domingo, 12 de fevereiro de 2023

Da Lupercália ao Entrudo e desse ao Carnaval! - Nesse Festival Celta, os Cães Ladram, a Banda Passa! E Viva o Carnaval!


Approxima-se o carnaval, tríduo da folia, dos divertimentos públicos. E, nesses três dias, aliás gordos, vêem-se coisas desagradáveis....  são tantas, que nem é bom falar nelas... Cumpre a polícia não permitir maxixe junto aos coretos, prática que se vem reproduzindo desde que o carnaval tomou incremento entre nós. Também as fantasias, de se vestirem de homem os gentis do outro sexo, não são muitos louváveis, antes são reprováveis e devem ser prohibidos. As enrolações de serpentina não deixam também de merecer reprovação, além de incomodativas para os enrolados, ofendem a moral pública [...]”.

Esse, é um trecho, de uma crônica do início do Séc. XIX, como essa, há outros bem mais antigos, que datam do Brasil colônia, Séc. XVII, com o mesmo tom de reprovação, em que se registra avisos e alvarás contrários à brincadeira. Contudo, foi a partir de 1820 e, especialmente, de 1830 que passou-se a uma campanha ostensiva contra o Entrudo (oque outrora fora o carnaval) por meio da imprensa, que qualificava o festejo como: “bárbaro”, “grosseiro”, lusitano” e “pagão”. Muito desses ataques, como denunciou Gustavo Barroso (que inclusive relata em suas memórias de meninice, ter tomado parte no bloco carnavalesco dos papangus pelas ruas de Fortaleza), se devia a um ataque velado, da imprensa maçônica, para promover o anti-lusitanismo. 

O Entrudo, sem dúvidas, é uma reminiscência de celebração pagã, que deita raízes nos antigos festejos celtas, a Ambiwolka, com estreita correlação com o Samonios (Magusto em Portugal e Galiza, no Brasil celebrado como “Dia de Todos os Santos”). Quando no hemisfério norte, com a chegada do inverno, as noites se tornam mais longas, as trevas vencem a luz, simbolismo da morte. É uma época de reclusão, mas, ao mesmo tempo, de renovação, de renascimento, de fecundação.  Na mitologia Celta, é o momento em que a Deusa Morrighan, tida como dentre outros epítetos, a Deusa da Morte, se recolhe ao submundo com Dagda, Deus da Abundância, da fertilidade, em um enlace amoroso. 

E daí resulta essa ambiguidade, tão característico do Carnaval, do mundo celta, de inversão dos contrários, da subversão.... pois que diante da morte, surge a vida! O ciclo da vida gira, se renova. A vida triunfa sobre a morte! Da tristeza à alegria, do sagrado e do profano. E por assim, nessa época, os homens se vestem com roupas femininas, e vice-versa, em tom satírico e jocoso. As figuras públicas, de autoridade, são satirizadas, eleva-se a “Rei” um ladrão, quando não, um animal ao posto da: autoridade, alvo do deboche! 

Lupercalia
Na antiga Lusitania, pré-romana, celta, e seu norte: a Gallaecia, como em boa medida, em todo o mundo indo-europeu. A ambiwolka, era celebrada como um rito de passagem para a puberdade, e de fertilidade pelas frátrias guerreiras. Em Roma, com a Lupercalia, celebrada em meados de fevereiro. Quando sacerdotes, os Luperci, após ritos sacrificais, se vestiam em trajes dos bodes sacrificados e saiam pelas ruas chicoteando as  mulheres, que se deixavam, prenúncio da bem aventurada concepção.

Entre os gregos havia, a Lykaia, que ocorria no monte Lykan, em que jovens realizavam um rito de passagem para a puberdade, que consistia no cometimento de uma profanação, comer carne humana. Um dentre eles era sacrificado e sua carne misturada a outras de animais sacrificados, quem comesse a carne humana, se tornaria lobo ao longo de 9 anos, só se tornando humano se ao longo desse tempo, não volta-se a comer carne humana. Naturalmente, assim, os iniciados não sabiam quem e se eles próprios haviam ingerido e por assim cometido a profanação. Pesando sobre todos a dúvida. Eis a origem, do que se supõe ser a origem do lobisomem, tão difundido na Europa e nos rincões do Brasil. 

A Lykaia, é um rito com características, mais arcaica, do que a Lupercalia, e se deduz, mais próxima das fratrias guerreiras celtas, pródigas em adereços ligados a homens-lobos, bem como a outras sociedades mais arcaicas como a germânica com seus berserks, Na Galiza e Portugal, havia os “kórios” formados por jovens que se paramentavam com peles de lobos, se exilando em locais remotos, vivendo uma vida silvestre a margem da civilização. A essas frátrias, na Lusitania antiga, Estrabão os chamam de Iuventus lusitani.

"kório", frátria guerreira, formada por jovens lusitanos. Desse étimo, deriva "coronel".

Durante a propagação do cristianismo na Europa, houve o sincretismo entre várias celebrações pagãs e cristãs. Em Roma, as celebrações da Lupercalia, foi cristianizada pelo papa Gelasio I, como dia de São Valentim, santificado por celebrar casamentos entre cristãos, quando o cristianismo era proibido, e por isso, martirizado. Isso, no ano de 496, em 14 de fevereiro, consagrado como dia dos namorados .

Com o Entrudo, não foi diferente. As procissões, círios e romarias, em quase todas, guardaram antigos elementos de ritos pagãos. A procissão mais popular em Portugal foi a de Corpus Christ. Durante a procissão, cada ofício era responsável pela preparação de um bloco, abordando um tema diferente, a semelhança das alas das escolas de samba brasileiras. De ressaltar, ainda, o caráter religioso e profano do cortejo. Oque aponta fortes indícios da continuidade de uma antiga forma de religião, uma herança pagã, mal ocultada por trás da aparência de fé católica.

Com a incorporação ao calendário cristão, a festa recebeu uma data fixa e passou a ser comemorada entre o domingo e a terça-feira anteriores ao início da Quaresma. À sua acepção primeira de entrada ou começo, portanto introitos, acrescentou-se outra, a de despedida da carne e de início do período quaresmal, tempo de sacrifícios e de abstinências.

Os festejos carnavalescos, que compartilham elementos caracterizados por seu espírito burlesco, cômico, grotesco, lúdico, satírico, de excesso eram bastante difundidos pela Europa, desde longa data. Porém, em Portugal, diferia-se. Em Portugal, os três dias que antecediam a Quaresma eram comemorados com: “molhadelas de diversos graus: imersão nos rios, nos chafarizes, projeções de água com cuias, copos e esguichos...”; como também, jogar água suja e farinha nos transeuntes. Nos festejos de entrudo entre fins do Séc. XVIII e XIX em Lisboa, relatam ainda serem comuns o uso de ovos, pós de goma e uma variedade de instrumentos para jogar: cabacinhas de cera com água, tubos de vidro, papelinhos, laranjas, luva de areia “destinada a cair de chofre”, barro, fogareiros e tachos. Diversões taxadas pelos cronistas de época, como pouco civilizadas e grosseiras.  

Em tempos mais recentes, se registra, em algumas localidades, no folclore de Portugal e Galiza, ainda existentes, folguedos chamados “os caretas” (por usarem máscaras do período do Magusto, aproveitadas das luminárias) que durante o entrudo ou entruido / andruido (em Galiza) saiam pelas estradas e vilas rurais chicoteando mulheres, sobretudo, as casadas sem filhos, com tiras de porco. Reminiscências de um período mais arcaico?

O Entrudo no Brasil:

O Entrudo se registra no Brasil desde o primeiro século de colonização, sendo uma das mais antigas tradições brasileiras, festejado em todo o Brasil! Como em Portugal, ocorria três dias antes da Quaresma, período de abstinência, jejum, e penitência, em quarentena para a Páscoa. E, por isso, chamado entrudo, derivado do latim introito, também dito "dias gordos", pela abundancia de vinho, carne e sexo. As brincadeiras, consistiam, em atirar água uns nos outros, se valendo de jarras, vasilhas seringas, bisnagas, etc... 

Dois meses antes, começava a fabricação de limas, laranjas ou limões de cheiro, feitos de cera, com loções perfumadas, usadas nas “guerras" do Entrudo. Outros, mais satíricos, jogavam lama, frutas podres e urina. Em grande parte, eram as mulheres que mais ativamente participavam dos preparativos, fabricando os limões usados nas brincadeiras, enquanto os homens eram os protagonistas nas ruas. A licenciosidade da festividade permitia um relaxamento das barreiras sociais, propiciando um maior contato entre homens e mulheres. Os "amores de carnavais", tidos, na atualidade, como algo passageiro, não era uma realidade naquele período. Os enlaces amorosos do período resultavam quase sempre em relações duradouras que não raro, alguns meses depois, terminavam em casamento.... nas festas juninas, de santos casamenteiros. O ciclo da vida gira!

As famílias normalmente brincavam em espaço privado, nos recintos de suas casas, ou em local previamente escolhido, e na recepção dos convidados, sempre os recebiam com grandes banquetes. As ruas e praças eram palco das classes mais baixas, como os homens livres pobres e os escravos, que aproveitavam o período para vender doces aos foliões. O entrudo também se notabilizava pelos "trotes" entre parentes e os mais achegados.

Entrudo em um ambiente familiar, Rio de Janeiro, 1822.

A partir de 1830, ocorre uma progressiva tentativa de controle do entrudo e das suas práticas, consideradas pelas classes mais abastadas, um festejo grosseiro e incivilizado. Três foram os fatores determinantes para isso: a vinda da família real para o Brasil, a independência, e uma campanha anti-lusitana orquestrada pela imprensa maçônica. A transferência da corte para o Brasil, trouxe consigo, uma colonização cultural de em tudo olhar como espelho a França, exemplo de civilização. O fenômeno já ocorria na periferia da Europa, que acometia Portugal, e se acentua com a transferência da corte para o Brasil. Foi nesse período que o português de Portugal, sofreu severas modificações que o caracterizam hodiernamente. Costumes, vestuários, arquitetura, com a destruição de todo um conjunto arquitetônico colonial no Rio de Janeiro, substituído por uma pobre arquitetura neoclássica, descontínua ainda por cima, sofreram também grandes impactos. A vinda da missão artística francesa nesse período é sintomático! O entrudo foi uma das vítimas dessa alienação cultural que se operou no período. A independência do Brasil, também corroborou para acentuar um anti-lusitanismo que foi explorado pela imprensa maçônica, que foi a maior responsável pelo ataque sistemático ao festejo. Poder-se-i-a citar, como registro, as críticas da igreja, mas dessa sempre houve, sem que nunca tenha influído no seu fim, antes o incorporou ao seu calendário, balizando e contendo excessos.

A Latinização do Entrudo, Surge o Carnaval!

O desejo de modernização Idealizado como festejo “civilizado e civilizador”, chamado por cronistas e jornalistas da época de “Carnaval Veneziano” e orientando-se pelos festejos ocorridos na Europa, o carnaval brasileiro seria dotado de uma imagem de sofisticação e luxo. Desde anos 1850, comemorou-se a “morte do entrudo”, embora ele tenha persistido. Centenas de limões de cheiro continuavam a ser jogados pelas pessoas pelas ruas no período, e quando acabavam as provisões recorria-se a “água pura em abundância”, atestando que “o velho, grosseiro e selvagem entrudo” agonizava, “condenado pela civilização”, mas, teimava em não morrer. 

Nesse momento começava uma disputa entre duas concepções distintas ao redor do carnaval. Por um lado, uma concepção relacionada a uma tradição não desejável, ligada “à rudeza dos costumes portugueses dos tempos coloniais”. Por outro lado, uma concepção com vistas à busca de uma nova tradição, buscada fora, que deveria recorrer “a um carnaval mítico de linhagem europeia mais nobre e cultivada”.

Foi nesse hiato que surge os zé-pereiras, pelo sapateiro português , radicado no Rio de Janeiro, que em 1846 saiu pelas ruas tocando bumbo. Retomando a tradição do cortejo, acompanhado por banda, ou ao menos naquele momento, por percussão. 

Ocorre uma curiosa tendência marcial nas manifestações do festejo, tanto nos desfiles com suas divisões em álas, quanto na música. As marchinhas carnavalescas, é atribuído, sua origem, na Polca, porém, não se trata de uma cópia, e sim de uma influencia, que se traduz em algo novo, e com um tom marcial, completamente inexistente na Polca. De igual modo, surge o Frevo, ou ao menos apresenta esse mesmo caráter. A esse respeito, é interessante mencionar oque se passou na Guerra do Paraguai, na véspera preeminente a batalha de Tuiuti, uma das mais decisivas da guerra. Uma banda paraguaia se apresentou em campo de batalha como meio de elevar o moral das tropas paraguaias. Um oficial brasileiro, diante da situação, se reporta a sua tropa, composta em sua maioria por caboclos pernambucanos, não mulatos, que se continuasse assim, os paraguaios venceriam. E assim, se apresenta a banda brasileira tocando um frevo tão vibrante que silencia os paraguaios. Estava garantida a vitória!

E foi assim que em meados do século XIX e início do XX, emergiram as formas predominantes dos desfiles dos préstitos, os bailes à fantasia, com as figuras do arlequim, do pierrot e da colombina, advindos da commedia dell'arte do carnaval veneziano, a introdução dos confetes e serpentinas, e os corsos. No final dessa fase vemos surgir além dos zé-pereiras, os cucumbis, os cordões e os ranchos. Em meio a isso, a  persistência em continuar a se brincar com o entrudo, sinalizava o descompasso entre os projetos políticos de uma elite alienada, e as práticas cotidianas tradicionais do povo, plasmada em sua linhagem ancestral. 

As críticas que, todos os anos, se operam contra o Carnaval, ecoam sempre da boca de alienados, que querem matar o Brasil, que odeiam os brasileiros, espelhando suas frustrações nos outros. Mais feliz foi Don Helder Câmara, ao dizer:  “Carnaval é a alegria popular. Direi mesmo, uma das raras alegrias que ainda sobram para a minha gente querida. Peca-se muito no carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se excessos, aqui e ali, cometidos por foliões, ou farisaísmo e falta de caridade por parte de quem se julga melhor e mais santo por não brincar o carnaval. Brinque, meu povo querido! Minha gente queridíssima. É verdade que na quarta-feira a luta recomeça, mas ao menos se pôs um pouco de sonho na realidade dura da vida!”. Guardemos suas palavras!
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