sábado, 21 de abril de 2018

A Globalização é Irreversível?

“A globalização não é um conceito sério, nós americanos a inventamos, para melhor dissimular nossa entrada econômica nos outros países”
John Kenneth Galbraith


Os liberais propugnam que a globalização seria um “fenômeno” irreversível e “necessário” para a modernização e competitividade, na atualidade, para a economia dos países. Oque em absoluto não é verdade. Contudo, antes, é salutar compreender oque é “globalização”, e os efeitos desse fenômeno no mundo e por desiderato nos países submetidos.


A "globalização" é um processo atual, que não se confunde com o livre-mercado, que se inicia com as grandes navegações e atinge seu auge em fins do Séc. XIX. 

A internacionalização do capital como forma comercial e de crédito se inicia com as grandes navegações, já a internacionalização do capital produtivo veio ocorrer após a Primeira Revolução Industrial, com a implantação no exterior das filiais das indústrias inglesas acompanhando a divisão internacional do trabalho proposta pela Inglaterra.  A consolidação veio ocorrer a partir da Segunda Revolução Industrial com a internacionalização das grandes empresas aprofundada pela concorrência entre as grandes potências. (TAVARES, 1998: 41)

Oque caracteriza a globalização, é a atuação conscientemente política de subjugação dos países periféricos pelos países centros por intermédio do capital financeiro, embora não só, mas determinantemente.

O mercado mundial, vigente a globalização, é atualmente dominado pelas aplicações de curto prazo e se movimentam pelo mundo em busca de lucros rápidos através da mudança nos preços dos ativos. O crescimento na escala de especulação em relação às outras transações é marcante. Em 1971, cerca de 90% das transações estrangeiras visavam financiar o comércio e os investimentos de longo prazo e somente 10% destinavam-se a especulação financeira propriamente. Atualmente, os percentuais se inverteram e cerca de 90% das transações são especulativa e o volume é tão grande que supera as reservas estrangeiras dos componentes do G7.

A pura e simples internacionalização do capital com seu auge no início do século XX, foi muito maior do que na atualidade, e por si só não pode, nem caracteriza o processo de globalização. Nesta época, o mundo inteiro participava de uma civilização mercantil integrada. Por volta de 1913, o comércio internacional representava grande percentual do PIB de vários países da Europa.  Dentre estes países encontravam-se a França com 35,4%, a Alemanha 35,1% e o Reino Unido com 44,7%.

"Nessa fase, que vai até ao final da década de 1920, o capital exportado pelas principais potências econômicas européias, tanto em forma de investimentos diretos ou em forma de ações, atingiu níveis percentuais do PIB que não foram ultrapassados até hoje. E foram esses capitais que ajudaram a construir a América do Norte, Argentina, Austrália e África do Sul considerado os “tigres econômicos da Era Vitoriana." (HIRST,1998:101-20)

A guisa de comparação a China, país de plataforma exportadora, em 2006, suas exportações correspondiam a 37% do PIB, enquanto suas importações alcançavam 32% do PIB. Estes valores colocam a China como uma das economias mais abertas do planeta, principalmente se comparada a outros países de dimensão continental, como Brasil, Estados Unidos, Canadá, cujos fluxos comerciais (exportações + importações) correspondem a menos de 30% do PIB. Tomando o Brasil, como parâmetro, seu comércio exterior representava 20% do PIB (percentual relativo a 2006).

Ou seja, o Séc. XIX foi a éra do laissez-faire. Seu auge se inicia em 1846, com a revogação da Corn Laws, a Grã-Bretanha deu uma guinada decisiva para o regime unilateral de livre comércio que se conclui na década de 1860. Entre 1860 e 1880, muitos países europeus aboliram substancialmente sua proteção tarifária. Ao mesmo tempo, a maior parte do mundo foi obrigado a praticar o livre comércio por imposição do colonialismo e mesmo países nominalmente independentes como os ibero-americanos por força de tratados desiguais. Exceção foi os EUA, que conservou nesse período elevadas barreiras alfandegárias. Entretanto, os EUA não representava ainda parcela significativa no comércio mundial.

Mesmo no período subsequente a I Guerra, e mesmo até o advento da II, o intervencionismo estatal era muito mais restrito do que hodiernamente. Exemplo é que até os anos 30, o equilíbrio orçamentário (doutrina hegemônica na época) quanto ao alcance tributável eram bastante limitados, se quer havia imposto sobre a pessoa física e jurídica, oque estreitava muito a política orçamentária, dificultando investimento estatais para seu desenvolvimento. Na maioria dos países não havia bancos centrais até o começo do séc. XX, de modo que políticas monetárias eram exíguas. Oque impossibilitava a implementação de "programas de crédito dirigido" tão exitosamente aplicados em países como o Japão, Coreia, Taiwan e França.

Antes da II Guerra, medidas como nacionalização, planificação da economia, práticas adotadas com sucesso no pós-guerra por países como: França, Áustria e Noruega, eram impensáveis! Esse foi o período mais próximo do livre comércio que o mundo já teve e que provavelmente nunca mais terá.


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