quarta-feira, 6 de junho de 2012

Calúnias e Difamações Contra os Bandeirantes

Os jesuítas, que eram os melhores cronistas da época, adversários tradicionais dos paulistas, fizeram para estes uma reputação em que só não lhes é negada, dentre boas qualidades, a coragem. Para este caso — Guaíra, em que eles, jesuítas foram os feridos, a história é contada de modo a que se faça des­ses brasileiros o pior conceito. Deles advém quase todas as injúrias contra os paulistas. Como bem afirma Belmonte:
"fiam-se excessivamente na documentação dos missionários hespanhoes - parte interessadíssima na secular contenda entre as duas forças que se chocaram, vezes sem conta, nas terras bárbaras do novo mundo."
Belmonte que não cala verdades continua: “Tudo isso é symptomatico e quem quer que saiba lêr nas entrelinhas, se convencerá de que as famigeradas "atrocidades" dos paulistas não foram tantas nem tamanhas como pretendem. Tanto isso é provavel que, muitas vezes, os indios das reducções adheriam logo aos invasores: "los yndios reducidos se dan la mano con los que entram por el ytatin". Numa "Real Cedula" dirigida ao vice-rei do Peru', marquez de Mansera, narrando occorrencias no Sul, confessava a Côrte que os paulistas tinham se apoderado de tudo, porque "todos, indios e residentes, tinham-se juntado aos invasores, davam-lhes informações e os guiavam a outras villas e reducções".

A verdade é que os jesuítas, seus inimigos declarados, sempre carregavam na tinta quando se referiam aos paulistas. Vejam o caso do bispo de Olinda, Dom Francisco de Lima, que ao se reportar a Domingo Jorge Velho, o descreve como "o maior selvagem com quem já havia topado" e que fora preciso um intérprete para se comunicar. No entanto, como sabemos, Jorge Velho falava e escrevia em português.

Também muito concorreu a política da metrópole depois de descobertas as minas. E com o tem­po, a poeira das calúnias foi cobrindo os feitos desses brasileiros, sujando-lhes a reputação de todos os doestos dos seus irredutíveis inimigos.

Criadores de caminhos, obra essen­cialmente civilizadora, esses bandeirantes conduzem o Brasil para uma autonomia indestrutível, que é a de quem, por si mes­mo, por si só, adquiriu a terra em que se estabeleceu. É por tudo isso que o nome deles se tomou distinto, como os dos pernam­bucanos, e de valor internacional. Todos que conhecem e tratam de coisas sul-americanas, mencionam o povo valente, e intransi­gente na sua autonomia, esses paulistas que, ainda nas cortes portuguesas de 1820, são nominalmente referidos como efeito de irritante pavor para aqueles que, então, pensavam reduzir-nos à simples condição de colônia.

Paulo Prado, antes de lembrar que, durante dois séculos, os inventários paulistas repetiam a lúgubre glorificação "morto no sertão", acentua o apavorado ódio do jesuíta contra os ma­melucos de Piratininga.

O aviltamento chega a tal ponto, que reduzem as ações dos paulistas a meros preadores de índios. Se os levasse, aos paulistas, o único e sórdido interesse de cativar índios, como se explicam as outras expedições, como as de 1676 e 1691, contra Vila Rica do Espírito Santo e contra Santa Cruz de la Sierra, cidades urbanas onde não haviam indios a cativar?

Todas essas expedições se ligam a essa tradição, de que já nos fala a ata da Câmara de São Paulo, de 2 de outubro de 1627, quando inclui o aviso enviado à metrópole — acerca dos “espanhóis de Vila Rica que vinham dentro das terras da coroa de Portugal...”. E Paulo Prado destaca os motivos irrecusáveis, que motivaram as ações bandeirantes contra os espanhol, o ardor guerreiro e o velho ódio ao espanhol.

”Os fins patrióticos dos paulistas no feito de Guaíra", desde cedo se incorporou nas nossas tradições. O padre Francisco das Chagas Lima, referindo-se ao descobrimento dos Campos de Guarapuava, que ficam na região do Paraná, onde a tradição de Guaíra devia ser bem viva, registrou-a nos termos de defesa nacional. O padre lembra que os espanhóis tinham o intuito de assegurar-se na posse daqueles territórios, quando no meio do século XVII “estabeleceram a sua Cidade Real na embocadura do Piquiri, e Vila Rica, na margem meridional do Itatu. povoações que foram demolidas pelos antigos paulistas”.

É a tradição a que se repetia na boca de Lopo de Saldanha. Homem de Estado, feito no segredo da realidade, ele bem conhecia a verdade da ação política dos paulistas. A Defesa daquelas terras, que os paulistas con­sideravam toda aquela região, até o Paraguai, pertencente a Portugal.

E foi assim que todo o alto Paraná se incorporou ao Brasil. Bandeirantes homens, diante de quem, apesar de quantas ferezas e crimes lhes sejam imputados, a alma boa de Southey o defensor dos je­suítas seus inimigos, não se contém, e transborda de admiração, em longos elogios. Para esse historiador, não terá havido, pela América, mais bravura, e patriotismo, e intrepidez: “Homens de indômita coragem, e a toda prova para os sofrimentos.., Eram os paulistas incansáveis nas suas explorações... Uma raça de homens mais ousados, ainda, que os primeiros conquistadores.".

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