segunda-feira, 28 de maio de 2012

Os Colonos Formadores

Nos primeiros colonizadores do Brasil encontravam-se as virtudes essenciais do pioneiro português: — solidariedade na compreensão nítida de existência nacional, hábito de atividade disciplinada e, com isto, o sentimento de trazerem consigo uma pátria, no intuito explícito de fazerem um novo país, pelo desen­volvimento das tradições nacionais. Como estímulo geral, havia o desejo de formar fortuna estável. “O português, estabelecendo-se no Brasil, abandonou de certo modo os direitos que em Portugal possuía para com o Monarca, porquanto, em lugar do rei, recebia um senhor — Dominus Brasilia. Nisso mesmo existia o motivo para os colonos jamais deporem as armas.” Assim desenvolve Von Martius (Naturalista e historiador alemão, autor de: Como Se Deve Escrever a História do Brasil).
Martim Afonso de Sousa, Tibiriça e João Ramalho

Martius antes, já havia mostrado como, nessa posse ativa e definitiva da terra, a coloniza­ção portuguesa veio estabelecer o seu “Sistema de Milícias, insti­tuição singular de defesa, de grande alcance por todo o primeiro período de formação. Eram forças saídas das próprias populações estáveis, absolutamente vinculadas à terra”. Martius acredita que, por elas, se explica o espírito empreendedor dos bandeirantes, e a capacidade de defesa contra os invasores. E ele insiste no valor dessa primeira colonização: “Não devemos julgar a emigração de colonos portugueses para o Brasil, como ela se operava no século XVI. e que lançou os fundamentos do atual... segundo os princí­pios das colonizações de hoje em dia... Era aquela uma continua­ção dessas empresas afoitadas e grandiosas... executadas ao mes­mo tempo por príncipes, nobres e povo... As mesmas razões gerais e poderosas que imprimiram a uma das nações mais peque­nas da Europa um movimento tão poderoso, e que a impeliram para urna atividade que faz época na história universal, e induzi­ram-na igualmente à imigração para o Brasil.

Em geral, os novos colônos que emigram, são gente em torno dos Donatários, a maioria da baixo aristocracia rural do norte de Portugal. Duarte Coelho trouxe consigo colonos de Viana do Castelo, a tal ponto numerosos que ao se insugirem contra emissários de Lisboa diziam: “aqui não Del Rey mas, de Viana!”.

Igualmente na então Capitania de Porto Seguro, seu donatário Campo Tourinho em menos de 3 anos construiu 7 vilas onde distribuiu alguns colonos que o acompanhavam a maior parte provinha de família de pescadores de Viana do Castelo e eles logo transformaram a pesca da garoupa nos baixios de Abrolhos em uma indústria florescente que se tornou na principal fonte de renda da capitania com a exportação do peixe salgado e seco. Após a morte de Pero Tourinho a capitania entrou em decadência, embora a Vila de Porto Seguro tenha se mantido habitada, assim como os outros povoados fundado por Pero de Campo Tourinho entre eles Santa Cruz, Santo Amaro e Comagi.


Para mensurar o resultado desse processo, quase metade dos portugueses processados pela Inquisição na Bahia e em Pernambuco no Séc. XVI eram naturais do Minho, cabendo um longínquo segundo lugar (15%) aos naturais de Lisboa.

A estrutura familiar minhota foi determinante para esse fluxo, uma vez que os filhos que não fossem primogênitos ficavam deserdados e assim buscavam no Brasil novas terras. Foi assim que fidalgos de Entre Douro e Minho, singraram o mar oceano em frágeis caravelas, e aqui aportaram no verde mar da Bahia. A partir da casa-forte erguida por Garcia d´Ávila, partiram rijos cavaleiros com suas cartas de sesmaria, sementes e gado, e beirando os rios vieram dar nas lonjuras ásperas da caatinga, povoando todo o sertão.

Essa influência minhota restou particularmente notável na herança lingüística deixada no nordeste setentrional onde se verifica forte reminiscência do português arcaico na linguagem sertaneja. Posto que da Paraíba ao Piauí, não houve fortes influências africanas(como na Bahia, Maranhão e Minas) ou de outras línguas européias(como em São Paulo e o sul).

Com efeito: “O português que no princípio do século XVI emigrava para o Brasil, levava consigo aquela direção de espírito e coração, que tanto caracterizava aqueles tempos.... o historiador brasileiro não poderá se eximir-se de traçar um quadro dos costumes do século XV, se intentar descrever os homens tais e quais vieram”.

Entre os primeiros construtores da colônia, encontram-se os portadores da verdadeira glória que Portugal deu ao Brasil, tanto nos leigos, como nos clérigos. E são tantos que chegam para tudo o que é preciso no momento: conquistar a terra, ganhar e absorver o gentio, iniciar as culturas, fazer as povoações, resistir ao estrangeiro. E houve desses construtores, cuja atividade se prolongou 40 anos – Um Gaspar de Souza.... Trabalhavam como obreiros e combatentes, edificavam lutando. Toda a primeira formação foi assim: na boa luta, a que enraíza na terra, e fortifica o patriotismo. O espírito dominante era o da pura defesa, de uma obra estável, para uma vida laboriosamente pacífica. Assim o consagrou Tomé de Souza, simbolizando a Capital que edificou, e o país por ela governado, nas armas que lhe deu: a pomba, início e esperança de nova vida, animo de mansidão e bondade: Sic illa ad arcam reversa est.

Frei Vicente do Salvador, o melhor espelho da vida colonial no primeiro século do Brasil, dá conta, a seu modo, e muito expressivamente, dessa feição estável e apaixonadamente agrícola daquela gente. É quando trata dos serviços de Cristóvão de Barros, grande capitão, por certo, e que submeteu definitivamente os tamoios e os tupinambás de Sergipe. “era um homem sagaz e prudente e bem afortunado nas guerras.... em todas que teve com os tamoios ficou vitorioso e pacificou de modo o recôncavo e rios daquela baía que, tornados os ferros das lanças em foices e as espadas em machados e enxadas, tratavam os homens já somente de fazer suas lavouras e fazendas, e ele fez também um engenho de açúcar....”.

Para a Índia se despejavam as levas de todos aqueles em que predominavam a cobiça grosseira, a sede brutal de ouro e de comércio pirata. A Índia depurou a primeira colonização do Brasil. Pelo seu caminho se foram os que não convinham as necessidades da nação que aqui se criava. Houve seleção de indivíduos e, até de serviços. Tal se dá no caso de Martim Afonso. Era um ânimo de grande energia, valoroso como qualquer Pizarro, ou Alamagro; tanto se vê suas façanhas em Requilin, Malabar, Ceilão, Bengala... onde teve que bater-se com guerreiros que não eram inermes mexicanos, ou peruanos. Mas com seu grande valor, era, Martim Afonso, um grosseiro ambicioso – de riquezas feitas, como as terras daqui não lhe podiam proporcionar; e o grande capitão, depois de dar-nos o que de bom havia na sua atividade, foi-se para a Índia, a cevar nas riquezas dali os instintos de rapinagem.

A orgia das aventuras na Índia, serviu de boa lição, valeu como aviso a Portugal. Dobrado por essa experiência, compreendeu que era preciso elevar os processos na Índia, meditou nos magníficos resultados da colonização das ilhas, e o Brasil lhe pareceu a terra destinada a uma vasta exploração colonizadora, estável, em que a nação se refizesse, em vez de perverter-se, como acontecia na exploração puramente comercial, de simples feitorias. Para isso concorreu explicitamente a exploração que os franceses faziam na costas do Brasil, onde tinham feitorias, e desenvolviam proveitosas relações comerciais com o gentio.

Portugal defendeu seu domínio na forma conveniente. Veio ocupa-lo e o colonizou, produzindo o longo conflito entre franceses e portugueses. As guerras travadas, patenteiam de modo irrecusável a superioridade portuguesa, não só na eficiência militar, mas, sobretudo na capacidade colonizadora.

Na condições da terra brasileira, com as populações que ali se encontravam, a exploração por meio de simples feitorias era de efeitos curtos, condenada irreversivelmente ao insucesso. Foi o que bem compreendeu o governo português, quando, reconhecida verificar espaço duplo a totalidade das costas, medidas as suas possibilidades, formulou o plano das capitanias, que era o de um estabelecimento definitivo, com a incorporação da terra brasileira na civilização portuguesa, representada nos elementos considerados fundamentais, isto é, a fidalguia!

O Regime de das Capitanias, teve o mérito de patentear o intuito de colonização e povoamento. Estável das terras brasileiras. Houve desastres, não um fracasso total! O regime teve a dupla vantagem de provocar a vinda para aqui, de gente escolhida com valor e com intuitos, e de permitir o estabelecimento natural, em toda sua força de expansão, dos dois núcleos essenciais de formação da nacionalidade brasileira Olinda e São Vicente. Perderam-se, para os primeiros donatários, a maior parte das capitanias, mas não se perderam para o Brasil os esforços realizados então, nem o valor humano das gentes que se empenharam nas empresas malogradas. Os que resistiram foram homens excepcionalmente intrépidos e eficientes. Para cada um dos feudos, veio uma leva de pioneiros, no animo de fazer a boa exploração da terra na agricultura. Vinham com o intuito explícito de conquistar a natureza, e não no cupido afã de levantar a riqueza feita, saqueando, extorquindo de qualquer forma. Onde quer que ficassem, eram energias fecundas em que a terra se refazia no animo de uma verdadeira pátria.


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