quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Antônio Filipe Camarão (Poty)

"Não posso deixar de cumprir as promessas e deveres
contrahidos com meus avós, isso é, de vós guardar assim
como todos os da nossa raça".  - Antº Filipe Camarão (Poty)


Antônio Felipe Camarão (Poty)
Antônio Filipe Camarão, indígena da tribo potiguar, nascido no início do século XVII em Igapó, Natal, na então capitania do Rio Grande ou, de acordo com alguns historiadores, na capitania de Pernambuco. Tendo como nome de nascença Poti ou Potiguaçu, adotou Filipe Camarão ao ser batizado e convertido ao catolicismo (1614) em homenagem ao Rey D. Filipe II (1598-1621). No contexto das invasões holandesas do Brasil, auxiliou a resistência organizada por Matias de Albuquerque desde 1630, como voluntário para a reconquista de Olinda e do Recife. À frente dos guerreiros de sua tribo organizou ações de guerrilha que se revelaram essenciais para conter o avanço dos invasores. Mais tarde destacou-se nas batalhas de São Lourenço (1636), de Porto Calvo (1637) e de Mata Redonda (1638). Nesse último ano participou ainda da defesa de Salvador, atacada por Maurício de Nassau. Distinguiu-se na primeira Batalha dos Guararapes (1648), quando foi agraciado com a mercê de Dom, a Comenda da Ordem de Cristo e o título de Governador de todos os índios do Brasil. Faleceu no Arraial (novo) do Bom Jesus (Pernambuco), em maio de 1648, em conseqüência de ferimentos sofridos no mês anterior, durante a Batalha dos Guararapes.

Felipe Camarão (Poti), "Glorioso e puro “brasil”, foi o mais terrível, na estratégia de guerrilhas: devastou o que já era feitoria e uso do holandês; incendiou-lhe açúcares e pau-brasil, saqueou-lhe os estabelecimentos, raptou-lhe embarcações; castigou as tribos suas aliadas, executou quantos trânsfugas veio a pegar; venceu o inimigo todas as vezes que pôde alcançar, sem se deixar bater nunca, em refregas várias, e verdadeiras batalhas; Artichojsky, sobretudo, com todo o seu valor militar, foi vítima da astúcia e bravura do índio; e quando já nenhum brasileiro podia estar em Pemambuco sem ser do holandês, Camarão abriu o caminho para as Alagoas, Sergipe, até as margens do Rio Real, levando consigo os restos de população emigrante. E lá ficou, ameaça permanente, para ser o primeiro a vir bater definitivamente o holandês; voltou, com a lnsurreíção, numa investida só, até o Rio Grande, libertando a terra contra as forças de Rhineberg, que dispunha, só de europeus, de 1.000 soldados, e mais um corpo de índios: Poti bateu-o, matando-lhe 150 brancos, tomando-lhe todo o trem de guerra.".

Dele, nos dar testemunho o Frei Rafael Jesus:

"Nasceu índio, porém entre os índios o mais nobre. O nascimento lhe deu o nome de Poty: [que na lingua do gentio é o mesmo, que Camarão.], O Batismo lhe deu o de Antônio. No tempo de Mathias de Albuquerque, era já respeitado entre os seus por maioral de muitos; e com muitos auxiliares o veio socorrer, e servir á nação, quando o nosso poder se alojava no Arraial velho, chamado de Pernan-morim. Ilustre prova de fidelidade e amor, com que servia á nação, e ao Príncipe, oferecer-lhe a espada, quando os perseguia a fortuna. A mesma adversidade, de que o mais Gentio fez causa para a rebeldia, fez Camarão motivo para a aliança. Em servir á Igreja, e á Coroa ganhou luzido crédito de soldado, e de Religioso; e tão observante de suas obrigações, que nunca o viu distraído, que sempre o venerou soldado. Todos os dias ouvia Missa, e rezava o ofício de Nossa Senhora, modesto, e devoto. 

Gastava muitas horas na oração, a que se aplicava, ainda que entre os maiores estrondos da guerra: e para entrar nas batalhas, primeiro se fortalecia com os Sacramentos, que com as armas: Nas ocasiões mais arriscadas recorria ao favor divino, pedindo auxilio a duas Imagens do Senhor, e de Nossa Senhora, que entre as roupas trazia sobre o peito. Enquanto soldado, não ouve Capitão mais amado, nem mais obedecido, porque não ouve Capitão, que acha-se  mais império na afabilidade, que no domínio, do que este valeroso Capitão. 

As empresas o esperavam sempre com as vitórias; e ganhou tantas vitórias, quantas foram as ocasiões em que pelejou. Para seu genio, era o ócio martírio, e o trabalho descanso: Avaliava a penalidade por deleite, e as ocasiões por dita. Seu nome, como memorial de suas proesas, se ouvia entre os nobres com respeito, e entre os inimigos com espanto; e dilatou-o de forte a fama, que chegou aos ouvidos de seu Rei tão distante, quanto o apartavam os dilatados mares, que dividem a America da Europa: Sem petição o despachou seu merecimento, Deu-lhe el Rey Phelipe o Quarto hábito de Christo, o título de Dom, e o posto de Governador, e Capitão Geral de todos os índios da América.

Zelou o decoro, que se devia ao posto, que ocupava, com toda circunspecção, que lhe ensinava seu claro juízo. Com as pessoas grandes, estranhas, e de respeito falava sempre por interprete (ainda que sabia a língua Portuguesa, porque entendia ser a impropriedade, e inculto das vozes, fiscal do Ânimo, e discredito da pessoa: Na arte da milícia, foi insigne, na do governo, claro. Com os seus, era fácil no trato; com os superiores, grave na conversação, com os estranhos, afável no agasalho; mas tão medido com todos, que obrigava a amor, e reverência. Em todo o tempo, e lugar o achou o serviço de Deus pronto, e o culto dos Santos. Viveu discreto, porque soube viver para Deus, e para os homens: Morreu como Cristão porque se soube aproveitar de todos os remédios, que ajudam a salvação: Na vida, adquiriu glorioso nome; na morte, mostrou, que passara á eterna vida."



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