quinta-feira, 20 de março de 2025

O Catolicismo Tradicional Brasileiro - A Alma do Braʃil.

Há pelo menos dois tipos de catolicismo no Braʃil: o oficial e o popular. Esta dualidade é antiga, desde o período colonial, e muitas vezes em oposição: o catolicismo doméstico dos primeiros colonos, dos chefes de família, e o catolicismo mais Romano, mais universalista, das ordens religiosas e principalmente dos jesuítas. É difícil precisar quais as proporções dos adeptos de um ou outro dos dois tipos de catolicismo, pois não são captáveis por meio de estatísticas.

Tal dualidade não é exclusivamente brasileira, mas universal; em todos os países existiu sempre oposição entre de um lado as necessidades religiosas espontâneamente formuladas pela massa da população aliadas à conservação de antigas tradições religiosas e, de outro lado, a estrutura de uma hierarquia sacerdotal, sustentada por um dogmatismo mais ou menos rígido.

Os sacerdotes, em sua maioria, permanecem nas cidades ou nas zonas mais populosas; no sertão e nas zonas rurais em geral são sempre escassos. As paróquias do interior, muito vastas, raramente dispõem de um vigário ali residindo em permanência, e muitas vezes um só cura tem a seu cargo mais de uma paróquia; a extensão a percorrer é de tal ordem que a maioria das localidades recebe a visita do vigário apenas uma vez por ano.

Mesmo nas cidades, a falta de padres é significativa, como demonstrado por dados de meados do século XX, que revelam uma proporção insuficiente de clérigos para o tamanho da população. A prática religiosa varia consideravelmente entre as classes sociais. As elites, mais instruídas religiosamente e residentes em bairros melhor servidos de padres, apresentam maior frequência de prática religiosa, representando cerca de 15 a 20% dos praticantes regulares.

A instrução religiosa ministrada por sacerdotes é rara e atinge crianças de nível social elevado, as quais seguem cursos de catecismo durante alguns meses, preparando-se para a primeira comunhão. As crianças da plebe, seja em zona urbana, seja rural, são instruídas por seus pais ou parentes, quase sempre analfabetos e que, por sua vez, foram no passado instruídos do mesmo modo. A fé é assim transmitida de geração em geração por uma espécie de inércia conservadora. A grande maioria dos católicos brasileiros recebem-na de herança sem praticamente conhecerem a doutrina. É neste contexto que hoje se difundem cada vez mais o protestantismo e o espiritismo.


2 — Formação do catolicismo popular brasileiro.

Durante todo o período colonial e mesmo após, a carência de párocos e, por conseguinte, de assistência religiosa, forçou o brasileiro a adaptar-se. Tal adaptação, espontânea, expressou-se numa reorganização e reinterpretação do catolicismo tradicional, trazido pelos colonos portugueses de um lado, e do catolicismo oficial, trazido pelos poucos sacerdotes que aqui aportaram, de outro. Neste processo, elementos novos surgiram; elementos antigos ou pertencentes à religião oficial haverem sofrido transformações; dogma e liturgia haverem sido deformados por necessidades locais ou pela imaginação de líderes religiosos falhos de adequada instrução. Apesar das diferenças entre o culto oficial e o culto popular, a grande maioria dos brasileiros se tinham como muito bons católicos, a tradição lhes ditou o apego a esta forma religiosa.

O suposto sincretismo, difundido nas últimas décadas, mais das vezes por autores maçônicos, entre o catolicismo e outras manifestações religiosas, notadamente de matriz africana, é uma falácia. À época colonial até hodiernamente, no meio rural, os cultos africanos foram inexistentes quase por completo. A guisa de exemplo os residentes no quilombo dos Palmares, são reportados como católicos. Bem como as ditas "comunidades quilombolas" remanescentes, são todas católicas, sem resquício de sincretismos com cultos africanos. A manifestação de cultos de origem africana só se verificam a partir do início do século XIX, durante o Império, ainda assim circunscrita a nichos. Fomentados por uma política liberal de condescendência, de cariz maçônico, promovida pela monarquia, especialmente nas grandes cidades, que fomentou o surgimento da maçonaria negra, propiciada por libertos unidos a grupos abolicionistas quase sempre ligados à maçonaria. E por assim, é um fenômeno tardio e eminentemente urbano. No meio rural, a ausência desses grupos, propiciou que o catolicismo popular se conservasse mais 'puro' do que o das cidades, permanecendo fiel às suas origens portuguesas.

O sincretismo com as religiões indígenas foi inexpressivo. Na Amazônia, as sobrevivências  foram  mais visíveis; mas, ao contrário do que se observa com os cultos africanos, quanto mais se penetrar na floresta, mais numerosos haverem sido os elementos de religiões aborígenes associados ao catolicismo. Trata-se, todavia, de fenômeno localizado em área geográfica limitada e precisa, e não de fenômeno difundido em geral no país. E embora ali estejam as crenças muitas vezes embebidas de elementos indígenas, a organização religiosa, as festas revelarem claramente sua origem portuguesa. A pajelança, culto religioso que une catolicismo e religião indígena, não atingiu nunca alguma importância, com sua difusão sido muito restrita.

O Catolicismo no Sertão brasileiro foi mantido muito mais próximo daquele trazido pelos portugueses nos dois primeiros séculos da colonização, e que evoluiu, por assim dizer, fechado sobre si mesmo. Ora, a maior parte dos elementos religiosos trazidos para o Braʃil eram parte, já em Portugal, da religião popular; pois o campones português, especialmente o nortenho, ao emigrar, trouxe consigo suas crenças. Porém, ao persistir, este catolicismo popular veio a cindir em dois: um catolicismo urbano e um rural. Esta divisão se deu com o correr do tempo; a princípio, formavam uma unidade que era o catolicismo popular simplesmente. Mas, à medida que no Braʃil se disseminou um estilo de vida urbano de tipo ocidental, iniciado com a vinda da Família Real para o Rio de Janeiro, o catolicismo popular urbano se distanciou de seu irmão rural. É esta segunda forma do catolicismo popular que nos deteremos.


3 — A civilização tradicional na sociedade brasileira atual.

A civilização rural que hoje encontramos no interior do país é o prolongamento da antiga civilização brasileira, que teve início com a colonização portuguesa. Homogênea em toda a enorme colônia, no fim do século XVII já se havia consolidado. E no fim do século XVIII, apresentava caracteres próprios e inconfundíveis com os de sua matriz lusitana. No século XVIII, já se havia estabilizado esta verdadeira civilização brasileira, muitos de cujos traços persistem hodiernamente em todo o país.

Durante o período colonial, a civilização brasileira tradicional era uma só, tanto na zona rural quanto nas cidades. Práticas religiosas como a Dança de Gonçalo realizavam-se nas igrejas de Salvador, Recife, Rio de Janeiro, etc.. . A transferência da Família Real portuguesa em 1808, e a modernização urbana decorrente de sua instalação no Rio de Janeiro, impeliu o processo de modernização, progredindo cada vez mais, e aos poucos apagando aquela civilização tradicional das cidades maiores, em seguida das pequenas capitais provincianas, para finalmente remanescer nos vilarejos e povoados. Hoje em dia, encontramo-la em grande parte do Norte, do Nordeste, do Centro-Oeste do País.

Todavia, o processo de modernização nunca se espraiou de forma regular e homogênea no espaço brasileiro. Assim mesmo ao pé da Serra do Mar, no pregueado da Serra da Mantiqueira, a pequena distância da capital paulista, inúmeros grupos de vizinhanças mantiveram-se presos ao estilo de vida e conservaram-lhe o catolicismo tradicional. Desta, destaca-se uma minoria de grandes proprietários perfeitamente adaptados à vida moderna; um conjunto de médios fazendeiros, compondo pequena classe intermediária; uma mão de obra assalariada não muito numerosa. O restante, segundo estimativa superficial seria de 60% do total rural, que constitui a maioria da população rural, composta de camponeses no sentido etnológico da palavra. São eles os grandes conservadores da tradicional civilização brasileira.


4 — Composição do catolicismo tradicional.

Devido ao povoamento disperso do interior do País e à falta de indivíduos convenientemente instruídos do ponto de vista religioso, cuja ação poderia ter tornado mais homogêneos doutrina e ritos, a prática religiosa rural apresentou muita variação em torno dos mesmos temas centrais. Em regiões tão afastadas umas das outras quanto a "zona serrana" do Estado de Santa Catarina, os sertões do Nordeste ou as florestas da Amazônia, são encontrados elementos religiosos semelhantes; sua distribuição, porém, não se faz por igual e muitas vezes não figuram em regiões intermediárias. Isto é, surgem num ponto e em seguida muito mais além, mostrando que sua disseminação foi inteiramente irregular. São, todavia, sempre os mesmos elementos.

Por outro lado, embora semelhantes e mantendo o mesmo esquema básico fundamental, os detalhes são diversos quando se passa de uma região para outra. Poderíamos elaborar uma longa lista destas práticas: as penitências; as orações rústicas; as comemorações do Dia de Reis; as festas de São João; a Semana Santa; sem falar nas danças folclóricas como o Boi-bumbá, — danças que animam festas religiosas e profanas.

Bumba-Meu-Boi em Santa Catarina. Manifestação religiosa
presente em todo Braʃil. Ligado a festa de São Gonçalo.
Com os bois simulando touradas. Que por sua vez remete
a antigos festejos celto-lusitanos.
Os variados tipos de Dança de São Gonçalo ilustram a riqueza a que nos estamos referindo. Trata-se de antigo rito religioso português, com função de agradecer ao santo graças alcançadas. Embora proibida pela Igreja durante o século XVIII em Portugal, persistiu no Braʃil e continua a existir até hoje, mesmo em regiões rurais consideradas modernizadas, como as do Estado de São Paulo, e sem mudar de função. Porém, enquanto no norte da Bahia é realizada por duas fileiras de "dançadeiras" que dançam cantando diante do altar, cada fileira tendo à testa dois músicos; enquanto no interior do Estado de São Paulo uma fileira de mulheres dança de par com uma fileira de homens; no Estado de Goiás somente dançam homens em duas fileiras. A coreografia diferente um pouco também, as evoluções das fileiras dançantes não são as mesmas nas diversas regiões. Todavia, os versos cantados são praticamente os mesmos por toda a parte, a variação é mínima. A ordenação da reunião que acompanha a dança é também diferente conforme o lugar: em São Paulo, a verdadeira festa comportando importante procissão; na Bahia, ao contrário, somente a dança é realizada diante do altar e do público. Este exemplo mostra que as variações são apenas de detalhes, uma vez que o objetivo e a função do rito permanecem idênticos por toda parte: a dança tem por fim agradecer ao santo uma graça alcançada. São práticas religiosas semelhantes a esta que formam o acervo do catolicismo tradicional brasileiro.


5 — Os grupos de base da antiga sociedade tradicional brasileira.

A conformação do catolicismo tradicional brasileiro deve-se, em grande medida, à conjugação de dois fatores essenciais: a influência do catolicismo popular português e a escassez de sacerdotes. Em Portugal, a religiosidade popular estruturava-se, e ainda se estrutura, em torno do culto aos santos, cujos padroeiros, venerados em dias solenes, são motivo de orgulho para aldeias e famílias. Essa tradição transladou-se integralmente para o Brasil, onde o culto aos santos permaneceu como eixo fundamental da religiosidade popular. Entretanto, a plena compreensão desse fenômeno exige a consideração das estruturas sociais que sustentam a vida camponesa no Brasil: a família e o grupo de vizinhança.

Diferentemente do modelo aldeão europeu, o brasileiro raramente habita em povoações, erguendo sua morada nas terras que cultiva, em relativo isolamento. Cada família mantém independência econômica, e um conjunto dessas unidades domésticas forma o grupo de vizinhança, denominado “bairro rural” em certas regiões paulistas, mineiras e paranaenses. O bairro rural, usualmente, tem por núcleo uma capela, evidência da presença de um grupo coeso, ainda que disperso geograficamente. Essa configuração espacial, comum a diversas regiões do país, torna a paisagem aparentemente desabitada, mas pontilhada por pequenas ermidas e algumas habitações ao redor.

A vida nesses grupos alterna períodos de isolamento e de reunião, sendo as festividades religiosas os principais momentos de congregação. À aproximação do dia consagrado ao santo padroeiro, as famílias abandonam momentaneamente suas propriedades e, trajando suas melhores vestes, convergem para a capela do bairro, marco simbólico da unidade social que transcende o núcleo doméstico. A participação comum nos festejos reforça os laços de solidariedade entre os membros do grupo, que, além do vínculo familiar, compartilham um espírito comunitário, manifesto tanto na assistência mútua quanto na organização dos ritos festivos. Assim, a capela do bairro rural torna-se o centro gravitacional da vida social e religiosa, consolidando a identidade coletiva de uma população dispersa.


6 — O festeiro e a organização da festa religiosa.

No Brasil tradicional, as festividades em honra ao padroeiro seguiam um modelo padronizado, no qual a figura central era o festeiro, responsável pela organização e pelo custeio parcial do evento. Escolhido anualmente, geralmente entre os sitiantes mais prósperos, cabia-lhe prover a alimentação dos participantes, bem como angariar donativos para complementar os gastos. Para isso, era comum que percorresse a comunidade solicitando contribuições ou que delegasse tal tarefa a um grupo específico, a Folia.

A Folia, composta por um porta-estandarte que conduzia a bandeira do santo, músicos e um animal de carga, visitava os sítios entoando cânticos e recolhendo oferendas. Sua chegada era anunciada por rojões, atraindo os vizinhos e promovendo reuniões espontâneas em menor escala. A bandeira adentrava os lares, sendo reverenciada com orações e ladainhas, enquanto enfermos lhe tocavam as fitas em busca de curas. Os anfitriões, além de alimentarem os foliões, ofertavam gêneros como aves, suínos ou cereais, acompanhando o grupo até a fronteira de suas terras.

Na semana da festa, todas as famílias do bairro rural se dirigiam para a capela, onde erguiam alojamentos improvisados. A preparação do evento envolvia esforços coletivos: homens abasteciam as fogueiras, enquanto mulheres cozinhavam em grandes tachos para garantir a partilha do alimento. O ápice das celebrações incluía refeições comunitárias, rezas, procissões e, ao cair da noite, leilões de prendas, desafios e danças folclóricas. Em comunidades mais integradas e economicamente estáveis, preservavam-se encenações teatrais tradicionais, como conçadas, cavalhadas, Nau Catarineta e Bumba-meu-Boi. Contudo, a encenação exigia recursos e disponibilidade, sendo inviável em bairros mais pobres ou divididos por conflitos internos.

Os custos da festividade eram cobertos por múltiplos peditórios, como as esmolas das folias, os rendimentos dos leilões e as contribuições oriundas das peças teatrais, garantindo um caráter coletivo ao evento. O festeiro, enquanto organizador e figura central, dirigia as cerimônias e distribuía as tarefas. Embora um sacerdote pudesse ser convidado para oficiar a missa, sua presença era secundária, pois o festeiro permanecia como a autoridade máxima da celebração. Essa autonomia frequentemente gerava atritos entre festeiros e clero, sobretudo quando o padre condenava folguedos como a Dança de São Gonçalo, considerados pelos camponeses como expressões legítimas da fé popular. Assim, a festa do padroeiro não apenas consolidava a religiosidade local, mas reafirmava a coesão social e a autossuficiência dos grupos de vizinhança na organização de suas práticas devocionais.


7 — O culto dos santos.

Casa sertaneja com santos de devoção.
Em casas mais abastadas, havia um quarto
exclusivo para orações. Nas casas-grandes
uma capela era sempre erguida junto a casa,
ou em um ponto mais alto da fazenda.
A festividade religiosa ocupa papel central no universo brasileiro, constituindo-se como a manifestação tradicional de devoção ao santo padroeiro local. A crença popular atribui ao patrono poderes sobre a ordem natural, sendo-lhe creditada a capacidade de punir os fiéis negligentes com secas, pragas e outras adversidades. No entanto, a relação entre o santo e a comunidade não se limita à veneração passiva: seus devotos, percebendo-lhe um caráter humanizado, impõem-lhe também sanções quando julgam sua ação injusta, relegando sua imagem a locais menos prestigiosos, privando-a de oferendas ou até castigando.

A imagem sagrada não é meramente representativa, mas a concretização física da presença do santo, que, ao mesmo tempo, se insere na ordem natural, por sua constituição material, e na ordem sobrenatural, por sua essência divina. Assim, a interação entre fiéis e padroeiro assume um caráter de reciprocidade, em que a oferenda feita ao santo não é desinteressada, mas uma forma de pacto, esperando-se a concessão de graças em contrapartida. Se a reciprocidade for rompida, o devoto se julga no direito de compelir o santo a cumprir sua parte.

Cada bairro possui seu padroeiro, e cada lar, seu santo doméstico, que recebe honrarias através de orações e celebrações privadas. As novenas e ladainhas realizadas no oratório familiar representam novas oportunidades para reuniões comunitárias, reforçando os laços sociais entre parentes e vizinhos. Nessas ocasiões, após o término das atividades do dia, os moradores se reúnem para entoar cânticos e proferir preces diante do altar ornamentado, sob a condução de um sacristão especialmente requisitado para presidir as cerimônias.

fragmento do quadro de Frans Post retratando uma capela junto a casa-grande e um engenho.
Ao lado, Casa-Grande do engenho Monjope com sua capela, em Igaraçu-PE.

8 — O Sacristão.

No contexto do catolicismo tradicional brasileiro, o sacristão configura-se como a figura central na preservação e transmissão dos ritos religiosos e das práticas devocionais populares. Detentor do conhecimento acerca de orações, ladainhas e cerimônias, assume o papel de intermediário entre a comunidade e o sagrado, sendo também denominado “tirador de rezas” ou sacristão. Sua função pode ser desempenhada por mulheres de idade avançada, solteironas ou viúvas, sendo, em muitos casos, um ofício transmitido hereditariamente.

O sacristão exerce uma autoridade inconteste em questões espirituais, sendo consultado sobre fenômenos místicos, vidas de santos e o calendário litúrgico. Detém familiaridade com orações específicas para diferentes momentos da existência, nascimento, batismo, morte, e domina a execução de ritos tradicionais, como a Dança de São Gonçalo e diversas penitências e procissões. Ademais, possui um papel organizador nos festejos populares que mesclam o sagrado e o profano, tais como as cavalhadas, o Bumba-meu-Boi, funcionando, assim, como guardião da memória religiosa do grupo.

A remuneração pelo exercício dessa função varia. Embora alguns sacristões atuem gratuitamente em razão de promessas ou votos, a prática remunerada é comum, sendo os honorários ajustados previamente. Em muitas comunidades rurais, ele organiza ritos voltados ao auxílio das almas do purgatório, cujas manifestações são temidas e requerem a intervenção dos vivos. Tais ritos, como a Dança de São Gonçalo ou a Procissão de Covas, assumem formas variadas conforme a região, mas visam ao “refrigério das almas”, promovendo a pacificação dos mortos e evitando suas represálias sobre os vivos.

A presença do sacristão fomenta o surgimento de associações religiosas e grupos penitenciais, que percorrem as capelas e cruzeiros, entoando rezas e cânticos. As penitências, uma das mais reconhecidas reminiscências célticas no catolicismo europeu e, por desiderato, no brasileiro, são organizadas segundo critérios de idade e gênero. Elas desempenham um duplo papel: fortalecem a coesão comunitária e funcionam como um mecanismo de ordem e controle moral, vedando a participação daqueles que nutrem inimizades. A regularidade desses atos litúrgicos está condicionada ao calendário agrícola, intensificando-se nos períodos de entressafra.

"Entre os mais zelosos, há os que fazem promessas de andar descalços em longas jornadas, outros de carregar pesadas cruzes, e não são poucos os que se impõem jejuns rigorosos e cilícios para expiar suas culpas." - Frei Vicente, 1627. 

"Os mais devotos, nas sextas-feiras e na Semana Santa, tomam disciplinas públicas, açoitando-se diante dos altares, pedindo a misericórdia de Deus pelos pecados seus e dos outros." - Giovanni Antonio Andreoni (Antonil), jesuíta italiano, 1711.

"Saíam às ruas encapuzados, descalços, açoitando-se até que o sangue lhes banhasse as costas, em sinal de contrição e sacrifício." - relato sobre a Irmandades da Boa Morte, de Nossa Senhora dos Passos e dos Flagelantes, Bahia.

No seio do catolicismo popular, o sacristão e o festeiro desempenham funções que, na estrutura oficial da Igreja, caberiam ao sacerdote. O festeiro organiza as festividades, enquanto o sacristão mantém o vínculo direto com o transcendente. Essa organização permite que as comunidades rurais preservem certa autonomia religiosa, alheias à hierarquia eclesiástica formal. Esse distanciamento se manifesta, inclusive, na hierarquização dos sacramentos: apenas o batismo mantém um prestígio inquestionável, enquanto outros ritos, como o matrimônio e a extrema-unção, são frequentemente substituídos por práticas costumeiras.

O batismo, essencial por garantir a salvação da criança em um contexto de alta mortalidade infantil, estrutura a rede de compadrio, elemento fundamental para a coesão social. Esse laço ritual cria vínculos de solidariedade intergeracional, garantindo suporte mútuo entre padrinhos e afilhados ao longo da vida: "Minha comadre, aqui está seu filho que levei pagão e lhe entrego cristão". Dizia-se a mãe ao receber da madrinha de volta nos braços, a criança já batizada.

Além do batismo formal, práticas alternativas de compadrio, como os ritos de São João e da Semana Santa, reforçam os laços comunitários, promovendo a integração e a estabilidade social.

A atuação dos sacristões e festeiros revela, assim, a fusão entre religiosidade e organização social no mundo rural brasileiro, onde o catolicismo se perpetua não apenas pela institucionalidade clerical, mas sobretudo pela ação dessas figuras, que asseguram a continuidade das tradições e valores comunitários.

10 — Função dos ritos do catolicismo tradicional brasileiro.

Os ritos do catolicismo popular preservados no meio rural brasileiro desempenham um papel fundamental na consolidação dos laços comunitários. As festividades religiosas reforçam a coesão entre os vizinhos, enquanto as novenas familiares fortalecem os vínculos entre as famílias e os diversos ritos do compadrio promovem a solidariedade entre os indivíduos. A permanência desses ritos, em detrimento de outros, decorre da notável instabilidade do povoamento rural no Braʃil. O caboclo raramente se fixa de modo permanente em uma localidade, pois seus pequenos estabelecimentos agrícolas são precários e a vastidão do território disponível favorece sua mobilidade.

As práticas agrícolas tradicionais, como a coivara e o cultivo itinerante, acentuam essa tendência ao deslocamento. O caboclo cultiva a terra até que esta se esgote, deslocando-se então para novas áreas, onde repete o ciclo de derrubada e plantio. Suas moradias rústicas, feitas de pau-a-pique e cobertas de folhas de pindoba, são facilmente erguidas e abandonadas. Essa mobilidade se estende ao grupo de vizinhança, que, ao mudar-se, transfere também sua capela para um novo local, deixando a antiga sucumbir ao tempo e à vegetação.

Diferente das tradicionais famílias, estanques, em sua endogamia, que permeiam por gerações a mesma localidade. Nas classes baixas a vizinhança raramente é composta por descendentes de um mesmo tronco familiar, ao contrário, um conjunto de famílias conjugais sem laços de parentesco próximo. A mobilidade é regra entre seus membros, e os recém-casados frequentemente partem em busca de melhores condições de vida, integrando-se a novos bairros rurais. Esses núcleos são abertos à chegada de novos integrantes, desde que estes participem ativamente da vida coletiva. Nesse contexto, as festividades religiosas e o compadrio desempenham um papel essencial na integração social, sendo a contribuição para a Folia o primeiro passo para a aceitação na comunidade, processo que se consolida com o estabelecimento de laços de compadrio com famílias locais.


11 — Fatores que dão ao catolicismo tradicional sua fisionomia.

A configuração do catolicismo tradicional no Braʃil foi moldada por fatores estruturais que marcaram a organização social da população rural. A dispersão demográfica em um território vasto, a mobilidade imposta por uma agricultura predatória e a fluidez das comunidades de vizinhança determinaram a forma assumida pela religiosidade popular. Esses fatores, somados à escassez de clérigos e à herança do catolicismo popular português, fizeram com que a população rural selecionasse os ritos e associações religiosas mais adequados às suas necessidades. Assim, práticas como a festa, a novena e o batismo foram preservadas, bem como os grupos de dançadeiras de São Gonçalo e os penitentes, todos voltados ao fortalecimento dos laços sociais e familiares.

No interior desse universo religioso, estruturou-se uma hierarquia peculiar, representada pelo festeiro e pelo sacristão. O primeiro assume a organização das cerimônias coletivas, enquanto o segundo mantém a mediação entre as famílias e o sobrenatural. A religião, nesse contexto, assume primariamente uma função social, e não estritamente espiritual ou moral. Os valores religiosos não são buscados por si mesmos, mas sim como instrumentos para a coesão da comunidade. A melhoria individual se justifica na medida em que contribui para a harmonia social, e não como um fim em si.

Além de seu caráter social, o catolicismo tradicional brasileiro distingue-se por sua natureza utilitária. O culto dos santos, as festas e as novenas operam dentro de uma lógica de troca simbólica (do ut des), na qual os fiéis oferecem devoção e sacrifícios em busca de benefícios concretos. Essa relação pode levar tanto à cólera do santo contra seus devotos quanto ao descontentamento dos fiéis com o santo, resultando em represálias de ambas as partes.

Apesar das variações regionais, os elementos fundamentais dessa religiosidade são homogêneos em todo o território nacional. A estrutura básica é composta por ritos, crenças e um sistema hierárquico mínimo, no qual o festeiro e o sacristão figuram como agentes do culto. Essa simplicidade permite grande flexibilidade, abrindo espaço para inovações espontâneas dentro de um esquema religioso rudimentar e fluido.

O catolicismo tradicional e o bairro rural tradicional refletem-se mutuamente, compartilhando uma mesma lógica de organização precária e adaptável. Contudo, essa configuração é condicionada à manutenção de um modo de vida seminômade e economicamente sustentável. Onde ocorre a fixação definitiva da população e o declínio da prosperidade dos sitiantes, observa-se o empobrecimento da religião. Festividades antes elaboradas tornam-se progressivamente mais modestas, as Folias reduzem seus percursos e as procissões perdem seu apelo comunitário. Com o enfraquecimento da religiosidade popular, desestrutura-se também o bairro rural, cujas famílias passam a coexistir de maneira mais fragmentada e menos solidária.

Assim, o catolicismo tradicional e o bairro rural não apenas surgiram em resposta às mesmas condições, mas também compartilham um destino comum. A decadência de um implica necessariamente a dissolução do outro, pois ambos são elementos interdependentes na estrutura da sociedade rural brasileira.


12 — Conclusão.

O catolicismo tradicional brasileiro, vinculado à estrutura social do bairro rural tradicional, encontra-se sob ameaça em virtude das transformações no mundo rural. O avanço das vias de comunicação, a reorganização fundiária que favorece médias e grandes propriedades e a urbanização crescente tendem a extinguir essa forma específica de religiosidade, substituindo-a por novas configurações religiosas mais institucionalizadas. Além disso, a disseminação do protestantismo e do espiritismo acelera esse processo de dissolução das práticas rústicas.

Embora esse catolicismo tenha resistido ao longo do tempo, ele se apresenta como uma sobrevivência do passado, sem perspectivas claras de adaptação ao futuro. A transformação em curso, porém, não ocorre de forma abrupta, e parte significativa da população rural experimenta uma mudança sutil em sua vivência religiosa, muitas vezes imperceptível sem uma análise mais profunda.

Esse fenômeno provoca repercussões sociais e psicológicas, ainda pouco estudadas, sobretudo pela gradual destruição da configuração social do bairro rural. Paralelamente, observa-se um crescimento do cristianismo institucionalizado, mais alinhado às normas eclesiásticas, que se expande à medida que a sociedade brasileira se urbaniza e moderniza. Diferentemente do que postulam os modelos clássicos de secularização, no Brasil esse processo não resulta na redução da religiosidade, mas no fortalecimento das religiões oficiais em detrimento das manifestações tradicionais. A urbanização, assim, intensifica a polarização entre a religiosidade estruturada das cidades e a fluidez característica da religião popular do campo, acelerando a decadência da civilização tradicional.


O Castilhista


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terça-feira, 31 de dezembro de 2024

A Imigração Alemã no Sul da Bahia - Os 206 anos da Imigração Alemã para o Braʃil



Georg Anton von Schäffer

No presente ano de 2024, a imprensa sensacionalista conjuntamente com promotores de eventos comerciais, notadamente ao sul do Brasil, alardearam os "200 anos da imigração alemã para o Brasil.". Trata-se de uma grande mentira, propagada com fins puramente comerciais. Qualquer um, minimamente conhecedor do assunto, sabe que a imigração alemã teve sua origem na Bahia. E não só alemã, como também foi o marco que deu inicio a imigração em massa para o Brasil, quando em 1818 é fundada a primeira colonia oficial pela coroa, um ano antes da colonia de Nova Friburgo no RJ, e 6 anos antes da primeira colonia alemã ao sul do Brasil. 

A presença de imigrantes alemães e suíços na Bahia antecede 1818. Com registros desde 1816, em Salvador e no sul da Bahia. Georg Wilhelm Freyreiss fundador e primeiro administrador da Colônia, chegou ao Brasil em agosto de 1813, com 24 anos. Era naturalista, tendo tomado parte na expedição do príncipe alemão Maximiliano de Wied-Neuwied, entre 1815-17, que percorreu partes do Brasil, incluso o sul da Bahia.

Em 1820, foi aberto o Consulado de Hamburgo em São Salvador. Sete anos mais tarde, o Brasil celebrou o Tratado de Comércio e Navegação com as cidades hanseáticas de Lübeck, Bremen e Hamburgo, aumentando o fluxo de germânicos que aportavam em São Salvador, principal porto brasileiro, enquanto Hamburgo era, ao seu tempo, o  mais importante porto germânico. 

Pela ocorrência da Revolução do Porto, no ano de 1820, evento que desencadiou a Independência do Brasil (1822), o médico e militar germânico Georg Anton von Schäffer solicitou a D. João VI permissão para radicar-se no Braʃil. Concedida a autorização, o Rei permitiu-lhe a escolha de uma porção de terras de sua predileção. Naquele mesmo tempo, Schäffer, em sua terceira vinda ao Brasil, foi recebido pela Princesa Leopoldina. Após a formalização do documento régio, partiu para o norte acompanhado de alguns colonos, chegando à Vila Viçosa, descrita por Schäffer como local de grande abundância.

Fixando sua escolha na margem setentrional do rio Peruíbe, junto ao córrego Jacarandá, delimitou terras contíguas à colônia Leopoldina, a qual, abrigando já quatro famílias, mostrava-se em franco progresso. Baseando-se no documento real firmado por D. João VI, as autoridades de Vila Viçosa estabeleceram para a nova colônia um terreno equivalente a uma légua quadrada. Ali, os colonos principiaram uma modesta lavoura, com o auxílio de indígenas.

Schäffer denominou a colônia de Frankenthal, ou "Vale dos Francos", em homenagem à sua terra natal e de outros colonos, Francônia. Sua fazenda tomou o nome de Fazenda Jacarandá.

Após fundar Frankenthal, Schäffer retirou-se para o Rio de Janeiro e, subsequente, foi enviado à Europa por ordem de José Bonifácio, na qualidade de agente de negócios públicos, logrando trazer numerosos colonos ao Brasil. Ao partir para a Europa, Frankenthal contava, 20 almas e 16 mil pés de café, deixando a supervisão da colônia a seu amigo Johann. 

Schäffer possuía como sócios Johann Martin Flach, suíço originário do Cantão de Schaffhausen, pioneiro que chegou ao Braʃil em 1809 e que conheceu Schäffer no Rio de Janeiro, em 1814.  proprietário da Fazenda Helvécia, uma das fazendas da Colonia Frankenthal, e o arquiteto alemão Johann Philipp Henning, oriundo de Wertheim, que veio acompanhado de sua esposa. Inicialmente, as colônias Leopoldina (margem sul do Peruípe, em Viçosa) e Frankenthal (margem norte, em Caravelas) constituíam empreendimentos distintos. Diversos suíços e alemães adquiriram propriedades na região, com o tempo, suas propriedades passaram a ser referidas, de forma unificada, como Colônia Leopoldina.

Henning, sócio em Frankenthal, foi posteriormente designado por Freyreiss como administrador de Leopoldina. As colônias foram estruturadas sobre cinco sesmarias, três em Leopoldina e duas em Frankenthal, cujos titulares tinham por obrigação ceder parcelas de terras a outros colonos, consoante preceitos da legislação vigente. Após a Independência, o sistema de sesmarias foi extinto, e a figura do administrador da colônia deixou de existir.


1. Colônia Almada (1816)

Por volta de 1816, Peter Weyll, alemão originário de Frankfurt, estabeleceu-se com sua família nas margens do rio Itaípe, ao norte de Ilhéus, em uma sesmaria de uma légua quadrada que lhe fora concedida com o objetivo de promover a colonização da região ainda deserta. Com o auxílio de indígenas e 12 escravos, Weyll desmatou vastas áreas, destinando-as ao cultivo de milho, arroz e cana-de-açúcar. 

Ao redor de sua propriedade, outros imigrantes fixaram-se, como Frederich Schmidt, também alemão, de Stuttgart, proprietário da fazenda Luisia, e Eugênio Borrel, suíço de Neuchâtel, que cultivava café na propriedade Castel-Novo. Durante a expedição de 1818, os renomados naturalistas bávaros Spix e Martius hospedaram-se na fazenda de Weyll, mencionando em seus relatos outros imigrantes alemães, como Scheuermann, residente em Salvador, que os acompanhou em parte de suas explorações pela região.


2. Colônia Leopoldina, A Primeira Colonia Alemã Oficial no Braʃil (1818)

No ano de 1818, fundou-se a Colônia Leopoldina, no extremo meridional da Capitania da Bahia, na comarca de Caravelas, às margens do rio Peruípe, distante oito léguas de Vila Viçosa. Entre os principais fundadores contavam-se Georg Wilhelm Freyreiss, naturalista suíço; o Barão Von dem Busche, agrimensor alemão; Carlos Guilherme Mohrardt, médico estabelecido em Viçosa desde o mesmo ano; e o cônsul hamburguês Pedro Peyck. Esses empreendedores, ao receberem cinco sesmarias, congregaram seus capitais e ali deram início a uma colônia formada por imigrantes oriundos da Suíça e da Alemanha, nomeando-a em honra à Princesa Leopoldina, patrona da colonização germânica no Braʃil.

Esta fora a primeira colônia no Braʃil fundada por europeus não lusitanos, antecedendo em um ano a criação da colônia de Nova Friburgo no Rio de Janeiro. Leopoldina destacou-se pelo cultivo de café, vindo a prover cerca de 60% da produção cafeeira da província baiana em 1842, e excedendo 90% dessa produção em 1853. Seus colonos, além do café, também se entregavam ao cultivo de mantimentos como abacaxi, jaca, laranja, manga, banana, fruta-pão, mamona, cana-de-açúcar, algodão, fumo, milho, mandioca e leguminosas, conforme registrado no Journal du Jura de 1820.

Colônia Alemã  Leopoldina, sul da Bahia.


3. Colônia do Rio da Salsa (1818)

No ano de 1818, instituiu-se às margens do rio da Salsa, entre os rios Pardo e Jequitinhonha, uma colônia singularmente composta por soldados brasileiros casados e estrangeiros de origem germânica. À semelhança das colônias de Almada, São Jorge dos Ilhéus, Leopoldina e Frankental, esta fora fundada com o intuito de povoar e tornar produtiva uma vasta região da Bahia ainda recoberta por densas matas, e população rarefeita. Distinguia-se, contudo, por estar inserida em área de presença de indígena, e por assim, insegura para o avanço da colonização. Por tal razão, a colônia do Rio da Salsa apresentava o caráter peculiar de abrigar um destacamento militar, denominado "Quartel da Palma", cuja função era garantir a segurança dos caminhos que ligavam o sul da Vila de Ilhéus à povoação de Canavieiras, elevada à vila em 1832.

Os colonos dali teriam desaparecido por volta de 1827, enquanto os soldados permaneceram no destacamento até 1836. Nesse ano, em ofício datado de 7 de junho, o juiz de direito de Ilhéus comunicou ao Presidente da Província o desaparecimento do referido destacamento. A Colônia do Rio da Salsa, embora jamais oficialmente extinta, sucumbiu em seus propósitos, desaparecendo de maneira definitiva e marcando mais um fracasso na tentativa de colonização da região.


4. Colônia Frankental (1821)

No ano de 1821, Georg Anton von Schaeffer, natural de Münnerstadt, acompanhado de dois sócios, João Felipe Henning e João Martinho Flach, recebeu uma sesmaria nas terras devolutas do Sul da Bahia. Juntamente com 20 conterrâneos da Francônia, Schaeffer navegou o rio Peruípe e fundou uma colônia na margem do afluente Jacarandá, região da Colônia Leopoldina, à qual deu o nome de Frankental (vale dos Francos). Médico naturalista, Schaeffer desempenhou o papel de agente de colonização de D. Pedro I, promovendo uma imigração espontânea ao oferecer terras, sementes, ferramentas e auxílio financeiro aos imigrantes dispostos a partir para o Braʃil por conta própria.

Uma parte dos colonos chegou como soldados a serviço do imperador, enquanto os demais tinham a liberdade de escolher sua destinação. A colônia de Frankental destacou-se por não recorrer ao trabalho escravo, sendo Schaeffer contrário à utilização de escravos, defendendo que a produção poderia ser lucrativa apenas com colonos, como na cultura cafeeira. Em suas palavras: "pelo trabalho escravo, perder-se-ia uma vantagem da emigração alemã, continuando uma economia que já existe no Braʃil. E cujo resultado não constitui uma benção geral para a pátria brasílica.". Schäffer, faleceu em 1836, em sua Fazenda Jacarandá.

Com a extinção da colônia em 1838, as propriedades de Schaeffer e Flach foram incorporadas à crescente Colônia Leopoldina, marcando o fim de ambos os empreendimentos e o início de um modelo capitalista baseado no trabalho escravo e na produção voltada para a exportação. João Flach, filho do pioneiro, foi senhor de quatro fazendas: Helvécia, Kaya, Samambaia e St. Prés, todas outrora pertencentes à Colônia Frankenthal.


5. Colônia de São Jorge dos Ilhéus (1822)

Peter Weyll, o mesmo que fundara a Colônia de Almada, em sociedade com Adolpho Saueracker, estabeleceu, ao sul de Ilhéus, a Colônia de São Jorge dos Ilhéus, em terras de uma sesmaria que lhes fora concedida no ano de 1818. Em 1822, aportaram à Vila de Ilhéus os primeiros colonos alemães, e, no ano seguinte, chegaram 28 casais, totalizando 161 imigrantes, que haviam embarcado no porto de Rotterdam munidos de ferramentas e algum pecúlio para os primeiros tempos.

Entretanto, em razão dos embaraços causados pela Guerra da Independência, os instrumentos de trabalho foram retidos no porto, enquanto a colônia permanecia incompleta para recebê-los. Muitos, enfrentando enfermidades e escassez de recursos, abandonaram o empreendimento e buscaram refúgio na vila. Sensibilizada pela miséria dos imigrantes, a Câmara Municipal de Ilhéus apelou a D. Pedro I, que liberou fundos destinados à manutenção da colônia por dois anos. Tais providências, somadas à derrubada das matas e à preparação das roças, permitiram que os poucos colonos restantes se estabelecessem de modo definitivo nas margens do rio Cachoeira, a uma distância de três a quatro léguas acima de Ilhéus.

Com o tempo, a colônia tomou feição de um conjunto de fazendas, assemelhando-se à trajetória da Colônia Leopoldina. Sua população foi paulatinamente assimilada pela sociedade local, sendo reconhecido que “quase todos os fazendeiros ou são brasileiros, ou descendentes dos antigos colonos.”

Colonia Alemã de São Jorge de Ilhéus, por Rugendas.


6. Colonia de Assuruá (1857)

Posteriormente, em 1857, a Associação Baiana de Colonização organizou outro núcleo de imigração alemã, trazendo 150 alemães do norte da atual Alemanha (Klausthal e Zellerfeld), para trabalhar na Companhia Metalúrgica de Assuruá, fundada por negociantes de Lençóis e pelo alemão Kramer. O empreendimento não durou mais do que dois anos ante uma seca e mudanças ocorridas na Companhia, com os imigrantes se dispersando pela região. 


7. Colonias no Vale do Mucury (1873)

Em 1873, novas colônias foram estabelecidas, como Carolina, Muniz, Teodoro e Rio Branco, com famílias alemãs trazidas pela empresa Moniz. A primeira localizou-se nas proximidades do rio Pardo, e as outras na região de Comandatuba, no sul da Bahia, uma área em processo de ocupação, com a abertura de uma nova fronteira agrícola. O comendador Egas Moniz Barreto de Aragão e o conselheiro Policarpo Lopes de Leão, falantes de alemão, estabeleceram em Hamburgo a agência central de emigração. 

A primeira leva, de 1800 imigrados, veio em 1873, oriundos da Prússia Oriental, de etnia polonesa, dos quais apenas 150 eram alemães propriamente. Foram estabelecidos em Muniz e Teodoro, além de outros dois núcleos de menor dimensão: Núcleo Colonial Carolina e do Poço. Na região do rio Una, em Comandatuba. A precaria infra-estrutura da Companhia para amparar esses colonos, gerou escasseis de viveres, oque deu azo a distenções entre colonos católicos (poloneses) e protestantes (alemães). Oque forçou a intervenção de força pública e transferencia dos poloneses para outra área. Desses, conta-se que mil foram repatriados para a Prússia, 738 faleceram, e apenas 160 permaneceram na região.


8. A Colônia de Una (Itacará-BA, 1927)

O governo da Bahia se predispois abrigar 22 famílias "russo"-alemães do Volga (comunidades alemães assentadas na margem do rio Volga ao tempo de Catarina, na Rússia), acossados pelo comunismo soviético. Segundo os pressupostos de sua Lei de Imigração e Colonização, esses imigrantes deveriam ser assentadas na preparada Colônia de Itaracá em Una, criada desde o ano de 1927, pelo governador Góis Calmon.

A colônia de Una tornou-se a última tentativa de assentar colonos alemães na região do cacau na Bahia. Esse empreendimento transcorreu como os anteriores do século XIX: doenças diversas, e epidemia, fez enorme número de vítimas e os sobreviventes migram quase todos em pouco tempo para outras colonias alemães em  Santa Catarina.


O Legado da Imigração Suíço-Alemã

A colonização do sul da Bahia mediante a imigração alemã, foi um empreendimento pioneiro, antecedendo em pelo menos seis anos ao sul do Braʃil, no intuito de substituição da mão de obra escrava por braços livres. Oque redundou nesse sentido, em um fracasso. Mas, não fracassaram os esforços materiais para a provincia da Bahia. Com a imigração alemã, houve um incremento nas lavouras de café e fumo, introduzindo de forma pioneira a cultura do Cacau no sul bahiano. A provincia da Bahia passou a figurar atrás do eixo Rio-Minas-São Paulo na quarta maior exportadora de café do país. E com a abolição, as provincias que utilizavam a mão de obra escrava, entraram em uma profunda decadência, caso do Maranhão, que durante o Império foi uma das mais ricas províncias do Braʃil. A Bahia teria tido o mesmo destino, ainda que parcialmente também foi vítima, não fosse a cultura caucaueira, em alta, que manteve a arrecadação de suas finanças . Os imigrantes alemães não só converteram o sul da Bahia como um polo agro-exportador, como deram inicio a uma incipiente industria agro-industrial, manufaturando de forma pioneira as folhas de fumo. O cultivo do fumo, era pouco valorado tido como uma cultura de segunda ordem, legado a pequena agricultura, e os pequenos agricultores alemães a cultivaram em suas pequenas glebas, elevando como parte do que virá ser um importante produto para exportação.

Mesmo com o malogro das colonias com finalidade da implementação de braços-livres, o fluxo de imigrantes alemães continuou, ainda que em menor escala. Registros avulsos, contabilizam,  entre 1856-64, a entrada de 299 imigrantes alemães na Bahia. Esses imigrantes suiço-alemães logo na primeira geração foram assimilados. O Presidente da Provincia  João Maurício Wanderley, em 1855, testemunha que quase todos os fazendeiros da região ou eram brasileiros, ou descendentes dos antigos colonos. O príncipe austríaco Maximiliano, em 1860, de passagem pelo sul da Bahia, diz com frustração que nenhuma das crianças "alemães" falavam a língua de seus pais, que só se comunicavam em português. O antecedente bahiano, e que se repete no sul, mais uma vez corrobora a falácia mentirosa de que a proibição do ensino de línguas estrangeiras, no pequeno interregno de 38 à 45, e que mal durou sete anos, durante o Estado Novo, "matou" a cultura alemã no sul do Braʃil. A não pervivencia das línguas germânicas no Braʃil, ocorreram determinantemente por seu pequeno vulto ante um corpo nacional, brasileiro, já de longa data sedimentado e amplamente majoritário, conjuntamente, a grande variedade dialetal entre os colonos, aonde o português servia como língua comum, entre colonos de diferentes procedencias. Exceção, de pequenos nucleos que permaneceram em certo isolamento e se casando entre si, uma parcela ínfima entre os proprios imigrantes de origem germânica. 


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quinta-feira, 24 de outubro de 2024

São Rafael Arcanjo - O Anjo da Guarda do Brasil.

"cada paróquia e diocese, cada cidade e país tem seu próprio anjo da guarda particular e poderoso."

Anne Catherine Emmerich


Desencadeada a Revolução de 30, também dita Revolução de Outubro, a três do dito mês, após 21 dias, no dia 24 de outubro a Revolução chegava ao seu fim, com a deposição de Washington Luís, evitando uma sangrenta batalha fratricida que teria se dado entre as duas forças em Itararé.  Por ter findada na data de festejo de São Rafael Arcanjo (24 de outubro), que a tradição já creditava como o anjo guardião do Brasil, São Rafael Arcanjo foi oficializado como o anjo da guarda do Brasil. 

A devoção de São Rafael Arcanjo no Brasil, esta umbilicalmente ligado a Nossa Senhora de Aparecida, posto que na antiga basílica de Aparecida figurava uma imagem do Arcanjo Rafael aos seu pés. Na bíblia, o Arcanjo Rafael, realiza curas através de um peixe, assim foi associado a Nossa Senhora de Aparecida, que surgiu em meio a rede de pescadores.  

Nas comemorações da Revolução de 30, a igreja a celebrava dizendo:

O Brasil, jovem nação, que suportou durante 40 anos um regime constitucional absurdo, eivado do confucionismo doutrinário das éras passadas e de um exótico liberalismo agnóstico, como o filho de Tobias, necessitava de um guia para conduzi-lo na viagem de regresso as suas tradições católicas. Daí a Providencia Divina, permitindo que fosse invocado São Rafael, quando o País, em armas lutava por uma reforma constitucional e regeneração política; consagrando o dia de sua festa litúrgica (24 de Outubro) com o término da luta fratricida, que, havia 21 dias, ensanguentava o território brasileiro.... Foi assim São Rafael, mais uma vez o portador da alegria – Ele que saudou a Tobias dizendo “Gaudium sit tibi semper” – alegria seja sempre contigo. E podemos afirmar que nunca o Brasil vibrou tanto de alegria tão explosiva, como naquele memorável 24 de Outubro de 1930.

É mister que o Brasil nunca se esqueça de tamanha proteção, em tão singular acontecimento, e que cultue São Rafael como seu Anjo da Guarda. Se hoje os brasileiros regem-se por um Constituição que reconhece e acata os Direitos de Deus e de sua Santa Igreja, podemos afirmar que não pode ser senão graças à proteção de São Rafael, invocado de norte a sul do País, por mais de 300 mil fiéis. 

Aos pés do trono de Nossa Senhora Aparecida, Rainha do Brasil, assiste o Arcanjo São Rafael, como primeiro Ministro do seu abençoado Reino!


São Rafael Arcanjo

O nome Rafael significa "Cura de Deus" ou, também, "Curador divino". É considerado o chefe dos anjos da guarda. Também invocado como o anjo da Providência, que está sempre velando por toda a humanidade. Na missão de São Rafael Arcanjo, está inclusa a cura das feridas da alma e do corpo. Também é um dos sete espíritos que assistem mais próximos de Deus. O Arcanjo Rafael é o terceiro mencionado na Bíblia, no livro de Tobias, velho testamento.

O Arcanjo Rafael é o guia e o defensor do jovem Tobias, enviado por Deus para ajudá-lo na tarefa que lhe foi confiada por seu pai, que se tornou cego, e o envia para receber um crédito que ele havia deixado em uma cidade na Média, na antiga Pérsia. No caminho, Arcanjo Rafael consegue um feliz casamento para Tobias com a jovem Sara, a cura dos sofrimentos causados por forças demoníacas e cura também Tobit, o pai de Tobias, da cegueira. Somente no final de sua missão, antes de retornar para o céu, ele se revela, declarando-se “um dos sete espíritos que estão sempre prontos para entrar na presença da majestade do Senhor” e se encarregando de escrever o que aconteceu.

Sendo um personagem de um Livro da Bíblia não reconhecido pelos protestantes, Arcanjo Rafael não é reconhecido pela maioria das confissões evangélicas. 

No Novo Testamento, quando Jesus cura um paralítico que tentava tocar a água do tanque de Betesda. Embora não seja mencionado o nome do anjo, se intelege ser o Arcanjo Rafael, que vez em quando descia no tanque e agitava a água, afim de curar qualquer doença ao primeiro que mergulha-se em seguida ao movimento das águas (João 5,4). 

Essa identificação permaneceu no culto, tanto que o trecho da cura do cego era lido nas missas dedicadas ao santo.

Posteriormente, o hábito de celebrar a festa litúrgica em 24 de outubro foi consolidado, e aceita pelo Papa Bento XV, que estendeu a festa de São Rafael a toda a Igreja Católica.

Particularmente devotado ao arcanjo Rafael era São João de Deus, a quem o anjo teria aparecido, garantindo-lhe proteção em sua obra de cuidar dos doentes e dos pobres; essa devoção continuou na ordem que ele fundou, os Irmãos Hospitalários.

Em consequência da influência de Arcanjo Rafael no catolicismo e dos hospitais católicos, inúmeros hospitais são dedicados a Rafael.


O Catecismo Católico Sobre os Anjos

§ 336 Desde o início até a morte, a vida humana é cercada por sua proteção e por sua intercessão. "Cada fiel é ladeado por um anjo como protetor e pastor para conduzi-lo à vida." Ainda aqui na terra, a vida cristã participa na fé da sociedade bem-aventurada dos anjos e dos homens, unidos em Deus.

Imagens nas artes

§ 1192 As santas imagens, presentes em nossas igrejas e em nossas casas, destinam-se a despertar e a alimentar nossa fé no mistério de Cristo. Por meio do ícone de Cristo e de suas obras salvíficas, é a ele que adoramos. Mediante as santas imagens da santa mãe de Deus, dos anjos e dos santos, veneramos as pessoas nelas representadas.

§ 2131 Foi fundamentando-se no mistério do Verbo encarnado que (sétimo Concílio ecumênico, em Nicéia (em 787), justificou, contra os iconoclastas, o culto dos ícones: os de Cristo, mas também os da Mãe de Deus, dos anjos e de todos os santos. Ao se encarnar, o Filho de Deus inaugurou uma nova "economia" das imagens.

§ 2502 A arte sacra é verdadeira e bela quando corresponde, por sua forma, à sua vocação própria: evocar e glorificar, na fé e na adoração, o Mistério transcendente de Deus, beleza excelsa invisível de verdade e amor, revelada em Cristo, "resplendor de sua glória, expressão de seu Ser" (Hb 1,3), em quem "habita corporalmente toda a plenitude da divindade" (Cl 2,9), beleza espiritual refletida na Santíssima Virgem Maria, Mãe de Deus, nos anjos santos. A arte sacra verdadeira leva o homem à adoração, à oração e ao amor de Deus Criador e Salvador, Santo e Santificador.

Identidade e encargos

§ 329 Santo Agostinho diz a respeito deles: "Angelus officii nomen est, non naturae. Quaeris nomen huius naturae, spiritus est; quaeris officium, angelus est; quaeris officium, angelus est, ex eo quod est, spiritus est, ex eo quod agit, angelus - Anjo (mensageiro) é designação de encargo, não de natureza. Se perguntares pela designação da natureza, é um espírito; se perguntares pelo encargo, é um anjo: é espírito por aquilo que é, é anjo por aquilo que faz". Por todo o seu ser, os anjos são servidores e mensageiros de Deus. Porque contemplam "constantemente a face de meu Pai que está nos céus" (Mt 18,10), são "poderosos executores de sua palavra, obedientes ao som de sua palavra" (Sl 103,20).

§ 332 Eles aí estão, desde a criação e ao longo de toda a História da Salvação, anunciando de longe ou de perto esta salvação e servindo ao desígnio divino de sua realização: fecham o paraíso terrestre, protegem Lot, salvam Agar e seu filho, seguram a mão de Abraão, comunicam a lei por seu ministério, conduzem o povo de Deus, anunciam nascimentos e vocações, assistem os profetas, para citarmos apenas alguns exemplos. Finalmente, é o anjo Gabriel que anuncia o nascimento do Precursor e o do próprio Jesus.

§ 333 Desde a Encarnação até a Ascensão, a vida do Verbo Encarnado é cercada da adoração e do serviço dos anjos. Quando Deus "introduziu o Primogênito no mundo, disse: - Adorem-no todos os anjos de Deus- " (Hb 1,6). O canto de louvor deles ao nascimento de Cristo não cessou de ressoar no louvor da Igreja: "Glória a Deus..." (Lc 2,14). Protegem a infância de Jesus, servem a Jesus no deserto, reconfortam-no na agonia, embora tivesse podido ser salvo por eles da mão dos inimigos, como outrora fora Israel. São ainda os anjos que "evangelizam", anunciando a Boa Nova da Encarnação e da Ressurreição de Cristo. Estarão presentes no retorno de Cristo, que eles anunciam serviço do juízo que o próprio Cristo pronunciará.

§ 334 Do mesmo modo, a vida da Igreja se beneficia da ajuda misteriosa e poderosa dos anjos.

§ 335 Em sua Liturgia, a Igreja se associa aos anjos para adora o Deus três vezes Santo; ela invoca a sua assistência (assim em In Paradisum deducant te Angeli... - Para o Paraíso te levem os anjos, da Liturgia dos defuntos, ou ainda no "hino querubínico" da Liturgia bizantina). Além disso, festeja mais particularmente a memória de certos anjos (São Miguel, São Gabriel, São Rafael, os anjos da guarda).

§ 336 Desde o início até a morte, a vida humana é cercada por sua proteção e por sua intercessão. "Cada fiel é ladeado por um anjo como protetor e pastor para conduzi-lo à vida." Ainda aqui na terra, a vida cristã participa na fé da sociedade bem-aventurada dos anjos e dos homens, unidos em Deus.

§ 350 Os anjos são criaturas espirituais que glorificam a Deus sem cessar e servem a seus desígnios salvíficos em relação às demais criaturas: "Ad omnia bona nostra cooperantur angeli. - Os anjos cooperam para todos os nossos bens"

§ 351 Os anjos cercam Cristo, seu Senhor. Servem-no particularmente, no cumprimento de sua missão salvífica para com os homens.

§ 352 A Igreja venera os anjos que a ajudam em sua peregrinação terrestre e protegem cada ser humano

§ 1034 Jesus fala muitas vezes da "Geena", do "fogo que não se apaga", reservado aos que recusam até o fim de sua vida crer e converter-se, e no qual se pode perder ao mesmo tempo a alma e o corpo. Jesus anuncia em termos graves que "enviar seus anjos, e eles erradicarão de seu Reino todos os escândalos e os que praticam a iniquidade, e os lançarão na fornalha ardente" (Mt 13,41-42), e que pronunciar a condenação: "Afastai-vos de mim malditos, para o fogo eterno!" (Mt 25,41).

Na anáfora

§ 1352 A anáfora. Com a Oração Eucarística, oração de ação de graças e de consagração, chegamos ao coração e ao ápice da celebração. No prefácio, a Igreja rende graças ao Pai, por Cristo, no Espírito Santo, por todas as suas obras, pela criação, a redenção, a santificação. Toda a comunidade junta-se então a este louvor incessante que a Igreja celeste, os anjos e todos os santos cantam ao Deus três vezes santo.

Nas aparições de Fátima o Santo Anjo da Guarda de Portugal apareceu aos pastores e deu diversas instruções, entre elas, ensinou duas orações para serem rezadas em reparação pelos fiéis no mundo todo, são elas:

“Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que não creem, não adoram, não esperam e não Vos amam. Amém”

“Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores”.

São Tomás de Aquino em sua obra Suma Teológica diz que os anjos são espíritos puros, criados por Deus, imortais e dotados de inteligência e vontade. Na mesma obra sistematiza uma hierarquia angélica, segundo o qual:

Todo o Coro Angélico se divide em três hierarquias. A Primeira Hierarquia se divide em três ordens:

1ª Ordem, a dos Serafins (ardor caritativo: imagem do amor divino);

2ª Ordem, a dos Querubins (plenitude de ciência: imagem da sabedoria divina) e a

3ª Ordem, a dos Tronos (assento de Deus: compreendem o juízo divino).

A Segunda Hierarquia se divide em três ordens:

1ª Ordem, Dominação (governo dos próprios anjos: domina e distingue o que fazer);

2ª Ordem, Virtude (executa a ordem da dominação com relação à natureza física) e a

3ª Ordem, Potestade (ocupa-se do combate aos anjos caídos).

A Terceira Hierarquia também se divide em três ordens:

1ª Ordem, Principado (guia na execução dos atos e dirigem os destinos das nações);

2ª Ordem, Arcanjo (anuncia importantes missões aos homens e guarda as pessoas que desempenham importantes funções para a glória de Deus, como o Papa, bispos e sacerdotes) e a

3ª Ordem, Anjo (anuncia, comunica e protege individualmente cada homem). 

Esta é a ordem hierárquica dos anjos estabelecida em relação à perfeição da glória e ao que a natureza tem e recebeu na origem de sua criação.


A beata Anne Catherine Emmerich em uma de suas revelações  disse que: "cada paróquia e diocese, cada cidade e país tem seu próprio anjo da guarda particular e poderoso.".

Outro que devotava grande devoção aos anjos era Padre Pio, que desde criança, dizia vê-los. Dizia, aos seus filhos espirituais, que se precisassem: "enviem-me o seu anjo da guarda.". E assim, durante várias horas, de dia ou noite, ouvia as mensagens trazidas por seus respectivos anjos da guarda. Dentre tantos casos relacionados entre Padre Pio e Anjos da Guarda, registra-se um em que: "Um homem contou para Padre Pio: 

- Não posso vir vê-lo freqüentemente. Meu salário não me permite tais viagens longas e caras. 

Ao que respondeu Padre Pio: 

- Quem lhe disse que precisa vir aqui? Você tem seu Anjo da guarda, não o tem? Conte-o o que quer, e o envia a mim, e você terá a resposta!


Querida filha de Jesus:

Que o teu coração sempre seja o templo da Santíssima Trindade, que Jesus aumente em teu espírito o ardor do seu amor e que Ele sempre te sorria como a todas as almas a quem Ele ama. Que Maria Santíssima te sorria durante todos os acontecimentos da tua vida, e abundantemente substitua a mãe terrena que te falta.

Que teu bom anjo da guarda vele sempre sobre ti, que possa ser teu guia no áspero caminho da vida. Que sempre te mantenha na graça de Jesus e te sustente com suas mãos, para que tu não tropeces em nenhuma pedra. Que te proteja sob suas asas de todas as armadilhas do mundo, do demônio e da carne.

Esforça-te, Annita, por ter uma grande devoção a esse anjo tão benéfico. Que consolador é saber que perto de nós há um espírito que, do berço ao túmulo, nunca nos abandona, nem mesmo quando nos atrevemos a pecar! E este espírito celestial nos guia e protege como um amigo, um irmão.

É mais consolador ainda saber que esse anjo ora sem cessar por nós, oferece a Deus todas as nossas boas ações, nossos pensamentos, nossos desejos, se são puros.

Por caridade, não te esqueças desse companheiro invisível, sempre presente, sempre pronto a nos escutar e mais ainda a nos consolar. Ó deliciosa intimidade! Ó feliz companhia! Se soubéssemos pelo menos compreendê-la…!

Mantém sempre [teu anjo] diante dos olhos da alma, recorda-te com frequência da presença desse anjo. Agradece, ora, nutre sempre para com ele uma boa companhia. Abre-te e confia a ele teus sofrimentos. Toma sempre cuidado para não ofenderes a pureza do seu olhar: toma conhecimento e fixa bem esta verdade em tua alma. Ele é muito delicado, muito sensível. Dirige-te a ele em momentos de suprema angústia e experimentarás os seus benéficos efeitos.

Nunca digas que estás sozinha na batalha contra os teus inimigos. Nunca digas que não tens ninguém com quem te possas abrir e confiar. Isso seria uma grande ofensa que se faria a este mensageiro celestial.

No que diz respeito às locuções interiores, não te preocupes, fica tranquila. O que sim deves evitar é prender o teu coração a estas locuções. Não dês muita importância a elas, mostra-te indiferente. Não a desprezes; porém não ames nem desejes tais coisas. Deves sempre responder a estas vozes assim: “Jesus, se sois vós quem me falais, fazei-me ver concretamente os efeitos da tua palavra, ou seja, as santas virtudes em mim.”

Humilha-te diante do Senhor e confia nele. Gasta tuas melhores energias com a graça divina praticando as virtudes, e deixa então que a graça opere em ti conforme a vontade de Deus. São as virtudes que santificam a alma, e não os fenômenos sobrenaturais.

Não te perturbes procurando saber entender quais locuções vêm de Deus. Um dos principais sinais de que estas locuções vêm de Deus é que, tão logo ouvimos estas vozes, nossa alma se enche de temor e perturbação, mas logo em seguida deixam a alma numa paz divina. Por outro lado, quando as locuções interiores provêm do inimigo, no início provocam uma falsa segurança, mas logo em seguida vêm uma perturbação e um mal-estar indescritíveis. Não duvido em absoluto de que Deus seja o autor de tais locuções; mas é preciso que sejas cautelosa, porque muitas vezes o inimigo pode misturar ali coisas que são dele.

Mas isso não te deve assustar: esta é uma provação à qual foram também submetidos os maiores santos e as almas mais iluminadas que, não obstante tudo isso, foram agradáveis ao olhar de Deus.

Deves somente prestar atenção a nunca crer facilmente nestas locuções, e de forma especial quando se trata daquelas que exigem que faças algo ou indicam o modo de agir. E cuida de, ao recebê-las, submeter tudo ao juízo de quem te dirige espiritualmente, obedecendo às suas decisões.

Recebe, portanto, tais locuções com muita cautela e com humilde e constante indiferença. Comporta-te dessa maneira e tudo fará crescer teus méritos diante do Senhor. Põe teu espírito em paz: Jesus te ama e muito. Quanto a ti, procura corresponder a este amor, sempre progredindo em santidade diante de Deus e dos homens.

Faze também orações vocais, pois ainda não chegou a hora de deixá-las e suporta com humildade e paciência as dificuldades que experimentas ao fazer isto. Prontifica-te também a sofrer as distrações e a aridez, mas nunca abandones a oração e a meditação. É obra do Senhor que assim deseja tratar-te para teu proveito espiritual.

Perdoa-me se termino por aqui. Só Deus sabe o muito que me custou escrever esta carta. Estou muito doente; reza bastante para que o Senhor queira logo me livrar deste corpo.

Eu te abençoo, e também à querida Francisca. Desejo que vivais e morrais nos braços de Jesus. 

Frei Pio

 

Padre Pio tinha rezava diariamente ao seu Anjo da Guarda, a seguinte oração:

Anjo de Deus, meu guardião,

a quem a bondade

do Pai Celestial me confia,

Ilumine, proteja e guie-me agora e para sempre.

Amém.


durante a noite  “Oração do Santo Anjo para Antes de Dormir.”:

“Santo anjo da guarda, meu poderoso protetor, guardai-me sempre na paz de vosso amor. 

Dos perigos, livrai-me; do mal, libertai-me; e nos momentos de angústia, consolai-me! Durante o sono, velai sobre o meu descanso, não deixeis o mal de mim se aproximar. 

Sob as asas do seu amor, possa meus sonhos habitar! Nesta noite de luz, afugentai as trevas do medo, afastai também as tentações, para que minha alma tranquila descanse sem aflições. 

E que no alvorecer de um novo dia, eu acorde feliz e restaurado, e seja para o mundo testemunha de ser sempre por vós amado!”




ORAÇÃO AO  ANJO DA GUARDA DO BRASIL 

Santo Anjo do Brasil, vós fostes encarregado pelo Pai Eterno de guardar esta Terra de Santa Cruz e ajudá-la a crescer e desenvolver-se conforme Seus desígnios benevolentes. 
Nós cremos no vosso poder junto de Deus e confiamos na vossa prontidão em socorrer-nos. Sede, pois, nosso guia para que cumpramos convosco a nossa missão no mundo. 
Ajudai a Igreja no Brasil a anunciar Cristo com franqueza e alegria e penetrar toda a sociedade com o fermento do Evangelho. 
Afastai, com a força da Santa Cruz, todos os poderes inimigos que ameaçam os brasileiros. 
Unimos as nossas preces às vossas. Apresentai-as diante do Trono de Deus, para que, unidas ao sacrifício de Jesus, oferecido diariamente em nossos altares, alcancem aquelas graças que mais precisamos nesta hora de combate espiritual. 
E guardai-nos sempre debaixo do manto protetor de Nossa Senhora Aparecida, nossa Mãe e Rainha, para que permaneçamos fiéis no caminho de Jesus, o único que nos conduz da terra ao Céu. Lá na assembleia de todos os povos, unidos como uma só família de Deus, louvaremos e agradeceremos convosco ao Pai Eterno, com seu Filho e Espírito de Amor, por toda eternidade. Amém. 
 04/11/1934, Ação Católica, A Cruz. 

 

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