quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Delmiro Gouveia, O Homem que Não Vendeu o Brasil

Delmiro Gouveia, cearense de Ipu,
seu pai Delmiro Porfírio de Farias
morreu como herói na Guerra do Paraguai.
“Mataram-me. Tirem-me o paletó. Quem foi o cabra que me matou?” Foram três tiros. Um deles acertou o braço o outro, o coração. O Sangue explodiu em jorro, tingindo de vermelho o terno imaculadamente branco, de Delmiro Gouveia. Não houve tempo para o coronel esboçar a mínima reação. Não viu sequer o rosto do assassino. Mergulhado numa poça de sangue, na varanda do chalé, estava ferido de morte o pioneiro da industrialização do Nordeste. O homem que ousara desafiar os ingleses da Machine Cottons, rompendo o monopólio da fabricação de linhas com a marca Estrela, a “única genuinamente nacional”. E que fora ainda mais além ao inventar, aquilo que viria a ser a Hidrelétrica de Paulo Afonso.  

Das mãos de um tal de Zé da Pedra, comprou uma fazenda por 19 bois, a 24 quilometros da cachoeira, ao lado da estrada de ferro de Paulo Afonso. Represou 2 rios, fez 2 açudes, e para se tornar ainda mais preparado para enfrentar a seca, mandou vir água potável de piranhas, Alagoas, pela estrada de ferro que, com seus 116 quilômetros, partia de lá contornando cachoeiras até Petrolândia, em Pernambuco.

Aos poucos amigos que riam dos seus planos na caatinga braba de uma localidade chamada Santana, ele dizia confiante: “A água vai custar, mas a luz da cachoeira eu boto logo aqui”. Em 1910, comprou a margem esquerda da Cachoeira de Paulo Afonso, e ninguém mais duvidou das suas palavras. Logo a seguir veio a hidrelétrica e a fábrica de linhas.



Usina Hidreletrica de 
Angiquinho, construída por
Delmiro Gouveia
Em 26 de Janeiro de 1913, fundou a Vila da Pedra. O povo viu linhas transmissoras trazerem uma novidade que nem a cosmopolita Recife podia exibir: luz elétrica. E não era só: canais adutores traziam a matéria prima mais cobiçada no sertão: água. “Anda aí um coronel diferente”, dizia o povo.  E em 6 de julho de 1914, o algodão do seridó, principal produto da região, passou a ser transformado em linha na fábrica de Delmiro Gouveia. O Sertão entrara na era da Revolução Industrial quase meio século antes das chaminés se tornarem rotina na paisagem do nordeste. Mas Delmiro não estava satisfeito. Dois anos depois, ele estava tirando fatias de mercado da Machine cottons não só no Brasil como no Chile e na Argentina. Ameaçados pelo inesperado concorrente, os ingleses não duvidaram ofereceram uma montanha de dinheiro pela fábrica. Gouveia Passou a um novo contra-ataque: mandou comprar mais 2 mil teares!

Vila da Pedra
A Vila da Pedra fervilhava. Parecia um outro mundo. Tinha padaria, açougue, mercado e claro, luz e água encanada. O uso de pente, sabonete, o banho diário eram obrigatórios. A noite os operários aprendiam a ler e a escrever. Acreditava que a educação era o caminho mais curto para acabar com o cangaço que ensangüentava o sertão. As filhas dos operários aprendiam boas maneiras e arte culinária. Não faltavam cinema grátis, futebol e retretas de bandas. Havia inclusive, uma previdência social, mantida a custa de três tostões semanais. Para estimular o comércio, Delmiro rasgou mais de 500 quilômetros de estradas.

O historiador Olympio de Menezes, se surpreende de como Delmiro “conseguiu não só o capital indispensável ao movimento, como também os outros elementos, sabidas como eram precárias as condições da época e do meio.”

Arno S. Pearse, autoridade mundial em fiação, que esteve na vila da Pedra anotou: “Os operários são bem comportados, bem-vestidos e limpos. Quando vão para o trabalho, estão mais bem trajados que o operário médio europeu em dia de domingo”.


Nada parecia poder impedir a realização do grandioso projeto de industrialização do nordeste levado adiante por Delmiro Gouveia apesar das adversidades. O fornecimento de energia elétrica em grande escala para os estados nordestinos era uma realidade cada vez mais próxima. E seus negócios e influência cresciam em ritmo acelerado. Para se ter uma idéia, apenas no decorrer do ano de 1915, o capital da agro fabril praticamente dobrou e, com isso, no ano seguinte eram iniciados os trabalhos para a montagem de novas turbinas de captação de energia das águas do São Francisco.

Mas se tudo parecia ir bem, uma pessoa não estava satisfeita com o andamento dos negócios, o próprio Delmiro Gouveia. Ele tinha pressa, muita pressa. Sabia que estava sob olhares nem um pouco amistosos. Já corria o ano de 1917, aproximava-se o fim da I Guerra, e iniciava-se a batalha entre o Coronel Delmiro Gouveia e os ingleses da machine Cottons. Pressionado pelos ingleses, o empresário, que vivia se prevenindo contra emboscadas, resolveu redobrar seus cuidados com a segurança. “Estou sendo ameaçado por aqueles ingleses”, contou certa vez a um amigo. “Tenho receio que me matem”, disse o coronel, sentindo o resfolegar da morte na nuca.

Morto Delmiro pelo punhal traiçoeiro, tratavam agora os ingleses de por fim aos seus negócios. Manietaram lojistas mediante vantagens especiais “Dumping”, desde que se comprometessem a não vender as linhas nacionais, ou seja, as fabricadas pela empresa que Delmiro criou. O presidente Arthur Bernardes, no final do seu mandato, participou diretamente da briga, reconhecendo que a Machine Cottons queria destruir a concorrência nacional e resolveu taxar a importação da linha inglesa. Porém um ano depois, eleito o então presidente Washington Luís, reduziu drasticamente os impostos de importação e a Machine Cottons se reergueu mais forte ainda. Usando de Dumping, boicotes a Agro Fabril não pode se manter, fechada e adquirida pelos ingleses diz a imaginação popular que seus maquinários foram jogados do alto da cachoeira de Paulo Afonso e repousam no seu fundo. Mas, ficou na memória aquele Coronel diferente o “Rei do Sertão”, o homem que não se vendeu, nem vendeu o Brasil.



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