segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

André Vidal de Negreiros — O Arquétipo do Santo-Guerreiro Restaurador da Ordem

O Guerreiro não é meramente o homem da violência, mas aquele que ordena o caos, que se submete a uma causa transcendente, que aceita a disciplina, o sacrifício e a dor como preço da preservação do mundo. O Guerreiro autêntico não luta por si, mas por aquilo que o ultrapassa: a ordem justa, a tradição, a comunidade e o sagrado. Sob essa chave simbólica, a trajetória de André Vidal de Negreiros se eleva da crônica militar ao plano do mito fundador da nacionalidade brasileira.

Na mitologia céltica, particularmente no mundo galaico e irlandês, essa função é encarnada por Ogma (Ogmios, na Gália), o Hércules ibérico. Ogma é o deus da força disciplinada, da eloquência que subjuga, do braço que combate e da palavra que ordena. Descrito como um homem idoso, armado de clava e coberto por uma pele de leão, encadeado pelos seus séquitos por correntes de ouro e ambar que saem de sua boca e se ligam a suas orelhas, e o seguem alegres e felizes. Imagem perfeita do líder que conduz pelo exemplo, pela autoridade interior e pela fidelidade à ordem cósmica. Diferente do bruto destruidor, Ogma vence porque submete o inimigo pela superioridade moral, espiritual e estratégica. 

É sob essa luz arquetípica que se pode compreender, em profundidade histórica e simbólica, a figura de André Vidal de Negreiros. Assim como Ogma surge nos mitos quando o mundo ameaça sucumbir ao caos, André Vidal de Negreiros emerge na História do Brasil quando a terra se encontra profanada pelo domínio estrangeiro, mercantil e herético. A ocupação holandesa não foi apenas um conflito econômico ou territorial: representou uma ruptura da ordem espiritual, da continuidade católica, jurídica e simbólica que estruturava a civilização luso-brasileira. Contra esse estado de desagregação, Vidal não se apresenta como um aventureiro, mas como o Guerreiro Predestinado, aquele que compreende que a guerra, quando justa, é um ministério.


O Chamado do Guerreiro

Tal como nos mitos antigos, o arquétipo do Guerreiro manifesta-se cedo. Aos dezoito anos, André Vidal alista-se voluntariamente, “às suas custas”. Abdica precocemente da vida privada, da família e do conforto, consagrando-se integralmente à missão. Sua guerra não é mercenária; é religiosa, civilizacional e territorial. Defende simultaneamente a fé católica, a soberania da terra e a continuidade da ordem luso-brasileira contra um inimigo que não se apresentava apenas como potência estrangeira, mas como princípio dissolvente: o calvinismo mercantil da Companhia das Índias Ocidentais, fundado no lucro, na rapina e na negação sacramental do mundo.

Desde cedo, Vidal encarna o Guerreiro descrito por Moore e Gillette: disciplinado, sereno, estrategista, imune à vaidade. Sua bravura não é caótica; é orientada. Seus superiores reconhecem nele não apenas coragem, força física, mas algo mais raro: instinto de guerra justa, rapidez de execução, clareza de propósito e desapego pessoal. Não luta para ser visto; luta porque não lutar seria trair.

Como Ogma, Vidal reúne em si força e inteligência, braço e estratégia. Quando os comandantes europeus conjecturavam qual estratégia seguir, após sofrerem sucessivas derrotas, e queriam continuar insistindo nas fracassadas táticas europeias. Foi André Vidal quem compreendeu, contra a soberba dos reinóis, que a guerra contra os holandeses exigia outra lógica: a guerrilha, a emboscada, a Guerra Brasílica, foi ele quem traçou o caminho para a vitória. Essa inteligência tática é oque diferencia, na guerra, os vencedores dos derrotados. E foi precisamente essa compreensão que pois fim ao mito da invencibilidade holandesa.


Ogma no Campo de Batalha: a Guerra como Ordem

Assim como Ogma submete inimigos não apenas pela força, mas pela autoridade que emana da sua presença, Vidal torna-se o eixo organizador da guerra de restauração. Reúne brancos, negros e indíos. É dele que parte a iniciativa de distribuir o hábito da Ordem de Cristo para Henrique Dias, Felipe Camarão... que persuade Camarão a voltar a luta após se intrigar com o Conde Napolitano Bagnuoli. Aparentando a mesma debilidade de Ogma, Vidal consegue salvo conduto para adentrar em Recife, então bastião holandês, arregimentar apoio, organizar a Insurreição. Converte inimigos em aliados, as inúmeras defecções entre católicos das tropas holandesas que passam para o lado dos brasileiros. Converte mesmo protestantes a Fé-Católica, figurando inclusive como padrinho de batismo de vários oficiais holandeses que finda a guerra sentam praça no Brasil. Quando as lideranças vacilam, negociam, tergiversam ou preferem a diplomacia frouxa à decisão armada, é Vidal quem sustenta o fio da continuidade histórica. Ele compreende o que muitos não ousam admitir: há momentos em que a paz negociada é apenas a máscara da rendição.

Na II Batalha de Salvador (1638), da Casa-Forte, nas Batalhas dos Guararapes, onde Vidal assume plenamente a função de eixo ordenador da guerra. Cai o mito da invencibilidade holandesa. Ali se revela plenamente o arquétipo. Diante da tibieza inicial dos comandantes e da hesitação estratégica, emerge a decisão popular e, logo após, a inteligência militar dos homens forjados no combate irregular, entre eles Vidal. As companhias de emboscada, o ataque relâmpago, a negação do cerco completo ao inimigo: tudo isso expressa a guerra orgânica, própria de quem conhece a terra e luta por ela como extensão do próprio corpo.


O Guerreiro Contra o Próprio Reino

Um dos traços mais elevados do arquétipo do Guerreiro é sua disposição de enfrentar não apenas o inimigo externo, mas também a covardia interna. Vidal não hesita em confrontar a frouxidão da Coroa portuguesa quando esta prefere perder províncias a sustentar a guerra. Sua carta, altiva e quase trágica, ecoa o gesto dos heróis antigos que, diante de reis indecisos, assumem para si a responsabilidade histórica.

Aqui, Vidal aproxima-se não apenas de Ogma, mas de figuras como Cú Chulainn, que luta mesmo quando sabe que será abandonado. A soberania, para o Guerreiro, não é um favor concedido de cima, mas algo que se conquista, sustenta e paga com sangue. Se Portugal hesita, Vidal luta. Se a diplomacia trai, Vidal insiste. Se todos desejam encerrar a guerra, Vidal quer “completar a obra de limpeza”.

E ele estava certo.


A Vitória e o Despojamento

O arquétipo do Guerreiro não termina na vitória, mas no desapego. Vidal não se corrompe com o triunfo. Recusa glórias, comendas, prestígios. Governa com espírito público, não como senhor de espólio. Em Angola, pacifica. No Maranhão, protege indígenas. Em Pernambuco, enfrenta conflitos internos sem transformar o poder em instrumento pessoal.

Ferido, aleijado, envelhecido pela guerra, Vidal jamais se entrega ao ressentimento. Seu amor não se fixa em posses, mulheres ou títulos, mas na pátria como realidade espiritual. Como Ogma, cuja força se manifesta também na palavra e na lei, Vidal encerra sua vida dedicando bens aos órfãos, aos velhos, aos desvalidos. O Guerreiro, quando amadurece, transforma a espada em proteção social, sem jamais renegar o combate que o definiu.


O Sentido do Mito

André Vidal de Negreiros não é apenas um personagem histórico; é um mito da formação brasileira. Ele encarna o Guerreiro que luta para restaurar a ordem, não para instaurar o caos; que combate para preservar a tradição, as raízes lusitanas no qual a Fé-Católica é o eixo central da nacionalidade nascente; que aceita a violência apenas como último recurso para impedir uma violência maior: a destruição da fé, da terra e da soberania.

Assim como Ogma/Ogmios representa a força que ordena, que vincula, que conduz, Vidal foi o braço armado da lusitanidade, da continuidade católica e soberana do Brasil. Enquanto houvesse a pegada do invasor no chão brasileiro, ali estaria ele para apagá-la. E se precisasse morrer, morreria; mas enquanto vivesse, lutaria.

Esse é o legado do Guerreiro: ensinar que há momentos em que viver sem lutar é viver sem honra — e que a verdadeira paz só nasce quando o caos é vencido, nunca tolerado.




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