quinta-feira, 17 de agosto de 2017

A Destruição do Catolicismo Popular Brasileiro Como Processo de Des-brasileirização do Brasil.

"A Igreja não são seus padres, são seus Santos."
George Bernanos.


Darcy Ribeiro recordando alguns episódios de sua infância, em referência a cultura popular de Montes Claros, nos conta:

Levei uma surra de mamãe, tremenda, numa noite em que fiquei até de madrugada acompanhando um grupo de pastoras pelos arredores da cidade. Ela tinha mobilizado meus tios, a policia e já ia pedir socorro aos Ribeiro quando apareci, lampeiro. Era já minha vocação de etnólogo e eu nem sabia.
Essa é a religiosidade festiva que aprendi. A das festas, das folias, dos santos milagreiros. Um para cada especialidade: casar gente, achar chave perdida, curar doentes, qualquer coisa. Sobre todos eles reinava a Rainha do Céu, Nossa Senhora. Mil vezes mais importante que Deus, porque o tivera na barriga. Milagreira como ela só, em suas várias encarnações: da Assunção, que foi inteirinha para o céu, do Perpétuo Socorro, com sua cara eslava, que era protetora de mamãe e mutíssimas mais, echendo de fé e esperança os corações das mulheres.
Deus mesmo não tinha muito importância. Ou era importante demais para se ocupar dos probleminhas do povo de Montes Claros. Suas encarnações ostentosas me atiçavam a curiosidade. Para mim o melhor era o Deus Menino que renascia todo ano no Natal. Soturno, mas assustador, era o Senhor Morto das procissões de Sexta-Feira Santa, acompanhado por gente encapuzada batendo matracas. Do Deus Pai eu não sabia nada. O divino Espírito Santo não. Este era visível na pomba que se punha em varas, acima de tudo nas procissões e sobretudo nas folias, que era a maior animação da religiosidade antiga.
O movimento da ortodoxia romana comandado pelos padres de batina branca que nem se casavam, falavam mal o português e só sabiam perseguir as formas tradicionais de religiosidade popular quase matou o catolicismo em Montes Claros. Nos espaços abertos por eles se multiplicaram o espiritismo, o candomblé e ultimamente o protestantismo, cada vez mais vigorosos.”

O tal “movimento da ortodoxia romana” que nos reporta Darcy Ribeiro, advinha do Concílio Vaticano I (1869-70), projeto conservador, marcado pelo centralismo institucional e doutrinário de Roma, e que tinha por objetivo recuperar o poder da Igreja nas mãos do papado. Essa nova diretriz, advinda do Concílio Vaticano I, trazida por bispos formados em seminários europeus no Séc. XIX e engajados no processo de “romanização”, deu início a um combate sistemático a religiosidade popular e mesmo ao catolicismo institucional que se praticava no Brasil. Como o de padres se casarem, comum ao longo de toda vida colonial brasileira. Daí surge esse embate, que doutrinariamente se fala entre o Catolicismo Popular ou Tradicional (próprio das tradições do Brasil) do Catolicismo Romano, à época circunscrito ao Vaticano.

O Catolicismo no Brasil, desde seu início, manteve relativa autonomia de Roma, posto a vigência do Padronado Régio que conferia a monarquia portuguesa a nomeação de bispos, bem como a organização da igreja. E assim, o catolicismo brasileiro resguardou em muitos aspectos uma religiosidade medieval, mais do que em Portugal, posto o maior isolamento e mesmo a pouca, quando nenhum trabalho de catequese no Brasil. Isso se aprofundou com o fim da união ibérica (1640) e a formação da dinastia de Bragança quando a igreja católica mantém o seu apoio à Espanha e só vem a reconhecer a nova dinastia (dos Braganças) no mandato de dom João V em 1732. Até então, o papa Urbano VIII havia recusado os embaixadores portugueses no Vaticano e negado a ordenação de bispos portugueses indicados por dom João IV. Essa tensão entre Roma e Portugal, corroborou para a manutenção de um catolicismo arcaizante, ligado as tradições populares.

Autores como Hoornaert, considera que o catolicismo que migrou para o Brasil foi uma cultura de simbolismo cristão, que refletia a própria cultura portuguesa da época. Não era uma ação oficial da Igreja, mas apenas um “cenário”, formado por imagens, discursos, gestos e símbolos, que se expandiu com o processo de colonização. O desenvolvimento da cristandade na América Portuguesa, se deu, portanto, com os capelães dos engenhos de açúcar, nos arraiais mineiros, nas pequenas vilas e povoados bandeirantes, nos aldeamentos, nas fazendas de gado, nos garimpos, nos galpões, expressando assim um caráter local e regional diferente do que se viu, por exemplo, na América Espanhola.

Até mesmo a incorporação das procissões a locais “sagrados”, ou por aparecimento de Santos ou de peças recheadas de simbolismo religioso, rememorando uma tradição pagã de ritual, neste caso muito mais ligado a uma memória de um catolicismo popular português que ganha um novo contorno no sincretismo à brasileira. O mundo rural segue no ritmo ditado pela natureza, com fases definidas entre plantio, colheita, preparação do solo, secas e chuvas. Pela relação mais íntima ligada ao mundo da natureza elementos pagão são incorporados aos ritos católicos, esse processo faz com que as festas religiosas se desenvolvam com maior intensidade no ínterim das estações. As festas religiosas são concomitantes a períodos posteriores a colheita ou ao plantio, quando a necessidade do trabalho braçal se faz menos presente. Assim os folguedos e os feriados vão se desenvolvendo na cultura popular associando a religiosidade ao não trabalho, domingo e dias santos livre das chibatas por si só gera motivo suficiente para a conversão de almas escravas. Para as almas indígenas os dias Santos serviam como uma rememoração da sua cultura ancestral, das festas “públicas”.

Vários elementos da festa do Divino – como o Imperador, a coroa, o estandarte, a realeza – lembram a história de Carlos Magno e os Doze Pares de França, presente tanto nos sertões nordestinos, como na zona serrana catarinense. Falando sobre o assunto, Ferreti, com base nos estudos de Pereira de Queiroz (1965) e Silva (1980), mostra como a festa foi modificada e reinventada durante o movimento messiânico do Contestado. Assim como entre os religiosos do sul, liderados pelo Monge João Maria, nos terreiros de mina do Maranhão, a festa é organizada pela população, sem a participação do clero, ou seja, uma iniciativa não oficial. A Igreja Católica “ignora a festa do Divino, não desenvolvendo atividade pastoral específica, embora no passado certamente tenha assumido papel atuante na divulgação desse costume” (FERRETI, 1995, p. 18).

Diversos movimentos populares de caráter messiânico, em fins do século passado, o catolicismo tradicional, de caráter leigo e medieval, aflorou com bastante ímpeto. O apoio da Igreja a campanha de Canudos guarda estreita vinculação com as diretrizes traçadas pelo Vaticano I, bem como, contra, o ulterior movimento do Contestado em Santa Catarina e a perseguição ao Padre Cícero.

As deformações do concílio do Vaticano I, que tanto mal causou ao catolicismo, virão a ser parcialmente corrigidos durante o Concílio Vaticano II, que promove uma série de reformas, dentre outros, o uso de vernáculos locais nas missas, como era praxis no Brasil colonial, o uso do Tupi na catequisação. Desde então surge, em reação, um setor contrário as reformas e que terá voz na figura de João Paulo II, que ao freiar as propostas do Vaticano II, dar mágem a expansão de seitas neopetencostais, fenômeno não só observado no Brasil, como em outros países de tradição católica.

Concomitante, há o combate a propostas mais populares, como a Teologia da Libertação, e o distanciamento da igreja do povo. O número de párocos mingua ano a ano, e um rebanho sem pastores vira presa fácil de lobos.


Ver também:

A Teologia do Povo
As Relações da Igreja com a Monarquia e o Castilhismo.
Trabalhismo e Solidarismo.
A Contribuição de Alberto Pasqualini ao Trabalhismo Brasileiro.

2 comentários:

  1. Não concordo com algumas coisas ditas no artigo.

    O Vaticano Segundo professou varias doutrinas erradas contra a doutrina da Igreja e até heréticas, vindas do liberalismo (todas as religiões seriam boas, "ecumenismo", etc) e na liturgia ele foi além do vernáculo e criou uma nova liturgia protestantizada, contra todas as tradições liturgicas da Igreja (incluindo as do Brasil).

    João Paulo II não foi co tra o concílio, mas, pelo contrário, fez avançar ainda mais o "ecumenismo".

    O C. V. Primeiro, por outro lado, definiu uma importante verdade da Fé, mas foi e ainda é mal interpretado no sentido de exagerar o poder e a posição do Papa com relação à Igreja (os outros bispos do mundo) - a tal ponto que o proprio Pio IX assinou ua carta dos bispos alemães explicando ao seu governo qual a correta interpretação do dogma.

    Acredito que as preticas próprias do Brasil, com certas restrições como o sincretismo - e veja que eu sou bahiano - são um patrimônio importante para a Igreja e devem ser preservadas.

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    1. Não vejo mal no ecumenismo, antes é uma necessidade, o isolamento, já não basta-se os inimigos tradicionais da Santa Igreja, leva a asfixia. Um resultado prático disso é o diálogo frutuoso que se rendeu com a Igreja Luterana, que reviu determinados pontos do próprio Lutero e hoje reconhecem Nossa Senhora. E penso que ainda pode render muitos frutos com a reaproximação da Igreja Ortodoxa.

      A liturgia é o de menos, se os padres ainda celebrassem as missas de costas e falando em atim, aí é que as igrejas estariam vazias mesmo.

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