domingo, 24 de dezembro de 2017

Biografia: Gustavo Barroso


Gustavo Dodt Barroso nasceu em Fortaleza no dia 29 de dezembro de 1888, filho de Antônio Felino Barroso, e da alemã Ana Dodt Barroso, da qual fica órfão aos sete dias de nascido, e por assim, foi criado por uma tia paterna que lhe ensinou as primeira letras. Em 1898, ingressou no Colégio Partenon e no ano seguinte transferiu-se para o Liceu do Ceará, ambos em Fortaleza, formando-se em 1906. Nesse mesmo ano, publicou seu primeiro artigo no periódico cearense Jornal da República.

Em 1907, ingressou na Faculdade de Direito de Fortaleza e fundou o jornal caricato O Garoto, que dirigiu até dezembro do ano seguinte. Posteriormente, funda O Equador, além de colaborar em O Colibri, e no Figança, jornal interino da faculdade em que estudava. Sócio-fundador do Grêmio Literário 25 de Março e secretário da Talma Cearense, sociedade dramática do Centro Calíope, de destacar, sua participação na sociedade literária Clube Máximo Gorki, escritor socialista russo, o primeiro clube socialista do Ceará.

Em 1910, Gustavo Barroso transferiu-se para o Rio de Janeiro e matriculou-se na Faculdade de Direito, bacharelando-se em 1912. Durante esse período, lecionou no Ginásio de Petrópolis (RJ) e foi redator do Jornal do Comércio. Ainda em 1912, publicou seu primeiro livro, intitulado Terra do sol, e ingressou no Partido Republicano Federal, ao qual permaneceria filiado até 1918.

Nomeado secretário-geral da Superintendência da Defesa da Borracha em 1913, no ano seguinte voltou para Fortaleza a fim de ocupar o cargo de secretário do Interior e da Justiça do governo de Benjamim Barroso.

Filiado desde 1912 ao Partido Republicano Conservador - PRC, tal como padre Cícero e Raimundo Monte Arraes, em 1915, apoiado pelo senador Pinheiro Machado (castilhista e mentor de Vargas), se elege deputado federal pelo Ceará, cumprindo seu mandato até o fim da legislatura, em 1917, quando não conseguirá se reeleger. Nesse ínterim, tornou-se diretor da revista Fon-Fon, no Rio, em 1916.

Em 1919, com sete livros publicados, seguiu como secretário da delegação brasileira à Conferência de Paz em Versalhes, chefiada pelo futuro presidente da República, Epitácio Pessoa. Entre esse ano e 1922, foi inspetor escolar no Distrito Federal, posto de onde saiu para fundar e dirigir o Museu Histórico Nacional.

Em 1923, entrou para a Academia Brasileira de Letras, na qual exerceria as funções de secretário (1928, 1931 e 1949) e de presidente (1931, 1932 e 1950).

Advogado ativo no Foro do Rio de Janeiro, em 1927 foi o secretário-geral da Comissão Internacional de Jurisconsultos.

Em 1933, Gustavo Barroso aderiu à Ação Integralista Brasileira (AIB), fundada por Plínio Salgado em outubro do ano anterior. Ainda em 1933, a organização transformou-se num partido político.

Dedicando-se inteiramente ao integralismo, em agosto de 1933 Gustavo Barroso encontrou-se em Vitória com os principais líderes do novo movimento, entre os quais Plínio Salgado e Olbiano de Melo, com o objetivo de participar da formação naquela cidade de um núcleo da AIB. Dois meses depois, seguiu para São Paulo, onde, a pretexto de recepcioná-lo, mais de oitocentos integralistas desfilaram pelas ruas da cidade.

Prosseguindo suas atividades de divulgação doutrinária do integralismo, Gustavo Barroso seguiu no mês de dezembro para Belo Horizonte, onde, ao lado de Plínio Salgado, Miguel Reale e Olbiano de Melo, proferiu inúmeras conferências. Segundo este último, o grupo encontrou-se nessa ocasião com Gustavo Capanema, que acabava de deixar a interventoria interina em Minas Gerais e confessou-se interessado nas idéias integralistas. Em julho de 1934 Capanema assumisse o Ministério da Educação, onde permaneceria até o fim do governo Vargas (29/10/1945).

De Belo Horizonte, a cúpula integralista partiu para o norte e o nordeste do país, percorrendo todas as capitais e aí expondo sua doutrina.

Em fevereiro de 1934, Barroso participou do I Congresso Integralista, realizado em Vitória, no qual foram aprovadas a estrutura interna e os estatutos da AIB. Nesse encontro, entre outras medidas, ficou decidido que o movimento teria uma direção única e centralizada nas mãos de Plínio Salgado. Além disso, foram nomeados os chefes provinciais e os secretários nacionais da organização, cabendo a Barroso o cargo de comandante-geral das milícias, o que significava participar do conselho superior da AIB.

Enquanto a maioria dos teóricos do integralismo se inspirava no fascismo italiano e português, Gustavo Barroso tinha posições bem mais próximas da doutrina alemã. Em seu livro de memórias: O Liceu do Ceará criticava o sionismo internacional. Barroso expôs suas posições principalmente em Brasil, colônia de banqueiros, obra lançada em 1934 e bem recebida pelo semanário alemão Der Stürmer, dirigido por Julius Streicher, foi considerado pelo jornal nacional socialista Deutsche La Plata Zeitung, de Buenos Aires, como o führer do integralismo brasileiro. Por isso mesmo, foi o único elemento do movimento integralista que disputou a liderança com Plínio Salgado.

Discordando publicamente das teses de Barroso em artigo publicado na revista Fon-Fon de 24 de abril de 1934, Plínio Salgado boicotou Barroso durante seis meses no principal jornal integralista, A Offensiva.

Por outro lado, mantendo-se ligado a organizações fascistas internacionais, em carta de 25 de maio de 1934 dirigida à Aliança Racista Européia, Barroso informou que o integralismo crescia cada vez mais no Brasil, enquanto a Ação Social Brasileira, também chamada Partido Nacional Fascista, fundada por J. Fabrino em julho de 1933, estava em declínio.

Segundo Robert Levine, ainda em 1934 Barroso teria declarado que gostaria de transformar a Academia Brasileira de Letras num centro do integralismo. Barroso comparecia na época às suas reuniões vestido com o uniforme de miliciano da AIB.

Presente ao II Congresso da AIB, realizado em março de 1935 em Petrópolis — época em que foi promulgada a Lei de Segurança Nacional —, Barroso foi escolhido para ocupar a secretaria nacional de educação moral e educação física da organização, órgão que substituiu a milícia integralista, então dissolvida por Plínio Salgado.

Por ocasião do levante comunista de novembro de 1935, o jornal O Imparcial do dia 24 de novembro denunciou uma conspiração golpista na qual Barroso estaria envolvido ao lado do general Pantaleão Pessoa. Durante todo esse mês e o seguinte, Barroso atacou na primeira página de A Offensiva o economista e empresário Roberto Simonsen.

Ainda em 1935, Gustavo Barroso lançou O quarto império, aprofundando suas teses. No ano seguinte, editou O integralismo e o Mundo, em que o movimento era definido como o único no Brasil capaz de derrotar os sionistas e restaurar a cristandade. Para Barroso, embora fosse uma ideologia universal, em cada país o fascismo deveria ter características particulares, adequadas à formação social de cada povo. 

Em janeiro de 1936, Barroso compareceu ao congresso da seção paulista da AIB, em que foram representados os 259 núcleos da agremiação no estado. Na ocasião, a AIB definiu-se enfaticamente como um movimento legalista, lançando um manifesto-programa que inaugurou uma nova fase do integralismo.

Barroso participou também do Congresso das Cortes do Sigma, órgãos de cúpula integralistas, realizado no Rio de Janeiro em 17 de outubro de 1936, ocasião em que a AIB fundou o jornal A Ação. No dia seguinte, tomou parte no desfile realizado no bairro carioca do Méier e esteve presente à reunião promovida no teatro João Caetano.

Apesar do notório desenvolvimento do integralismo nesse período, segundo Edgar Carone, era exagerada a avaliação dos líderes da AIB ao afirmarem que a organização chegou a ter um milhão de membros em 1936.

Em 27 de março de 1937, transpirou pela imprensa, através do jornal Diário da Noite, uma tentativa fracassada de Barroso de afastar Plínio Salgado da AIB sob a acusação de que esta além de “não cumprir as suas promessas”, era muito condescendente com os judeus. Segundo Robert Levine, Plínio Salgado era amigo pessoal de alguns judeus, como o industrial Horácio Lafer.

É nesse período que Gustavo Barroso lança sua obra "A Sinagoga Paulista", com fito de constranger Plínio Salgado em suas relações com liberais-maçons e judeus. Além, de mais uma vez, condenar a participação de Plínio Salgado na contra-revolução de 32:

"Os insaciáveis judeus da Sinagoga Paulista contrariados momentaneamente em todas as suas pretensões pela revolução de 1930, aliaram-se a políticos despeitados e ambiciosos e envenenaram o povo paulista contra o governo central e o resto do Brasil, conduzindo-o à guerra civil de 1932. Fizeram crer à mocidade que o Sr. Getúlio Vargas era inimigo de São Paulo, aplicando o processo judaico a que alude Ford: “incitar o ódio contra as pessoas a quem se quer aniquilar”. Entretanto, nós integralistas, técnicos por dever de ofício, sabemos que os únicos inimigos de São Paulo são os judeus que o sugam, pronunciando frases amáveis e belas ou fazendo afirmações acacianas e ocas."

No plebiscito interno da AIB realizado em maio de 1937 para a escolha do candidato integralista à presidência da República nas eleições previstas para janeiro de 1938, Plínio Salgado obteve 846.554 votos contra 13.397 dados a Barroso e 164 a Miguel Reale.

No dia 14 de junho de 1937, Barroso estava entre os 35 representantes da Corte do Sigma que foram a Getúlio Vargas levar oficialmente o nome de Plínio Salgado como candidato dos integralistas à presidência da República.

 Com a implantação do Estado Novo em 10 de novembro de 1937, as eleições foram suspensas. Em 3 de dezembro os partidos políticos foram extintos por decreto, e a AIB transformou-se na Associação Brasileira de Cultura.

O Estado Novo lançou os integralistas em um indescritível entusiasmo, oportunidade em que Gustavo Barroso dirigiu carta a Getúlio felicitando-o por seu discurso de libertar o Brasil de sua dependência dos agentes financeiros internacionais.

Segundo Olbiano de Melo, depois de tentar obter o apoio da AIB para a instauração do Estado Novo em 1937, Getúlio prosseguiu em suas negociações com os integralistas mesmo após a extinção dos partidos, oferecendo-lhes o Ministério da Educação. A liderança do movimento chegou a escolher o nome de Gustavo Barroso para a pasta, mas a indicação, transmitida por Alcebíades Delamare a Francisco Campos para que este a levasse até Vargas, jamais chegou a seu destino.

Com o fechamento da AIB, Plínio não se conformou, mas Gustavo Barroso sim e manteve-se influente nos círculos sociais e culturais do Estado Novo. Mais realista do que Plínio, Gustavo sabia que o Estado Novo não poderia aceitar a existência de um partido político em funcionamento ante o fechamento de todos os demais, porque isso colidia com a idéia de um Estado forte, do qual ele também era adepto. Tal aspiração fora consumado pelo governo com a Revolução de 30, cujas linhas programáticas, segundo uma brochura oficial de 1940, propugnavam íntima aliança entre a Nação e o exército, o culto do passado, uma cultura e arte oficiais, reconstrução do Estado, renovação da administração e outros objetivos de caráter nacionalista (leis sociais, defesa das fronteiras, reforma agrária – dar terra aos brasileiros -, renovação do processo histórico - Brasil dos nossos dias, 1940). Tudo com o qual Gustavo Barroso estava de acordo, pois dava resposta eficaz a sua aspiração nacionalista.

Entretanto, a mudança de posição dos partidários de Plínio Salgado em relação ao novo regime foi rápida. No início de 1938, um grupo de oficiais da Marinha chefiado pelo comandante Vítor Pujol reuniu-se com Miguel Reale e Gustavo Barroso para propor um levante armado, que seria levado a cabo com ou sem o apoio de civis e teria como alvo principal o palácio Guanabara. Segundo Olbiano de Melo, Gustavo Barroso rejeitou, declarando que os integralistas não deveriam entrar na história como assassinos, e se opois resolutamente a qualquer ardil nesse sentido.

Alheio a Barroso, o projeto prosseguiu. A primeira tentativa de golpe ocorreu em 11 de março de 1938. O movimento foi rapidamente desbaratado e centenas de prisões foram efetuadas. Uma grande quantidade de armas foi apreendida na casa de Plínio Salgado, onde, segundo Hélio Silva, foram encontrados três mil punhais marcados com a cruz gamada. Tendo Plínio Salgado e Belmiro Valverde — chefe militar do levante — conseguido escapar.

A conspiração prosseguiu e, na véspera da deflagração do segundo levante, ocorrido em 11 de maio de 1938. O movimento foi novamente dominado após algumas horas de cerco dos integralistas ao palácio Guanabara e um levante no Ministério da Marinha. No dia 12, Barroso e Raimundo Padilha, que também havia sido membro do conselho superior da AIB, foram presos numa fazenda situada na Zona da Mata de Minas Gerais. Ficou claro que a tentativa de assassinato a Getúlio não partira tão somente dos integralistas, mas também de liberais e setores de dentro das forças armadas. Denunciando mais uma vez a relação do Plínio Salgado com os liberais.

Com a prisão e o exílio de Plínio Salgado, o movimento integralista entrou em declínio. Gustavo Barroso, como Plínio Salgado, foram excluídos do processo por falta de provas. O envolvimento e a participação de Plínio Salgado, naquele momento era mais do que evidente, tendo sido comprovado posteriormente e mesmo confessado pelo próprio.

Retirando-se da política, Barroso reassumiu a direção do Museu Histórico Nacional e intensificou sua atuação na Academia Brasileira de Letras. Nessa época, graças às relações reservadas que mantinha com elementos do governo, conseguiu a reintegração de alguns de seus correligionários em seus cargos e impediu que outros — entre os quais Raimundo Padilha — continuassem a ser incomodados pela polícia.

Após o discurso de Vargas a bordo do encouraçado Minas Gerais em junho de 1940, considerado simpático ao Eixo, Gustavo Barroso voltou a felicitar Getúlio. Daí em diante, passou também a funcionar como intermediário entre Plínio Salgado, que se encontrava exilado em Portugal, e o governo. Ainda em 1940, participou da missão brasileira às comemorações do tricentenário da Restauração de Portugal, em Lisboa, e representou o Brasil no Congresso Ibero-Americano realizado em Madri.

Entretanto, com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial em 1942 ao lado das forças aliadas, Barroso foi levado a se limitar às suas ocupações literárias, iniciando em 1943 a publicação dos Anais do Museu Histórico Nacional.

Sempre prestigiado nos governos que se seguiram à queda de Vargas, ocorrida em 29 de outubro de 1945, em 1950 Barroso seguiu para Portugal a convite da Universidade de Coimbra para uma série de conferências. Em 1951, representou o Brasil como embaixador especial na posse do presidente uruguaio, e em 1954 desempenhou a mesma função na posse do presidente peruano. Em 1957, na qualidade de embaixador em missão especial no Uruguai, acompanhou a comitiva do ministro das Relações Exteriores José Carlos de Macedo Soares em sua visita ao Chile.

Caricaturista, romancista, poeta, teatrólogo, tradutor e ensaísta, Gustavo Barroso colaborou em inúmeros jornais e revistas, como O Malho, Tico-Tico, O País, Gazeta de Notícias, Jornal do Brasil, Jornal do Ceará, A República, O Demolidor, Leitura para Todos, Rua, Careta, A Manhã, Seleta, Ilustração Brasileira e outros. Em muitas ocasiões, utilizou os pseudônimos de João do Norte, Náutilus, Cláudio França e Jotaene.

Faleceu no Rio de Janeiro em 3 de dezembro de 1959, ano em que recebera o título de doutor honoris causa pela Universidade do Ceará. Em plena atividade de cronista e escritor, escrevia na época para a revista O Cruzeiro uma série de crônicas sob o título geral de “Revelações da História do Brasil”, além de dois livros publicados postumamente, Mississipi, romance, editado em 1961, e A margem da história do Ceará, lançado em 1962.


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

A Cepa - Os Lusitanos.



Foi na resistência aos romanos que os lusitanos se tornaram famosos, incorporando-se definitivamente à história do mundo antigo. De modo geral, o poder de Roma foi sempre menos sensível no Oeste do que no Leste da Península Ibérica. No primeiro século de ação, ali, verifica-o Mommsen, limitavam-se os romanos a conter as incursões dos lusitanos sobre a Espanha citerior, na parte ocidental, o domínio era puramente nominal; nem havia contato com os celtas do noroeste(galegos). E foi no esforço contra as reações dos lusitanos, que os romanos provocaram a guerra genialmente conduzida por Viriato, natural de Viseu. Nota-se, que esses povos, dos mais bárbaros da península, foram os únicos que se uniram e se levantaram, num movimento de caráter geral – nacional, acentuadamente político. Pelo resto da Espanha, os casos de resistência, mesmo os mais célebres e heróicos, como em Sagunto e Numância, são absolutamente locais, sem significação política. Na Lusitânia, não: o ânimo geral das tribos levantadas para resistir é que faz do humilde pastor, um grande general, o único da Ibéria primitiva.

Foi nas márgens do baixo Tejo que Viriato bateu o exército romano do pretor Caio Palutius; e nunca mais a Roma avassaladora conheceu vitórias sobre ele. Finalmente, a perfídia do conquistador a todo preço fez assassinar o inimigo invencível, e os lusitanos não tiveram quem os substituísse. Mas, nem por isso se rendem submissos: continuam numa resistência tão temível, por tanto tempo, com tantas provas de valor e decisão, que Sertório os escolhe para fazer com eles a sua grande campanha contra a Roma aristocrática, e criar, ali, uma segunda pátria, latina, mais democrática. À frente dos lusitanos, por oito anos, o grande general resistiu aos exércitos romano, repetidamente refeitos, e repetidamente batidos. Houve momentos em que foram mobilizados contra os lusitanos de Sertório 130.000 homens. No baixo tejo também, quase onde é Lisboa (em Longóbriga), de uma feita, foi aprisionada uma divisão inteira de tropas romanas comandada pro Aquino, sendo o grande Metelo obrigado a retirar-se com o resto das forças. Mommsen considera Sertório o maior romano, até então, mas, ao mesmo tempo reconhece que foram os lusitanos que lhe permitiram revelar-se; que sua superioridade esteve em adaptar-se a eles, deixando de ser o romano pesado, enfático, para ser o capitão cavalheiroso, vivaz, guerrilheiro como o próprio Viriato: "Todos os sucessos de Sertório se ligavam ao país (Lusitânia), às aptidões dos seus habitantes". Também com Sertório - só o assassínio desembaraçou os romanos do inimigo invencível. Ainda assim,, obtida a vitória do punhal traiçoeiro, não coube a Roma ser senhora desassombrada dos temíveis lusitanos. Nem César, apesar de representar as mesmas idéias de Sertório, e de admitir, em princípio, as pretensões da Lusitânia. Ainda foi preciso a Augusto uma campanha, mais política do que militar, e que conformou definitivamente a velha nação guerreira em província romana. 

De todo modo – Lusitânia, ou Portugal, quele pedaço de península nunca esteve inteiramente fundido, ou confundido, no resto da Ibéria. Oliveira Martins, em busca de explicação racional para essa tendência dos lusitanos em distinguir e afirmar o seu caráter nacional, admite que tudo seja devido a uma forte dose de sangue celta.

Nos antepassados dos portugueses, as energias de raça guardaram o seu valor intrínseco; mas, desde cedo, a tradição lhe acentuou o caráter numa divergência de formas que ao expandirem-se, diferenciam-se de mais em mais, até firmarem-se em feição abertamente distinta, inconfundível, e, por muitos aspectos, contrastantes com o caráter nacional dos outros iberos. Certamente, mais homogêneos, por mais bárbaros, os lusitanos uniram-se melhor dentro do grupo e, por isso mesmo, foram levados a resistir ao romano nacionalmente, lutando mais eficazmente do que os outros. Assim dispostos, a reação contra Roma facilitou-lhes o desenvolvimento das virtudes coletivas. Está reconhecido e consagrado, em tais casos, o efeito dos motivos exteriores – orientando a ação interior nos grupos sociais, afeiçoando-lhes o caráter. É uma teoria longamente exposta e documentada por W . Malgaud, no seu livro O problema lógico da sociedade. De tudo isso resultou, para os lusitanos, a relativa superioridade política, e uma acentuada tendência para a unificação nacional explícita. A união formal e coerente com que eles fazem as suas campanhas, e em que se fortalecem, pressupõe o instinto de pátria, ainda que a idéia não seja patente no nome. Tal não se nota no resto da Espanha antiga, onde, como levante geral, só se conhece o de Viriato, repetido com Sertório.

Com a queda de Roma, nas crises que se seguem, dada a extensão das consequências, o motivo limitado - a alma lusitana, pareceu anulado; e, através da ocupação sueva, o objetivo explícito de uma pátria lusitana ainda não se define. Invadida a Ibéria, foi a Lusitânia ocupada pelos alanos, num domínio frustro, e que não teve ali, importância análoga ao da parte leste, aonde, por isso mesmo, ficou o nome Catalunha. Na Galiza e norte de Portugal, estiveram os suevos, numa forma de domínio ainda menos acentuado, e que não tocou fundo a vida nacional. Vieram por sua vez os árabes; mas, ao passo que, em Castela, a sua presença vai até a entrada do Séc. XVI, no noroeste, eles não demoram nem um século. E Portugal nasceu nessa parte da ibéria, no norte, que gerou-se Portugal, que reagiu mais cedo ao sarraceno, em tais condições de força e espontaneidade que toda a região de Porto, Braga e Viseu.... não conheceu o domínio mulçumano mais de cinqüenta anos. Mesmo no sul, o seu domínio cessa com o Séc. XIII.

Os ânimos se retemperam na campanha da reconquista, ao primeiro pretexto, destaca-se Portugal, levado por uma iniludível necessidade de soberania e individualidade.

Isto significa que estava feita a comutação das energias: os espírito orientaram-se por outros impulsos sociais - esses que tornaram os portugueses mais aptos  que quaisquer outros povos peninsualres para a realização da idéia nacional. Vigorosos sempre, até o heroísmo e, com isto, intimamente disciplinados, tal nos aparecem  os povos que devem fazer o Portuga histórico e glorioso. Tudo que nos outros ibéricos é orgulho do indivíduo, afirmação pessoal, viço de intransigência retumbante, fulgor de manifestação e expressão.... é pura força de ânimo no português tradicional. Para ele, os impulsos não arrebentam em gestos e vozes.... difundem-se em profundidade, e vão alimentar uma vontade pertinaz, para esforços indomáveis e persistentes. Pertinácia, valor definitivo na pertinácia, intransigêncianos objetivos - eis as constantes no caráter português. Nessa formula de ação, o grupo humano primitivo se transformou em povo nacionalizado.

Manoel Bomfim,