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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

O Nacionalismo Brasileiro como Promoção e Defesa da Tradição

Só os ricos podem se dar ao luxo de não terem pátria.
Ramiro Ledesma Ramos.

O nacionalismo brasileiro apresenta-se como uma doutrina que transcende a mera exaltação patriótica e o simples programa de defesa econômica. Seu ponto de partida é a distinção entre nação e nacionalismo: a nação constitui uma realidade histórica, enquanto o nacionalismo representa a consciência dessa realidade e a disposição política de preservá-la e defendê-la!

Nessa perspectiva, a nação não nasce necessariamente com a constituição formal de um Estado independente. Pode antecedê-lo, antes de alcançar sua plena autonomia política. O nacionalismo, portanto, não cria a nação; reconhece-a, toma consciência de sua existência e busca assegurar sua continuidade. No caso brasileiro, o Brasil já se constitui como uma entidade nacional desde o período colonial, anterior a sua Independência em 1822.

A origem comum é a base histórica da nação; a consciência nacional transforma essa comunidade em sujeito consciente de sua própria existência; e a unidade política dá expressão estatal a essa realidade. O nacionalismo surge posteriormente como a manifestação consciente da nacionalidade. Seu objetivo é defender aquilo que constitui a existência nacional, tanto em seus aspectos materiais quanto existenciais.

Os aspectos materiais abrangem o território, a soberania, o Estado, os recursos naturais, a economia, a indústria, a infraestrutura e a capacidade tecnológica. Uma nação que não disponha dos meios materiais necessários para sua subsistência encontra-se sujeita à dependência externa.

Os aspectos existenciais dizem respeito àquilo que faz uma determinada nação ser reconhecida como ela mesma: ancestralidade, língua, religião, costumes, memória histórica, e formas culturais. O nacionalismo, assim, não se limita à defesa do território ou da economia. Defender a nação é defender também sua continuidade histórica.

A formação territorial desempenhou papel central no processo da formação nacional. A ocupação do território, as expedições bandeirantes, os conflitos contra invasores estrangeiros e a progressiva expansão das fronteiras criaram experiências históricas compartilhadas entre populações estabelecidas em diferentes regiões do país. As guerras contra franceses e holandeses possuem importância especial, gerando uma consciência de pertencimento comum. A defesa da terra desde o início deixou de ser apenas uma defesa dos interesses portugueses e adquiriu um sentido brasileiro que forjou a nacionalidade brasileira. A posterior consolidação diplomática de nossas fronteiras, particularmente com o Tratado de Madri, completam esse processo. O território é mais do que o espaço físico onde a nação se instalou; é também um dos instrumentos através dos quais floresceu a consciência nacional. Nesse sentido, a Independência representa a transformação de uma nacionalidade historicamente já existente em nação politicamente soberana. A tradição nacionalista sustenta que a autonomia política seria a consequência necessária dessa nacionalidade previamente formada.

O elemento que mais distingue essa concepção de um nacionalismo meramente político é seu caráter orgânico. Diferente das teses liberais a nação não é vista apenas como um contrato entre indivíduos que, em determinado momento, decidiram constituir um Estado, mas como uma nação histórica formada por gerações sucessivas. O indivíduo nasce dentro de uma realidade que não criou: recebe uma língua, uma memória, uma tradição religiosa, costumes, instituições e símbolos advindos de um ambiente pré-existente a si, relacionado ao território e ao povo no qual habita. A nacionalidade, portanto, possui uma dimensão de herança, não apenas econômica, mas também espiritual e cultural.

Daí a importância da tradição, através da qual uma comunidade permanece sendo ela mesma ao longo do tempo. O nacionalismo passa, consequentemente, a ter uma função conservadora num sentido específico: não necessariamente conservar todas as instituições existentes, mas conservar a continuidade nacional através das transformações históricas. O nacionalista pode admitir mudanças políticas, econômicas e tecnológicas; o que não pode aceitar, nessa concepção, é que a mudança resulte na dissolução da identidade histórica nacional.

É nesse contexto que surge a fórmula Sangue, Língua e Credo, correspondente ao antigo ethnos, que identifica os elementos de um agrupamento humano com identidade comum. A nacionalidade brasileira se caracteriza então por três dimensões fundamentais: ancestralidade, língua e religião. O “sangue” diz respeito a uma ancestralidade comum e não a um padrão racial. A formação brasileira resulta, especialmente no primeiro século, do entrelaçamento entre portugueses e normando-tupis, constituindo essa proto-célula a base da nacionalidade brasileira. Assim, a ideia de ancestralidade não exige uniformidade racial: o que importa é a existência de uma genealogia histórica compartilhada. O conceito de “sangue” designa uma continuidade genealógica, e não necessariamente uma uniformidade fenotípica. O brasileiro é, portanto, produto de uma formação histórica específica, herança que não pode ser simplesmente substituída sem que se altere a própria identidade nacional.

A segunda dimensão é linguística. A língua portuguesa é parte da nacionalidade brasileira por ter se incorporado organicamente à formação nacional e por ser atualmente o idioma utilizado pelo Estado e pela maioria esmagadora da população. Sua relação com o Brasil é diferente da de uma língua imposta por uma potência estrangeira: o português nos é legítimo porque foi herdado, legado pelos portugueses aos seus descendentes e transmitido pelas gerações nascidas no Brasil, tornando-se o idioma da nova nacionalidade. Isso não significa negar a existência histórica de outras línguas, em especial o tupi ou brasílico, mas reconhecer que o português se consolidou como a língua comum dos brasileiros, um dos elementos de sua unidade.

O catolicismo é o terceiro elemento mais distintivo. A religião católica é parte da própria formação existencial da nacionalidade brasileira. Consequentemente, preservar o catolicismo tradicional é preservar uma dimensão da própria continuidade nacional. Isso produz uma diferença fundamental em relação a um nacionalismo secular. Para o nacionalismo, a religião não pertence exclusivamente à esfera privada da consciência individual. Ela possui uma dimensão civilizacional e nacional, porque participa da formação histórica do povo. Por isso a importância do catolicismo popular, do seu conjunto de devoções, festas, símbolos, práticas, costumes e manifestações religiosas transmitidos pelas gerações brasileiras. O catolicismo brasileiro, é sobretudo um catolicismo tradicional, encarnado em sua cultura popular.

A consequência lógica é uma ideia particularmente forte de autenticidade: não basta que uma manifestação cultural exista no território brasileiro para ser expressão autêntica da nacionalidade; é necessário que possua vínculo com a tradição histórica da formação nacional. Esse princípio aplica-se à religião, música, literatura, arquitetura, vestuário, costumes e todas as demais manifestações culturais. Assim, o nacionalismo, mais do que um programa político, torna-se intrínseco à sua cultura.

A cultura nacional é resultado de uma sedimentação histórica: d'aquilo que uma comunidade recebeu das gerações anteriores, transformou por sua própria experiência e transmitiu às gerações seguintes. Não se trata, porém, de conceber a cultura ou a tradição como algo estanque e imutável, como costumam acusar certas vozes contraculturais, mas reconhecer que a mudança é legítima quando ocorre mediante influxos culturais próprios, recebidos e transformados pelos nacionais. Em áreas de fronteira, o intercâmbio cultural é algo frequente e legítimo, pois há trocas e não imposição. Já no imperialismo cultural a transmissão é sempre unilateral: impõe-se, não há reciprocidade, e a cultura nacional é progressivamente esmagada até a extinção. Por isso a tradição ocupa posição central: pois é o passado tornado presente pela transmissão.

Essa concepção também produz uma distinção entre elementos orgânicos e exógenos. Orgânico é o que surge ou se incorpora profundamente na formação histórica da nação; exógeno, o que não possui vínculo significativo com ela e pode, por isso, representar ruptura com a continuidade nacional. Essa distinção legitima ou não diferentes manifestações religiosas e culturais, permitindo considerar algumas não apenas estrangeiras, mas descaracterizadoras da nacionalidade. Portanto, uma prática, ainda que realizada no Brasil, pode permanecer exógena quando não guarda continuidade com a formação histórica da nacionalidade tanto quanto genealógica.

Essa característica permite distinguir o nacionalismo do simples assimilacionismo. Este afirma, em termos gerais, que diferentes grupos podem tornar-se membros da nação mediante sua integração à sociedade nacional. O nacionalismo vai além: exige que essa integração ocorra pela participação na continuidade histórica da nação.

A pergunta deixa de ser apenas “esse indivíduo ou grupo está integrado à sociedade brasileira?” e passa a ser “esse indivíduo ou grupo participa da tradição histórica através da qual a nacionalidade brasileira se reproduz?”. A integração nacional, portanto, não significa simplesmente viver no território, possuir cidadania ou compartilhar instituições, mas participar de uma herança histórica comum. Isso explica por que essa concepção pode ser simultaneamente assimilacionista em certos aspectos e fortemente tradicionalista em outros: aceita a incorporação de elementos e pessoas, mas exige que essa incorporação produza continuidade, e não substituição da tradição.

Embora a dimensão cultural e tradicional seja particularmente acentuada, o nacionalismo não se reduz a ela. A defesa da continuidade histórica exige, ao mesmo tempo, a preservação das condições materiais da independência nacional: território, soberania, Estado, recursos naturais, indústria, tecnologia e desenvolvimento econômico autônomo. O nacionalismo econômico surge, assim, como desdobramento necessário da defesa da existência nacional. Uma nação estruturalmente dependente de potências externas não possui verdadeira autonomia. Por isso o nacionalismo brasileiro reivindica um Estado Nacional capaz de defender seus interesses e de assegurar a soberania sobre os meios materiais de sua sobrevivência, aproximando-se, nesse ponto, de determinadas correntes do nacionalismo econômico brasileiro.

Tiradentes, Floriano Peixoto
e Getúlio Vargas

Outro aspecto importante é a associação do nacionalismo brasileiro com o republicanismo. Existe uma tradição política brasileira que antecede a Guerra dos Mascates, a Revolta de Vila Rica, a Revolução Pernambucana, a Inconfidência Mineira, dentre outras de matiz republicana, em que a República se apresenta como a forma política correspondente à essa aspiração de autonomia nacional. É dessa tradição republicana, que aproxima o nacionalismo do positivismo e do castilhismo. O castilhismo surge como uma forma política autóctone, ajustada à realidade brasileira, pautada pela centralidade do Estado, pela coesão institucional, pela Democracia e pelo ideal de desenvolvimento nacional soberano. É nesse diapasão que figuras como Tiradentes, Floriano Peixoto e Getúlio Vargas são compreendidos como momentos de maturação dessa tradição. O nacionalismo, portanto, longe de restringir-se à preservação cultural, exige uma organização política eficaz para a defesa dos interesses nacionais.

Há, nesse ponto, uma aparente contradição que é importante compreender. O nacionalismo é tradicionalista, mas não antimoderno. Ele defende a industrialização, desenvolvimento tecnológico, infraestrutura, organização administrativa e fortalecimento do Estado sem tê-las como incompatíveis com a tradição.

A modernização se distingue da desnacionalização. Modernizar é ampliar a capacidade material da nação; desnacionalizar, é substituir ou romper os elementos que constituem sua identidade étnico-histórica. É possível e desejável defender indústria moderna, administração eficiente e avanços tecnológicos sem abrir mão da língua, da religião, da memória e das tradições nacionais. O desenvolvimento deve servir ao fortalecimento da continuidade nacional, e não à sua substituição.

O nacionalismo é tradicionalista, porque considera a continuidade da herança recebida das gerações anteriores condição da identidade nacional; orgânico, porque entende a nação como comunidade histórica anterior ao indivíduo, e não como simples associação voluntária de cidadãos; genealógico, porque atribui importância fundamental à ancestralidade e à transmissão entre gerações; cultural, porque vê língua, religião, costumes e memória como partes constitutivas da nacionalidade; territorial, político e econômico-soberanista, porque a formação e defesa do território, a soberania estatal e uma base material autônoma são indispensáveis à independência nacional. Buscando assim assegurar a continuidade histórica da nacionalidade, que faz dos brasileiros mais do que um povo, uma etnia, unificados politicamente desde o início de sua formação pelo Estado português, ostentando o status de nação, a mais antiga das Américas, a qual antecede a própria Independência. Quando a partir de então, já dotada de um Estado autônomo, se constitui como um Estado-Nação Uniétnico.

É precisamente nesse ponto que a tradição assume importância central. A nação é concebida como uma cadeia de gerações: os vivos recebem uma herança dos mortos e têm a responsabilidade de transmiti-la aos que ainda nascerão. Ser nacionalista significa, portanto, defender não apenas o Brasil que existe, mas a continuidade histórica daquilo que fez o Brasil ser Brasil, continuidade que se expressa na ancestralidade comum, na língua portuguesa, na tradição católica, na transmissão cultural, na pátria, no Estado e na capacidade de desenvolvimento autônomo e soberano. É dessa combinação que resulta o caráter próprio do nacionalismo brasileiro: orgânico e tradicionalista em sua concepção da nação, católico em sua dimensão espiritual, republicano em sua forma política e soberanista e desenvolvimentista na defesa da independência e da capacidade material do país. Por isso, ele se distancia tanto de um nacionalismo puramente cívico, fundado apenas na cidadania, quanto de concepções que reduzem a questão nacional exclusivamente à economia ou à cultura.



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quarta-feira, 20 de maio de 2026

A Malha Ferroviária Brasileira, Construtores e Sabotadores.

 


Desde a primeira ferrovia de Mauá (1854) até o fim da monarquia, com Dom Pedro II (1889), a extensão total da malha ferroviária do Brasil Império atingiu 9.583 km. A guisa de comparação, a Argentina, no mesmo período, com um território quatro vezes menor e uma população muito mais ínfima, que à época se resumia a uma única cidade de envergadura, Buenos Aires, detinha 9.432 km de ferrovias. Outra comparação reveladora é com os Estados do Sul dos EUA (excluindo os do Norte, mais industrializados), eminentemente agrícolas e escravocratas, que, em 1861, antes da eclosão da Guerra Civil Americana, contavam com 15 mil km de malha ferroviária. Outro paralelo é a Rússia, ainda 'feudal' e agrícola, que, em 1880, já contava com 15.500 km de ferrovias! Até 1890, expandiu para 21.000 km! O que, mais uma vez, ante tantas outras evidências, desmonta as deslavradas mentiras monarquistas, destinadas a enganar trouxas, sobre um Império próspero e desenvolvido. Cabe assinalar que essa parca extensão, no Brasil, era fruto quase exclusivamente de iniciativas privadas, ao passo que, na Argentina, como na Rússia Czarista, sua rede ferroviária foi estendida com forte aparato estatal. E é justamente pela mão do Estado que o Brasil observará, na República Velha, sua expansão ferroviária.


A República Velha e o Verdadeiro Ciclo de Expansão

A República marcou o início do verdadeiro ciclo de expansão ferroviária brasileira em escala nacional. Ao contrário do período imperial, em que as linhas surgiam de forma fragmentada e majoritariamente subordinadas aos interesses privados exportadores, a República Velha consolidou uma política mais ampla de integração territorial e modernização logística.

Os presidentes que mais expandiram a malha ferroviária do Brasil foram aqueles que governaram entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX, período em que houve forte investimento em infraestrutura ferroviária. Os principais destaques são:

Prudente de Morais (1894-98): Registrou a construção de 2.265 km de ferrovias.

Campos Sales (1898-1902): Adicionou 1.078 km à malha nacional.

Afonso Pena (1906-09) e Nilo Peçanha (1909-10): Sob o governo de Afonso Pena, houve cerca de 2.500 km construídos. Seu falecimento antes de encerrar o mandato, entre 1909 e 1910, no governo de Nilo Peçanha, foram inaugurados mais 2.000 km de malha, fruto de obras e contratos já iniciados e ajustados anteriormente no governo de Afonso Pena. Isso totalizou 4.500 km de ferrovias construídas no Brasil, um verdadeiro salto como nunca houvera havido, até então, em tão curto espaço de tempo. Em 1906, a malha estava em torno de 16.000 km e, em 1909, chegou a aproximadamente 18.500 km.

Hermes da Fonseca (1910-14): Seu governo realizou o maior "boom" ferroviário da história do Brasil (entre 1907 e 1914), com 4.767 km de linhas férreas construídas, impulsionado pelos lucros do café e pela política de arrendamentos de ferrovias pelo governo federal. Ele é o verdadeiro campeão de expansão em um único mandato republicano.

Epitácio Pessoa (1919-22): Apresentou um crescimento relevante de aproximadamente 1.500 km.

Arthur Bernardes (1922-26): Em 1922 (ano do Centenário da Independência), a malha ferroviária estava próxima de 26.500 km (fontes apontam que o Brasil já possuía aproximadamente 29.000 km de ferrovias, curiosamente quase a mesma extensão da malha operacionalizada que o país possui hoje). Bernardes entregou efetivamente no curso do seu governo 2.172 km de novas linhas férreas (atingindo cerca de 28.500 km em 1926). De igual modo que sucedeu com Afonso Pena, seu sucessor acabou colhendo os frutos de sua gestão.

Washington Luís (1926-1930): Inaugurou mais 2.500 km, em grande parte linhas já iniciadas por Arthur Bernardes. Durante seu governo, a malha cresceu em torno desses 2.500 km, embora ele tenha adotado o lema "governar é abrir estradas".


A Era Vargas (1930-45 / 1951-54): Expansão e Modernização das Vias Férreas Brasileiras:

Com a ascensão de Getúlio Vargas, o ritmo de expansão manteve-se expressivo em seu primeiro período, acrescendo 4.000 novos quilometros de linhas férreas para o Brasil, com a malha ferrovirária brasileira chegando a um total de 34.000 km. Havendo uma estagnação na década de 1950, em seu segundo mandato, sua prioridade se voltou para a consecução da Petrobrás e da Eletrobrás, além de ter sido um mandato incompleto com seu trágico desfecho. 

Antes de Vargas, as locomotivas eram a vapor, e as locomotivas elétricas já eram uma realidade, com maior capacidade de carga, velocidade e menor custo logístico. E Vargas deu início a modernização de todas, antiquadas, linhas férreas brasileiras. Caso da Estrada de Ferro Central do Brasil (EFCB). Também foi com Vargas que passou-se a padronizar as bitolas, que, anteriormente, diferia conforme as empresas contratadas para a construção dos ramais. Esse grave erro não foi fruto do acaso, visava impedir a integração ferroviária nacional, fenomeno também observado na Argentina, que teve suas vias férreas construidas por companhias inglesas. 


Jucelino Kubitcheck (1956-61), O Começo do Fim:

No governo JK, o Brasil atingiu o seu pico histórico de malha ferroviária, girando entre 37.000 km e 38.200 km, quando passa a decair com o próprio JK, que deu início ao processo de desativação de ramais, tidos, por deficitários. 

No seu governo foram acrescidos entre 850 à 1.000 km de novos ramais, contudo, eram ferrovias inciadas ainda no governo Vargas, oriundas de seu Plano de Metas (Vargas), e conclusas em seu mandato (JK). Exemplo foi a conclusão de trechos da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil bem como as ligações na Rede Mineira de Viação que haviam sido iniciados décadas antes tanto no primeiro governo Vargas (1930-45), como em seu segundo governo (1951-54). Não houve nenhum acréscimo de novas ferrovias originárias do seu mandato, mas sim o início das desativações de ramais. 
 
A desativação física de ramais foi simbólica (menos de 200 km efetivos). O que JK fez, na verdade, foi preparar o terreno legal e institucional: Criou a RFFSA - Rede Ferroviária Federal S.A. (1957) unificando as ferrovias federais para mapear quais eram deficitárias e desativá-las, esse foi o real intuito de sua criação. Sem a unificação, o governo federal não poderia desativar ferrovias sob controle estaduais mediante sua federalização. Foi criado o conceito de "Ramal Antieconômico", dando ensejo a diretriz de que ramais de baixa densidade deveriam ser fechados e substituídos por rodovias.

Assim, no governo JK, a malha operada pela RFFSA permaneceu estável (entre 28.460 km em 1957 para 28.583 km em 1960). 


A Ditadura Militar (1964–85): O Trator da Erradicação:

Se JK planejou, os governos militares executaram a erradicação com força máxima. O processo ocorreu em etapas cirúrgicas:

Sob o governo de Castelo Branco, foi criado o GESFRA (Grupo Executivo para Substituição de Ferrovias e Ramais Antieconômicos).

Governo Costa e Silva, O "Boom" da Erradicação (1966–70): Somente nesses quatro anos de forte repressão, foram eliminados 3.926 km de vias férreas.

Governo Médici (1969-74): Em 1974, o total de ramais completamente erradicados pela Ditadura já somava 4.881 km (algumas fontes apontam até 7.500 km computados os trechos que tiveram o tráfego permanentemente suspenso à espera da retirada dos trilhos).

Cidades inteiras do interior (especialmente em redes como a Leopoldina, no Rio/Minas, e a Rede Nordeste) viram seus trilhos serem literalmente arrancados e vendidos como sucata. O pretexto era puramente contábil: eliminar o déficit financeiro da RFFSA a qualquer custo.

Foi o período de maior encolhimento e destruição sistemática da malha ferroviária da história do Brasil, totalizando entre 6.000 km e 8.000 km de linhas desativadas ou erradicadas.


A Éra FHC (1995-2002), Privatização e Desmonte:

O processo de desmonte do sistema ferroviário brasileiro atingiria uma etapa terminal e decisiva durante o governo de Fernando Henrique Cardoso (1995–2002). Sob a cartilha das reformas neoliberais e os ditames do Consenso de Washington, o patrimônio ferroviário construído pelo Estado ao longo de um século foi liquidado. Sob o pretexto de reduzir prejuízos fiscais, modernizar a infraestrutura e atrair capitais privados, a RFFSA foi fragmentada em seis malhas regionais e transferida para o controle privado por meio de concessões de 30 anos.

O processo, contudo, foi marcado por um profundo prejuízo ao erário público. A privatização da RFFSA arrecadou um valor irrisório, cerca de R$ 1,76 bilhão pelo leilão de suas malhas. O escândalo maior residiu na aceitação generalizada das chamadas "moedas podres" como forma de pagamento. Trata-se de títulos da dívida pública emitidos pelo próprio governo que haviam se desvalorizado drasticamente no mercado devido à inadimplência do Estado; esses papéis sem liquidez eram comprados por consórcios privados com enormes deságios (por uma fração do valor de face) e aceitos pelo governo FHC pelo valor integral na hora de arrematar as ferrovias. Na prática, o patrimônio público foi entregue em troca de papéis de dívida quase sem valor real de mercado.

Paralelamente, em 1997, o governo consumou a privatização da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) por R$ 3,3 bilhões, valor risível, dado o tamanho das reservas minerais da empresa. Esse leilão desferiu outro golpe no sistema ferroviário nacional, pois a venda da mineradora incluiu, de porteira fechada, o controle de duas das ferrovias mais modernas, eficientes e lucrativas do país: a Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM) e a Estrada de Ferro Carajás (EFC). Em vez de servirem a um projeto nacional integrado de transportes, essas joias da infraestrutura estatal passaram a funcionar como meros sistemas logísticos cativos a serviço da exportação de minério de ferro por um ente privado.

Na prática, o modelo de concessões da década de 1990 priorizou quase exclusivamente esses corredores de exportação de alta rentabilidade (minério e commodities agrícolas), abandonando o restante do território. As concessionárias privadas fecharam os olhos para os ramais do interior considerados de baixa lucratividade, interrompendo o tráfego e deixando milhares de quilômetros de trilhos, locomotivas e vagões se deteriorarem ao relento.

O impacto social foi devastador. Diversas estações históricas foram abandonadas e convertidas em ruínas, cidades do interior perderam subitamente suas conexões logísticas e econômicas, e o transporte ferroviário de passageiros de longa distância foi virtualmente extinto do território nacional. O direito de locomoção sobre trilhos foi suprimido da população, sobrevivendo apenas em sistemas metropolitanos de passageiros (trens urbanos e metrôs) ou em raras linhas remanescentes de exploração turística e mineradora.

Conclusão:
O período áureo de expansão ferroviária institucional no Brasil ocorreu entre 1890 e 1945, com destaque para Prudente de Morais, Afonso Penna, Hermes da Fonseca, Arthur Bernardes, Washington Luís e Getúlio Vargas (1930-45). Após isso, o Brasil priorizou as rodovias. A partir do governo JK (Plano de Metas) e consolidando-se nos anos 1960/70 (Ditadura Militar), quando o Brasil sofreu uma radical substituição do modelo ferroviário pelo rodoviário, com fito de beneficiar e atrair multinacionais automobilísticas, resultando no sucateamento e posterior erradicação de milhares de quilômetros de trilhos. O Desmonte final, veio com FHC privatizando a RFFSA e praticamente extinguindo os ramais de passageiros.


Período Presidente Ferrovias construídas (km)
7 Mar. 1871 – 25 Jun. 1875 Rio Branco 597
25 Jun. 1875 – 5 Jan. 1878 Cotegipe 1.071
5 Jan. 1878 – 28 Mar. 1880 Sinimbu (Liberal) 530
28 Mar. 1880 – 21 Jan. 1882 Saraiva (Liberal) 840
21 Jan. 1882 – 3 Jul. 1882 Martinho Campos (Liberal) 245
3 Jul. 1882 – 24 Mai. 1883 Paranaguá (Liberal) 698
24 Mai. 1883 – 6 Jun. 1884 Lafaiete (Liberal) 654
6 Jun. 1884 – 6 Mai. 1885 Dantas (Liberal) 1.164
6 Mai. 1885 – 20 Ago. 1885 Saraiva (Liberal) 146
20 Ago. 1885 – 10 Mar. 1888 Cotegipe (Conservador) 1.572
10 Mar. 1888 – 7 Jun. 1889 João Alfredo (Conservador) 709
7 Jun. 1889 – 15 Nov. 1889 Ouro Preto (Liberal) 63
15 Nov. 1889 – 21 Jan. 1891 Deodoro - Rui 445
22 Jan. 1891 – 23 Nov. 1891 Deodoro - Araripe / Lucena 620
23 Nov. 1891 – 15 Nov. 1894 Floriano Peixoto 1.255
15 Nov. 1894 – 15 Nov. 1898 Prudente de Morais 2.265
15 Nov. 1898 – 15 Nov. 1902 Campos Sales 1.078
15 Nov. 1902 – 15 Nov. 1906 Rodrigues Alves 1.519
15 Nov. 1906 – 14 Jun. 1909 Afonso Pena 2.186
14 Jun. 1909 – 15 Nov. 1910 Nilo Peçanha 2.070
15 Nov. 1910 – 15 Nov. 1914 Hermes Fonseca 4.767
15 Nov. 1914 – 15 Nov. 1918 Venceslau Brás 1.518
15 Nov. 1918 – 28 Jul. 1919 Delfim Moreira 279
28 Jul. 1919 – 15 Nov. 1922 Epitácio Pessoa 1.281
15 Nov. 1922 – 15 Nov. 1926 Artur Bernardes 2.172
15 Nov. 1926 – 24 Out. 1930 Washington Luís 1.038
3 Nov. 1930 – 31 Dez. 1942 Vargas 2.332
3 Nov. 1930 – 31 Dez. 1943 Vargas 201
3 Nov. 1930 – 31 Dez. 1944 Vargas 229


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quarta-feira, 22 de abril de 2026

Democracia Direta, Técnica e Virtuosa: Os Fundamentos do Castilhismo


"Lá [no Rio Grande do Sul] o Presidente do Estado propõe a lei que toma a forma plebiscitária, com a publicidade ampla, a colaboração direta do povo na apresentação de emendas e referendum dos Conselhos Municipais. São os imperativos categóricos da ordem social, impondo-se como necessidades iniludíveis, e vencendo as frágeis barreiras erguidas por preconceitos teóricos em equilíbrio instável, no trapézio mirífico da divisão de poderes..."

Getúlio Vargas

Uma Filosofia Política de Linhagem Clássica

O Castilhismo, mais do que uma "ideologia gaúcha" localista, como acusam seus detratores, e para além de uma ideologia brasileira, configura-se como uma filosofia política de linhagem clássica. A distinção teórica e prática entre a "Democracia Verdadeira" (castilhista) e o "Parlamentarismo" (liberal) constitui o cerne de uma crítica abrangente ao regime representativo liberal. A tese central que emerge é que o sistema atualmente chamado de democracia não passa de uma oligarquia plutocrata, ao passo que o modelo concebido por Júlio de Castilhos representa a única forma de democracia real para uma nação soberana.

Os castilhistas, influenciados pelo positivismo de Auguste Comte, realizavam uma leitura da história que resgatava a distinção aristotélica entre a política como ética do bem comum e a política como mera disputa de interesses privados. Para além disso, estabelece-se um paralelo histórico sofisticado entre o período dos "Cinco Bons Imperadores" de Roma e o regime castilhista no Rio Grande do Sul (1891–1937), demonstrando que a prosperidade de uma nação não depende do acaso, mas de um sistema de sucessão baseado na virtude e na competência técnica, em oposição tanto à hereditariedade quanto ao clientelismo eleitoral.


A Crítica ao Regime Representativo

O sistema de votar em deputados e senadores para que decidam em nome do povo é uma falácia. O parlamento atua como um filtro corruptor que impede a vontade popular de chegar ao governo, servindo apenas para que a oligarquia financista e seus grupos de pressão comprem influência. Além disso, o parlamento é composto por pessoas sem conhecimento técnico para legislar sobre temas complexos, transformando a política em um "balcão de negócios". O parlamentarismo, associado ao liberalismo, visa proteger interesses oligárquicos contra a autoridade do Estado. Quando o poder é fragmentado entre centenas de parlamentares, ninguém é responsável por nada, o que facilita a corrupção sistêmica.


O Paralelo com Roma: Sucessão por Mérito

O mais próspero período de Roma, e por assim da própria civilização ocidental ocorreu no século II d.C. como o auge da humanidade. O segredo desse período foi a sucessão por adoção: o imperador escolhia o homem mais apto a sucedê-lo, não por laços de sangue, mas por capacidade administrativa e militar. O declínio começou quando Marco Aurélio quebrou essa lógica e nomeou seu filho Cômodo, um herdeiro biológico, porém inepto. O castilhismo vê nesse ciclo a prova de que a virtude e o mérito, e não o acaso hereditário (Monarquia) ou a representação eleitoral (Liberalismo), garantem a prosperidade duradoura.


A Política como "Ciência do Bem Comum": A Conexão com Aristóteles

Para Aristóteles, a Polis (o Estado) é o fim último da vida social, e sua função é promover a "Vida Boa", isto é, a vida virtuosa. Os castilhistas adotam integralmente essa premissa ao afirmarem três princípios fundamentais:

A primazia do todo: O interesse da Nação, entendida como corpo social orgânico, está acima do interesse individual isolado.

O líder virtuoso: Assim como Aristóteles via na Monarquia e na Aristocracia (o governo dos melhores) as formas puras de governo quando focadas no bem comum, os castilhistas viam no seu "Presidente" um magistrado que personificava a virtude técnica e moral.

O repúdio à demagogia: Aristóteles alertava que a Democracia degenerava em Tirania ou Demagogia quando os interesses das massas ou de facções particulares sobrepunham-se à justiça. O castilhismo identifica o parlamentarismo liberal exatamente como essa degeneração: uma arena de demagogos que vendem promessas para satisfazer interesses paroquiais e privados. 


A Democracia Direta Castilhista

Diferentemente da democracia direta grega antiga (onde todos votam em tudo), a "Democracia Verdadeira" do castilhismo baseia-se na legitimação direta do Executivo. O chefe do Executivo é eleito para realizar um programa técnico, prestando contas não ao parlamento, mas diretamente ao povo. O castilhismo foi pioneiro ao instituir consultas populares obrigatórias por meio de plebiscitos e referendos. Se o governante perdesse o apoio popular em temas cruciais, deveria ser destituído. Isso é denominado Democracia Orgânica.


A Denúncia do Iluminismo e do Contratualismo

O Castilhismo sustenta que o Iluminismo introduziu uma deturpação decisiva na política ao focar no Contrato Social e no Individualismo. Para um castilhista:

O erro liberal: O Iluminismo, tratou o Estado como um "mal necessário", algo criado por um contrato entre indivíduos isolados para proteger suas propriedades e interesses egoístas. Isso transformou a política em mera ferramenta jurídica de salvaguarda do privado, destruindo sua dimensão ética.

A fragmentação do poder: Ao dividir o poder em "pesos e contrapesos" (Montesquieu), o Iluminismo paralisa o Estado, impedindo-o de agir de forma soberana e técnica. Para o Castilhismo, essa divisão é exatamente o que permite que a plutocracia, os ricos e seus interesses financeiros, controle o governo através de um parlamento fraco e venal.


Política "Orgânica" versus Política "Mecânica"

Os castilhistas argumentam que a política contemporânea (liberal-parlamentar) é mecânica (um jogo de peças, votos e leis abstratas, regido por procedimentos vazios), enquanto a política clássico-castilhista é orgânica. Nessa visão:

A sociedade é um organismo vivo.

O governo é o cérebro desse organismo.

Tentar governar através de brigas parlamentares seria como se os membros do corpo tentassem votar para decidir o que a mão deve fazer; o resultado inevitável é a paralisia ou a doença social.

Essa metáfora orgânica fundamenta a defesa da unidade de comando e da hierarquia técnica como condições de possibilidade para qualquer ação estatal eficaz e justa.


O Executivo como Poder Legislador e o Estado Técnico

Um dos pontos mais centrais do castilhismo é a defesa de que o Executivo deve legislar. No modelo de 1891, as leis eram decretadas pelo governo. Isso garantiria probidade, pois as leis passariam a ter um critério científico e de continuidade, sem as emendas e deturpações causadas pelas trocas de favores parlamentares. A Constituição de 1891 retirava do Parlamento o poder de fazer leis, entregando-o ao Executivo. O argumento é que leis devem ser elaboradas por técnicos, não por "ineptos" que defendem interesses privados. Sem a intermediação de parlamentares, vistos como fantoches de plutocratas, o governante poderia focar no bem comum.


O Castilhismo como Materialização Moderna da Adoção Romana

O castilhismo, por meio do PRR (Partido Republicano Rio-Grandense), funcionou de forma análoga à sucessão romana. O PRR não era apenas uma legenda eleitoral, mas uma escola de formação ideológica que pregava a probidade e a tecnificação. A sucessão de Júlio de Castilhos para Borges de Medeiros e deste para Getúlio Vargas é apresentada como o equivalente moderno da "adoção romana": o líder escolhia o sucessor mais competente dentro de um terreno fértil de quadros preparados. Tanto em Roma quanto no Rio Grande do Sul castilhista, o Executivo não se submetia ao Senado ou ao Parlamento, e a independência do governo frente à assembleia era garantida pela unidade ideológica e pela disciplina hierárquica. Sem essas travas, o governo se dissolve em facções.


O Conceito de "Recall" (Mandato Revocatório)

O castilhismo já previa o que hoje se discute como recall: a possibilidade de o eleitorado retirar o mandato de um governante antes do fim, caso ele se desviasse do interesse público. Isso torna o líder muito mais "escravo" da vontade popular do que um deputado liberal, que, uma vez eleito, fica quatro anos sem prestar contas. Assim, o castilhismo não é uma ditadura, tirania ou regime autoritário, mas uma forma de governo que exige responsabilidade total do líder perante o povo. Os castilhistas buscam a legitimação popular direta, muito mais próxima da "aclamação" clássica do que do "voto mercadoria" das eleições atuais.


As Raízes Saint-Simonianas: Socialismo Industrial e Tecnocracia

O castilhismo bebe diretamente da fonte de Saint-Simon, em uma interpretação que se distancia do senso comum contemporâneo sobre "socialismo". Para os castilhistas, o socialismo de Saint-Simon é a peça-chave que concilia ordem industrial com justiça social sem cair no conflito de classes marxista.

Socialismo como "Industrialismo": Saint-Simon não dividia a sociedade entre burgueses e proletários, mas entre industriais (cientistas, operários, empresários, banqueiros e técnicos: todos os que produzem) e ociosos (nobreza, clero tradicional e burocracia improdutiva). O castilhismo adota essa visão: o empresário nacional que investe e produz é um aliado do trabalhador; o inimigo é o especulador financeiro e o político fisiológico.

Primazia da administração sobre a política: A famosa frase "A administração das coisas substituirá o governo dos homens" fundamenta a tecnocracia. A sociedade deve ser gerida por uma elite de sábios e técnicos, não por políticos profissionais.

O "socialismo capitalista" e a propriedade: Saint-Simon não pregava o fim da propriedade privada, mas sua moralização. A propriedade deveria ser instrumento do progresso nacional. O castilhismo herdou essa visão: não se trata de estatizar tudo (comunismo), mas de o Estado dirigir o capital para que sirva ao Brasil, e não a interesses apátridas e particularistas.

A defesa de que a religião deve focar na melhoria da classe mais pobre é a raiz da tutela moral defendida pelo castilhismo. O Estado não deve ser apenas um gestor de recursos, mas um ente que garante a harmonia social por meio de uma ética superior, ligada ao catolicismo social.

Assim como Saint-Simon e Comte, os castilhistas veem o Iluminismo e a Revolução Francesa como períodos "críticos" ou destrutivos, que derrubaram a velha ordem sem construir nada no lugar. O socialismo saint-simoniano é a proposta para a fase orgânica e construtiva. O liberalismo iluminista é o regime do "egoísmo"; o socialismo castilhista, o regime do "altruísmo social" e da unidade nacional.


O Resgate da Soberania e a Verdade Atávica

A crítica castilhista ao Iluminismo permite ao Castilhismo dialogar tanto com setores da Igreja (por ambos repudiarem a "atomização" social do liberalismo) quanto, mais recentemente, com críticas do identitarismo, seja de esquerda ou de direita, na medida em que este também fragmenta o corpo social em facções estanques. Para o Círculo Castilhista, o modelo liberal é um breve e desastroso parêntese na história da humanidade. O Brasil, por sua formação ibérica e católica, esta destinado a liderar o retorno a essa política da Virtude e da Ordem.

O castilhismo é, portanto, a prova histórica de que o Brasil pode ser próspero se abandonar o modelo liberal de "negociata parlamentar" e adotar um sistema de centralização técnica, onde a sucessão é guiada pelo mérito e pela continuidade de um projeto de Estado. A interpretação de Saint-Simon é historicamente precisa dentro da lógica do socialismo industrial: o socialismo original não era sobre estatização total, mas sobre a governança dos técnicos e produtores em prol da nação, o que se encaixa perfeitamente no modelo de Estado forte e planejado que defendem.

O Brasil só recuperará sua soberania, quando abandonar as ilusões liberais, que entrega o país a interesses estrangeiros e financeiros, e retornar ao regime técnico e de consulta direta que transformou o Rio Grande do Sul e, depois, o Brasil na Era Vargas. O Círculo Castilhista apresenta-se, assim, como o portador de uma "verdade atávica": a de que a política autêntica é a busca do bem comum por meio da virtude, da competência e da unidade orgânica da Nação.



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sábado, 6 de setembro de 2025

Quando o Parasita (Oligarquia Financeira Transnacional) Mata seu Hospedeiro (Estado-Nação)

 

1. A Natureza Parasitária do Sistema

Como as Oligarquias Se Alimentam do Hospedeiro

Mecanismo Parasitário Explicação Exemplo Concreto (2025)
Extração por Dívida Estados se endividam para financiar guerras e políticas identitárias Dívida pública da UE = 95% do PIB (lucra para bancos)
Desindustrialização Transferência de fábricas para Oriente = desemprego estrutural Alemanha perdeu 40% da indústria desde 2020
Cultura da Dependência População se torna refém de subsídios e controle social 35% dos europeus vivem de programas assistenciais
Guerra por Procuração Conflitos como Ucrânia drenam recursos e vidas sem benefício real €1.2 trilhão enviado à Ucrânia = 3x o orçamento da saúde alemã

O Ciclo Vicioso:


2. O Colapso do Hospedeiro: Sinais de Morte Civilizatória
Fases da Morte do Estado-Nação Ocidental

Fase Sintomas
Atrofia Econômica Desemprego estrutural + inflação crônica + dívida impagável
Necrose Social Guerras culturais + colapso demográfico + perda de identidade
Paralisia Militar Exércitos sem moral + tecnologia obsoleta + dependência de mercenários
Morte Cerebral Elites desconectadas + burocracia insana + perda de soberania

Dados Concretos (2025):
Demografia:
  • Taxa de fertilidade na UE: 1.3 (necessário 2.1 para reposição).
  • 40% dos jovens europeus não querem filhos (pesquisa Eurostat).
Economia:
  • Desindustrialização: -28% na produção industrial desde 2019.
  • Dependência energética: 70% do gás importado (preços 300% maiores).
Social:
  • 52% dos europeus não confiam em ninguém (Eurobarômetro).
  • 67% acham que "seus filhos viverão pior que eles" (OECD).

3. O Paradoxo Final: Parasitas Matam o Hospedeiro, Mas Não Sobrevivem
Por que as Oligarquias Não Terão "Plano B"

Ilusão Oligárquica Realidade Cruel
"Podemos viver em bunkers" Bunkers precisam de exércitos para protegê-los (e exércitos precisam de nações)
"Transferiremos poder para a Ásia" China/Rússia executarão oligarquias ocidentais como "inimigos de classe"
"Controlaremos o mundo com CBDCs" Moedas digitais exigem infraestrutura física (que colapsará com o Estado)

O Cenário Pós-Colapso:

Fase 1: Morte do Hospedeiro (2026-28)
  • Estados-nação europeus quebram formalmente (calote da dívida, hiperinflação).
  • Sociedades entraram em colapso social (guerras civis de baixa intensidade).
Fase 2: Morte dos Parasitas (2028-30)
  • Oligarquias perdem proteção (exércitos desertam, polícia se dissolve).
  • População caça oligarcas (ex: "Tribunal do Povo" em Paris, Berlim, Bruxelas).
Fase 3: Nova Ordem (2030+)
  • Frente Oriental (China/Rússia/Índia) reconstrói o mundo sob seus termos.
  • Oligarquias ocidentais são extintas ou reféns (ex: George Soros preso em Hong Kong).

4. A Lição Biológica: Parasitas Bem-Sucedidos Não Matam seu Hospedeiro
Exemplos da Natureza vs. Oligarquias

Parasita Natural Estratégia de Sobrevivência Oligarquia Financeira
Lombriga Rouba nutrientes, mas mantém hospedeiro vivo Mata o hospedeiro por ganância
Cucos Deposita ovos em ninhos alheios, mas não destrói o ninho Destrói todos os ninhos (Estados)
Vírus Benéfico Integra-se ao DNA do hospedeiro para coexistência Ataca o DNA do hospedeiro (cultura)

A Lei de Ferro do Parasitismo:
"Parasitas que matam o hospedeiro estão programados para extinção. A natureza não perdoa a estupidez predatória."

As Oligarquias Violaram Essa Lei:
  • Transformaram Estados-nação em máquinas de extração de riqueza.
  • Destruíram a própria base social e militar que as protegia.

5. Conclusão: O Suicídio Coletivo das Oligarquias
Por que Não Haverá Salvação

1. Cegueira Evolutiva:
  • As oligarquias acreditam que são "além da biologia" (tecnologia, dinheiro, poder).
  • Esquecem que poder real depende de sociedades funcionais.
2. Arrogância Terminal:
  • Tratam povos como gado e nações como ativos financeiros.
  • Não percebem que gado precisa de pasto e ativos precisam de estrutura.
3. Falta de Plano de Fuga:
  • Quando o hospedeiro morrer, não haverá para onde fugir:
  • Povos ocidentais as lincharão como traidoras.

A Ironia Suprema:
"As oligarquias que sonhavam com um 'governo mundial' sem fronteiras, criarão um mundo sem elas – um mundo de fronteiras reais, povos soberanos e justiça popular."

Resultado Final:
Ocidente: Renascerá como Estados-nação fortes (após o colapso).
Oriente: Triunfará como potências nacionalistas (Índia).
Oligarquias: Serão nota de rodapé nos livros de história – exemplo máximo de estupidez coletiva.

Em resumo: As oligarquias são parasitas suicidas que destruirão seu próprio habitat. Quando o hospedeiro ocidental finalmente morrer, elas perecerão com ele – enquanto nacionalistas orientais herdarão um mundo em ruínas, mas pronto para ser reconstruído sob bases sãs. A natureza sempre vence.


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quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

O Falso Desenvolvimentismo do Governo JK e Militar de 64.

O golpe de 54, que levou Getúlio Vargas ao seu martírio, é o marco da mudança político-econômica que porá fim aos áureos anos da Éra Vargas, e a causa das sucessivas "crises" que vivencia o Brasil até os dias atuais. É quando é implementada a dependência financeira e tecnológica do País. Com a morte de Getúlio, a UDN e militares americanófilos (ambos em sua esmagadora maioria maçons) assumiram de facto o governo, sendo Café Filho reles presidente nominal. Desde então, passou-se a subsidiar os Investimentos Diretos Estrangeiros (IDEs), e as multinacionais foram ocupando os espaços econômicos do País. Abortou-se, assim, a incipiente, e verdadeira indústria nacional, que  surgira no curso da primeira metade do Século XX. 

Essa política consistia em permitir que empresas estrangeiras deduzissem do imposto de renda o valor das máquinas e equipamentos que importassem, reduzindo assim seus custos e aumentando sua lucratividade.

Com o golpe de 24 de agosto de 1954, apenas 20 dias depois, o governo ipso facto, militar-udenista, regido por serviços secretos estrangeiros, instituiu vantagens absurdas em favor do capital estrangeiro, baixaram regulamentos, como a Instrução 113 da SUMOC (Superintendência da Moeda e do Crédito), que passou a permitir que subsidiárias das multinacionais importassem máquinas e equipamentos amortizados no exterior, mesmo que sucateados após mais de 10 anos de uso, e o registrassem como investimento em moeda estrangeira, com altos valores fictícios. 

Essa Instrução propiciou às multinacionais importar máquinas e equipamentos usados, sem cobertura cambial, registrando o valor a eles atribuídos pelas multinacionais, como investimento estrangeiro direto, em moeda. Nada menos que 1.545 licenças para esses “investimentos” foram concedidas pela Carteira de Comércio Exterior (CACEX), entre 1955 e 1963, mantidas e ampliadas essas vantagens no governo de JK.

Assim, as multinacionais passaram a poder importar máquinas e equipamentos para o Brasil, deduzindo no imposto de renda o valor total desses bens, no ano da compra ou em até cinco anos seguintes. Essa dedução era feita de forma linear, ou seja, a empresa podia deduzir 20% do valor do bem por ano durante cinco anos. O valor deduzido do imposto de renda era considerado um subsídio, pois representava uma renúncia fiscal por parte do governo.


JK Coveiro da Indústria Automobilística Nacional - O Caso da ROMI

Jucelino Kubitschek em Brasília, ainda em construção, adentrando no 
eixo monumental em uma Romi-Isetta. A falsidade em pessoa, posava
de "promotor" da indústria automobilística nacional, enquanto a apunhalava
pelas costas. Vários políticos que conviveram com JK relatam essa falta
de caráter dele, incluso o Brizola.

Exemplo gritante é a indústria automobilística transnacional favorecida com subsídios escandalosos desde o golpe de 1954, aumentados por JK. JK criou via decreto nº 39.412 de 16 de maio de 1956, o GEIA - Grupo Executivo da Indústria Automobilística. Ironicamente responsável pelo incentivo de fabricação de veículos nacionais, desde que obedecessem ao padrão estabelecido pelas multinacionais. Uma forma de engessar a nascente indústria automobilística nacional, estabelecendo regras e normativas impraticáveis por indústrias incipientes. Como também criando regras que favorecessem as multinacionais e excluíssem as nacionais.

Linha de montagem do Romi-Isetta em Santa
Barbara do Oeste (SP).
Com a abertura da linha de financiamento subsidiado, a nacional ROMI, que produzia a Romi-Isetta, um peculiar e pequeno carro, de um só banco, também pleiteou o financiamento, causando embaraço ao governo, pois o financiamento se destinava apenas para as multinacionais. O governo então baixou uma portaria definindo "automóvel" como sendo veículo com dois bancos, um dianteiro e um traseiro! E, assim, excluiu a brasileira Romi, a levando a falência.

Assim, a desnacionalização acentuou-se com JK, que não modificou a política de subsidiar os IDEse, como manteve os indecentes favorecimentos ao capital estrangeiro, e reforçou-os a ponto de ser aberta linha de crédito oficial para financiar as montadoras estrangeiras. Benefício negado à empresa brasileira Romi, de Santa Bárbara do Oeste (SP), que chegou a produzir três mil Romi-Isettas, entre 1956 a 1959. Inviabilizou desse modo a indústria automobilística nacional, ao entregar o mercado à Volkswagen e a outras transnacionais, donas de maquinaria e tecnologia amortizadas no exterior.

Inaugurava-se assim a política de subsidiar empresas estrangeiras, tornando  praticamente impossível a subsistência, no mercado, de empresas brasileiras por muito tempo. Os subsídios foram sendo, por vezes substituídos e, em geral, acumulados. Isso prossegue, até hoje, com empréstimos do BNDES a juros baixos e outras benesses prestadas às transnacionais em geral. 

Não é de se admirar que, ao final do quinquênio de JK, o Brasil sofresse sua primeira crise de contas externas desde o início dos anos 30. Vargas havia, em 1943, reduzido a dívida externa do País a quase nada. 

As transferências das transnacionais são o principal fator dos elevados déficits nas transações correntes com o exterior. Sobre os escandalosos sobrepreços, o então senador Vasconcelos Torres (1920/82), escreveu: 

"No exercício de 1962 foi registrado, no balanço consolidado das onze empresas produtoras de veículos automóveis e caminhões, lucro de 65% em relação ao capital social, constituído por máquinas usadas, e aumentado posteriormente, com incorporações de reservas e reavaliação dos ativos." 

Faz também referência aos balanços de 1963, comparativa de preços de venda da fábrica à distribuidora com os preços de venda do distribuidor ao público, para quatro montadoras, entre elas a Volkswagen: "o preço nas distribuidoras era mais de três vezes o preço na fábrica", e os donos desta eram os mesmos daquelas ou tinham participação naquelas. 


Os Efeitos do Modelo Dependente:

Desde o final dos anos 60, as multinacionais foram cumuladas por Delfim Neto com colossais subsídios à exportação, como isenções de IPI e ICM, nas importações de seus bens de capital e insumos, e créditos fiscais. Daí ao final dos anos 70, a dívida externa do País teve o crescimento mais rápido de toda sua história.

São raríssimos os economistas que atribuem importância, a tais modificações na política industrial e de capitais estrangeiros, aplicadas com entusiasmo e ampliadas, por JK, enganosamente tido por desenvolvimentista. Ele adotou o falso conceito da CEPAL (Comissão para a América Latina das Nações Unidas), segundo o qual o importante era industrializar-se, não importando com quem controla o capital e a tecnologia das indústrias. 

Resultado: sob JK e sob os governos militares, o País teve altas taxas de crescimento do PIB, por algum tempo, mas crescia errado. Por isso, o Brasil pagou caro: décadas perdidas, desde a dos anos 80. A dívida externa subiu de menos de US$ 1 bilhão em 1954, para US$ 90 bilhões em 1982. Os falsos desenvolvimentistas jactaram-se da industrialização, mas mentiam, ou ignoravam que, diferentemente, o Brasil se industrializava na primeira metade do Século XX, sem aporte significativo de investimentos diretos estrangeiros. 

O modelo de “desenvolvimento dependente” é uma contradição em termos, uma impossibilidade. Promovendo e subsidiando os “investimentos” estrangeiros, causou fabulosos déficits externos, cujo financiamento, juntamente com os empréstimos públicos para apoiar esses “investimentos”, fez a dívida externa crescer exponencialmente.

Demonstrando abissal ignorância sobre o que era estratégico, se não, desprezo pela segurança nacional, os falsos desenvolvimentistas, desde JK (1956-60), consideraram que bastava ter sob controle nacional as telecomunicações, a energia, notadamente o petróleo, e a área nuclear. Se olhassem com seriedade para a História, teriam percebido que nenhum país foi capaz de se defender, tendo entregue sua economia e suas finanças para o controle estrangeiro. Isso se tornou cada vez mais nítido, à medida que a capacidade bélica foi ficando mais dependente da indústria e da tecnologia. Mas, mesmo antes do século XVIII, quando a sorte nas armas se vinculou à mecânica pesada e às indústrias básicas - que lhe fornecem insumos -, as guerras, sempre foram movidas a dinheiro, tal como a política. Eis a enorme e múltipla leviandade dos usurpadores que tomaram o Brasil de assalto em 54 e depois em 64, a dependência tecnológica e financeira, que caracterizou o governo de JK e os governos militares.



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