quinta-feira, 7 de abril de 2016

A Expulsão dos Franceses de Pernambuco

A primeira feitoria de pau-brasil erguida em Pernambuco, foi erguida à margem direita da foz do rio Igaraçu pelo português Cristóvão Jaques quando de sua primeira expedição à costa brasileira (1516-1519), em substituição à Feitoria da Baía de Guanabara que fizera desativar entre 1516 e 1517.

"Cristovão Jaques fez a primeira casa de minha feitoria e a cinqüenta passos da dita casa da feitorya pelo rio a dentro ao longo da praya.". -  Duarte Coelho Pereira,  10 de Maio de 1534.

Cristóvão Jaques, quando da sua terceira expedição (1526-1528), aportou à feitoria de Pernambuco em Maio de 1527,  foi informado, pelo náufrago espanhol D. Rodrigo de Acuña (da expedição de Jofre de Loyassa às Molucas, em 1525), da presença de quatro navios franceses carregando pau-brasil na baía de Todos os Santos. Cristóvão Jaques surpreendeu-os em fins de Junho, matando e aprisionando centenas de franceses.
 
O depoimento dos sobreviventes, do ocorrido na baía de Todos os Santos em junho de 1527, ao rei Francisco I de França é dramático:
"Depois de afundados os nossos navios [um dos quais era do próprio Jaques, capturado pelos franceses na costa da Guiné], alguns de nossos súditos se sairam à terra e se meteram nas mãos dos selvagens. Antes, outros dos nossos súditos se meteram nas mãos e mercê dos ditos portugueses, esperando ser deles melhor tratados, porém eles, os ditos portugueses, enforcaram alguns dos nossos súditos e outros meteram e enterraram até os ombros e o rosto e depois os martirizaram cruelmente a setadas e tiros de espingarda." (Carta de Francisco I ao embaixador francês em Lisboa, 6 set. 1528.)
Após esses eventos, os franceses continuaram com suas incursões na costa brasileira. O rei português, D. João III, designou Martim Afonso de Sousa, juntamente com seu irmão Pero Lopes de Sousa, para uma expedição a costa do Brasil afim de combater os traficantes franceses e fundar núcleos coloniais. Partindo de Lisboa, em 3 de dezembro de 1530, com 400 homens, dentre os quais, muitos fidalgos, em5 navios: 1. a capitânia, na qual viajavam Martim e seu irmão Pero Lopes; 2. os galeões São Miguel (capitão Heitor de Souza) e 3. São Vicente (capitão Pero Lobo Pinheiro); e as caravelas 4. Princesa (capitão Baltasar Gonçalves) e 5. Rosa (capitão Diogo Leite, que fora comandante de um dos navios da expedição de Cristóvão Jacques).

Em 31 de janeiro de 1531, a esquadra avistou terra, o cabo de Santo Agostinho e  duas naus francesas que foram perseguidas e capturadas, fugindo para terra a tripulação de uma delas. E em primeiro de fevereiro de 1531, Pero Lopes de Sousa que se encontrava fundeado junto à ilha de Santo Aleixo, na costa de Pernambuco, avista ao romper do dia uma terceira nau francesa, que velejava rumo ao norte. Saindo a dar-lhe caça, na altura do cabo de Santo Agostinho, vem, seu irmão, Martim Afonso de Sousa, prestar-lhe ajuda, a qual não se faz efetiva pelos ventos contrários, voltando ao seu ancoradouro. Pero Lopes, na caravela Rosa, alcança à tarde a nau inimiga, dá-lhe combate, que dura toda a noite até o dia seguinte (2 de fevereiro).  Martim Afonso de Sousa, com o navio São Miguel, o galeão São Vicente e uma nau tomada dos franceses, consegue, em fim, chegar em socorro ao seu irmão, e aborda o navio inimigo por ambos os flancos, forçando a se render. Havia a bordo grande carga de pau-brasil; contando os franceses seis homens feridos.

A feitoria de Pernambuco (em Itamaracá) abrigou os feridos de Pero Lopes de Souza:

"19/fev/1531 - (...) e mandou [o Capitão irmão, Martim Afonso de Sousa] levar todos os doentes a uma casa de feitoria que aí estava. (...)." (CASTRO, 1940:138-139)

A feitoria de Igaraçu, que constava ter 13 portugueses, havia sido saqueada em dezembro de 1530 por um galeão francês, e Martim Afonso de Sousa a encontrou em fevereiro de 1531, abandonada e semidestruída. Ali, Martim Afonso expediu duas caravelas (“Rosa” e “Princesa”), sob o comando de Diogo Leite, para exploração do rio Maranón, queimou um dos navios franceses; incorporou outro à expedição, batizado de Nossa Senhora das Candeias, sob comando de Pero Lopes; e despachou o terceiro, comandado por João de Sousa, levando setenta toneladas de pau-brasil e mais de trinta prisioneiros normandos, para Portugal, onde chegou em final de julho de 1531. E dali partiram, a 24 de fevereiro de 1531, para a baía de Todos os Santos, rumo ao rio da Prata, deixando na casa forte, seis homens. 

Em retaliação, a ação de Cristóvão Jáques, ocorrido três anos antes na Bahia de Todos os Santos (1527), os franceses bombardearam a feitoria portuguesa no rio Iguaraçu com a nau "La Pelèrine" (Março de 1531), que zarpara do porto de Marselha para a costa do Brasil em Dezembro de 1530. Sob o comando do Capitão Jean Du Péret, capitão da La Pélerine, pertencente ao barão de Saint-Blancard, general das galeras francesas do Mediterrâneo. Transportava 120 homens, 18 canhões, munição e material de construção, em missão "militar, comercial, agrícola e feitorial". A feitoria estava ocupada pelo feitor Diogo Dias e mais cinco portugueses, que junto com algumas dezenas de indígenas, resistiram durante dois dias ao assédio francês. Em inferioridade numérica, foi assinado o termo de rendição da feitoria. Mediante o pagamento de 400 ducados, os portugueses se comprometiam a auxiliar os franceses a erguer uma nova fortaleza para substituir a feitoria arrasada pela artilharia. A nova feitoria foi erguida, não à margem direita da foz do rio Igaraçu, mas na ilha de Itamaracá, rebatizada como "île Saint Alexis". O forte teria custado 4.000 ducados, tendo os portugueses nele trabalhado na condição de cativos, e tendo ficado o fortim sob o comando do Capitão Sr. de La Motte.

A "La Pèlerine" zarpou de Itamaracá para Marselha em Junho de 1531, deixando a nova fortificação guarnecida por setenta homens. A nau, entretanto, foi aprisionada por uma embarcação portuguesa no Mediterrâneo, ao largo de Málaga, na Espanha, em setembro de 1531, apreendendo-se em seus porões quinze mil toras de pau-brasil (cerca de 300 toneladas), três mil peles de onça, 600 papagaios, 300 quintais de algodão (cerca de 1,8 tonelada), óleos medicinais, sementes de algodão e amostras minerais. 
“A tomada de La Pèlerine, a feitoria francesa fundada em Pernambuco, notícias de preparativos para fundarem-se outras, espancaram finalmente a inércia real. Escrevendo a Martim Afonso de Sousa a 28 de setembro de 32, anuncia-lhe el-rei a resolução de demarcar a costa, de Pernambuco ao rio da Prata, e doá-la em capitanias de cinqüenta léguas: a de Martim teria cem; seu irmão Pero Lopes seria um dos donatários.” – Capistrano de Abreu.
Voltando de São Vicente (SP) para Portugal, Pero Lopes de Sousa, se defronta com o fortim erguido pelos franceses em Itamaracá (íle Saint Alexis), a bombardeia em um cerco que dura 18 dias, forçando a rendição do capitão francês De La Motte, que foi enforcado junto com outros 20 franceses. Quando, então, faz reerguer a antiga feitoria à margem direita da foz do rio Igaraçu, mantendo o forte francês na ilha de Itamaracá, guarnecido por alguns homens sob o comando de Francisco de Braga e levando consigo a Portugal (4 de novembro), aproximadamente 40 prisioneiros franceses. 
“Não foi mais feliz a fortaleza galo-pernambucana. Pero Lopes, terminada a exploração do Prata, e já de viagem para a Europa, bombardeou-a durante dezoito dias, e obrigou-a a render-se. Da guarnição parte foi enforcada; outra, transferida ao Reino, passou longos meses de cativeiro nos calabouços do Algarve” – Capistrano de Abreu.
A expulsão definitiva dos franceses de Pernambuco virá no governo de Duarte Coelho que toma posse de sua capitania, como conta Frei Vicente Salvador:
“Com estas e outras vitórias, alcançadas mais por milagres de Deus, que por forças humanas, cobrou Duarte Coelho tanto ânimo, que não se contentou de ficar na sua povoação pacífico, senão ir-se em suas embarcações pela costa abaixo até o rio de S. Francisco, entrando nos portos todos de sua capitania, onde achou naus francesas, que estavam ao resgate de pau-brasil com o gentio, e as fez despejar os portos, e tomou algumas lanças e franceses, posto que não tanto a seu salvo, e dos seus, que não ficassem muitos feridos, e ele de uma bombardada, de que andou muito tempo maltratado, e contudo não se quis recolher até não a limpar a costa toda destes ladrões, e fazer pazes com os mais dos índios, - (Frei Vicente Salvador, pág. 32).”
Nova Campanha de Duarte Coelho em fins de 1577:

O principal feito militar de Duarte de Albuquerque Coelho foi a ocupação do Cabo de Santo Agostinho.

Levantou um verdadeiro exercito e com a originalidade de ser distribuído por procedencias : os moradores naturais de Viana sob a chefia de João Paes, os de Lisbôa com Gonçalo Mendes d'Elvas, os do Porto com Bento Dias de Santiago. . . Ao todo seis companhias, pois completavam aquelas a gente de Igarassú (capitão Fernão Lourenço), de Paratí (capitão Gonçalo Mendes Leitão, irmão do bispo e genro de Jerônimo de Albuquerque), da varzea (capitão Cristovão Lins, alemão) ... Pero Lopes Lobo trouxe de Itamaracá 35 soldados e 2 mil índios. Vinte mil cabôclos - diz frei Vicente - engrossavam a expedição, à frente da qual iam o donatário, os genros de Jerônimo de Albuquerque Don Felipe de Moura e Felipe Cavalcanti, florentino êste último, "e não ficou mais na vila que Hierônimo de Albuquerque com alguns velhos que não podiam menear as armas". 

Tão forte cortejo poz em fuga os caetés às primeiras escaramuças. Duarte Coelho queimoulhes as cêrcas, desmanchou-lhes as roças, forçou-os à paz e, ato contínuo, deu as suas ricas terras aos principais expedicionários, como excelentes para canaviais e fabricas de açucar. Ficou a comandar a povoação que ali se fez João Paes, logo senhor de oito engenhos, de que tirou riqueza consideravel. Constituiu o único morgado com provisão real que houve em Pernambuco. 

Ainda em 1578, Duarte Coelho dar continuidade a expansão para o sul, rumo a Sergipe. formando uma expedição, tendo a frente o capitão Diogo de Castro, que falava bem a língua da terra, a frente de 70 homens, por terra partido de Pernambuco, e por mar, em um caravelão partiu Duarte Coelho, seguindo para o rio São Francisco. Nessa empreitada se defrontou com franceses, na altura do rio São Miguel. Investindo os nossos sobre eles de madrugada quando dormiam, mataram nove, ficando só um defendendo-se tão valorosamente com uma alabarda, que já estando com uma perna cortada, matou um soldado nosso chamado Pedro da Costa. Aos índios, que com eles estavam, que eram poucos, lhes disse Diogo de Castro, que os não buscavam, senão aos franceses, e se foram sem fazer resistência, e os nossos seguiram seu caminho até o desembarcadouro do rio S. Francisco, onde foi aportar o caravelão com o seu capitão, e os mais, que levava. Diogo Castro se aliou ao morubixava desses índios, e o auxiliou em guerra contra os tapuias, seus inimigos.

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