Mostrando postagens com marcador Getulio Vargas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Getulio Vargas. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 20 de maio de 2026

A Malha Ferroviária Brasileira, Construtores e Sabotadores.

 


Desde a primeira ferrovia de Mauá (1854) até o fim da monarquia, com Dom Pedro II (1889), a extensão total da malha ferroviária do Brasil Império atingiu 9.583 km. A guisa de comparação, a Argentina, no mesmo período, com um território quatro vezes menor e uma população muito mais ínfima, que à época se resumia a uma única cidade de envergadura, Buenos Aires, detinha 9.432 km de ferrovias. Outra comparação reveladora é com os Estados do Sul dos EUA (excluindo os do Norte, mais industrializados), eminentemente agrícolas e escravocratas, que, em 1861, antes da eclosão da Guerra Civil Americana, contavam com 15 mil km de malha ferroviária. Outro paralelo é a Rússia, ainda 'feudal' e agrícola, que, em 1880, já contava com 15.500 km de ferrovias! Até 1890, expandiu para 21.000 km! O que, mais uma vez, ante tantas outras evidências, desmonta as deslavradas mentiras monarquistas, destinadas a enganar trouxas, sobre um Império próspero e desenvolvido. Cabe assinalar que essa parca extensão, no Brasil, era fruto quase exclusivamente de iniciativas privadas, ao passo que, na Argentina, como na Rússia Czarista, sua rede ferroviária foi estendida com forte aparato estatal. E é justamente pela mão do Estado que o Brasil observará, na República Velha, sua expansão ferroviária.


A República Velha e o Verdadeiro Ciclo de Expansão

A República marcou o início do verdadeiro ciclo de expansão ferroviária brasileira em escala nacional. Ao contrário do período imperial, em que as linhas surgiam de forma fragmentada e majoritariamente subordinadas aos interesses privados exportadores, a República Velha consolidou uma política mais ampla de integração territorial e modernização logística.

Os presidentes que mais expandiram a malha ferroviária do Brasil foram aqueles que governaram entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX, período em que houve forte investimento em infraestrutura ferroviária. Os principais destaques são:

Prudente de Morais (1894-98): Registrou a construção de 2.265 km de ferrovias.

Campos Sales (1898-1902): Adicionou 1.078 km à malha nacional.

Afonso Pena (1906-09) e Nilo Peçanha (1909-10): Sob o governo de Afonso Pena, houve cerca de 2.500 km construídos. Seu falecimento antes de encerrar o mandato, entre 1909 e 1910, no governo de Nilo Peçanha, foram inaugurados mais 2.000 km de malha, fruto de obras e contratos já iniciados e ajustados anteriormente no governo de Afonso Pena. Isso totalizou 4.500 km de ferrovias construídas no Brasil, um verdadeiro salto como nunca houvera havido, até então, em tão curto espaço de tempo. Em 1906, a malha estava em torno de 16.000 km e, em 1909, chegou a aproximadamente 18.500 km.

Hermes da Fonseca (1910-14): Seu governo realizou o maior "boom" ferroviário da história do Brasil (entre 1907 e 1914), com 4.767 km de linhas férreas construídas, impulsionado pelos lucros do café e pela política de arrendamentos de ferrovias pelo governo federal. Ele é o verdadeiro campeão de expansão em um único mandato republicano.

Epitácio Pessoa (1919-22): Apresentou um crescimento relevante de aproximadamente 1.500 km.

Arthur Bernardes (1922-26): Em 1922 (ano do Centenário da Independência), a malha ferroviária estava próxima de 26.500 km (fontes apontam que o Brasil já possuía aproximadamente 29.000 km de ferrovias, curiosamente quase a mesma extensão da malha operacionalizada que o país possui hoje). Bernardes entregou efetivamente no curso do seu governo 2.172 km de novas linhas férreas (atingindo cerca de 28.500 km em 1926). De igual modo que sucedeu com Afonso Pena, seu sucessor acabou colhendo os frutos de sua gestão.

Washington Luís (1926-1930): Inaugurou mais 2.500 km, em grande parte linhas já iniciadas por Arthur Bernardes. Durante seu governo, a malha cresceu em torno desses 2.500 km, embora ele tenha adotado o lema "governar é abrir estradas".


A Era Vargas (1930-45 / 1951-54): Expansão e Modernização das Vias Férreas Brasileiras:

Com a ascensão de Getúlio Vargas, o ritmo de expansão manteve-se expressivo em seu primeiro período, acrescendo 4.000 novos quilometros de linhas férreas para o Brasil, com a malha ferrovirária brasileira chegando a um total de 34.000 km. Havendo uma estagnação na década de 1950, em seu segundo mandato, sua prioridade se voltou para a consecução da Petrobrás e da Eletrobrás, além de ter sido um mandato incompleto com seu trágico desfecho. 

Antes de Vargas, as locomotivas eram a vapor, e as locomotivas elétricas já eram uma realidade, com maior capacidade de carga, velocidade e menor custo logístico. E Vargas deu início a modernização de todas, antiquadas, linhas férreas brasileiras. Caso da Estrada de Ferro Central do Brasil (EFCB). Também foi com Vargas que passou-se a padronizar as bitolas, que, anteriormente, diferia conforme as empresas contratadas para a construção dos ramais. Esse grave erro não foi fruto do acaso, visava impedir a integração ferroviária nacional, fenomeno também observado na Argentina, que teve suas vias férreas construidas por companhias inglesas. 


Jucelino Kubitcheck (1956-61), O Começo do Fim:

No governo JK, o Brasil atingiu o seu pico histórico de malha ferroviária, girando entre 37.000 km e 38.200 km, quando passa a decair com o próprio JK, que deu início ao processo de desativação de ramais, tidos, por deficitários. 

No seu governo foram acrescidos entre 850 à 1.000 km de novos ramais, contudo, eram ferrovias inciadas ainda no governo Vargas, oriundas de seu Plano de Metas (Vargas), e conclusas em seu mandato (JK). Exemplo foi a conclusão de trechos da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil bem como as ligações na Rede Mineira de Viação que haviam sido iniciados décadas antes tanto no primeiro governo Vargas (1930-45), como em seu segundo governo (1951-54). Não houve nenhum acréscimo de novas ferrovias originárias do seu mandato, mas sim o início das desativações de ramais. 
 
A desativação física de ramais foi simbólica (menos de 200 km efetivos). O que JK fez, na verdade, foi preparar o terreno legal e institucional: Criou a RFFSA - Rede Ferroviária Federal S.A. (1957) unificando as ferrovias federais para mapear quais eram deficitárias e desativá-las, esse foi o real intuito de sua criação. Sem a unificação, o governo federal não poderia desativar ferrovias sob controle estaduais mediante sua federalização. Foi criado o conceito de "Ramal Antieconômico", dando ensejo a diretriz de que ramais de baixa densidade deveriam ser fechados e substituídos por rodovias.

Assim, no governo JK, a malha operada pela RFFSA permaneceu estável (entre 28.460 km em 1957 para 28.583 km em 1960). 


A Ditadura Militar (1964–85): O Trator da Erradicação:

Se JK planejou, os governos militares executaram a erradicação com força máxima. O processo ocorreu em etapas cirúrgicas:

Sob o governo de Castelo Branco, foi criado o GESFRA (Grupo Executivo para Substituição de Ferrovias e Ramais Antieconômicos).

Governo Costa e Silva, O "Boom" da Erradicação (1966–70): Somente nesses quatro anos de forte repressão, foram eliminados 3.926 km de vias férreas.

Governo Médici (1969-74): Em 1974, o total de ramais completamente erradicados pela Ditadura já somava 4.881 km (algumas fontes apontam até 7.500 km computados os trechos que tiveram o tráfego permanentemente suspenso à espera da retirada dos trilhos).

Cidades inteiras do interior (especialmente em redes como a Leopoldina, no Rio/Minas, e a Rede Nordeste) viram seus trilhos serem literalmente arrancados e vendidos como sucata. O pretexto era puramente contábil: eliminar o déficit financeiro da RFFSA a qualquer custo.

Foi o período de maior encolhimento e destruição sistemática da malha ferroviária da história do Brasil, totalizando entre 6.000 km e 8.000 km de linhas desativadas ou erradicadas.


A Éra FHC (1995-2002), Privatização e Desmonte:

O processo de desmonte do sistema ferroviário brasileiro atingiria uma etapa terminal e decisiva durante o governo de Fernando Henrique Cardoso (1995–2002). Sob a cartilha das reformas neoliberais e os ditames do Consenso de Washington, o patrimônio ferroviário construído pelo Estado ao longo de um século foi liquidado. Sob o pretexto de reduzir prejuízos fiscais, modernizar a infraestrutura e atrair capitais privados, a RFFSA foi fragmentada em seis malhas regionais e transferida para o controle privado por meio de concessões de 30 anos.

O processo, contudo, foi marcado por um profundo prejuízo ao erário público. A privatização da RFFSA arrecadou um valor irrisório, cerca de R$ 1,76 bilhão pelo leilão de suas malhas. O escândalo maior residiu na aceitação generalizada das chamadas "moedas podres" como forma de pagamento. Trata-se de títulos da dívida pública emitidos pelo próprio governo que haviam se desvalorizado drasticamente no mercado devido à inadimplência do Estado; esses papéis sem liquidez eram comprados por consórcios privados com enormes deságios (por uma fração do valor de face) e aceitos pelo governo FHC pelo valor integral na hora de arrematar as ferrovias. Na prática, o patrimônio público foi entregue em troca de papéis de dívida quase sem valor real de mercado.

Paralelamente, em 1997, o governo consumou a privatização da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) por R$ 3,3 bilhões, valor risível, dado o tamanho das reservas minerais da empresa. Esse leilão desferiu outro golpe no sistema ferroviário nacional, pois a venda da mineradora incluiu, de porteira fechada, o controle de duas das ferrovias mais modernas, eficientes e lucrativas do país: a Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM) e a Estrada de Ferro Carajás (EFC). Em vez de servirem a um projeto nacional integrado de transportes, essas joias da infraestrutura estatal passaram a funcionar como meros sistemas logísticos cativos a serviço da exportação de minério de ferro por um ente privado.

Na prática, o modelo de concessões da década de 1990 priorizou quase exclusivamente esses corredores de exportação de alta rentabilidade (minério e commodities agrícolas), abandonando o restante do território. As concessionárias privadas fecharam os olhos para os ramais do interior considerados de baixa lucratividade, interrompendo o tráfego e deixando milhares de quilômetros de trilhos, locomotivas e vagões se deteriorarem ao relento.

O impacto social foi devastador. Diversas estações históricas foram abandonadas e convertidas em ruínas, cidades do interior perderam subitamente suas conexões logísticas e econômicas, e o transporte ferroviário de passageiros de longa distância foi virtualmente extinto do território nacional. O direito de locomoção sobre trilhos foi suprimido da população, sobrevivendo apenas em sistemas metropolitanos de passageiros (trens urbanos e metrôs) ou em raras linhas remanescentes de exploração turística e mineradora.

Conclusão:
O período áureo de expansão ferroviária institucional no Brasil ocorreu entre 1890 e 1945, com destaque para Prudente de Morais, Afonso Penna, Hermes da Fonseca, Arthur Bernardes, Washington Luís e Getúlio Vargas (1930-45). Após isso, o Brasil priorizou as rodovias. A partir do governo JK (Plano de Metas) e consolidando-se nos anos 1960/70 (Ditadura Militar), quando o Brasil sofreu uma radical substituição do modelo ferroviário pelo rodoviário, com fito de beneficiar e atrair multinacionais automobilísticas, resultando no sucateamento e posterior erradicação de milhares de quilômetros de trilhos. O Desmonte final, veio com FHC privatizando a RFFSA e praticamente extinguindo os ramais de passageiros.


Período Presidente Ferrovias construídas (km)
7 Mar. 1871 – 25 Jun. 1875 Rio Branco 597
25 Jun. 1875 – 5 Jan. 1878 Cotegipe 1.071
5 Jan. 1878 – 28 Mar. 1880 Sinimbu (Liberal) 530
28 Mar. 1880 – 21 Jan. 1882 Saraiva (Liberal) 840
21 Jan. 1882 – 3 Jul. 1882 Martinho Campos (Liberal) 245
3 Jul. 1882 – 24 Mai. 1883 Paranaguá (Liberal) 698
24 Mai. 1883 – 6 Jun. 1884 Lafaiete (Liberal) 654
6 Jun. 1884 – 6 Mai. 1885 Dantas (Liberal) 1.164
6 Mai. 1885 – 20 Ago. 1885 Saraiva (Liberal) 146
20 Ago. 1885 – 10 Mar. 1888 Cotegipe (Conservador) 1.572
10 Mar. 1888 – 7 Jun. 1889 João Alfredo (Conservador) 709
7 Jun. 1889 – 15 Nov. 1889 Ouro Preto (Liberal) 63
15 Nov. 1889 – 21 Jan. 1891 Deodoro - Rui 445
22 Jan. 1891 – 23 Nov. 1891 Deodoro - Araripe / Lucena 620
23 Nov. 1891 – 15 Nov. 1894 Floriano Peixoto 1.255
15 Nov. 1894 – 15 Nov. 1898 Prudente de Morais 2.265
15 Nov. 1898 – 15 Nov. 1902 Campos Sales 1.078
15 Nov. 1902 – 15 Nov. 1906 Rodrigues Alves 1.519
15 Nov. 1906 – 14 Jun. 1909 Afonso Pena 2.186
14 Jun. 1909 – 15 Nov. 1910 Nilo Peçanha 2.070
15 Nov. 1910 – 15 Nov. 1914 Hermes Fonseca 4.767
15 Nov. 1914 – 15 Nov. 1918 Venceslau Brás 1.518
15 Nov. 1918 – 28 Jul. 1919 Delfim Moreira 279
28 Jul. 1919 – 15 Nov. 1922 Epitácio Pessoa 1.281
15 Nov. 1922 – 15 Nov. 1926 Artur Bernardes 2.172
15 Nov. 1926 – 24 Out. 1930 Washington Luís 1.038
3 Nov. 1930 – 31 Dez. 1942 Vargas 2.332
3 Nov. 1930 – 31 Dez. 1943 Vargas 201
3 Nov. 1930 – 31 Dez. 1944 Vargas 229


Artigos correlatos:

domingo, 16 de setembro de 2018

A V Geração Castilhista

"Uma plêiade de jovens idealistas radicalizados, Castilhistas, anti-liberais, anti-monarquistas, favoráveis a um Estado forte e autoritário, desfavoráveis ao Poder Legislativo (que nunca prosperou com o castilhismo), modernizadores burgueses, politizados e, apesar de militarizados, sempre, radicalmente civilistas. Entretanto, o traço fundamental, não só em sua doutrina, mas sobretudo da administração concreta dos militantes do PRR, foi seu marcado caráter anti-oligárquico e anti-patrimonialista dos seus governos de quase quatro décadas.."

Quando as sombras das trevas envolvem a pátria, quando seu povo vagueia sem rumo na escuridão, tomados pela fome, acometidos pelas chagas, saqueados por estrangeiros, e quando tudo parece perdido... os  heróis ressurgem, como astros a guiar o passo conduzindo em salvo pela jornada do destino, pois se lhes fora facultado nascerem em outras épocas.... mais amenas, renegariam! Pois é na noite mais escura que fulguram com maior brilho! E de nada valeria suas vidas se não quando mais a pátria deles necessita e com um sorriso nos lábios, ansiosamente, derramar o sangue por sua terra, e com seu sacrifício fertilizar os campos para que brotem gerações vindouras ainda mais potentes.

Volvendo os olhos para o passado, repousa o berço da nacionalidade, fonte perene de inspiração, em resgate dos valores perdidos, que uma vez renascidos, forjará uma geração capaz de realizar milagres. O renascimento do homine brasiliensis, tal como idealizou Maquiavel na sua busca do homem de "virtú" para salvar a Itália, ou o "ürbermensh" de Nietzsche. Todas tentativas de resgate do homem clássico ante a decadência da época. O brasileiro, que surge no Séc. XVI, ao contrário dessas transfigurações imaginárias é real. O brasileiro quinhentista é a materialização do homem renascentista.

É um anacronismo julgar tanto o português como o brasileiro quinhentista a luz do que se observou no restante da Europa. Portugal, como toda Ibéria, nunca experimentou o negror da idade-média, tendo sido àquele tempo a região mais próspera e culta da Europa. Disso decorreu o arcabouço tecnológico que propiciou as grandes navegações.

Para compreender aqueles homens tal qual eram e oque vieram a ser, é preciso mergulhar a luz do catolicismo, determinante na formação da mentalidade daquela gente. A Gallaecia cristã, aonde nasceu Portugal, que primeiro se bateu pela expulsão moura e cedo os repeliu, não sofreu o influxo do cristianismo romano. O norte, menos romanizado, conservou seu substrato celta sob uma aparência cristã. E assim, nunca caiu na decadência mórbida do cristianismo oficial.

São esses portugueses nortenhos, os mais numerosos, que virão a aportar no Brasil, em sua maioria aldeões, que conservaram sua ortopráxis religiosa de substrato celta, e por desiderato seu ethos. Nada sabiam dos costumes  bíblicos, e pouco compreendiam oque lhes falava nas missas rezadas em latim. Sua religiosidade se materializava nos ritos, peregrinações, rezas e agouros de suas crenças imemoriais, conservadas, pelo isolamento, nas populações aqui plantadas.

Os que se entregavam as letras, tinham por tutores os jesuítas, de formação humanista por excelência, e que será um traço característico na formação dos homens letrados do Brasil, e que exercerão sua influência ao longo dos dois primeiros séculos de nossa formação, findo o qual o Brasil já estava feito.

Temos assim, grosseiramente, a guisa de exemplo, dois seguimentos "intelectuais" em sentido lato, na formação do Brasil, um composto pela população rural iletrada, que conserva uma religiosidade com forte substrato pré-cristã e uma elite intelectual de formação humanista. Então, quando do contato entre esses portugueses, de natural espírito renascentista, e tupis, surge o brasileiro, que nasce livre da noção de pecado, ultra equinocialis non pecare, de hábitos arcaicos, verificável ainda hodiernamente, tanto em sua língua quanto em sua religiosidade, melhor conservada do que no outro lado do atlântico, o gosto pela fidalguia e suas inter-relações mais baseadas no sangue do que em convenções sociais. Isso tanto  pelo lado dos tupis quanto dos portugueses, ambas sociedades orgânicas, em que somente as relações de sangue firmava uma real aliança entre as partes. O "cunhandismo" foi um fenômeno natural na formação brasileira, conseqüente do encontro de duas sociedades com características tribais. Disso decorrendo sua estruturação social em clãs, como também se observa nas populações nortenhas de Portugal.

A expulsão dos jesuítas, concomitante ao parasitismo da metrópole já decaída pelo espírito mercantil, foi um golpe que retirou do Brasil esse corpo pensante, relegando a população ao abandono e a ignorância. Quadro agravado, com o não reconhecimento do Vaticano da dinastia dos Braganças ao fim da União Ibérica, e que fez cessar as nomeações de padres para o Brasil. Assim a ação eclesiástica em terras brasileiras teve um longo hiáto, no que pese ter corroborado para a preservação dessa religiosidade medieval pelos brasileiros.

O heroísmo que atirara a nação portuguesa ao mar se degrada em ambição grosseira de lucro, subverte a classe dirigente, que passam a viver do parasitismo mercantil das índias, as atividades produtivas do Reino são marginalizadas, decaem, e com ela a própria decência. As índias funcionaram como filtro que poupou o Brasil de espíritos rapaces, os que buscavam lucros imediatos, a colher riquezas feitas, se dirigiam para as índias, para o Brasil se foram os que buscavam fortuna estável, se fixando a terra. Os primeiros colonos, foram a melhor gente que Portugal pode nos legar, advindos da baixa aristocracia rural nortenha, com o intuito explícito de fundar uma nova pátria.

Perdida as índias, Portugal se volta para o Brasil como "sua vaca leiteira". Ainda ligado umbilicalmente a Portugal, não repele em definitivo oque se converte em explorador.

Foram as leis de Licurgo, profetizadas pela sacerdotisa de Delfos, que asseguraram a prosperidade de Esparta. Júlio de Castilhos, assim como Licurgo, é para nós brasileiros, o instituidor das leis que nos fará sair do paul em que nos encontramos. A ereção de um Estado forte, democrático e sobretudo soberano, garantidor da unidade e da prosperidade nacional.

A difusão de idéias de pluralidade religiosa, de Estados "multiculturais", visam a fragmentação da unidade nacional, promovida por seitas interessadas no enfraquecimento do Estado-Nação, em reação ao surgimento e fortalecimento dos Estados-Nacionais que despontam com os ideais renascentistas. O "iluminismo", embora comumente tido como um desdobramento do Renascimento, na verdade foi uma espécie de "contra-reforma".  Há dois elementos iluministas que deformam completamente os ideais renascentistas, o individualismo e o universalismo.

As sociedades clássicas, eram formações profundamente coletivistas, e anti-universalistas, marcadas pelo preponderância do interesse público sobre o privado. O interesse coletivo se sobrepunha a todo o mais e se fazia prevalecer por intermédio de suas instituições de caráter democrático. Ao mesmo tempo que os helênos, em especial, espartanos era reputados como povos "xenofobos", a conotação só toma contornos negativos, justamente com o iluminismo. Contudo não é particularidade dos gregos, mas de todos os outros povos de estrutura orgânica. Os visigodos, a guisa de exemplo, mesmo em contato permanente com romanos e outros povos em suas estadia nos balcãs, e posteriormente na Espanha, constava no Código Visigótico, a proibição de contrair matrimonio com outras gentes, se não somente entre eles.

As instituições políticas helênicas, celtas e mesmo germânicas, se caracterizavam por ter um caráter democrático. A guisa de exemplo, mesmo Esparta, tida como um modelo "aristocrático" guardava em seu bojo eleições para certas instituições bem como consultas diretas aos seus cidadãos, instituto caracterizador da democracia. As sociedades celtas e germânicas, embora tendo Reis, hereditários, ainda sim, passíveis de destituição, ou eleitos, cumpriam mais uma função de chefe militar, as questões de maior relevo eram submetidas em assembléia, se subordinando o Rei as suas decisões. Havia ainda um "senado"(de: senos/antigos), um conselho de anciões que deliberavam entre si, submetendo em seguida a apreciação popular.

A instituição democrática, pela sua própria natureza, é anti-pluralista, esmagando as minorias e fazendo prevalecer o interesse da maioria sobre a minoria. Que com o tempo acaba por homogenizar o corpo social.

É preciso frisar que "multiculturalismo" é a manutenção de diversidades étnicas dentro de uma mesma área geográfica. O processo natural, que ocorria ao longo de toda antiguidade, era que grupos minoritários que transmigravam, e que se assentassem em uma área já povoada, fossem naturalmente absorvidos. Se isso não ocorria, fica claramente caracterizado uma invasão, e mais das vezes, a instituição de uma oligarquia (governo de poucos) subjulgando a maioria. Exemplo disso, foram as invasões anglo-saxônicas nas ilhas britânicas, antes, um assentamento celta de tempos imemoriais.

Portanto, o multiculturalismo é incompatível com uma ideologia nacionalista. O multiculturalismo é essencialmente uma tática imperialista, de divisão e desfragmentação, para quebrar a unidade de um povo, de longa data empregada por impérios, indiferentes, e mesmo hostis a unidade de povos submetidos. Como são exemplos o império pérsa, egípcio e romano, dentre outros.  Contudo, a sua própria tática de dominação, leva ao seu enfraquecimento, quando confrontado por outros povos com maior unidade, tal como sucedeu aos persas diante dos gregos. Será a atual China, os antigos gregos, diante dos EUA no papel do antigo império persa? O tempo dirá....

Observe que guardadas as devidas complexidades do Estado moderno, esse é o modelo simplificado do Estado Castilhista, o chefe do executivo, auxiliado por um corpo técnico que delibera, ao passo que o executivo julgando conveniente ou não as proposituras do concelho, submete a apreciação popular.

Ver-se o acentuado caráter orgânico desse modelo institucional, e que caracteriza o Estado Castilhista, ao contrário dos Estados Liberais, em que os governados se vê-em excluídos das decisões políticas. E é esse modelo orgânico, e por desiderato democrático, que possibilita que as decisões políticas se subordinem ao interesse coletivo, a vontade popular ipso facto, impossibilitando o favorecimento de uma minoria sobre uma maioria.

A instituição de Estados pluralistas, universalistas e descentralizados é a receita da ruína. O exemplo da guerra do peloponeso deveria ser sempre uma imagem fresca na memória daqueles que propugnam por um modelo descentralizado de Estado. Igual exemplo vemos entre os celtas, sua grande fraqueza, residiu em estarem pulverizados, para maior facilidade da dominação romana. Pois não só impossibilita a reunião dos meios que poderia fortalece-los, como abre margem a intromissão de uma potência externa. Essa foi a tática romana, se aliando a tribos mais fracas para golpear outras mais fortes, dividi-los e por fim, sem oposição, instituir seu domínio sem contestação.

Os exemplos se repetem na história, nas Américas temos os Maias, que embora mais antigos e tecnologicamente mais avançados do que seus rivais, enfraquecidos pelas guerras civis, desaparecem soterrados pela ascensão Asteca de instituição política mais centralizada.

É repetido como mantra, que o Brasil seria um "país multicultural", não há mentira maior. O Brasil sempre se caracterizou como uma sólida unidade étnico-cultural, muito mais do que países europeus menores, e do que qualquer outro com suas dimensões. Todos os brasileiros tem uma ascendência comum, uma mesma língua, sem dialetos,  e sobretudo, uma forte unidade religiosa, do qual todos os brasileiros são descendentes de progenitores que professavam um mesmo credo, a Santa Fé Católica.

A perda da unidade étnico-cultural de um povo leva a sua fragmentação e o fim de sua existência. O nacionalismo surge como defesa ideológica da nacionalidade, de seus elementos caracterizadores e dos meios materiais que o sustentam. Cumpre inexoravelmente a um nacionalista protegê-los e preservá-los, ainda mais nesses tempos em que a nacionalidade é atacada, por inimigos internos e externos.
  1. A I Geração Castilhista, com Júlio de Castilhos, nos deu as bases institucionais sob o qual devemos fundar o Estado Nacional Brasileiro; 
  2. a II se deu com as teses de tecnificação do Estado; 
  3. a III se dar com sua instituição no plano nacional, com o Estado Novo, rejeitando mais claramente as teses universalistas. Simbolicamente isso é ilustrado na Constituição de 37 com a declaração do catolicismo como religião oficial do Estado, antes omitido na constituição de 34; 
  4. A IV é caracterizada pelo período pós-Getúlio, incluindo Pasqualini, Goulart e Brizola nesse período, marcado por uma adaptação do Castilhismo, ao Estado Liberal, por intermédio do Trabalhismo. Hodiernamente; 
  5. somos a V Geração Castilhista, legatários dos ideais de Júlio de Castilhos, Vargas, Pasqualini, Goulart e Brizola. Porque posteriores a eles, e ante um novo contexto político que nos apresenta, de ataques a existência dos brasileiros como entidade nacional, de separatismos, de destruição do próprio Estado-Nacional manietado por corporações privadas, e a subjulgação do Brasil a potências externas. Somos  legatários de todo um corpo de tradições e em memória daqueles que se bateram pelo Brasil, em plena afirmação de nacionalidade!
Somos o reflexo de nossos antepassados, ligados pela cadeia imemorial do veio antigo e comum, inquebrantável, que nos une. E que perdidos nas brumas do tempo, reclamam que nos juntemos a eles. Além do gelo, ao norte, na Hiperbórea? Na idílica Arcárdia? Não.... nós somos hespérios, o extremo ocidente! Somos a transferência de uma civilização, que transpondo o abismo oceânico, seguindo o por-do-sol atlântico alcantilado, coloreado a cada dia e a cada ano pela vermelha ilha do solícito brilhante sol poente, rumo à paradisíaca rubra ilha Hy-Brasil, nos exilamos nas terras ocidentais do mundo, na realização profética de criação de uma nova raça de homens, predestinada pelos Deuses, a conquistar o mundo! A grei de Breogan!

As vozes ancestrais ecoam, em súplica, para que nos levantemos e os heróis tomem seus postos, alçando ao alto o estandarte legado, conclamando a defesa da pátria!

Artigos correlatos:

01. O Castilhismo como Materialização do Período dos "Cinco Bons Imperadores".
02. 1139 - O Surgimento do Estado Nacional!
17. Uma Grécia nas Ribeiras do Atlântico Sul.










sexta-feira, 28 de julho de 2017

A Dança dos Lenços - Dois Lenços na História de Vargas.

Dois Lenços na História de Vargas
por: Carlos Heitor Cony


Getúlio representado com o tradicional
lenço branco castilhista.
Getúlio usava um uniforme sóbrio, como convinha ao chefe civil de um movimento armado. As fardas provincianas tinham uma combinação mediterrânea de cores e símbolos que resultava feérica. Um coronel dos provisórios, lançado no hall de um hotel em Nice, seria tomado como porteiro ou como o conde de Luxemburgo em pessoa e farda. Quanto a ele, o único adorno que consentiu em usar era anterior à farda e ao movimento revolucionário: foi o lenço branco do seu partido, o lenço chimango, símbolo das velhas lutas gauchescas. O lenço de Júlio de Castilhos, de Borges de Medeiros, o lenço republicano.

Era a marca de sua pessoa, de sua grei, de sua crença. O partido contrário usava outro lenço, o vermelho do sangue maragato. A Frente Única unira adeptos de um e de outro lenço, mas cada qual ficou com o que era seu. O acordo tornara possível a "pax" que desceria sobre os pampas tumultuados, criando condições para que os gaúchos roncassem feio e forte no cenário nacional, não mais com fatos ou personagens isolados, como Pinheiro Machado, mas como unidade da federação que tinha o que dizer e fazer.

Apesar da união recente, quem era maragato botava no pescoço o lenço vermelho. Quem era republicano ficava com o lenço branco. O Acordo de Pedras Altas, entre Borges e Assis Brasil, previra uma união de idéias, não de lenços.

O trem que trazia os dois principais chefes revolucionários, Getúlio Vargas e Góis Monteiro, chegara a Curitiba e ali encontrara um clima emocionado. Um estudante paranaense morrera num combate ocasional, episódio realmente isolado, pois quase não havia luta entre as forças leais ao governo e os revoltosos que estavam dispostos a depor Washington Luís e, com ele, a Velha República. A cidade preparara um velório de herói nacional para a única vítima local. Getúlio e Góis não costumavam sair do trem onde funcionava o quartel-general da revolução.

Por conta própria ou por sugestão de algum assessor (não havia marqueteiros naquele tempo), os dois chefes supremos decidiram ir à capela onde o jovem estava sendo velado pela multidão. Abriram alas para eles. A mãe da vítima, ao reconhecer em Getúlio o homem que encarnava o ideal pelo qual o estudante se sacrificara, teve uma atitude surpreendente, espartana: abraçou-se a ele e, sem lágrimas na voz, disse que dera seu filho à pátria e à revolução, que não estava arrependida, só implorava que o sacrifício dele e o dela também não fossem em vão.

A cena comoveu até mesmo o tenente-coronel Góis Monteiro, homem habituado às intempéries da caserna. É possível que tivesse apelado, durante o trajeto do trem à capela, para o cantil, onde não se sabia se havia água ou cachaça. O fato é que, segundo uma testemunha, fungou prendendo um soluço.

Vargas, homem de controle emocional extraordinário, que se policiava como um anacoreta, sentiu um nó na garganta quando a mãe do herói o abraçou. Comovida, a multidão não suportou a cena e muitos começaram a chorar.

A hora não era para discursos, bastava o desabafo da mãe da vítima num arranque inesperado e brutal. Vargas fez um gesto que valeu por um discurso: aproximou-se do caixão, tirou o lenço branco do pescoço e o colocou sobre o rosto do estudante. Era mais que uma homenagem: era uma condecoração.

Quando ele se afastou da capela, um cidadão surgiu à sua frente. Tinha, em volta do pescoço, um lenço vermelho, o lenço maragato. Alguns anos antes, dois gaúchos com lenços diferentes, frente a frente, tinham de puxar o punhal ou a pistola, pois somente um deles deveria viver. Mas agora estavam todos no mesmo barco, na mesma aventura. O cidadão tirou o seu lenço e, num gesto de audácia que ninguém conseguiu evitar, colocou-o no pescoço que, havia três gerações, só conhecia uma cor de lenço: o branco.

Um republicano fanático teria repelido imediatamente o lenço adversário, tal como um maragato, que preferiria ser degolado, como em 1893, a usar um lenço do partido rival. Aquela imposição de lenços seria um exagero emocional que nem mesmo a união revolucionária toleraria. Que se unissem republicanos e federalistas, chimangos e maragatos para destruir um adversário comum certo. Mas que essa união conspurcasse o átrio das tradições, o templo dos velhos ódios, das muitas mortes e derrotas era demais.

Houve espanto e temor na multidão. Que faria ele, um republicano de estirpe, filho e neto de republicanos, de repente exibido em público com um lenço maragato no pescoço?

Getúlio nada fez, ou melhor, fez muita coisa. Partiu da capela por entre alas da multidão, enfrentando os ressentimentos provincianos de alguns de seus companheiros. Estava agora armado cavaleiro. Estava feito revolucionário. Com esse lenço vermelho chegaria ao Rio, assumiria o poder. Aquele vermelho não significava guerra nem sangue. Significava acordo. O sangue dele ficaria para bem mais tarde.

Publicado originalmente na Folha de SP, em 06/08/2004.
Agradecimentos a Igor Taam

Veja também:

V Geração Castilhista
As Raízes Socialistas no Pensamento Getulista.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Getúlio Vargas e a Independência.


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
1.Aproxima-se o 60º aniversário do golpe de Estado com o  qual a oligarquia angloamericana derrubou o presidente Vargas, em 24 de agosto de 1954. 
 
2. Esse acontecimento teve efeitos tão desastrosos como importantes. Trata-se, nada menos, que da cassação da independência do Brasil

3. A soberania do País nunca foi plenamente exercida, mas, se houve governante que tomou iniciativas para alcançá-la, esse foi Getúlio Vargas. 

4. Exatamente por isso, a oligarquia imperial angloamericana sempre conspirou contra ele, com a ajuda de pseudo-elites e de agentes locais da política e da mídia, em geral recrutados por meio de corrupção. 

5. Em 1932, a oligarquia paulista promovera o fracassado movimento de 9 de julho, movida pelos interesses britânicos. Intitularam-no constitucionalista, conquanto Getúlio organizara as eleições para a Constituinte que votou a Constituição de 1934, a qual instituiu significativos avanços econômicos e sociais. 

6. Tão profunda como a estima dos verdadeiros industriais e a veneração dos trabalhadores brasileiros a Getúlio, foi a ojeriza da minoria desorientada pelos preconceitos da “democracia” liberal e dos contrários à industrialização, alimentada pela hostilidade da mídia,  caluniosa e falsificadora dos fatos. 

7. Vargas fora forçado, durante a Segunda Guerra Mundial,  a ceder bases militares no Nordeste aos EUA, e cometeu o erro de insistir em enviar a Força Expedicionária Brasileira à Itália. A FEB foi equipada e armada pelos EUA e combateu sob comando norte-americano. 

8. Daí se criaram laços entre os comandantes e oficiais de ligação estadunidenses e os oficiais brasileiros que conspiraram nos quatro golpes pró-EUA (1945, 1954, 1961 e 1964. 

9. Em outubro de 1945, o pretexto foi derrubar um ditador, o que não tinha sentido, pois o presidente viabilizara eleições, já marcadas para o início de dezembro,  e não era candidato. Após o golpe, recomendou votar no marechal Dutra, pois o brigadeiro Eduardo Gomes representava os que sempre se haviam oposto a Vargas. 

10. Quando Vargas,  eleito em 1950, voltou à presidência, nos braços do povo, já estava em marcha a desestabilização de seu governo, a qual culminou com o crime da rua Toneleros, já em agosto de 1954. 

11. O crime foi dirigido  pelo chefe da delegacia de ordem política e social (DOPS), famosa por seus métodos desumanos de repressão aos comunistas, desde a época do Estado Novo, instituído por golpe militar, em 1937. 

12. Esse golpe proveio de oficiais do exército, que colocaram Felinto Muller na chefia da polícia.  Vargas, presidente constitucional desde 1934,  permaneceu à frente do governo, mas não teve poder e/ou vontade suficiente para  limitar significativamente as violências. 

13. Ele sempre foi contemporizador, negociava com pessoas de diferentes tendências e, por vezes,  as colocava ou mantinha no governo. Ao voltar Vargas, em 1951, continuou na DOPS o filonazista Cecil Borer,  que vinha da administração do marechal Dutra. Como tantos pró-nazistas, mundo afora, movido pelo anticomunismo, Dutra subordinou-se aos interesses dos EUA. 

14. Apesar de seus erros, Vargas merece lugar de honra na história do Brasil, por ter dado o indispensável apoio do Estado ao desenvolvimento industrial, que despontava desde o início do século XX e ganhou força, de 1914 a 1945, graças também à redução dos vínculos comerciais e financeiros com os centros mundiais, propiciada pelas duas guerras e a longa depressão dos anos 30.
15. Antes do fim da Segunda  Guerra Mundial, o império já planejava fazer abortar esse processo. Mais tarde, diria o notório Henry Kissinger: “para os EUA seria intolerável o surgimento de uma nova potência industrial no hemisfério sul.” 

16. Os serviços secretos dos EUA e do Reino Unido vinham, de há muito, operando na desestabilização do presidente. Em 1954, Borer envolveu informantes da polícia e pistoleiros no crime da Toneleros, que matou o major Vaz, da aeronáutica, simulando que o alvo seria o  virulento adversário de Vargas, Carlos Lacerda.  

17. Na armação policial-jornalistica-militar, Vaz, casado e pai de filhos pequenos, substituiu, na ocasião, o solteiro major Gustavo Borges. Lacerda engessou o pé dizendo ter tomado um tiro de revólver,  mas, se isso fosse verdade, o pé teria sido destroçado.  Nunca se encontrou um prontuário de atendimento em hospital. 

18. A conspiração enredou a guarda pessoal do presidente e o fiel guarda-costas Gregório Fortunato, que foi torturado e ameaçado para confessar o que não fez. Condenado a 15 anos de detenção, foi assassinado na prisão, em operação de queima de arquivo. 

19. O golpe de 1954 é o maior marco negativo da história do Brasil,  pois o governo udenista-militar, dele egresso, criou vantagens incríveis para as empresas transnacionais dominarem por completo a produção industrial do País. Fez os brasileiros pagar caríssimo para serem explorados. 

20. Foi, assim,  inviabilizado o desenvolvimento de tecnologias nacionais, a não ser por grandes empresas estatais ou apenas em nichos menores, no caso de indústrias privadas  nacionais, ainda assim, fadadas a ser desnacionalizadas. 

21. Tanto o golpe de 1964, que instituiu os governos militares, como a falsa democratização, a partir de 1985, intensificaram as políticas pró-capital estrangeiro em detrimento do País.  

22. Os governos de 1954-1955 e 1956-1960 (JK) foram motores da desnacionalização da economia. Os de Collor e FHC os mais monoliticamente entreguistas. Nenhum operou reversões nessa marcha infeliz. 

23. A herança hoje é a desindustrialização e a colossal dívida pública, tendo a União já  gastado nela, desde 1988, quase 20 trilhões de reais. Além disso, recorrentes crises devidas aos déficits de comércio exterior. 

24. As  realizações do presidente Vargas fazem dele o principal heroi nacional e exemplo para futuros líderes. Mas não sem reservas, porque  lhe faltou combatividade e espírito revolucionário. 

25. Não me parece verdade que o nobre sacrifício de sua vida tenha frustrado os objetivos dos imperialistas. Preservaram-se as estatais, mas a própria Petrobrás – que já nascera sem o monopólio na distribuição, o segmento mais lucrativo – acabou, em parte, arrancada da propriedade estatal. Além disso, nos anos 90, ocorreram as doações-privatizações de dezenas de fabulosas estatais, algumas  criadas durante governos militares. 

26.  A grande derrota estratégica deu-se com a entrega dos mercados e da produção industrial privada às transnacionais. Sem isso, a dívida externa não teria explodido em 1982, nem sido torradas as estatais, a pretexto de liquidar  dívidas públicas, as quais, depois disso, ao contrário, se avolumaram como nunca. 

27. O momento para evitar esse lastimável destino, era com Vargas,  amado pelo povo, que foi às ruas, em massa nunca vista, pronto a tudo, quando de sua morte. Aí não havia liderança, nem plano.
28. Getúlio precisava ter cortado, no nascedouro, os lances que minaram suas bases de poder.  Entre estes, o acordo militar Brasil-Estados Unidos, de 1952, negociado por Neves da Fontoura, ministro das Relações Exteriores, e por  Góes Monteiro, chefe do Estado-Maior das FFAA,  sem o conhecimento do ministro do Exército, Estillac Leal. 

28. Este se demitiu, pois Vargas assinou o acordo, e, com isso, cedeu aos que, mais uma vez, o traíam, e perdeu seu ministro nacionalista. 

29. Fraquejou novamente em 1953, quando, embora mantendo o correto reajuste do salário mínimo, demitiu João Goulart do ministério do Trabalho, medida exigida em memorial assinado por 82 
coroneis do Exército. Nesse episódio, caiu o ministro do Exército, Cyro do Espírito Santo Cardoso. 

30. Não era tarefa simples sustentar-se sob constante e intensa pressão contrária da alta finança angloamericana, a qual não economiza recursos nem hesita em recorrer à corrupção e a práticas celeradas. Entretanto, a pior maneira de reagir a essa pressão é fazer concessões, em vez de cortar a crista dos golpistas. 

31. Deixando de coibir aquelas práticas,  Vargas facilitou o caminho dos inimigos. Sobraram-lhe escrúpulos, ao exagerar em sua tolerância, para não ser acoimado de ditador. Faltaram bons serviços de inteligência e  a compreensão de que seria derrotado, se não mobilizasse o povo e  a oficialidade nacionalista. 

* – Adriano Benayon ex-diplomata, doutor em economia e autor do livro Globalização versus Desenvolvimento.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

O Trabalhismo e a Educação



O Trabalhismo brasileiro desde sua formação e estruturação ideológica defende a educação, sendo um dos seus pilares para a emancipação do povo brasileiro, iniciando o seu  desenvolvimento no Rio Grande do Sul, através do positivismo castilhista e seus seguidores, projetando e investindo na educação de base.

  Através da Revolução de 30 e a chegada de Getúlio ao poder, inicia-se um processo de transformação social no país, deixando a estagnação e atraso, através de medidas do líder revolucionário, fazendo com que o modelo criado no sul seja expandido nacionalmente. O projeto é gerado com a criação, no mesmo ano,  do Ministério da Educação, nomeando Francisco Campos em 1931 como ministro, com o objetivo de implementar a reforma educacional. Em dezembro do mesmo ano, na IV Conferência Nacional de Educação, o Governo solicita a elaboração de diretrizes para uma política nacional de educação. A partir dessa conferência é elaborado o “Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova”, publicado em 1932, idealizando a educação como pública, laica, gratuita, obrigatória, tendo função social e um serviço essencialmente político.
  A partir da Constituição de 1934 os avanços educacionais por meio do Estado são oficializados:
O artigo 5º estabelece como competência privativa da União a elaboração de diretrizes e bases para a educação nacional.
O artigo 149 afirma ser a educação direito de todos, devendo ser ministrada pela família e pelo poder público. Afirma ainda ser finalidade da educação, desenvolver a solidariedade humana.
O ensino primário deverá ser integral gratuito e de frequência obrigatória, extensivo aos adultos.
  Francisco Campos é substituído no ministério, em julho de  1934, por Gustavo Capanema que, em 1942, complementa a reforma educacional e universitária, através das Leis Orgânicas, com a criação e a padronização do sistema universitário público federal, criação da Universidade do Brasil e com os decretosDecreto-lei  4.073, em 30 de janeiro de 1942 (Lei Orgânica do Ensino Industrial); Decreto-lei 4.048, em 22 de janeiro de 1942, criando o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), Decreto-lei 4.244, em 9 de abril de 1942 (Lei Orgânica do Ensino Secundário). Para Getúlio a educação é fundamental para a formação da identidade nacional, sendo uma extensão de seu projeto de nação:
"O programa de realização do Estado Novo compreende o reajustamento completo dos quadros da vida brasileira, desde a substrutura econômica até à formação intelectual e moral das gerações novas" (VARGAS, p. 249).
Posteriormente, já no segundo governo, Vargas cria o Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq) e a Campanha Nacional de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). O interesse pelo ensino técnico profissional é uma herança dos governos castilhistas e borgistas, que pode ver-se com a criação da "taxa profissional", em 1913 por Borges de Medeiros, para assegurar recursos financeiros à execução de um programa de ensino voltado para a formação de operários, especializados no sul do país. Em todo o governo trabalhista de Vargas a educação passa a ocupar o sexto lugar das despesas no âmbito da União e o segundo dos estados brasileiros. As matrículas são ampliadas e o analfabetismo diminuído consideravelmente. Por seu caráter de Estado modernizador, igualitário e de paz social, o Trabalhismo tem nas reformas educacionais o mesmo pensamento modernizante:
"Não haverá transformações sociais estáveis e duradouras se não se formar, ao mesmo tempo, o caráter do homem. O que é necessário, por isso, é educá-lo [...]. Educar é ensinar a compreender, a sentir e a reagir. Educar é formar convicções" Alberto Pasqualini (SIMON, 1994, p. 13-14).  
  Após a morte de Getúlio, já em 1959, a pauta da educação volta a ser debatida entre os educadores, lançando o segundo manifesto chamado "Uma vez mais convocados", defendendo novamente o direito à escola pública, laica, gratuita e obrigatória, liderados por Darcy Ribeiro contra os defensores da escola privada, liderados por Carlos Lacerda. As discussões ampliaram-se com a chegada de João Goulart, até então vice presidente, ao Governo Federal em 1961.

  Ao começar o governo, Jango sanciona a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, gerando novamente o modelo de desenvolvimento educacional trabalhista, agora no âmbito das reformas de base, reunindo os principais educadores e movimentos sociais, colocando em pauta a alfabetização, o desenvolvimento e ampliação do ensino fundamental, médio e universitário. Cria em 15 de dezembro de 1961 a UnB, projetada por Darcy Ribeiro, que se torna ministro da Educação e cultura, modernizando o ensino superior com o conceito de Universidade nova:
"A UnB foi organizada como uma Fundação, a fim de libertá-la da opressão que o burocratismo ministerial exerce sobre as universidades federais. Ela deve reger a si própria, livre e responsavelmente, não como uma empresa, mas como um serviço público e autônomo" Darcy Ribeiro.
Jango utiliza-se do método Paulo Freire, na implementação do Plano Nacional de Educação, que entre seus objetivos são: formar educadores em massa, criar 20 mil círculos de cultura, alfabetizar até 1970 todas as crianças e jovens dos 7 aos 23 anos com investimentos de até 20% do PIB. Para João Goulart o método é fundamental na conjuntura social brasileira:
"Através de um processo de ensino tão rápido, possivelmente chegaremos à grande revolução da nossa pátria, que é a revolução do ensino, a revolução pela alfabetização do povo brasileiro" (GOULART appud TEIXEIRA,2008:110).

  A partir do dia 1º de abril de 1964, com o golpe civil-militar, os projetos sociais de Jango são anulados pela Ditadura, que opta por seguir a cartilha americana de ensino através do acordo MEC-USAID, enfraquecendo o ensino público, reduzindo as matérias de ciências humanas, instituindo o ensino da língua inglesa obrigatória e a perda de um ano letivo, o marco na privatização da educação no país. 

  Nos anos finais da Ditadura militar o Trabalhismo retorna ao poder, através da campanha popular de Leonel Brizola no Rio de Janeiro, em 1982, gerando uma revolução na educação, juntamente com Darcy Ribeiro, no Estado fluminense.
"Todas as crianças deveriam ter direito á escola, mas para aprender devem estar bem nutridas. Sem a preparação do ser humano, não há desenvolvimento. A violência é fruto da falta de educação", Leonel Brizola.
  Brizola, ao assumir o Governo do Rio de Janeiro, encontra um Estado em crise social e abandonado, pelos anos do Regime Militar. Então, com o objetivo de modificar tal situação, transformou o quadro vigente da educação no Rio implementando reformas educacionais socialistas, herdadas pelo pensamento castilhista, como já havia feito como prefeito de Porto alegre e governador do Rio Grande do Sul, quando construiu 5902 escolas de ensino fundamental, 278 escolas técnicas, contratando mais de 40 mil novos professores, abrindo 688.209 novas vagas, acabando com o déficit educacional no Estado sulista. Cria o Programa Especial de Educação, projeto ambicioso investindo mais de 30% das receitas do Estado, que tem como base a construção dos CIEPs (Centros Integrados de Ensino Publico), escolas em tempo integral com cada unidade tendo capacidade para mil alunos, bibliotecas, áreas de esporte, alimentação, atendimento médico-odontológico e reforço escolar, projetada pelo então vice-governador Darcy Ribeiro e desenhada por Oscar Niemeyer, viabilizada através da Fábrica de Escolas, fazendo com que a estrutura seja pré-moldada, padronizando tanto o modelo quanto o ensino. 
"Ao invés de escamotear a dura realidade em que vive a maioria de seus alunos, proveniente dos segmentos sociais mais pobres, o Ciep compromete-se com ela, para poder transformá-la. É inviável educar crianças desnutridas? Então o Ciep supre as necessidades alimentares dos seus alunos. A maioria dos alunos não tem recursos financeiros? Então o CIEP fornece gratuitamente os uniformes e o material escolar necessário. Os alunos estão expostos a doenças infecciosas, estão com problemas dentários ou apresentam deficiência visual ou auditiva? Então o Ciep proporciona a todos eles assistência médica e odontológica" (Ribeiro, 1986, p.48).
  O modelo de educação pública criado no Rio de Janeiro, passa a se tornar o projeto Trabalhista para o Brasil. Consegue êxito no Estado gaúcho, através do governo de Alceu Collares, construindo 94 CIEPs, mas por não chegar á presidência, Brizola não consegue levar o projeto educacional para o complemento da nação.
   Mesmo sofrendo perseguição das grandes corporações da informação, Brizola consegue reeleger-se em 1990 e conclui os 506 CIEPs, retoma o programa de educação abandonado pelo governo anterior. Ainda em seu governo, Brizola e Darcy Ribeiro criam a UENF, universidade voltada para o desenvolvimento tecnológico, se tornando modelo de educação superior.
  A educação trabalhista de Brizola e Darcy é absorvida pelo governo de Fernando Collor, através da criação dos CIAC's. Com o impeachment do presidente, o projeto muda de nome e subsequentemente é abandonado, juntamente com a educação no Rio de Janeiro, pelos governos seguintes. 
   O projeto de educação pública trabalhista continua vivo, ainda que adormecido por governantes que  não primam pela libertação de seu povo. Apesar de afastado do poder, o Trabalhismo se aperfeiçoa com o tempo, a espera de que levantem suas bandeiras.
"Uma das necessidades mais imprescindíveis da vida brasileira é a revolução educacional"   Leonel Brizola.