gols e deu 7 assistências no Brasileirão. Somando todas as competições, seus números são ainda mais expressivos: 13 gols e 8 assistências em 45 jogos. Sua média de 0.93 finalizações certas por jogo e de 0.23 assistências por jogo confirmam seu papel de protagonista no ataque. Ele também foi um dos líderes em cruzamentos (175) e faltas sofridas (111), o que mostra o quanto a defesa adversária o tinha como alvo. Atua como um "camisa 10", com a missão de ser o articulador do ataque, servindo os atacantes e aparecendo bem para finalizar de fora da área. Qualquer seleção no mundo o teria como titular absoluto! Mas não o time da Nike-Bets-CBF.... 

    Kaio Jorge, centro-avante do Cruzeiro: em 2025, foi o artilheiro do Brasileirão, com 21 gols . Sua capacidade de finalização foi um dos pilares do ataque do Cruzeiro, que terminou a competição na terceira colocação. Também foi o artilheiro da Copa do Brasil, com 5 gols. Ao conquistar a artilharia das duas competições no mesmo ano, ele se juntou a um seleto grupo de jogadores que conseguiram esse feito no Brasil, como Gabigol, Hulk e Cano. Em 33 partidas como titular no Brasileirão, ele marcou 21 gols e deu 8 assistências . A dupla com Matheus Pereira foi um dos grandes trunfos do time. Em 2026, disputou 26 partidas na temporada, marcando 14 gols e dando 2 assistências . No Campeonato Mineiro, ele foi decisivo, marcando 7 gols em 7 jogos, incluindo o gol do título na final contra o rival Atlético-MG. 

    Yuri Alberto, atacante do Corinthians:  em 2024 marcou impressionantes 31 gols, em 2025, terminou o ano como artilheiro do Corinthians, com 19 gols em 58 jogos, além de 3 assistências . Em parte sua queda de desempenho é atribuivel a lesões, contando apenas 24 anos, ainda tem bastante potencial a oferecer.

    Pedro, centro-avante do Flamengo: em 2025, apesar das lesões, Pedro somou 15 gols e 7 assistências em 39 partidas na temporada . Em um recorte apenas do Brasileirão, foram 12 gols e 6 assistências em 21 jogos. Em 2026 em seus primeiros 11 jogos marcou 6 gols e dado 2 assistências. É um centro-avante de área, uma peça a se lançar mão conforme peça o esquema tático, e nesse setor, ele é o melhor em atuação. Embora já tenha sido convocado na seleção brasileira, nunca foi devidamente utilizado, preterido por outros jogadores de qualidade duvidosa.... 


    A Variante Tática

    A entrada de Breno Bidon e a manutenção de Beraldo/Fabricio Bruno, é um bloco de concreto técnico. É um time que, em uma Copa do Mundo, não sentiria a pressão de "ter que resolver" no drible individual, porque o sistema de passes resolveria por eles.

    O mais fascinante nessa formação é que ela não é uma seleção de "segunda linha", como muitos poderiam rotular por não ter nomes que atuam em gigantes europeus. É uma seleção de primeira linha em conceito.

    Se esse time entrasse em campo, o mundo veria uma equipe que domina os fundamentos:

    Sustentação (Jorginho/Bidon)

    Criação em bloco (Matheus/Veiga)

    Movimentação tática (Kaio Jorge/Pedro)

    Saída limpa (Beraldo/Fabricio Bruno)

    1. A Estrutura Tática: O "Losango de Elite"

    A escalação final: Brazão; William, Beraldo, Fabrício Bruno, Piton; Breno Bidon, Matheus Pereira, Raphael Veiga; Pedro, Kaio Jorge, configura um sistema de 4-4-2 (Losango) ou 4-3-2-1 fluido.

    A "Redundância Criativa": O coração do time reside na coexistência de Matheus Pereira e Raphael Veiga. Ao contrário de seleções que centralizam a criação em um único jogador (facilmente neutralizado), este modelo oferece múltiplas rotas de passe. Se um armador é dobrado, o outro assume o protagonismo, forçando a defesa adversária a uma escolha constante de "quem abandonar".


    2. Justificativa das Escolhas Individuais

    O Eixo de Saída (Beraldo/Fabrício Bruno): A dupla justifica-se pela capacidade de progressão vertical com a bola nos pés. Diferente de zagueiros puramente de choque, eles integram o primeiro terço de criação, permitindo que a linha defensiva atue alta, encurtando o campo para os meias.

    O Papel de Kaio Jorge: Ele é a peça-chave que dá "inteligência" ao ataque. Por não ser um centroavante estático, ele atua como o pivô de elo, conectando os dois meias aos espaços vazios. Ele desconstrói as linhas de marcação adversárias através da mobilidade, algo que um "9" tradicional raramente consegue em blocos baixos.


    3. Potencialidade Tática: A "Roda" de Passes

    O potencial deste time reside na geometria do campo. O time é desenhado para jogar em espaços curtos e médios, utilizando a leitura de jogo (cognição) em vez da explosão (física).

    Ao adotar um padrão de circulação baseado em passes de ruptura e triangulações coordenadas pelos dois meias, a equipe torna-se um "pesadelo" para seleções que dependem de transições rápidas. O Brasil, neste modelo, não joga o jogo do adversário; ele dita o ritmo, forçando o rival a um desgaste mental e físico acumulado pela perseguição da bola.

    A entrada de Bidon resolve a vulnerabilidade contra contra-ataques que a formação inicial apresentava. O time ganha a capacidade de controlar tempos de jogo: acelerar quando a brecha surge e cadenciar para descansar com a bola quando necessário.


    4. Avaliação de Potencial: O Teto da Seleção

    Analiticamente, esta seleção possui um potencial que a posiciona entre as 10 melhores do mundo, com uma característica rara: o encaixe funcional supera a soma das partes.

    Embora nomes como França e Inglaterra possuam "superastros" individuais, a seleção proposta possui maior coerência coletiva. Em um mata-mata de Copa do Mundo, a estabilidade tática e a inteligência dos articuladores seriam fatores determinantes para anular a vantagem física das potências europeias.

    O valor técnico deste time não reside na reputação de mercado, mas na geometria das conexões. A formação sintetiza um retorno ao futebol associativo brasileiro, modernizado pela ocupação racional dos espaços e pela disciplina tática de um meio-campo equilibrado, tornando-a capaz de "colocar na roda" adversários que dependam apenas de talento individual fragmentado.

    Olhando para o cenário de 2026, é difícil encontrar uma seleção (mesmo entre as potências) que tenha um encaixe de peças tão lógico e funcional quanto o esboçado. Enquanto os outros times brasileiros dependem de que o ponta "acorde inspirado", esse time depende apenas da execução do modelo. E no futebol de seleções, a estabilidade do modelo é o que vence campeonatos. Essa seleção jogaria o futebol como ele deveria ser jogado: com a bola no chão, com inteligência e, acima de tudo, com respeito à geometria do campo. 


    Uma Seleção de 82 Melhorada!

    Essa formação monta um time com identidade de jogo clara, que valoriza a posse, o passe e a inteligência tática, em vez do jogo de transições e drible usados pelos atuais técnicos retranqueiros. Taticamente essa formação se aproxima, com ajustes modernos, do espírito da Seleção de 1982, e em alguns aspectos pode ser vista como uma versão "corrigida" para os problemas que derrubaram aquele time.

    A Seleção de Telê Santana jogava num 4-2-2-2 com uma volância dupla (Cerezo e Falcão), dois meias criativos por dentro (Sócrates e Zico) e um ataque móvel (Serginho Chulapa centralizado e Éder como um ponta-esquerda construtor). Os laterais (Leandro e Júnior) eram peças-chave na saída e no apoio. O time dominava os jogos com posse, tabelas e infiltrações, mas sofria com a transição defensiva, especialmente porque Cerezo e Falcão não eram volantes de contenção pura, e os meias não recomponham com intensidade. O gol de Paolo Rossi em 82 nasce exatamente de um erro de saída de bola no meio-campo.

    A Síntese da "Correção Histórica"

    Essa formação é uma "versão 2026 de 82, porém corrigida". Ao inserir jogadores que possuem mecanismos de recomposição (como Pedro, Veiga e o próprio Breno Bidon), tem-se uma estrutura que retém a arte do passe, mas que sobrevive ao "físico" do jogo moderno. Em vez de esperar que um único gênio resolva, a "gênese" da jogada esta distribuida entre os dois meias-armadores. Isso cria um time que é, essencialmente, impossível de marcar por perseguição individual. Como dobrar a marcação em Matheus Pereira se o Raphael Veiga está livre na mesma linha? Como anular o Pedro se o Piton está dando profundidade?


    Uma releitura moderna (4-2-3-1 ou 4-1-4-1 ofensivo)

    Função em 82

    Nome em 82

    Paralelo na sua escalação

    Diferença crucial (a "melhora")

    Goleiro

    Waldir Peres

    Brazão

    Brazão é mais ágil, joga melhor com os pés e é mais confiável que Waldir Peres. Ganho claro.

    Lateral-direito

    Leandro

    William

    Leandro era mais zagueiro, William é mais ala ofensivo. Ambos técnicos, mas William no apoio constante lembra mais o Leandro de 86 (quando virou zagueiro).

    Zagueiros

    Oscar / Luizinho

    Beraldo / Fabricio Junior

    Oscar era um defensor técnico e sereno, parecido com Beraldo. Luizinho era o marcador. A dupla atual tem saída de bola mais qualificada. Ganho moderno.

    Lateral-esquerdo

    Júnior

    Piton

    Júnior era um meia-armador que jogava na lateral. Piton é ofensivo, mas não construtor central. Aqui 82 ainda leva vantagem, embora Piton dê amplitude.

    Volante de saída

    Falcão

    Bidon

    Falcão era um "regista" avant la lettre, chegava na área. Bidon é um construtor de trás, mais posicional, mas igualmente cerebral e de passe refinado.

    Volante de ofício

    Toninho Cerezo

    (Não existe exato na sua formação)

    A principal melhoria tática: colocar Jorginho sozinho, mas com Veiga e Matheus Pereira ajudando. Em 82, Cerezo era o "carregador de piano", mas não tinha intensidade defensiva. Seu time, com Savarino e Matheus Pereira pelos lados, teria mais recomposição do que Zico e Éder jamais tiveram.

    Meia-armador

    Sócrates

    Raphael Veiga (ou Matheus Pereira)

    Sócrates era mestre do passe e da cadência, mas não marcava. Veiga é um armador moderno que faz gols e tem fôlego para voltar. Menos talento puro, mas mais participação sem bola.

    Meia-atacante/Ponta

    Zico

    Matheus Pereira (por dentro)

    Zico é incomparável em talento bruto. Mas Matheus Pereira atuando como um "falso ponta" que vem para dentro, tabela e dá passes verticais — como Zico fazia partindo da meia-direita — cria um dinamismo parecido. Sua leitura é que o time teria um Zico "coletivo", alguém que pensa o jogo.

    Ponta esquerda construtora

    Éder

    Kaio Jorge

    Éder era um ponta que arrematava, mas também construía, tabelava e dava passes. Kaio Jorge é mais móvel, técnico e sai da área. Isso ajuda na fluidez. O ataque ganha em movimentação e com o adicional de marcação na saida de bola por Kaio Jorge.

    Centroavante

    Serginho Chulapa

    Pedro

    Serginho era o patinho feio da seleção de 82, desempenhava a mesma função do Pedro, um atacante de área. Com a diferença que o Pedro tem melhor desempenho estatistico do que chulapa. 

    Ponta direita aguda

    (Não havia em 82; o time fechava com Zico e Leandro)

    Yuri Alberto

    Isso é inovação tática: colocar um finalizador de verdade na ponta direita, invertendo o perfil em relação ao Savarino. Yuri Alberto cortando para dentro e finalizando lembra um atacante de área partindo de fora, algo que 82 não tinha. Dá mais poder de fogo.


    Essa formação proposta de 2026 apresentaria uma transição defensiva muito mais sólida. Yuri Alberto e até Veiga trabalham defensivamente muito mais do que Zico e Éder faziam. Isso reduz o maior defeito de 82: a exposição após perda da posse. Brazão é muito superior ao contestado Waldir Peres. Laterais equilibrados. Leandro e Júnior eram fora de série, mas Piton e William dariam amplitude sem abandonar tanto a defesa. Bola parada ofensiva. Com Fabricio Bruno, Kaio Jorge e Yuri Alberto, o time teria mais estatura e impulsão do que o time de 82.

    Essa escalação tem muito mais recursos ofensivos e variação tática do que a guisa de comparação, a Espanha de 2010. Ela não ficaria trocando passes horizontais sem achar penetração, tem dribladores, finalizadores e jogadores de infiltração. A Suíça de 2010 que carimbou a faixa da Espanha em 2010, sofreria muito mais contra esse time do que sofreu contra a Espanha do tiki-taka lento.

    Ao comparar com a Espanha de 2010, toca-se na ferida tática: o tiki-taka carecia de finalização agressiva. Enquanto a Espanha de 2010 priorizava a posse pela posse, a formação proposta prioriza a posse pela penetração. Yuri Alberto e Kaio Jorge, nesse sistema, funcionam como "agressores" da linha defensiva. Eles não ficam esperando a bola chegar; eles buscam o espaço de ruptura. É uma Espanha com "fome de gol" de Brasil.

    Se comparamos essa formação com a Espanha de 2010.... Kaio Jorge é exatamente o tipo de jogador que desmonta um ferrolho suíço que a Espanha foi incapaz de furar: flutua, tabela, encontra passes entrelinhas. Matheus Pereira tem o drible curto e a visão de jogo para achar espaços onde não parecem existir. Yuri Alberto é um finalizador muito mais agressivo e presente na área do que David Villa ou Torres em 2010. Pedro oferece mobilidade e técnica para sair da área e abrir espaços. Bidon contra uma Suíça retrancada teria tempo para ditar o ritmo e achar passes verticais.

    Esse time corrige os defeitos de 82 (transição defensiva) e 98 (dependência de um craque), e que tem mais poder de fogo que a Espanha de 2010. Não é exagero dizer que, se esse time fosse a campo e tivesse entrosamento, seria o melhor time do mundo atual e candidato fortíssimo ao título de 2026. É conceitualmente, uma versão 2026 da filosofia de 1982: posse, infiltração, laterais ofensivos, inteligência coletiva, mas com a correção essencial da intensidade sem bola, que foi a ruína daquele time mágico. Com um treinador que goste de posse (um Jorge Jesus, por exemplo), esse time jogaria o futebol mais bonito que a Seleção poderia apresentar hoje. Encantaria e faria frente a qualquer seleção do mundo.


    Por que esta Seleção seria, em tese, a melhor do mundo em 2026?

    Seleções como a França ou Inglaterra, hoje, baseiam-se em "momentos de brilhantismo" (Mbappé, Bellingham, etc.). Essa seleção baseia-se em sistemas de jogo. No futebol de seleções, onde o treinamento é curto, o time que tem uma identidade clara de como mover a bola e como reagir à perda da posse ganha uma vantagem competitiva brutal sobre seleções que jogam no "improviso qualificado".

    Um time que sabe exatamente o que fazer com a bola sob pressão, graças a Bidon e ao seu meio-campo articulador, não entra em pânico quando o adversário marca pressão alta. Ele usa o passe para "quebrar" essa pressão.Todos sabem o que fazer. O drible é compensado pelo passe, a criatividade é compensada pela intensidade defensiva. Ninguém está "sobrando" no campo; todos têm um par ou uma linha de passe próxima.

    Essa escalação prova de que o problema da Seleção Brasileira não é a falta de talentos, como a mídia sugere, mas a falta de proposito para o ataque. Desnudando o esquema de retranca projetado para a ciranda de jogadores, que sacrifica o talento. Se essa Seleção existisse, ela não seria apenas "boa"; ela seria a referência técnica do planeta, porque devolveria ao futebol a racionalidade associativa que os esquemas de favorecimentos e negociatas tem destruido.


    ERRATA: havia correlacionado, inicialmente, na lista apresentada o nome de Jorginho Frello do Flamengo como volante. Leitores atentos, me informaram, que Jorginho, tem dupla-nacionalidade, italo-brasileiro e jogou a Eurocopa pela Itália em 2021, se sagrando, inclusive, campeão pela mesma. Logo não pode mais jogar pelo Brasil. Muito triste.....! Mas não o culpo, diante dessa entidade maligna que tomou de assalto o futebol brasileiro, eu faria o mesmo (ainda que a Itália tenha ficado de fora). 

    quarta-feira, 20 de maio de 2026

    A Malha Ferroviária Brasileira, Construtores e Sabotadores.

     


    Desde a primeira ferrovia de Mauá (1854) até o fim da monarquia, com Dom Pedro II (1889), a extensão total da malha ferroviária do Brasil Império atingiu 9.583 km. A guisa de comparação, a Argentina, no mesmo período, com um território quatro vezes menor e uma população muito mais ínfima, que à época se resumia a uma única cidade de envergadura, Buenos Aires, detinha 9.432 km de ferrovias. Outra comparação reveladora é com os Estados do Sul dos EUA (excluindo os do Norte, mais industrializados), eminentemente agrícolas e escravocratas, que, em 1861, antes da eclosão da Guerra Civil Americana, contavam com 15 mil km de malha ferroviária. Outro paralelo é a Rússia, ainda 'feudal' e agrícola, que, em 1880, já contava com 15.500 km de ferrovias! Até 1890, expandiu para 21.000 km! O que, mais uma vez, ante tantas outras evidências, desmonta as deslavradas mentiras monarquistas, destinadas a enganar trouxas, sobre um Império próspero e desenvolvido. Cabe assinalar que essa parca extensão, no Brasil, era fruto quase exclusivamente de iniciativas privadas, ao passo que, na Argentina, como na Rússia Czarista, sua rede ferroviária foi estendida com forte aparato estatal. E é justamente pela mão do Estado que o Brasil observará, na República Velha, sua expansão ferroviária.


    A República Velha e o Verdadeiro Ciclo de Expansão

    A República marcou o início do verdadeiro ciclo de expansão ferroviária brasileira em escala nacional. Ao contrário do período imperial, em que as linhas surgiam de forma fragmentada e majoritariamente subordinadas aos interesses privados exportadores, a República Velha consolidou uma política mais ampla de integração territorial e modernização logística.

    Os presidentes que mais expandiram a malha ferroviária do Brasil foram aqueles que governaram entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX, período em que houve forte investimento em infraestrutura ferroviária. Os principais destaques são:

    Prudente de Morais (1894-98): Registrou a construção de 2.265 km de ferrovias.

    Campos Sales (1898-1902): Adicionou 1.078 km à malha nacional.

    Afonso Pena (1906-09) e Nilo Peçanha (1909-10): Sob o governo de Afonso Pena, houve cerca de 2.500 km construídos. Seu falecimento antes de encerrar o mandato, entre 1909 e 1910, no governo de Nilo Peçanha, foram inaugurados mais 2.000 km de malha, fruto de obras e contratos já iniciados e ajustados anteriormente no governo de Afonso Pena. Isso totalizou 4.500 km de ferrovias construídas no Brasil, um verdadeiro salto como nunca houvera havido, até então, em tão curto espaço de tempo. Em 1906, a malha estava em torno de 16.000 km e, em 1909, chegou a aproximadamente 18.500 km.

    Hermes da Fonseca (1910-14): Seu governo realizou o maior "boom" ferroviário da história do Brasil (entre 1907 e 1914), com 4.767 km de linhas férreas construídas, impulsionado pelos lucros do café e pela política de arrendamentos de ferrovias pelo governo federal. Ele é o verdadeiro campeão de expansão em um único mandato republicano.

    Epitácio Pessoa (1919-22): Apresentou um crescimento relevante de aproximadamente 1.500 km.

    Arthur Bernardes (1922-26): Em 1922 (ano do Centenário da Independência), a malha ferroviária estava próxima de 26.500 km (fontes apontam que o Brasil já possuía aproximadamente 29.000 km de ferrovias, curiosamente quase a mesma extensão da malha operacionalizada que o país possui hoje). Bernardes entregou efetivamente no curso do seu governo 2.172 km de novas linhas férreas (atingindo cerca de 28.500 km em 1926). De igual modo que sucedeu com Afonso Pena, seu sucessor acabou colhendo os frutos de sua gestão.

    Washington Luís (1926-1930): Inaugurou mais 2.500 km, em grande parte linhas já iniciadas por Arthur Bernardes. Durante seu governo, a malha cresceu em torno desses 2.500 km, embora ele tenha adotado o lema "governar é abrir estradas".


    A Era Vargas (1930-45 / 1951-54): Expansão e Modernização das Vias Férreas Brasileiras:

    Com a ascensão de Getúlio Vargas, o ritmo de expansão manteve-se expressivo em seu primeiro período, acrescendo 4.000 novos quilometros de linhas férreas para o Brasil, com a malha ferrovirária brasileira chegando a um total de 34.000 km. Havendo uma estagnação na década de 1950, em seu segundo mandato, sua prioridade se voltou para a consecução da Petrobrás e da Eletrobrás, além de ter sido um mandato incompleto com seu trágico desfecho. 

    Antes de Vargas, as locomotivas eram a vapor, e as locomotivas elétricas já eram uma realidade, com maior capacidade de carga, velocidade e menor custo logístico. E Vargas deu início a modernização de todas, antiquadas, linhas férreas brasileiras. Caso da Estrada de Ferro Central do Brasil (EFCB). Também foi com Vargas que passou-se a padronizar as bitolas, que, anteriormente, diferia conforme as empresas contratadas para a construção dos ramais. Esse grave erro não foi fruto do acaso, visava impedir a integração ferroviária nacional, fenomeno também observado na Argentina, que teve suas vias férreas construidas por companhias inglesas. 


    Jucelino Kubitcheck (1956-61), O Começo do Fim:

    No governo JK, o Brasil atingiu o seu pico histórico de malha ferroviária, girando entre 37.000 km e 38.200 km, quando passa a decair com o próprio JK, que deu início ao processo de desativação de ramais, tidos, por deficitários. 

    No seu governo foram acrescidos entre 850 à 1.000 km de novos ramais, contudo, eram ferrovias inciadas ainda no governo Vargas, oriundas de seu Plano de Metas (Vargas), e conclusas em seu mandato (JK). Exemplo foi a conclusão de trechos da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil bem como as ligações na Rede Mineira de Viação que haviam sido iniciados décadas antes tanto no primeiro governo Vargas (1930-45), como em seu segundo governo (1951-54). Não houve nenhum acréscimo de novas ferrovias originárias do seu mandato, mas sim o início das desativações de ramais. 
     
    A desativação física de ramais foi simbólica (menos de 200 km efetivos). O que JK fez, na verdade, foi preparar o terreno legal e institucional: Criou a RFFSA - Rede Ferroviária Federal S.A. (1957) unificando as ferrovias federais para mapear quais eram deficitárias e desativá-las, esse foi o real intuito de sua criação. Sem a unificação, o governo federal não poderia desativar ferrovias sob controle estaduais mediante sua federalização. Foi criado o conceito de "Ramal Antieconômico", dando ensejo a diretriz de que ramais de baixa densidade deveriam ser fechados e substituídos por rodovias.

    Assim, no governo JK, a malha operada pela RFFSA permaneceu estável (entre 28.460 km em 1957 para 28.583 km em 1960). 


    A Ditadura Militar (1964–85): O Trator da Erradicação:

    Se JK planejou, os governos militares executaram a erradicação com força máxima. O processo ocorreu em etapas cirúrgicas:

    Sob o governo de Castelo Branco, foi criado o GESFRA (Grupo Executivo para Substituição de Ferrovias e Ramais Antieconômicos).

    Governo Costa e Silva, O "Boom" da Erradicação (1966–70): Somente nesses quatro anos de forte repressão, foram eliminados 3.926 km de vias férreas.

    Governo Médici (1969-74): Em 1974, o total de ramais completamente erradicados pela Ditadura já somava 4.881 km (algumas fontes apontam até 7.500 km computados os trechos que tiveram o tráfego permanentemente suspenso à espera da retirada dos trilhos).

    Cidades inteiras do interior (especialmente em redes como a Leopoldina, no Rio/Minas, e a Rede Nordeste) viram seus trilhos serem literalmente arrancados e vendidos como sucata. O pretexto era puramente contábil: eliminar o déficit financeiro da RFFSA a qualquer custo.

    Foi o período de maior encolhimento e destruição sistemática da malha ferroviária da história do Brasil, totalizando entre 6.000 km e 8.000 km de linhas desativadas ou erradicadas.


    A Éra FHC (1995-2002), Privatização e Desmonte:

    O processo de desmonte do sistema ferroviário brasileiro atingiria uma etapa terminal e decisiva durante o governo de Fernando Henrique Cardoso (1995–2002). Sob a cartilha das reformas neoliberais e os ditames do Consenso de Washington, o patrimônio ferroviário construído pelo Estado ao longo de um século foi liquidado. Sob o pretexto de reduzir prejuízos fiscais, modernizar a infraestrutura e atrair capitais privados, a RFFSA foi fragmentada em seis malhas regionais e transferida para o controle privado por meio de concessões de 30 anos.

    O processo, contudo, foi marcado por um profundo prejuízo ao erário público. A privatização da RFFSA arrecadou um valor irrisório, cerca de R$ 1,76 bilhão pelo leilão de suas malhas. O escândalo maior residiu na aceitação generalizada das chamadas "moedas podres" como forma de pagamento. Trata-se de títulos da dívida pública emitidos pelo próprio governo que haviam se desvalorizado drasticamente no mercado devido à inadimplência do Estado; esses papéis sem liquidez eram comprados por consórcios privados com enormes deságios (por uma fração do valor de face) e aceitos pelo governo FHC pelo valor integral na hora de arrematar as ferrovias. Na prática, o patrimônio público foi entregue em troca de papéis de dívida quase sem valor real de mercado.

    Paralelamente, em 1997, o governo consumou a privatização da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) por R$ 3,3 bilhões, valor risível, dado o tamanho das reservas minerais da empresa. Esse leilão desferiu outro golpe no sistema ferroviário nacional, pois a venda da mineradora incluiu, de porteira fechada, o controle de duas das ferrovias mais modernas, eficientes e lucrativas do país: a Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM) e a Estrada de Ferro Carajás (EFC). Em vez de servirem a um projeto nacional integrado de transportes, essas joias da infraestrutura estatal passaram a funcionar como meros sistemas logísticos cativos a serviço da exportação de minério de ferro por um ente privado.

    Na prática, o modelo de concessões da década de 1990 priorizou quase exclusivamente esses corredores de exportação de alta rentabilidade (minério e commodities agrícolas), abandonando o restante do território. As concessionárias privadas fecharam os olhos para os ramais do interior considerados de baixa lucratividade, interrompendo o tráfego e deixando milhares de quilômetros de trilhos, locomotivas e vagões se deteriorarem ao relento.

    O impacto social foi devastador. Diversas estações históricas foram abandonadas e convertidas em ruínas, cidades do interior perderam subitamente suas conexões logísticas e econômicas, e o transporte ferroviário de passageiros de longa distância foi virtualmente extinto do território nacional. O direito de locomoção sobre trilhos foi suprimido da população, sobrevivendo apenas em sistemas metropolitanos de passageiros (trens urbanos e metrôs) ou em raras linhas remanescentes de exploração turística e mineradora.

    Conclusão:
    O período áureo de expansão ferroviária institucional no Brasil ocorreu entre 1890 e 1945, com destaque para Prudente de Morais, Afonso Penna, Hermes da Fonseca, Arthur Bernardes, Washington Luís e Getúlio Vargas (1930-45). Após isso, o Brasil priorizou as rodovias. A partir do governo JK (Plano de Metas) e consolidando-se nos anos 1960/70 (Ditadura Militar), quando o Brasil sofreu uma radical substituição do modelo ferroviário pelo rodoviário, com fito de beneficiar e atrair multinacionais automobilísticas, resultando no sucateamento e posterior erradicação de milhares de quilômetros de trilhos. O Desmonte final, veio com FHC privatizando a RFFSA e praticamente extinguindo os ramais de passageiros.


    Período Presidente Ferrovias construídas (km)
    7 Mar. 1871 – 25 Jun. 1875 Rio Branco 597
    25 Jun. 1875 – 5 Jan. 1878 Cotegipe 1.071
    5 Jan. 1878 – 28 Mar. 1880 Sinimbu (Liberal) 530
    28 Mar. 1880 – 21 Jan. 1882 Saraiva (Liberal) 840
    21 Jan. 1882 – 3 Jul. 1882 Martinho Campos (Liberal) 245
    3 Jul. 1882 – 24 Mai. 1883 Paranaguá (Liberal) 698
    24 Mai. 1883 – 6 Jun. 1884 Lafaiete (Liberal) 654
    6 Jun. 1884 – 6 Mai. 1885 Dantas (Liberal) 1.164
    6 Mai. 1885 – 20 Ago. 1885 Saraiva (Liberal) 146
    20 Ago. 1885 – 10 Mar. 1888 Cotegipe (Conservador) 1.572
    10 Mar. 1888 – 7 Jun. 1889 João Alfredo (Conservador) 709
    7 Jun. 1889 – 15 Nov. 1889 Ouro Preto (Liberal) 63
    15 Nov. 1889 – 21 Jan. 1891 Deodoro - Rui 445
    22 Jan. 1891 – 23 Nov. 1891 Deodoro - Araripe / Lucena 620
    23 Nov. 1891 – 15 Nov. 1894 Floriano Peixoto 1.255
    15 Nov. 1894 – 15 Nov. 1898 Prudente de Morais 2.265
    15 Nov. 1898 – 15 Nov. 1902 Campos Sales 1.078
    15 Nov. 1902 – 15 Nov. 1906 Rodrigues Alves 1.519
    15 Nov. 1906 – 14 Jun. 1909 Afonso Pena 2.186
    14 Jun. 1909 – 15 Nov. 1910 Nilo Peçanha 2.070
    15 Nov. 1910 – 15 Nov. 1914 Hermes Fonseca 4.767
    15 Nov. 1914 – 15 Nov. 1918 Venceslau Brás 1.518
    15 Nov. 1918 – 28 Jul. 1919 Delfim Moreira 279
    28 Jul. 1919 – 15 Nov. 1922 Epitácio Pessoa 1.281
    15 Nov. 1922 – 15 Nov. 1926 Artur Bernardes 2.172
    15 Nov. 1926 – 24 Out. 1930 Washington Luís 1.038
    3 Nov. 1930 – 31 Dez. 1942 Vargas 2.332
    3 Nov. 1930 – 31 Dez. 1943 Vargas 201
    3 Nov. 1930 – 31 Dez. 1944 Vargas 229


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    quarta-feira, 22 de abril de 2026

    Democracia Direta, Técnica e Virtuosa: Os Fundamentos do Castilhismo


    "Lá [no Rio Grande do Sul] o Presidente do Estado propõe a lei que toma a forma plebiscitária, com a publicidade ampla, a colaboração direta do povo na apresentação de emendas e referendum dos Conselhos Municipais. São os imperativos categóricos da ordem social, impondo-se como necessidades iniludíveis, e vencendo as frágeis barreiras erguidas por preconceitos teóricos em equilíbrio instável, no trapézio mirífico da divisão de poderes..."

    Getúlio Vargas

    Uma Filosofia Política de Linhagem Clássica

    O Castilhismo, mais do que uma "ideologia gaúcha" localista, como acusam seus detratores, e para além de uma ideologia brasileira, configura-se como uma filosofia política de linhagem clássica. A distinção teórica e prática entre a "Democracia Verdadeira" (castilhista) e o "Parlamentarismo" (liberal) constitui o cerne de uma crítica abrangente ao regime representativo liberal. A tese central que emerge é que o sistema atualmente chamado de democracia não passa de uma oligarquia plutocrata, ao passo que o modelo concebido por Júlio de Castilhos representa a única forma de democracia real para uma nação soberana.

    Os castilhistas, influenciados pelo positivismo de Auguste Comte, realizavam uma leitura da história que resgatava a distinção aristotélica entre a política como ética do bem comum e a política como mera disputa de interesses privados. Para além disso, estabelece-se um paralelo histórico sofisticado entre o período dos "Cinco Bons Imperadores" de Roma e o regime castilhista no Rio Grande do Sul (1891–1937), demonstrando que a prosperidade de uma nação não depende do acaso, mas de um sistema de sucessão baseado na virtude e na competência técnica, em oposição tanto à hereditariedade quanto ao clientelismo eleitoral.


    A Crítica ao Regime Representativo

    O sistema de votar em deputados e senadores para que decidam em nome do povo é uma falácia. O parlamento atua como um filtro corruptor que impede a vontade popular de chegar ao governo, servindo apenas para que a oligarquia financista e seus grupos de pressão comprem influência. Além disso, o parlamento é composto por pessoas sem conhecimento técnico para legislar sobre temas complexos, transformando a política em um "balcão de negócios". O parlamentarismo, associado ao liberalismo, visa proteger interesses oligárquicos contra a autoridade do Estado. Quando o poder é fragmentado entre centenas de parlamentares, ninguém é responsável por nada, o que facilita a corrupção sistêmica.


    O Paralelo com Roma: Sucessão por Mérito

    O mais próspero período de Roma, e por assim da própria civilização ocidental ocorreu no século II d.C. como o auge da humanidade. O segredo desse período foi a sucessão por adoção: o imperador escolhia o homem mais apto a sucedê-lo, não por laços de sangue, mas por capacidade administrativa e militar. O declínio começou quando Marco Aurélio quebrou essa lógica e nomeou seu filho Cômodo, um herdeiro biológico, porém inepto. O castilhismo vê nesse ciclo a prova de que a virtude e o mérito, e não o acaso hereditário (Monarquia) ou a representação eleitoral (Liberalismo), garantem a prosperidade duradoura.


    A Política como "Ciência do Bem Comum": A Conexão com Aristóteles

    Para Aristóteles, a Polis (o Estado) é o fim último da vida social, e sua função é promover a "Vida Boa", isto é, a vida virtuosa. Os castilhistas adotam integralmente essa premissa ao afirmarem três princípios fundamentais:

    A primazia do todo: O interesse da Nação, entendida como corpo social orgânico, está acima do interesse individual isolado.

    O líder virtuoso: Assim como Aristóteles via na Monarquia e na Aristocracia (o governo dos melhores) as formas puras de governo quando focadas no bem comum, os castilhistas viam no seu "Presidente" um magistrado que personificava a virtude técnica e moral.

    O repúdio à demagogia: Aristóteles alertava que a Democracia degenerava em Tirania ou Demagogia quando os interesses das massas ou de facções particulares sobrepunham-se à justiça. O castilhismo identifica o parlamentarismo liberal exatamente como essa degeneração: uma arena de demagogos que vendem promessas para satisfazer interesses paroquiais e privados. 


    A Democracia Direta Castilhista

    Diferentemente da democracia direta grega antiga (onde todos votam em tudo), a "Democracia Verdadeira" do castilhismo baseia-se na legitimação direta do Executivo. O chefe do Executivo é eleito para realizar um programa técnico, prestando contas não ao parlamento, mas diretamente ao povo. O castilhismo foi pioneiro ao instituir consultas populares obrigatórias por meio de plebiscitos e referendos. Se o governante perdesse o apoio popular em temas cruciais, deveria ser destituído. Isso é denominado Democracia Orgânica.


    A Denúncia do Iluminismo e do Contratualismo

    O Castilhismo sustenta que o Iluminismo introduziu uma deturpação decisiva na política ao focar no Contrato Social e no Individualismo. Para um castilhista:

    O erro liberal: O Iluminismo, tratou o Estado como um "mal necessário", algo criado por um contrato entre indivíduos isolados para proteger suas propriedades e interesses egoístas. Isso transformou a política em mera ferramenta jurídica de salvaguarda do privado, destruindo sua dimensão ética.

    A fragmentação do poder: Ao dividir o poder em "pesos e contrapesos" (Montesquieu), o Iluminismo paralisa o Estado, impedindo-o de agir de forma soberana e técnica. Para o Castilhismo, essa divisão é exatamente o que permite que a plutocracia, os ricos e seus interesses financeiros, controle o governo através de um parlamento fraco e venal.


    Política "Orgânica" versus Política "Mecânica"

    Os castilhistas argumentam que a política contemporânea (liberal-parlamentar) é mecânica (um jogo de peças, votos e leis abstratas, regido por procedimentos vazios), enquanto a política clássico-castilhista é orgânica. Nessa visão:

    A sociedade é um organismo vivo.

    O governo é o cérebro desse organismo.

    Tentar governar através de brigas parlamentares seria como se os membros do corpo tentassem votar para decidir o que a mão deve fazer; o resultado inevitável é a paralisia ou a doença social.

    Essa metáfora orgânica fundamenta a defesa da unidade de comando e da hierarquia técnica como condições de possibilidade para qualquer ação estatal eficaz e justa.


    O Executivo como Poder Legislador e o Estado Técnico

    Um dos pontos mais centrais do castilhismo é a defesa de que o Executivo deve legislar. No modelo de 1891, as leis eram decretadas pelo governo. Isso garantiria probidade, pois as leis passariam a ter um critério científico e de continuidade, sem as emendas e deturpações causadas pelas trocas de favores parlamentares. A Constituição de 1891 retirava do Parlamento o poder de fazer leis, entregando-o ao Executivo. O argumento é que leis devem ser elaboradas por técnicos, não por "ineptos" que defendem interesses privados. Sem a intermediação de parlamentares, vistos como fantoches de plutocratas, o governante poderia focar no bem comum.


    O Castilhismo como Materialização Moderna da Adoção Romana

    O castilhismo, por meio do PRR (Partido Republicano Rio-Grandense), funcionou de forma análoga à sucessão romana. O PRR não era apenas uma legenda eleitoral, mas uma escola de formação ideológica que pregava a probidade e a tecnificação. A sucessão de Júlio de Castilhos para Borges de Medeiros e deste para Getúlio Vargas é apresentada como o equivalente moderno da "adoção romana": o líder escolhia o sucessor mais competente dentro de um terreno fértil de quadros preparados. Tanto em Roma quanto no Rio Grande do Sul castilhista, o Executivo não se submetia ao Senado ou ao Parlamento, e a independência do governo frente à assembleia era garantida pela unidade ideológica e pela disciplina hierárquica. Sem essas travas, o governo se dissolve em facções.


    O Conceito de "Recall" (Mandato Revocatório)

    O castilhismo já previa o que hoje se discute como recall: a possibilidade de o eleitorado retirar o mandato de um governante antes do fim, caso ele se desviasse do interesse público. Isso torna o líder muito mais "escravo" da vontade popular do que um deputado liberal, que, uma vez eleito, fica quatro anos sem prestar contas. Assim, o castilhismo não é uma ditadura, tirania ou regime autoritário, mas uma forma de governo que exige responsabilidade total do líder perante o povo. Os castilhistas buscam a legitimação popular direta, muito mais próxima da "aclamação" clássica do que do "voto mercadoria" das eleições atuais.


    As Raízes Saint-Simonianas: Socialismo Industrial e Tecnocracia

    O castilhismo bebe diretamente da fonte de Saint-Simon, em uma interpretação que se distancia do senso comum contemporâneo sobre "socialismo". Para os castilhistas, o socialismo de Saint-Simon é a peça-chave que concilia ordem industrial com justiça social sem cair no conflito de classes marxista.

    Socialismo como "Industrialismo": Saint-Simon não dividia a sociedade entre burgueses e proletários, mas entre industriais (cientistas, operários, empresários, banqueiros e técnicos: todos os que produzem) e ociosos (nobreza, clero tradicional e burocracia improdutiva). O castilhismo adota essa visão: o empresário nacional que investe e produz é um aliado do trabalhador; o inimigo é o especulador financeiro e o político fisiológico.

    Primazia da administração sobre a política: A famosa frase "A administração das coisas substituirá o governo dos homens" fundamenta a tecnocracia. A sociedade deve ser gerida por uma elite de sábios e técnicos, não por políticos profissionais.

    O "socialismo capitalista" e a propriedade: Saint-Simon não pregava o fim da propriedade privada, mas sua moralização. A propriedade deveria ser instrumento do progresso nacional. O castilhismo herdou essa visão: não se trata de estatizar tudo (comunismo), mas de o Estado dirigir o capital para que sirva ao Brasil, e não a interesses apátridas e particularistas.

    A defesa de que a religião deve focar na melhoria da classe mais pobre é a raiz da tutela moral defendida pelo castilhismo. O Estado não deve ser apenas um gestor de recursos, mas um ente que garante a harmonia social por meio de uma ética superior, ligada ao catolicismo social.

    Assim como Saint-Simon e Comte, os castilhistas veem o Iluminismo e a Revolução Francesa como períodos "críticos" ou destrutivos, que derrubaram a velha ordem sem construir nada no lugar. O socialismo saint-simoniano é a proposta para a fase orgânica e construtiva. O liberalismo iluminista é o regime do "egoísmo"; o socialismo castilhista, o regime do "altruísmo social" e da unidade nacional.


    O Resgate da Soberania e a Verdade Atávica

    A crítica castilhista ao Iluminismo permite ao Castilhismo dialogar tanto com setores da Igreja (por ambos repudiarem a "atomização" social do liberalismo) quanto, mais recentemente, com críticas do identitarismo, seja de esquerda ou de direita, na medida em que este também fragmenta o corpo social em facções estanques. Para o Círculo Castilhista, o modelo liberal é um breve e desastroso parêntese na história da humanidade. O Brasil, por sua formação ibérica e católica, esta destinado a liderar o retorno a essa política da Virtude e da Ordem.

    O castilhismo é, portanto, a prova histórica de que o Brasil pode ser próspero se abandonar o modelo liberal de "negociata parlamentar" e adotar um sistema de centralização técnica, onde a sucessão é guiada pelo mérito e pela continuidade de um projeto de Estado. A interpretação de Saint-Simon é historicamente precisa dentro da lógica do socialismo industrial: o socialismo original não era sobre estatização total, mas sobre a governança dos técnicos e produtores em prol da nação, o que se encaixa perfeitamente no modelo de Estado forte e planejado que defendem.

    O Brasil só recuperará sua soberania, quando abandonar as ilusões liberais, que entrega o país a interesses estrangeiros e financeiros, e retornar ao regime técnico e de consulta direta que transformou o Rio Grande do Sul e, depois, o Brasil na Era Vargas. O Círculo Castilhista apresenta-se, assim, como o portador de uma "verdade atávica": a de que a política autêntica é a busca do bem comum por meio da virtude, da competência e da unidade orgânica da Nação.



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