terça-feira, 5 de agosto de 2014

O Mito de Iurupari



Conta um antigo mito Tupi que quando a terra se encontrava sob o caos, governada pelas mulheres. Guaracy, o Deus Sol, enviou seu filho Iurupari, o legislador, para restabelecer a ordem das coisas. Concebido por uma virgem fecundada pelo sumo da Cucura (uma fruta reservada somente aos homens), Iurupari desapareceu ao nascer e tornou 15 anos depois. Forte e de aparência bela, Iurupari se fez chefe e transferiu o poder para os homens. Para que aprendessem a serem independentes delas, instituiu grandes festas em que só eles podiam tomar parte, e segredos que só por eles deviam ser conhecidos. As mulheres que fraudassem tais regras deviam morrer. E, em obediência desta lei, morreu Ceuci, a própria mãe do legislador. Os homens somente são iniciados nos seus segredos depois de sofrerem, desde a puberdade, um rigoroso treinamento e atingirem a idade em que se sentem plenamente seguros e fortes para resistir a qualquer sedução que lhes queira arrebatar os segredos. Iurupari instituiu 8(oito) mandamentos: 

1º A mulher deverá conservar-se virgem até a puberdade;
2º Nunca deverá prostituir-se e há de ser sempre fiel ao seu marido;
3º Após o parto da mulher, deverá o marido abster-se de todo trabalho e de toda comida, pelo espaço de uma lua, a fim de que a força dessa lua passe para a criança;
4º O chefe fraco será substituído pelo mais valente da tribo;
5º O tuxaua poderá ter tantas mulheres quantas puder sustentar;
6º A mulher estéril do tuxaua será abandonada e desprezada;
7º O homem deverá sustentar-se com o trabalho de suas mãos;
8º Nunca a mulher poderá ver Jurupari a fim de castigá-la de algum dos três defeitos nela dominantes: incontinência, curiosidade e facilidade em revelar segredos.

É sobre o oitavo mandamento, que se apresenta como desfecho a aventura humana de Iurupari, a missão que lhe fora atribuída pelo Sol: o de procurar a mulher perfeita, que não tivesse nenhum daqueles defeitos.

A ação de Iurupari se passa num tempo mítico, anterior ao que possa ser admitido como História, mas sem que esta possa negá-lo de todo. Uma peste dizima os homens da tribo, deixando apenas alguns velhos, entre eles um pajé, que, para Naruna, a matriarca, era apenas “uma raiz, uma planta antiga”. Desoladas, as mulheres vão banhar-se no lago Muypá, que lhes era proibido, por ser o lago sagrado onde Ceucy, a estrela, banhava-se todos os dias, “lavando o suor de seus amantes”. Para surpresa das mulheres, o velho pajé lhes aparece no corpo de um jovem belo e forte, anunciando um castigo por haverem ignorado a interdição: “pelo crime cometido, a geração que nascerá amanhã excluirá a mulher para sempre de tudo o que for sério e grave”. Ele mergulha no lago e desaparece entre as mulheres. Depois de passadas dez luas, “todas as mulheres pariram ao mesmo tempo”. Naruna deu à luz uma menina, a quem chamou Ceucy da Terra.

Adolescente, Ceucy, ainda virgem, come uma fruta proibida e o sumo dessa fruta escorre-lhe pelo ventre, fecundando-a. Dez luas passadas, nasce Iurupari. O recém-nascido desaparece como por encanto e seu choro é ouvido próximo à árvore do fruto proibido. Ceucy deixa-se ficar junto à árvore e, durante algum tempo, sempre que adormece, sente o filho sugar-lhe o seio. Vinte anos decorrem até que ele reapareça para assumir o lugar que lhe fora reservado. Aos poucos, sua liderança vai sendo imposta aos homens, a quem fala sobre a música, a agricultura do milho, da mandioca da banana, e sobre o novo tempo em que eles assumirão os destinos da tribo. Essas informações devem pertencer somente aos homens: são os segredos de Iurupari. Numa das reuniões proibidas às mulheres, Ceucy, que ouvia escondida, é descoberta e recebe o castigo de morte do próprio filho. Naruna foge com as outras mulheres para o “lago de águas verdes”, recebendo os homens uma vez por ano.

Mas Naruna não desiste de conhecer os segredos de Iurupari, que só os iniciados dominam. Este, por sua vez, aplaca a tensão dos homens prometendo que dentro em breve as mulheres voltarão. A jovem Diádue, a serviço de Naruna, consegue seduzir o maduro e experiente Uálri, que é condenado a morrer pela traição. O “segredo” revelado às mulheres é o conhecimento erótico de Uálri: “ele agiu com uma sabedoria nova e não resumiu o amor em poucos gestos”. As mulheres, então, retornam, deixando Naruna e algumas poucas que lhe permaneceram fiéis. Jurupari ensina aos homens acerca das flautas sagradas:
Minhas flautas farão os desejos ondularem como ramagens saudando o tempo, na alta copa da mata, esvaindo todo o travo das frustrações na torrente distante espumando na descida. E os homens crescerão sem medo, como o trêmulo pássaro parado na margem antes do ocaso.

O terceiro ato começa mostrado um outro legado de Iurupari: os adornos. Os homens vão ao encontro anual com as últimas defensoras do matriarcado. Jurupari, pela primeira vez, vai junto. No encontro com Naruna dá-se o inevitável: ele a mata. Quando retornam, ainda sob os reflexos do incêndio que consome a maloca de Naruna, Jurupari e Diádue fazem amor, mas ele a adverte:
Esta será a nossa primeira e última noite. Quando os séculos se consumarem eu voltarei a te encontrar e viveremos juntos. Eu mergulharei em ti e repousarei das minhas fadigas e sustos.

Pela manhã, Diádue transforma-se num lago. Antes, entretanto, Iurupari revelara-lhe um último segredo: o Trovão Avô do Mundo, Tupã, queria casar-se e incumbira-o de encontrar a mulher perfeita. Ele precisava continuar sua busca por uma mulher paciente, que soubesse guardar segredo e não fosse curiosa.


Não foi possível ao embaixador do grande astro encontrar semelhante criatura. Não a encontrou, nem a encontrará jamais. Entretanto, talvez porque lhe não desagrade semelhante missão, continua a busca, sem que se saiba o caminho por onde se tem arriscado nessa esforçada e inútil tentativa. Só regressará ao céu no dia em que a tiver encontrado e puder corresponder à confiança nele depositada. Enquanto isso não acontece, desenvolve sua atividade noutro sentido, o permanente treinamento de suas condutas.

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