domingo, 16 de setembro de 2018

A V Geração Castilhista

"Uma plêiade de jovens idealistas radicalizados, Castilhistas, anti-liberais, anti-monarquistas, favoráveis a um Estado forte e autoritário, desfavoráveis ao Poder Legislativo (que nunca prosperou com o castilhismo), modernizadores burgueses, politizados e, apesar de militarizados, sempre, radicalmente civilistas. Entretanto, o traço fundamental, não só em sua doutrina, mas sobretudo da administração concreta dos militantes do PRR, foi seu marcado caráter anti-oligárquico e anti-patrimonialista dos seus governos de quase quatro décadas.."

Quando as sombras das trevas envolvem a pátria, quando seu povo vagueia sem rumo na escuridão, tomados pela fome, acometidos pelas chagas, saqueados por estrangeiros, e quando tudo parece perdido... os  heróis ressurgem, como astros a guiar o passo conduzindo em salvo pela jornada do destino, pois se lhes fora facultado nascerem em outras épocas.... mais amenas, renegariam! Pois é na noite mais escura que fulguram com maior brilho! E de nada valeria suas vidas se não quando mais a pátria deles necessita e com um sorriso nos lábios, ansiosamente, derramar o sangue por sua terra, e com seu sacrifício fertilizar os campos para que brotem gerações vindouras ainda mais potentes.

Volvendo os olhos para o passado, repousa o berço da nacionalidade, fonte perene de inspiração, em resgate dos valores perdidos, que uma vez renascidos, forjará uma geração capaz de realizar milagres. O renascimento do homine brasiliensis, tal como idealizou Maquiavel na sua busca do homem de "virtú" para salvar a Itália, ou o "ürbermensh" de Nietzsche. Todas tentativas de resgate do homem clássico ante a decadência da época. O brasileiro, que surge no Séc. XVI, ao contrário dessas transfigurações imaginárias é real. O brasileiro quinhentista é a materialização do homem renascentista.

É um anacronismo julgar tanto o português como o brasileiro quinhentista a luz do que se observou no restante da Europa. Portugal, como toda Ibéria, nunca experimentou o negror da idade-média, tendo sido àquele tempo a região mais próspera e culta da Europa. Disso decorreu o arcabouço tecnológico que propiciou as grandes navegações.

Para compreender aqueles homens tal qual eram e oque vieram a ser, é preciso mergulhar a luz do catolicismo, determinante na formação da mentalidade daquela gente. A Gallaecia cristã, aonde nasceu Portugal, que primeiro se bateu pela expulsão moura e cedo os repeliu, não sofreu o influxo do cristianismo romano. O norte, menos romanizado, conservou seu substrato celta sob uma aparência cristã. E assim, nunca caiu na decadência mórbida do cristianismo oficial.

São esses portugueses nortenhos, os mais numerosos, que virão a aportar no Brasil, em sua maioria aldeões, que conservaram sua ortopráxis religiosa de substrato celta, e por desiderato seu ethos. Nada sabiam dos costumes  bíblicos, e pouco compreendiam oque lhes falava nas missas rezadas em latim. Sua religiosidade se materializava nos ritos, peregrinações, rezas e agouros de suas crenças imemoriais, conservadas, pelo isolamento, nas populações aqui plantadas.

Os que se entregavam as letras, tinham por tutores os jesuítas, de formação humanista por excelência, e que será um traço característico na formação dos homens letrados do Brasil, e que exercerão sua influência ao longo dos dois primeiros séculos de nossa formação, findo o qual o Brasil já estava feito.

Temos assim, grosseiramente, a guisa de exemplo, dois seguimentos "intelectuais" em sentido lato, na formação do Brasil, um composto pela população rural iletrada, que conserva uma religiosidade com forte substrato pré-cristã e uma elite intelectual de formação humanista. Então, quando do contato entre esses portugueses, de natural espírito renascentista, e tupis, surge o brasileiro, que nasce livre da noção de pecado, ultra equinocialis non pecare, de hábitos arcaicos, verificável ainda hodiernamente, tanto em sua língua quanto em sua religiosidade, melhor conservada do que no outro lado do atlântico, o gosto pela fidalguia e suas inter-relações mais baseadas no sangue do que em convenções sociais. Isso tanto  pelo lado dos tupis quanto dos portugueses, ambas sociedades orgânicas, em que somente as relações de sangue firmava uma real aliança entre as partes. O "cunhandismo" foi um fenômeno natural na formação brasileira, conseqüente do encontro de duas sociedades com características tribais. Disso decorrendo sua estruturação social em clãs, como também se observa nas populações nortenhas de Portugal.

A expulsão dos jesuítas, concomitante ao parasitismo da metrópole já decaída pelo espírito mercantil, foi um golpe que retirou do Brasil esse corpo pensante, relegando a população ao abandono e a ignorância. Quadro agravado, com o não reconhecimento do Vaticano da dinastia dos Braganças ao fim da União Ibérica, e que fez cessar as nomeações de padres para o Brasil. Assim a ação eclesiástica em terras brasileiras teve um longo hiáto, no que pese ter corroborado para a preservação dessa religiosidade medieval pelos brasileiros.

O heroísmo que atirara a nação portuguesa ao mar se degrada em ambição grosseira de lucro, subverte a classe dirigente, que passam a viver do parasitismo mercantil das índias, as atividades produtivas do Reino são marginalizadas, decaem, e com ela a própria decência. As índias funcionaram como filtro que poupou o Brasil de espíritos rapaces, os que buscavam lucros imediatos, a colher riquezas feitas, se dirigiam para as índias, para o Brasil se foram os que buscavam fortuna estável, se fixando a terra. Os primeiros colonos, foram a melhor gente que Portugal pode nos legar, advindos da baixa aristocracia rural nortenha, com o intuito explícito de fundar uma nova pátria.

Perdida as índias, Portugal se volta para o Brasil como "sua vaca leiteira". Ainda ligado umbilicalmente a Portugal, não repele em definitivo oque se converte em explorador.

Foram as leis de Licurgo, profetizadas pela sacerdotisa de Delfos, que asseguraram a prosperidade de Esparta. Júlio de Castilhos, assim como Licurgo, é para nós brasileiros, o instituidor das leis que nos fará sair do paul em que nos encontramos. A ereção de um Estado forte, democrático e sobretudo soberano, garantidor da unidade e da prosperidade nacional.

A difusão de idéias de pluralidade religiosa, de Estados "multiculturais", visam a fragmentação da unidade nacional, promovida por seitas interessadas no enfraquecimento do Estado-Nação, em reação ao surgimento e fortalecimento dos Estados-Nacionais que despontam com os ideais renascentistas. O "iluminismo", embora comumente tido como um desdobramento do Renascimento, na verdade foi uma espécie de "contra-reforma".  Há dois elementos iluministas que deformam completamente os ideais renascentistas, o individualismo e o universalismo.

As sociedades clássicas, eram formações profundamente coletivistas, e anti-universalistas, marcadas pelo preponderância do interesse público sobre o privado. O interesse coletivo se sobrepunha a todo o mais e se fazia prevalecer por intermédio de suas instituições de caráter democrático. Ao mesmo tempo que os helênos, em especial, espartanos era reputados como povos "xenofobos", a conotação só toma contornos negativos, justamente com o iluminismo. Contudo não é particularidade dos gregos, mas de todos os outros povos de estrutura orgânica. Os visigodos, a guisa de exemplo, mesmo em contato permanente com romanos e outros povos em suas estadia nos balcãs, e posteriormente na Espanha, constava no Código Visigótico, a proibição de contrair matrimonio com outras gentes, se não somente entre eles.

As instituições políticas helênicas, celtas e mesmo germânicas, se caracterizavam por ter um caráter democrático. A guisa de exemplo, mesmo Esparta, tida como um modelo "aristocrático" guardava em seu bojo eleições para certas instituições bem como consultas diretas aos seus cidadãos, instituto caracterizador da democracia. As sociedades celtas e germânicas, embora tendo Reis, hereditários, ainda sim, passíveis de destituição, ou eleitos, cumpriam mais uma função de chefe militar, as questões de maior relevo eram submetidas em assembléia, se subordinando o Rei as suas decisões. Havia ainda um "senado"(de: senos/antigos), um conselho de anciões que deliberavam entre si, submetendo em seguida a apreciação popular.

A instituição democrática, pela sua própria natureza, é anti-pluralista, esmagando as minorias e fazendo prevalecer o interesse da maioria sobre a minoria. Que com o tempo acaba por homogenizar o corpo social.

É preciso frisar que "multiculturalismo" é a manutenção de diversidades étnicas dentro de uma mesma área geográfica. O processo natural, que ocorria ao longo de toda antiguidade, era que grupos minoritários que transmigravam, e que se assentassem em uma área já povoada, fossem naturalmente absorvidos. Se isso não ocorria, fica claramente caracterizado uma invasão, e mais das vezes, a instituição de uma oligarquia (governo de poucos) subjulgando a maioria. Exemplo disso, foram as invasões anglo-saxônicas nas ilhas britânicas, antes, um assentamento celta de tempos imemoriais.

Portanto, o multiculturalismo é incompatível com uma ideologia nacionalista. O multiculturalismo é essencialmente uma tática imperialista, de divisão e desfragmentação, para quebrar a unidade de um povo, de longa data empregada por impérios, indiferentes, e mesmo hostis a unidade de povos submetidos. Como são exemplos o império pérsa, egípcio e romano, dentre outros.  Contudo, a sua própria tática de dominação, leva ao seu enfraquecimento, quando confrontado por outros povos com maior unidade, tal como sucedeu aos persas diante dos gregos. Será a atual China, os antigos gregos, diante dos EUA no papel do antigo império persa? O tempo dirá....

Observe que guardadas as devidas complexidades do Estado moderno, esse é o modelo simplificado do Estado Castilhista, o chefe do executivo, auxiliado por um corpo técnico que delibera, ao passo que o executivo julgando conveniente ou não as proposituras do concelho, submete a apreciação popular.

Ver-se o acentuado caráter orgânico desse modelo institucional, e que caracteriza o Estado Castilhista, ao contrário dos Estados Liberais, em que os governados se vê-em excluídos das decisões políticas. E é esse modelo orgânico, e por desiderato democrático, que possibilita que as decisões políticas se subordinem ao interesse coletivo, a vontade popular ipso facto, impossibilitando o favorecimento de uma minoria sobre uma maioria.

A instituição de Estados pluralistas, universalistas e descentralizados é a receita da ruína. O exemplo da guerra do peloponeso deveria ser sempre uma imagem fresca na memória daqueles que propugnam por um modelo descentralizado de Estado. Igual exemplo vemos entre os celtas, sua grande fraqueza, residiu em estarem pulverizados, para maior facilidade da dominação romana. Pois não só impossibilita a reunião dos meios que poderia fortalece-los, como abre margem a intromissão de uma potência externa. Essa foi a tática romana, se aliando a tribos mais fracas para golpear outras mais fortes, dividi-los e por fim, sem oposição, instituir seu domínio sem contestação.

Os exemplos se repetem na história, nas Américas temos os Maias, que embora mais antigos e tecnologicamente mais avançados do que seus rivais, enfraquecidos pelas guerras civis, desaparecem soterrados pela ascensão Asteca de instituição política mais centralizada.

É repetido como mantra, que o Brasil seria um "país multicultural", não há mentira maior. O Brasil sempre se caracterizou como uma sólida unidade étnico-cultural, muito mais do que países europeus menores, e do que qualquer outro com suas dimensões. Todos os brasileiros tem uma ascendência comum, uma mesma língua, sem dialetos,  e sobretudo, uma forte unidade religiosa, do qual todos os brasileiros são descendentes de progenitores que professavam um mesmo credo, a Santa Fé Católica.

A perda da unidade étnico-cultural de um povo leva a sua fragmentação e o fim de sua existência. O nacionalismo surge como defesa ideológica da nacionalidade, de seus elementos caracterizadores e dos meios materiais que o sustentam. Cumpre inexoravelmente a um nacionalista protegê-los e preservá-los, ainda mais nesses tempos em que a nacionalidade é atacada, por inimigos internos e externos.
  1. A I Geração Castilhista, com Júlio de Castilhos, nos deu as bases institucionais sob o qual devemos fundar o Estado Nacional Brasileiro; 
  2. a II se deu com as teses de tecnificação do Estado; 
  3. a III se dar com sua instituição no plano nacional, com o Estado Novo, rejeitando mais claramente as teses universalistas. Simbolicamente isso é ilustrado na Constituição de 37 com a declaração do catolicismo como religião oficial do Estado, antes omitido na constituição de 34; 
  4. A IV é caracterizada pelo período pós-Getúlio, incluindo Pasqualini, Goulart e Brizola nesse período, marcado por uma adaptação do Castilhismo, ao Estado Liberal, por intermédio do Trabalhismo. Hodiernamente; 
  5. somos a V Geração Castilhista, legatários dos ideais de Júlio de Castilhos, Vargas, Pasqualini, Goulart e Brizola. Porque posteriores a eles, e ante um novo contexto político que nos apresenta, de ataques a existência dos brasileiros como entidade nacional, de separatismos, de destruição do próprio Estado-Nacional manietado por corporações privadas, e a subjulgação do Brasil a potências externas. Somos  legatários de todo um corpo de tradições e em memória daqueles que se bateram pelo Brasil, em plena afirmação de nacionalidade!
Somos o reflexo de nossos antepassados, ligados pela cadeia imemorial do veio antigo e comum, inquebrantável, que nos une. E que perdidos nas brumas do tempo, reclamam que nos juntemos a eles. Além do gelo, ao norte, na Hiperbórea? Na idílica Arcárdia? Não.... nós somos hespérios, o extremo ocidente! Somos a transferência de uma civilização, que transpondo o abismo oceânico, seguindo o por-do-sol atlântico alcantilado, coloreado a cada dia e a cada ano pela vermelha ilha do solícito brilhante sol poente, rumo à paradisíaca rubra ilha Hy-Brasil, nos exilamos nas terras ocidentais do mundo, na realização profética de criação de uma nova raça de homens, predestinada pelos Deuses, a conquistar o mundo! A grei de Breogan!

As vozes ancestrais ecoam, em súplica, para que nos levantemos e os heróis tomem seus postos, alçando ao alto o estandarte legado, conclamando a defesa da pátria!

Artigos correlatos:

01. O Castilhismo como Materialização do Período dos "Cinco Bons Imperadores".
02. 1139 - O Surgimento do Estado Nacional!
17. Uma Grécia nas Ribeiras do Atlântico Sul.









terça-feira, 12 de junho de 2018

Nenhum Outro Governo Combateu Tanto O Capital Estrangeiro Quanto O De Getúlio

Assumi o governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano.”  – Getúlio Vargas.


Quando Getúlio assumiu o governo em 1951, se deparou com o estrago que o governo Dutra havia feito com as finanças do Brasil. E a predação que caucava na economia nacional, denunciando a majoração de dívidas aumentadas pela “mágica” dos juros, nos onerando artificialmente pelo que não devíamos:

“O excedente de mais de 16 e meio bilhões entre o capital estrangeiro aplicado no país [....] e o que foi efetivamente registrado como tal [....] significa nada mais na menos de que uma dívida contraída pelo Brasil no estrangeiro e que terá que ser paga [....] dentro de certo prazo. E vamos restituir oquê? [....] Pagar oque não devemos; restituir o que não recebemos; o que foi majorado por simples magias de cifras, a fim de supervalorizar o capital estrangeiro, em detrimento dos valores do trabalho brasileiro e da população brasileira”.  

Em 1953 Vargas denunciava as remessas de lucros feitas pelas empresas estrangeiras dizendo:

“ [....] estou sendo sabotado por interesses contrários de empresas privadas que já ganharam muito mais no Brasil; que têm em cruzeiros duzentas vezes mais capital que empregaram em dólares para emigrá-los ao estrangeiro a título de dividendos: em vez de os dólares produzirem cruzeiros, os cruzeiros é que estão produzindo dólares e emigrando”

Nestes termos, é rico em significado o discurso proferido por Getúlio em 31 de janeiro de 1954 no qual faz novos ataques ao capital estrangeiro e à evasão de divisas para o exterior, ao mesmo tempo que faz uma análise da situação financeira do país:

“Agora vou dizer-vos como se sangrava as energias do povo brasileiro [....] mandei cotejar as declarações feitas pelos exportadores do Departamento de comércio dos Estados Unidos, com as declarações feitas aos nossos consulados [....] Foi registrado um aumento de valores nas faturas de 150 milhões de dólares [....] Se considerarmos que o sistema era generalizado [....] tivemos um mínimo de desvios cambiais de 250 milhões de dólares em dezoito meses.
 Reduzindo assim o valor da moeda, apresentava-se como um reflexo natural a elevação dos preços, conseqüência e não causa de um fenômeno que escapava ao nosso controle [....]
Outra sangria se determinava no registro de capitais estrangeiros e na remessas de lucros [....]. Mandei efetuar o levantamento legal [....] Em 1948 estavam registrados capitais estrangeiros no valor de Cr$ 6.232.000.000,00.
Em 1949 o valor subia a Cr$ 9.633.000.000,00 pedindo registro”

O problema levantado referia-se aos registros de lucros acima de 8% permitidos, isto nos mostra que Vargas tentou enfrentar o fenômeno imperialista.

A fim de alterar a Legislação sobre remessa de lucros o governo lançou em 3 de janeiro de 1952 o decreto 30.363 fixando que:

"o capital estrangeiro com direito a retorno era apenas o capital original que efetivamente houvesse ingressado no país e que contasse no Registro de Carteira de Câmbio do Banco do Brasil".

O decreto teve repercussão nacional e internacional, revelando à opinião pública uma postura destacadamente antimperialista por parte do Governo de Getúlio e sobretudo seu comprometimento com o desenvolvimento lastreado no capital nacional sem o qual não há que se falar em um verdadeiro desenvolvimento autônomo e por assim dizer soberano. Incompatível portanto com governos posteriores como, a guisa de comparação, notadamente, o de JK, que alguns insistem, ardilosamente, comparar a Getúlio, taxando ambos como "nacional-desenvolvimentistas"..... como se água e óleo se misturassem.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Breve Biografia de André Vidal de Negreiros, Fator Máximo na Expulsão dos Holandeses do Brasil


“De André Vidal direi a Vossa Majestade o que me não atrevi atègora, [...] Tem Vossa Majestade mui poucos no seu reino que sejam como André Vidal; eu o conhecia pouco mais que de vista e fama: é tanto para tudo o demais, como para soldado: muito cristão, muito executivo, muito amigo da justiça e da razão, muito zeloso do serviço de Vossa Majestade, e observador das suas reais ordens, e sobretudo muito desinteressado, e que entende mui bem todas as matérias, posto que não fale em verso, que é falta que lhe achava certo ministro grande da corte de Vossa Majestade. Pelo que tem ajudado a estas cristandades lhe tenho obrigação; mas pelo que toca ao serviço de Vossa majestade (de que nem ainda cá me posso esquecer) digo a Vossa Majestade que está André Vidal perdido no Maranhão, e que não estivera a Índia perdida se Vossa Majestade lha entregara.”

Pe. Anto. Vieira, lamentando a ida de André Vidal
do governo do Maranhão.



André Vidal de Negreiros
É no movimento contra o domínio holandês que surgem os primeiros heróis da nacionalidade, com destaque especial para André Vidal de Negreiros. Segundo palavras de Irinêo Joffily, Vidal, à frente do exército restaurador, foi “o principal heróe brazileiro nos tempos coloniaes”. Hélio Zenaide destaca que Vidal foi um homem”íntegro” e o nomeia como o “herói da guerra contra os holandeses em Pernambuco”.

Esta concepção da existência de um sentimento de brasilidade e amor à terra, fica clara na obra “Vidal de Negreiros: afirmação e grandeza de uma raça”, de Luiz Pinto, que se propõe a realizar uma biografia de Vidal. A obra de Luiz Pinto foi a única que se dedica a apresentar uma biografia mais detalhada de Vidal. Para Luiz Pinto, o domínio holandês no Brasil não teve outra significação senão a econômica, tendo em vista o “espírito mercenário e judaico da Companhia de rapina”. O mesmo, para Pinto, não se passava com os brasileiros que defendiam a colonização lusa: a bandeira que empunhavam contra a Holanda seria a da religião católica contra os hereges calvinistas, o que teria dado à guerra uma característica religiosa.

Segundo o autor, foram as três raças de nossa etnia - a branca, a negra e a indígena, representadas respectivamente por Vidal, Henrique Dias e Camarão, que deram corpo e sentido à guerra de expulsão. E continua: “(...) Vidal foi a alma da restauração, o homem que nunca se curvou ao mêdo, nem a conveniências, nem se sobressaltou frente ao poderio inimigo, de muitas vêses quase esmagado.”.

Entre as tropas arregimentadas na Paraíba para a libertação da Bahia do domínio holandês, em 1624, já se encontrava, como “voluntário da sua terra”, André Vidal de Negreiros, paraibano, então com 18 anos de idade e filho de Francisco Vidal e d. Catarina Ferreira. Seu pai seria senhor do engenho S. João. Nas passagens a seguir, podemos perceber a visão de um herói destemido, um predestinado, devotado à sua terra e à sua religião, que Luiz Pinto visa construir:
“Quando Matias de Albuquerque acudiu aos chamamentos e reclamos da Bahia, arregimentando tropas para combater o invasor batavo, um jovem paraibano vibrou de entusiasmo. Queria lutar também, seguir com os resultados de qualquer maneira, acudir em defesa da sua pátria e da sua religião. (...) O rapaz André, filho do velho Vidal, era dos mais ardorosos. Alistara-se às suas custas. E logo se transformou num propagandista e animador dos mais decididos e corajosos. Moço, desenvolvido, ágil, ouvindo as narrativas dos vencedores, sentia estremecimentos, desejando partir quanto antes em socorro daquele povo.”
Vidal não só se destacou pela sua empolgação e devoção pela causa da expulsão dos holandeses – também se destacou nas batalhas, se tornando um dos soldados mais capazes e distinguidos pelos seus superiores:
“Sem muita demora, André Vidal enquadrou-se à arte da guerra. Os seus superiores hierárquicos começaram logo a distingui-lo, não só pela sua bravura indômita, mas ainda pela sua conduta serena, pelo seu instinto de soldado, pela segurança dos seus planos e rapidez por que procurava executá-los. (...) O principio do amor à terra nativa e à religião era a bandeira que se não ofuscava. Isto determinava as mais cruéis represálias, os mais atrozes combates. Na alma de André Vidal era sacrossanto esse princípio (...). Não se fez demorar o renome de André Vidal de Negreiros no seio da tropa. Distinguido e disputado pelos superiores, viu-se durante a guerra na Bahia nos lugares mais arriscados, marchando à frente como um predestinado. E não se fez silêncio sobre os seus brios de soldado e bravura de patriota, embora contra isso conspirasse a sua grande simplicidade e modéstia.”.
“André Vidal, que logo se fez destro e valente soldado, não só lutou durante toda a fase da expulsão dos flamengos da Bahia como perseguiu a esquadra holandesa fugitiva até deixá-la fora do seu Estado natal”.

Diante de tantas qualidades, o rei de Castela se fez informado das virtudes de Vidal, que foi promovido ao posto de alferes, então com 19 anos de idade. Segundo Pinto, “André Vidal de Negreiros era uma vocação de soldado, tanto pela firmeza moral quanto pela robustez física. Dir-se-ia que a terra de massapê da várzea do rio Paraíba, o seu rio, lhe dera essa seiva, como ainda muita bravura e fidalguia.”.

Após a derrota no Arraial do Bom Jesus, optou-se pelo sistema de guerrilhas e emboscadas, a guerra irregular de extermínio; tática esta que não foi bem aceita pelos “prepotentes castelhanos”. No entanto, André Vidal, após oito anos de estudo na Europa, estaria convencido de que aquele seria o melhor sistema para destruir o poderio flamengo. Para Luiz Pinto, o plano de Vidal seria realmente o mais indicado. Além disso, também teria sido concertado por Vidal o plano da chegada da esquadra de D. Fernando de Mascarenhas (conde da Torre), que não logrou em sucesso.

Mais tarde, com a vitória da restauração no Maranhão, André Vidal foi nomeado governador da capitania. Essa nomeação, seria o pagamento de uma dívida do rei de Portugal. Vidal estava no auge do seu prestígio, e o Conde Maurício de Nassau, que estava voltando para a Europa diante de uma conjuntura desfavorável para a continuação do domínio holandês:
“Cumpria-se assim um antigo compromisso do rei de Portugal para com o herói. De modo que, quando Nassau retornava à pátria européia, André Vidal de Negreiros se fortificava para total execução dos seus planos, traçados e alimentados desde 1632”. Após assumir o governo do Maranhão, em 1645, Vidal não permaneceu lá por muito tempo, pois “cabia-lhe tecer a teia sinistra da guerra”.
Enquanto Teles da Silva despistava os holandeses com falsas promessas de armistício, Vidal organizava os batalhões:
“O que os flamengos não sabiam exatamente, e isso é claro, era que André Vidal tinha um plano concertado e que poria em prática de qualquer maneira, dentro do seu alto patriotismo e fidelidade religiosa. (...) Vidal era firme e queria a guerra de expulsão, ágil e violenta. Mas Nassau não desconfiou das manobras do paraibano. E tanto é que deixou transitar livremente por duas vezes, tanto no Recife quanto na Paraíba. E só através da sua primeira viagem a Recife, quando retornou de Lisboa, é que Vidal conseguiu firmar posição na capital da nova Holanda, arregimentando para as suas hostes o capitalista João Fernandes Vieira, senhor de Engenho da Várzea, no Recife, homem religioso e rico, vaidoso e prepotente, que se tornou um elemento nuclear na guerra”.
Nesta passagem, Vidal é mais uma vez colocado como peça central da guerra de restauração, seu principal articulador, que conseguiu de certo modo “enganar” Nassau, que lhe concedeu livre trânsito pelas capitanias. Vidal fez do Maranhão apenas um ponto de apoio para as suas incursões à Paraíba e Recife, com o objetivo de “colher adeptos, planejar a guerra, animar os fracos, encorajar os medrosos”. E a figura de Vidal vai ficando cada vez mais relevante no tocante à guerra de restauração, como fica evidente na seguinte passagem: 
"A libertação do Brasil do domínio colonial holandês cabe, como já mostraram Varnhagen, João Ribeiro, Hermann Watjen, Pandiá Calógeres e outros intérpretes da luta de restauração, tal como a organização da revolta geral, a epopéia pernambucana, uma das maiores da história da pátria - criação de guerrilhas, emboscadas relâmpagos implantadoras de morte - sem dúvida, ao engenho extraordinário de André Vidal."
Enquanto os dirigentes das duas partes se limitavam ao campo diplomático, Vidal, Henrique Dias, Camarão entre outros, preparavam o cerco do Recife, encurralando a Nova Holanda. D. João IV queria a paz com a Holanda e, ao mesmo tempo, a luta de libertação. Já a única paz que os nativos aceitavam era a conquistada pelas armas, com a capitulação total do agressor. Segundo Luiz Pinto, o rei e o vice-rei tentavam uma trégua. “É nesse passo da crônica que se verifica haver a restauração nascido da coragem, da decisão e as firmeza de André Vidal”. Na tentativa de suspender a luta com os batavos, o vice-rei endereçou uma enérgica recomendação a Vidal, que respondeu de forma altiva e patriótica. Na carta, os chefes rebeldes, Vidal e Martins Soares Moreno, demonstram que, se o rei de Portugal continuasse com o propósito de dar trégua aos holandeses, eles iriam à procura de qualquer príncipe católico a fim de auxiliá-los, relatando inclusive a perturbação e inquietação de muitos nativos ao saber que o rei consideraria “ruins vassalos” os que continuassem na luta contra os flamengos, muitos chegando a pensar em matar suas filhas e esposas para não vê-las em poder do inimigo. Esta carta seria um “grito de rebeldia e de coragem, contra a covardia lusa, a frouxidão de D. João IV, preferindo perder 8 províncias da sua grande colônia a ter de lutar um pouco mais para desenraizar os flamengos invasores”.

A esta altura, Recife já estava sitiada. Com a junção das tropas de Dias, Camarão e Vieira, Vidal assume a “direção geral de chefe supremo das operações militares”. Na primeira batalha dos Guararapes, Vidal ficou na reserva. “Era o homem das horas difíceis, o que traçava, o que executava”. Com o desenrolar do combate, Vidal assumiu o comando. Os flamengos foram derrotados na 1ª batalha dos Guararapes, “onde a bravura da raça brasileira, em plena formação, se marcava proficientemente”. E sobre a ação de Vidal, afirma-se: 
“A influência do mestre de campo André Vidal de Negreiros foi tão evidente, não só no traçar planos certos e tática perfeita como no comandar e avançar à vanguarda, com o destemor de um guerreiro romano”.
Na 2ª batalha dos Guararapes, Vidal foi o comandante dos terços. Segundo Luiz Pinto, antes da batalha, discutia-se o método de acometer o inimigo. Várias opiniões surgiram, mas foi vitorioso o ponto de vista de Vidal: atacar o inimigo, violentamente, partindo do engenho velho dos Guararapes: (...) Os luso-brasileiros não perderam um momento: atacam ferozmente. Vidal avança alucinadamente pela encosta, flanqueado por Antônio Silva e Cardoso. Figueirôa, intrépido, na retaguarda. Vieira, audaz e valente, firma-se a raso, sobre o Boqueirão, com 800 homens, flanqueado por Henrique Dias e Diogo Camarão [sobrinho de Felipe Camarão, que havia falecido]. (...) Derrotados, aniquilados mesmo, os holandeses foram perseguidos até o fim sem nenhuma ação militar. A vitória rolou dos montes Guararapes envolta nos farrapos dos pavilhões inimigos, às pontas de lanças de Vidal, Vieira, Camarão e Henrique Dias.

Após a 2ª batalha dos Guararapes, a situação do Recife era muito difícil para ser sustentada pelos holandeses. A Holanda ainda tentava um entendimento com Portugal, mas já haviam passado quase três anos da última batalha. “Vidal estava inquieto. Queria completar a obra de limpeza”. O auxílio do rei de Portugal estava tardando, até que em fins de 1653, surgiu na costa a grande esquadra tão prometida e esperada. Vidal insistia em terminar o que haviam iniciado, expulsando definitivamente os holandeses de “sua nação”. “Vendo Barreto que a razão estava com Vidal, resolveu, com ele e outros companheiros ilustres, traçar o plano de ataque. Traçado e cumprido”. Poucos dias depois, os holandeses capitularam. É relevante perceber a mensagem incutida nestes últimos acontecimentos: Ninguém estava disposto a continuar a luta pela restauração; apenas Vidal (sempre ele). que queria continuar sua “obra de limpeza”. Insistiu tanto nesta meta que foi atendido: e, mais uma vez, estava certo, pois a vitória dos brasileiros, patriotas e católicos foi definitivamente garantida.

Após longas negociações e forte pressão por parte dos holandeses, finalmente um acordo de paz foi assinado em 1661, “com vergonhosa situação para Portugal e prejuízo para o Brasil”, segundo Pinto. Por intervenção da Inglaterra, foram fixadas as seguintes condições: indenização de 400.000 cruzados por ano, em dinheiro ou em açúcar, sal e tabaco; restituição às Províncias Unidas de toda a artilharia que se encontrasse no Brasil; liberdade de comércio para os holandeses. Ao Brasil, coube uma indenização de 120.000 cruzados, além de 20.000 para dote da infanta que se casou com Carlos II. Essa condescendência de Portugal diante das pressões holandesas e inglesas, segundo Pinto, desvirtuou o sentido da vitória, conquistada pela valentia dos brasileiros, e que lhes custou vidas e imensas fortunas, pois, naquele momento, preferiam a colonização lusa, principalmente por motivos de religião. Como não poderia deixar de ser, Vidal não concordou com as injustas condições do acordo de paz:
“Essa frouxa transigência, que não foi dos nossos heróis, desvirtuou a vitória das batalhas dos Guararapes. Contra ela Vidal de Negreiros quis se opor, mas era uma condição aceita pelos superiores lusos, sob cuja cúpula vivia o Brasil, e seria assim baldada qualquer indisciplina ou reação. Se por esse miserável preço, que os judeus holandeses exigiam com faca nos peitos, conseguimos uma paz definitiva, (paz para eles, na Europa, pois a nossa se argamassou com sangue), e ninguém seria capaz de alterá-la dentro das nossas fronteiras. Valha-nos ao menos esta certeza.”.
No início de 1655, Vidal viajou a Lisboa. Encontrou a Corte em festa, não só pela vitória brasileira, mas também pelo aniversário do rei. D. João fez questão de abraçar o mestre de campo da vitória, estreitar nos braços o guerreiro impávido, que derramou o sangue por várias vezes, que, à maturidade, via-se aleijado de uma perna, mas altivo e varonil. Pois dos 45 anos de idade, quando se achava na Europa, Vidal já contava 27 anos de guerra.

Após dias em Lisboa, Vidal retornou ao governo do Maranhão. Acerca do governo no Maranhão, Sérgio Buarque de Holanda atribui a seguinte citação ao padre Antonio Vieira:
 “Vidal é talvez o único, antes de Gomes Freire, que não procura explorar o braço indígena, e que castiga os motins não por motivos pessoais (como os outros) mas por espírito público. Vai logo embora. ‘Teria salvo a Índia’ - diz o Padre”.
Em face da ida de Barreto de Menezes para o governo da Bahia, Vidal foi escolhido governador de Pernambuco. Porém, não tardou para que Vidal e Menezes entrassem em choque, pois o paraibano não aceitava as imposições da Bahia. Neste momento, Portugal lutava contra a perspectiva de uma luta em Angola, onde se encontrava Fernandes Vieira. Assim, foram trocados os governadores, indo André Vidal para Angola, onde rapidamente consolidou boa política de paz para Portugal. Após mais uma vitória, Vidal queria recolher-se à vida privada.
“Vidal tinha sido um homem de guerra, um homem sem amor, sem uma afeição feminina. A guerra absorveu-o totalmente na melhor fase da existência. Perdera os pais, de cujo contacto se afastara aos 18 anos; as afeições que conquistara foram afeições de guerra. Homem desprendido, sem se preocupar com a sua vida particular, achava ser tempo de afastarse da luta à tranqüilidade da velhice.”.
Todavia, isto não lhe foi possível: Pernambuco passava por uma luta política entre diversas classes de agricultores, comerciantes e soldados. Em 1666, Vidal assume, pela segunda vez, o governo de Pernambuco. No interregno desses conflitos, finalmente pôde Vidal “despertar para a vida”, vivendo em paz os anos que lhe restavam. Na sua velhice, realizou uma verdadeira obra social, deixando grande parte dos seus bens para o “amparo à velhice, à orfandade e aos desvalidos”. Vidal seria “um herói sem empáfia”, que teria recusado todos os oferecimentos que lhe foram feitos, posto à margem comendas, prestígio, glória, tudo, para ajudar aos mais necessitados, o que ressaltaria ainda mais “a sua compreensão de homem público e patriota”.

O seu amor concentrou-se à pátria. Foi um peregrino do civismo, um mago da fé. Fez-se guia do seu povo, sem nunca haver esmorecido, nem recusado, nem temido. Enquanto sentia a pegada do inimigo no chão do Brasil, aí esteve a cobri-la, a apagá-la. Ou morreria na luta ou tangeria os invasores insolentes que menosprezavam a sua religião. O destaque da personalidade de André Vidal avulta em todos os documentos históricos. Fora um soldado brioso, um homem feliz. Sua vida é uma equação cívico-militar, um panorama de lealdade, patriotismo e amor à fé. É o que se sente ao traçar o roteiro da guerra holandesa no Brasil, desde a invasão da Bahia até à de Pernambuco.


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quarta-feira, 9 de maio de 2018

A Teologia do Povo como Contraponto a Teologia da Secularização e a Teologia da Libertação.

"A religiosidade popular é uma atitude típica dos pobres, e os pobres constituem de um modo preferencial, a um povo. Os pobres condensam e tipificam a religião de um povo".
Em 1974,  sínodo sobre evangelização introduz uma nova reflexão que se traduzirá na Evangelii nuntiandi em 1975, como recepção e posterior preparação da III Conferência de Puebla. Nelas se começa a pensar mais o tema da dependência e se inicia uma contraponto a alguns aspectos da Teologia da Libertação. A ascenção pela teología, da cultura e religiosidade populares latino americanas. Entre os teólogos da pastoral popular se encontra sobretudo Lúcio Gera. Que publicam em 1974 “La Iglesia frente a la situación de dependencia” (1974), na qual dialoga de forma respeitosa e crítica com a Teologia da Libertação e seus pressupostos, mostrando apreciações positivas e pontos de distancia, particularmente em relação com a linguajem sobre “salvação” utilizado por esta visão teológica. Certamente, a diferença da visão argentina se relaciona com a experiencia histórica dos movimentos nacionais e populares latino americano como o peronismo. 

A revalorização da cultura religiosa popular apresentada pelo teólogo argentino Lúcio Gera, rechaça as teses secularistas (Teologia da Secularização, proveniente dos EUA) de incompatibilidade radical entre fé e religião.

Gera sugere a superação das alternativas secularidade e sacralidade, e fé e religião, defendendo que o carisma seja aceito pela instituição eclesiástica e sobretudo o respeito da igreja pela autonomia dos povos, criadores de seu próprio destino histórico. 

Ainda que a visão secularizadora mereça ser criticada para dar vez a uma profunda valorização da religiosidade popular, dela também pode assumir-se o primado da fé e a importância da palavra e o carisma para a práxis de libertação. A Teologia do Povo, percebe que tanto a visão sacral como a secular oque se desvaloriza é a mediação da cultura. 

A diferença da Teologia do Povo da Teologia da Libertação esta na compreensão de "povo". A Teologia da Libertação, compreende o povo como classe, uma classe oprimida, recorrendo aos aportes marxistas. Enquanto a Teologia do Povo, concebe o povo por uma perspectiva histórico-cultural. 

A concepção de povo na Teologia do Povo nasce da experiência histórica do peronismo no contexto argentino. Uma compreensão geral do povo permite entende-lo como sujeito coletivo, como uma pluralidade de indivíduos em torno de um fator comum, que leva a pensar nas relações: 1. Povo-nação; 2. Cultura-popular.

1. O povo-nação é uma concepção de caráter político, mas também pode pensar-se que a cultura de um povo concretiza uma decisão política. Por isso o povo-nação é um conceito cultural político, com um ethos cultural ou estilo de vida e uma capacidade de organiza-se.

2. Em relação com a noção de povo-setor – que admite uma grande variedade – o teólogo argetino pensa que “povo” e “popular” qualificam a alguns setores pondo de manifesto que a realidade de ser povo se manifesta preferencialmente neles e que certas características suas, como a sencillez e a pobreza, são aptas para desenvolver uma solidariedade e unidade que os faz povo. 

A teologia do povo, compreende o pobre, não só pela sua situação econômica, mas ante uma condição moral de abertura humilde aos outros, a Deus e aos homens. Por não ter capacidade de poder, essa situação leva o pobre a sentir necessidade de outras pessoas, a pedir, a reclamar e exigir aos que tem poder, a justiça e o afeto que se deve. A primeira condição para pertencer a um povo é a consciência de necessitar de outros e esta é, no pobre, uma consciência viva. Por isso, é mais capaz de ser solidário, dando aos outros e esperando reciprocidade. Por isso chamamos “povo” a uma multitude de pobres. 

A visão expressa no texto de 1979, em coerência com sua visão já esboçada em seu escrito de 1962, mostra a preocupação de não reduzir a realidade e o conceito  de “pobre” a dimensão socioeconômica e de por a ênfase em outro aspecto. Não se pretende negar a dimensão real da pobreza, mas de destacar positivamente o aspecto moral e religioso do pobre, sua qualidade de sujeito crente. Ademais, se considera ao pobre em relação com o povo, a sua capacidade de pertencer a ele, como sujeito político.

Deste modo, a opção pelo povo pobre designa uma opção pela sua libertação, mas sobretudo, uma opção por sua religião, frente a uma "cultura ilustrada", de cunho secularista, que representa uma ameaça para a situação religiosa da América Latina, a Teologia do Povo se destaca por sua insistência  na "cultura popular latino americana" e sua religiosidade. 

E esta religiosidade popular há de ser discernida a luz da fé revelada, sem se opor a ambas, corresponde a pastoral eclesial a tarefa de orientar, fortalecer e purificar a religião do povo. 


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sábado, 21 de abril de 2018

A Globalização é Irreversível?

“A globalização não é um conceito sério, nós americanos a inventamos, para melhor dissimular nossa entrada econômica nos outros países”
John Kenneth Galbraith


Os liberais propugnam que a globalização seria um “fenômeno” irreversível e “necessário” para a modernização e competitividade, na atualidade, para a economia dos países. Oque em absoluto não é verdade. Contudo, antes, é salutar compreender oque é “globalização”, e os efeitos desse fenômeno no mundo e por desiderato nos países submetidos.


A "globalização" é um processo atual, que não se confunde com o livre-mercado, que se inicia com as grandes navegações e atinge seu auge em fins do Séc. XIX. 

A internacionalização do capital como forma comercial e de crédito se inicia com as grandes navegações, já a internacionalização do capital produtivo veio ocorrer após a Primeira Revolução Industrial, com a implantação no exterior das filiais das indústrias inglesas acompanhando a divisão internacional do trabalho proposta pela Inglaterra.  A consolidação veio ocorrer a partir da Segunda Revolução Industrial com a internacionalização das grandes empresas aprofundada pela concorrência entre as grandes potências. (TAVARES, 1998: 41)

Oque caracteriza a globalização, é a atuação conscientemente política de subjugação dos países periféricos pelos países centros por intermédio do capital financeiro, embora não só, mas determinantemente.

O mercado mundial, vigente a globalização, é atualmente dominado pelas aplicações de curto prazo e se movimentam pelo mundo em busca de lucros rápidos através da mudança nos preços dos ativos. O crescimento na escala de especulação em relação às outras transações é marcante. Em 1971, cerca de 90% das transações estrangeiras visavam financiar o comércio e os investimentos de longo prazo e somente 10% destinavam-se a especulação financeira propriamente. Atualmente, os percentuais se inverteram e cerca de 90% das transações são especulativa e o volume é tão grande que supera as reservas estrangeiras dos componentes do G7.

A pura e simples internacionalização do capital com seu auge no início do século XX, foi muito maior do que na atualidade, e por si só não pode, nem caracteriza o processo de globalização. Nesta época, o mundo inteiro participava de uma civilização mercantil integrada. Por volta de 1913, o comércio internacional representava grande percentual do PIB de vários países da Europa.  Dentre estes países encontravam-se a França com 35,4%, a Alemanha 35,1% e o Reino Unido com 44,7%.

"Nessa fase, que vai até ao final da década de 1920, o capital exportado pelas principais potências econômicas européias, tanto em forma de investimentos diretos ou em forma de ações, atingiu níveis percentuais do PIB que não foram ultrapassados até hoje. E foram esses capitais que ajudaram a construir a América do Norte, Argentina, Austrália e África do Sul considerado os “tigres econômicos da Era Vitoriana." (HIRST,1998:101-20)

A guisa de comparação a China, país de plataforma exportadora, em 2006, suas exportações correspondiam a 37% do PIB, enquanto suas importações alcançavam 32% do PIB. Estes valores colocam a China como uma das economias mais abertas do planeta, principalmente se comparada a outros países de dimensão continental, como Brasil, Estados Unidos, Canadá, cujos fluxos comerciais (exportações + importações) correspondem a menos de 30% do PIB. Tomando o Brasil, como parâmetro, seu comércio exterior representava 20% do PIB (percentual relativo a 2006).

Ou seja, o Séc. XIX foi a éra do laissez-faire. Seu auge se inicia em 1846, com a revogação da Corn Laws, a Grã-Bretanha deu uma guinada decisiva para o regime unilateral de livre comércio que se conclui na década de 1860. Entre 1860 e 1880, muitos países europeus aboliram substancialmente sua proteção tarifária. Ao mesmo tempo, a maior parte do mundo foi obrigado a praticar o livre comércio por imposição do colonialismo e mesmo países nominalmente independentes como os ibero-americanos por força de tratados desiguais. Exceção foi os EUA, que conservou nesse período elevadas barreiras alfandegárias. Entretanto, os EUA não representava ainda parcela significativa no comércio mundial.

Mesmo no período subsequente a I Guerra, e mesmo até o advento da II, o intervencionismo estatal era muito mais restrito do que hodiernamente. Exemplo é que até os anos 30, o equilíbrio orçamentário (doutrina hegemônica na época) quanto ao alcance tributável eram bastante limitados, se quer havia imposto sobre a pessoa física e jurídica, oque estreitava muito a política orçamentária, dificultando investimento estatais para seu desenvolvimento. Na maioria dos países não havia bancos centrais até o começo do séc. XX, de modo que políticas monetárias eram exíguas. Oque impossibilitava a implementação de "programas de crédito dirigido" tão exitosamente aplicados em países como o Japão, Coreia, Taiwan e França.

Antes da II Guerra, medidas como nacionalização, planificação da economia, práticas adotadas com sucesso no pós-guerra por países como: França, Áustria e Noruega, eram impensáveis! Esse foi o período mais próximo do livre comércio que o mundo já teve e que provavelmente nunca mais terá.






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quinta-feira, 29 de março de 2018

A Democracia Verdadeira (direta) contra o Parlamentarismo (oligarquia).

O artigo que se segue são conclusões de nacionalistas helênicos (não se trata do Aurora Dourada), sobre o regime político liberal, que por má-fé chamam de "democracia", quando se trata de uma oligarquia. Ao mesmo tempo que desmente a falácia liberal de que um sistema de eleição pelo voto seria por si só democrático, nada mais distante da realidade e desmentido pelo próprio Aristóteles. É um artigo que julgamos altamente pertinente e que o leitor poderá observar terem, os nacionalistas gregos, chegado as mesmas conclusões que nós castilhistas há mais de um século atrás.... e isso não é por acaso, posto que os castilhistas beberam direto nas fontes gregas.
Editorial.

A Democracia Verdadeira (direta) contra o Parlamentarismo (oligarquia).

"Se um povo deve saber o que é a democracia, é o grego que a criou. No entanto, muitos gregos ignoram o que é a democracia e ignoram que o parlamentarismo é um sistema anti-Democrático que nada tem a ver com a democracia.

Aristóteles em seu livro " Politica " diz: “democraticon men to klerotas einai tas arxas to de airetas oligarhikon”. que quer dizer: onde os senhores são "eleitos" por votação,  lá o sistema é oligarca. O que isso significa será explicado neste texto.

Desde que as pessoas se juntaram em sociedades organizadas em Estados até os presentes dias, o problema do poder continua a ser o mesmo: quem decidirá sobre o público?

Poucos ou todos os cidadãos?

Cada geração resolveu este problema de forma diferente.

Da resposta que ele deu, as três principais políticas: a monarquia, a oligarquia e a democracia.

O parlamentarismo é uma forma de oligarquia criada na Inglaterra e visa contornar a vontade do povo, e todas as decisões importantes a serem tomadas pelos poucos. Como se pode ver hoje em dia, os poucos que decidem são "acidentalmente" sempre ligados às ideologias federalistas e trabalham para quebrar a consciência nacional dos povos. No Parlamento, nenhuma decisão importante é tomada pelo povo. Os antigos gregos disseram que onde há partidos e eleições o sistema é oligarca, e onde há referendos populares o sistema é democrático.

Os eleitores de hoje estão a tentar encontrar uma solução para os fins da crise sem saber que, quando as partes votam nas eleições, eles não fazem qualquer decisão, mas eles fazem decisões para os políticos, e mais especificamente para um sistema político podre de escravidão...

Como já foi mencionado, Aristóteles em seu livro " Política " diz: " Dēmokratikón é o klērōtás é o primeiro, o d ' airetás oligarchikón ". que é: onde os Senhores são " eleitos " por votação, lá o sistema É o oligarca. Nos estados democráticos, todas as decisões importantes foram tomadas pelo povo em referendos, e os escritórios da cidade foram levados por cidadãos sortiados por curtos períodos de tempo, obrigados por lei a fazer exatamente aquilo que o povo decidiu. Sem ter a oportunidade de mudar a decisão do povo, ou de fazer o contrário. Enquanto os Senhores são "eleitos" decisões são sempre tomadas pelo filo de políticos, e nunca o povo. Este é precisamente o ponto crucial que todos devem compreender: que na democracia as pessoas decidem sobre as questões próprias e nunca votam em alguns políticos para que os representem ". Enquanto na oligarquia as pessoas nunca decidem sobre questões, mas todas as questões são decididas por um pequeno grupo de pessoas que "representam" as pessoas e eleitas pelo processo eleitoral. 

Na Europa, foi observado que 80 % das decisões tomadas nos parlamentos dos países são contrárias à vontade da maioria. O que é importante é precisamente quem toma as decisões: as pessoas ou os políticos (que estão sempre ligados a interesses e manipulação e praticamente, na maioria dos casos, agem contra a vontade das pessoas que votaram nelas).

Uma expressão que corretamente atribui ao parlamento é a expressão: "consenso da oligarquia” ou seja, que as pessoas aceitam ser governados pelos poucos (políticos) a quem no dia das eleições ele concedeu todos os seus direitos políticos e por 4-5 anos as pessoas ficam sem direito político. Mesmo que os políticos enganem as pessoas em todos os seus compromissos políticos pré-Eleitorais, as pessoas já não têm o direito de demitir políticos corruptos.

Hoje é imperativo ter soberania popular com o estabelecimento constitucional de democracia real (direta). A Suíça e a Venezuela são os únicos países do mundo que tem uma constituição democrática onde as pessoas decidem questões importantes em referendos. Ao mesmo tempo, o parlamento decide sobre questões menores. O que importa é importante para que as pessoas decidam num referendo é julgada pela recolha de assinaturas a fazer num determinado período de várias semanas, para que possa levar a um referendo a questão que pretende propor. A Constituição democrática da Suíça foi iniciada por John Kapodistrias como ministro dos estrangeiros russo.

Nas últimas décadas, o parlamentarismo conseguiu dar ao governo da nação uma minoria internacionalista de anthellḗnōn. Tornou-se claro hoje de uma forma ainda mais enfática que só com a democracia (direta) é a vontade do povo e todas as decisões estão em consonância com a verdadeira vontade da nação.

Se nós fizermos uma retrospectiva, vamos observar que a Esparta antiga, e Atenas antiga tinham democracia direta. Em Esparta, as decisões mais importantes foram tomadas pela apella (Assembleia do povo) e, em Atenas, as decisões mais importantes foram tomadas pela Assembleia do povo. Em Esparta, a presença dos dois reis e cinco regentes era mais uma personagem honorária. A verdadeira administração era o povo com as decisões dos apéllas.

A nova ordem de coisas inteligentemente nomeou o atual sistema oligárquico de " Democracia parlamentar ", com esta manobra, poucos entendem que não é uma democracia. Eles pensam que há muitos tipos de democracia, uma das quais é o parlamentarismo.

Se a Grécia tivesse hoje uma verdadeira democracia, não esta chuva de decisões anthellēnikṓn que tendem a ser a eliminação biológica da nossa nação e a sua fidelidade aos centros de decisão estrangeiros.

No entanto, a maioria dos gregos, infelizmente, continuam a acreditar hoje, devido à ignorância de que o parlamentarismo é um sistema grego e democrático baseado na antiga democracia ateniense.
Dois importantes parâmetros de democracia real são anaklētótēta e chamar.

Anaklētótēta significa que, quando alguém foi colocado por uma nação em alguma área de responsabilidade, se não faz exatamente o que é definido, é retirado desta área de responsabilidade. Não existe tal procedimento no Parlamento. Qualquer fraude ou quebra de promessas eleitorais, e se um político do sistema parlamentar faz, quase nunca é removido, porque é apoiado pelo próprio sistema oligarca.

O sorteio é o processo pelo qual os gestores dos setores de gestão são selecionados por períodos curtos. No Museu do antigo mercado no pórtico de átalo, em Atenas, há o (kleroterion) onde os cidadãos atenienses que iriam servir em vários lugares públicos na cidade de Atenas foram escolhidos aleatoriamente. Na Grécia antiga, alguém que, por exemplo, foi responsável pela gestão financeira da manutenção dos navios, depois de estar preparado para esta posição, estava a assumir por um curto período de 2 meses que começou um ano após o sorteio, a Que foi obrigado a cooperar com os seus antecessores anteriores, a fim de "aprender os segredos" deste sector, de modo que, em cooperação e com outros, eles adequadamente o que o município já tinha decidido. Não tinham o direito de tomar as suas próprias decisões, exceto para realizar corretamente aquilo que tinha votado nos referendos e, por isso, o município decidiu.

A aplicação de sorteio hoje poderia ser feita não só para lidar com as áreas de responsabilidade a nível pan-Helénico, mas também na união, universidades, etc. Envenenado por partitocratas.


A proposta do Estado para a Grécia de hoje

A proposta de hoje é que a Grécia tenha um sistema democrático de estado semelhante à Suíça. Ter uma democracia real (direta) com referendos do povo sobre todas as questões muito importantes (depois de recolher assinaturas, dentro de um determinado período de semanas, para definir as questões verdadeiramente importantes) e, ao mesmo tempo, ter o parlamento com membros eleitos, Quem decidirá sobre todas as questões menores. As questões que serão consideradas mais importantes por causa da recolha de muitas assinaturas serão destinadas a um referendo do povo em certos momentos, e irá, em particular, ter como objetivo a eleição de eleições nacionais, municipais e europeias para a sua preparação. Duas urnas (um para as questões de referendos e uma para estas eleições: eleições nacionais, municipais e européias. Assim, à medida que os referendos serão realizados ao mesmo tempo que as outras eleições, terá custos mínimos para o estado.

As questões secundárias, para além do Parlamento, podem ser votadas por 1.000 ou 2.000 cidadãos, por exemplo, que poderiam ser utilizados por períodos curtos, por exemplo, por um quarto. O voto destes cidadãos é absolutamente indicativo da vontade de toda a sociedade. É indicativo que as empresas de sondagem quando fazem investigação são, normalmente, cerca de 1.000 pessoas. Por conseguinte, os organismos de 1.000 ou 2.000 ou mais cidadãos atribuirão precisamente a vontade do povo e podem substituir a maioria dos drastrēriótētes do Parlamento. Por isso, o papel da assembléia será mínimo, e a parte superior será sempre detida pelo povo, quer por referendo, quer por votos dos órgãos do povo."





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