domingo, 19 de março de 2023

O Gripen F-39 da Força Aérea Brasileira e Sua Capacidade de Combate


Após mais de oito anos de atraso, frutos de uma proposital política de sucateamento das Forças Armadas pelo des-governo Temer/Bolsonaro (tal como feito contra as Forças Armadas da Argentina) foram incorporados, ano passado, dia 22 de abril, os primeiros dois gripens operacionais pela Força Aérea Brasileira – FAB

Os gripens F-39E, tal como foi taxomizado pela FAB, é resultado de uma parceria EMBRAER-SAAB. E ao contrário do que possa parecer, não se trata de uma simples atualização do JAS-39 C/D operado pela Força Aérea Real Sueca, mas, uma nova aeronave, mais moderna e muito mais capaz do que sua antecessora. 

Comparado ao Gripen C, o Gripen E é cerca de 3% maior (é mais longo - 15,2 m - e tem maior envergadura - 8,6 m), mais pesado (o peso máximo de decolagem é de 16.500 kg), o trem de pouso principal  foi realocado, permitindo 40% a mais de combustível, proporcionando um alcance máximo de cerca de 4.000 km e um alcance operacional de mais de 1.300 km, contra 800 Km da versão C/D. A nova turbina F414 produz 25% a mais de empuxo (atingindo Mach 2 em altitude elevada e cerca de 1.400 km/h em níveis baixos), enquanto o interior da aeronave é praticamente novo. Ele é construído em um princípio de guerra eletrônica semelhante ao F-35, mas com a diferença de que tudo é facilmente substituível e atualizável.

O Gripen E também pode transportar uma carga útil maior devido aos seus dez hangers, possui um novo radar AESA, tem a capacidade de conduzir guerra eletrônica avançada com cobertura esférica (sistemas de autodefesa como alerta de interceptação de radar, alerta de míssil, jammer, contramedidas ativas; mas também capacidades ofensivas nesta área, úteis não apenas para combater defesas aéreas adversárias), possui HMC (Human-Machine Collaboration) intuitivo com inteligência artificial e vários sensores passivos que aumentam significativamente a consciência situacional do piloto. É uma aeronave repleta de tecnologia de ponta e, em aspectos básicos, pode-se dizer que não fica muito atrás do F-35A e, de certa forma, o supera. Ao contrário do F-35, o Gripen carece de integração de armas nucleares. E difere de seus concorrentes estadunidenses na forma como aborda a questão da furtividade. 

O Gripen E carrega seis mísseis ar-ar em configuração padrão, a mesma do F-35A, mas sua grande vantagem é a integração do míssil Meteor, considerado significativamente melhor que o AIM-120D usado pelo F -35. O Gripen também tem a vantagem de poder pousar em pistas improvisadas, incluindo estradas de tráfego normal, enquanto o F-35A precisa de aeródromos com parâmetros bastante mais exigentes para operar.

Em seguida, compartilha com seu antecessor a durabilidade e a operacionalidade confiável em condições climáticas difíceis e a capacidade de operar em pistas improvisadas, como estradas. Significativamente, não apenas dentro da doutrina sueca de implantação supersônica, ela fortaleceu a independência do GPS e a resistência ao bloqueio do GPS por meio de uma capacidade de navegação aprimorada que usa monitoramento de perfil de altura do terreno e comparação com um banco de dados, odometria (rastreamento de dados de movimento para estimar mudanças em posição ao longo do tempo) e comparação de imagens de sensores ópticos com um banco de dados armazenado.

Os mísseis ar-ar no Gripen E, incluem o míssil guiado por infravermelho IRIS-T de curto alcance e o já mencionado míssil Meteor, que possui um alcance além da visibilidade (BVRAAM). A aeronave também pode, é claro, continuar equipada com mísseis Sidewinder ou AMRAAM. Também pode ser equipado com outras armas de longo alcance (R-Darter e Derby) e de curto alcance (ASRAAM e Python). As capacidades anti-superfície da máquina também são aprimoradas na forma de munições multifuncionais inteligentes, capacidade de direcionamento para qualquer clima e uma rede de aeronaves implantadas com a capacidade de alterar alvos, verificar acertos e avaliar danos de batalha.

A ampla variação de tipos e procedência das armas transportadas, disponível sem a necessidade de projetos de integração, é outra vantagem da aeronave, que assim oferece grande flexibilidade ao seu usuário e reduz a dependência do sistema de fornecedores. 

Italianos e britânicos estão integrando mísseis de alto desempenho Meteor e Spear em seus F-35s, mas é um projeto demorado e custoso envolvendo o fabricante de aeronaves Lockheed Martin e BAE Systems e MBDA.

Uma característica única do Gripen E que o leva um passo além de todos os outros caças atuais é o seu aviônico. Em particular, possui aviônicos modulares com uma arquitetura desacoplada. Isso significa que qualquer hardware ou software opera separadamente. O hardware pode ser substituído independentemente do software e vice-versa, sem afetar os sistemas de voo críticos. As versões beta do software de avaliação podem ser executadas dentro do sistema sem nenhum risco. Assim como no Gripen C, o fabricante adere ao conceito de ciclos curtos de atualização - a revolucionária arquitetura aviônica suporta um crescimento suave na capacidade de manter a superioridade tecnológica e se adaptar perfeitamente às novas necessidades operacionais.

Quanto à capacidade furtiva do F-35 e a comparação com o Gripen E, este último não é baseado em tecnologia furtiva. No entanto, possui um RCS (Radar Cross-Section) menor do que qualquer outro caça operacional, exceto o F-35 e o F-22. Graças às tecnologias de guerra eletrônica (EW-suite) acima mencionadas usando GaN (nitreto de gálio), pode-se argumentar que o Gripen E definitivamente não é um alvo fácil detectável.

“Com nosso conjunto de guerra eletrônica de última geração, superamos a furtividade. Os radares avançados do Gripen E podem detectar os alvos que são dez vezes menores do que o normal. Os sensores passivos garantem que a posição da aeronave não seja comprometida. Juntamente com o conjunto EW integrado, o Gripen pode ser integrado a jammers e mísseis chamariz para missões mais exigentes. Com uma proteção de 360 ​​graus de classe mundial, o Gripen E oferece à IAF uma alternativa superior à furtividade” - Mats Palmberg.

Os requisitos de manutenção do F-35 ainda são muito altos para um caça monomotor e a taxa de tempo de atividade é relativamente baixa, enquanto o Gripen é altamente tido entre os caças ocidentais por sua incomparável facilidade de manutenção. Comparado a um número equivalente de F-35As (24 aeronaves em nossas condições futuras, ou seja, dois esquadrões), mais Gripens podem ser mantidos prontos para o combate do que os F-35As mais exigentes (que provavelmente se equilibrarão até certo ponto com o tempo).

Gripen F-39E da Força Aérea Brasileira

Tanto o Gripen E/F quanto o F-35A têm muito em comum. São projetados pensando em baixos custos de produção e operação em comparação com outras aeronaves de sua geração (o que ainda não está confirmado para o F-35, dada a falta de uma comparação confiável). Ao mesmo tempo, ambas as máquinas têm, à primeira vista, desempenhos de voo não muito significativos em sua categoria (por exemplo, no que diz respeito à velocidade máxima, é Mach 1,6 para o F-35, enquanto o Gripen E atinge Mach 2. Ambas as velocidades são inferiores aos do bimotor F-15, Su-27, mas também do monomotor Mirage 2000). No entanto, esse fato é mais do que compensado pela aviônica avançada e pela capacidade de operar contra o inimigo além do alcance visual (no caso do F-35, o fato de o armamento ser fechado em poços e a aeronave atingir sua velocidade máxima totalmente armado). 

O F-22 é o único caça estadunidense operacional que pode dar ao Gripen algum problema substancial, quanto ao Typhoon e Rafale, são caças bastante similares, mas a capacidade de guerra eletrônica do Gripen é superior, oque lhe dar vantagem. Os exercícios internacionais mostram uma imagem bastante clara da superioridade do gripen sobre as outras aeronaves. 

Red Flag 2006: Gripen VS Typhon / Eurofither e F-16 Block 50:

Na Red Flag 2006, ocorrido no Alaska. O Gripen versão C/D abateu dez caças dentre os quais 1 Typhon/eurofighter, um único gripen C/D abateu cinco F-16 Block 50. Nenhum gripen C/D foi abatido. Também foi o único caça que realizou todas as operações, a revelia das condições meteorológicas, enquanto outras aeronaves ficaram em solo esperando melhores condições. 15/1 ou seja, a cada 16 embates, o gripen abateria 15 F-16. 

Exercícios da Força Aérea Real Norueguesa: Gripen VS F-16

Durante um exercício de combate com a Força Aérea Real Norueguesa, 3 gripens C/D suecos enfrentaram 5 F-16 noruegueses. Em três combates, os Gripens venceram todos os três, por: 5 X 0; 5 X 0; e 5 X 1. 

Exercícios entre a Força Aérea Suéca e Filandesa: Gripen VS F-18

Em exercícios de combates BVR, entre a Força Aérea Suéca e a Finlandesa, envolvendo caças F-18 finlandeses, e os gripens C/D da Suécia: 10 X 1. 

Gripen VS F-15

No exercício de combate entre gripen C/D e o F-15, na  Leal Arrow na Suécia. Três F-15 dos EUA, foram interceptados por um único gripen, sendo dois abatidos e um F-15 conseguindo se evadir. 

Gripen VS J-11A e SU-27

No exercício Falcon Strike 2015, gripens C/D da Força Aérea Real Tailandesa – RTAF, contra os J-11A (versão chinesa do SU-27SK Flanker) da Força Aérea do Exército de Libertação Popular - PLAAF, em combates além do alcance visual (BVR), abateram 41 Su-27, em um período de quatro dias, contra apenas nove gripens. Em combates dentro do alcance visual, a vantagem foi dos flankers , com 25 gripens abatidos contra apenas um Su-27. Nesse embate a curta distância, os gripens tailandeses usaram misseis AIM-9L Sidewinder da geração mais antiga, ao invés do Diehl IRIS-T de última geração usados pelos suecos. 

O Gripen no Red Flag Alaska 2006 mostrou o quão superior pode ser mesmo com uma mínima logística. O Gripen, a época, não tinha capacidade de reabastecimento aéreo, por isso foi um feito ir da Suécia ao Alasca e permanecer operacional em um grau muito alto. 

Em todos esses embates, perceba, ocorreram em operações envolvendo a versão C/D, que é bem inferior a ao atual Gripen E. 

Ainda Mais Manobrável e Mais Estável em Baixa Velocidade:

Foi, recentemente, tornado público uma alteração na asa do Gripen, o elevon (junção do inglês: aileron e elevator) pela SAAB. A alteração se encontrava em testes desde 2021 em um protótipo, alcançando bons resultados. Tornando o caça mais estável em voos em baixa velocidade, e mais manobrável. A maior área do elevon também possibilitará decolagens e pousos em pistas mais curtas, mais ainda! O Gripen é capaz de decolar em pistas de apenas 500 à 800 m, uma marca impressionante que poderá ser melhorada, ainda mais! A guisa de comparação o F-5 Northrop, operado pela FAB, necessita de pistas de 1.128m para pousar, e de 884 m para decolar, sem carga! (Há menções da necessidade, de pistas ainda mais extensas, superiores a 1.600 m para pousos). 

A melhoria também possibilitará o aumento na capacidade de transporte de cargas mais pesadas, como armamentos e tanques de combustível. Oque implica em um maior raio de combate e traslado, e como dito de armamento. O Atual raio de combate do Gripen é de 1.300 Km, e 4.000 de traslado. A SAAB não informou o quanto melhorará essa performance. A alteração será inclusa em todos os caças a serem produzidos data venia, tanto na Suécia como pelo Brasil, incluso caças anteriores. 

A esquerda protótipo com o elevon alterado, a direita concepção original do elevon.





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12. O Falso Desenvolvimentismo do Governo JK e Militar de 64




domingo, 12 de fevereiro de 2023

Da Lupercália ao Entrudo e desse ao Carnaval! - Nesse Festival Celta, os Cães Ladram, a Banda Passa! E Viva o Carnaval!


Approxima-se o carnaval, tríduo da folia, dos divertimentos públicos. E, nesses três dias, aliás gordos, vêem-se coisas desagradáveis....  são tantas, que nem é bom falar nelas... Cumpre a polícia não permitir maxixe junto aos coretos, prática que se vem reproduzindo desde que o carnaval tomou incremento entre nós. Também as fantasias, de se vestirem de homem os gentis do outro sexo, não são muitos louváveis, antes são reprováveis e devem ser prohibidos. As enrolações de serpentina não deixam também de merecer reprovação, além de incomodativas para os enrolados, ofendem a moral pública [...]”.

Esse, é um trecho, de uma crônica do início do Séc. XIX, como essa, há outros bem mais antigos, que datam do Brasil colônia, Séc. XVII, com o mesmo tom de reprovação, em que se registra avisos e alvarás contrários à brincadeira. Contudo, foi a partir de 1820 e, especialmente, de 1830 que passou-se a uma campanha ostensiva contra o Entrudo (oque outrora fora o carnaval) por meio da imprensa, que qualificava o festejo como: “bárbaro”, “grosseiro”, lusitano” e “pagão”. Muito desses ataques, como denunciou Gustavo Barroso (que inclusive relata em suas memórias de meninice, ter tomado parte no bloco carnavalesco dos papangus pelas ruas de Fortaleza), se devia a um ataque velado, da imprensa maçônica, para promover o anti-lusitanismo. 

O Entrudo, sem dúvidas, é uma reminiscência de celebração pagã, que deita raízes nos antigos festejos celtas, a Ambiwolka, com estreita correlação com o Samonios (Magusto em Portugal e Galiza, no Brasil celebrado como “Dia de Todos os Santos”). Quando no hemisfério norte, com a chegada do inverno, as noites se tornam mais longas, as trevas vencem a luz, simbolismo da morte. É uma época de reclusão, mas, ao mesmo tempo, de renovação, de renascimento, de fecundação.  Na mitologia Celta, é o momento em que a Deusa Morrighan, tida como dentre outros epítetos, a Deusa da Morte, se recolhe ao submundo com Dagda, Deus da Abundância, da fertilidade, em um enlace amoroso. 

E daí resulta essa ambiguidade, tão característico do Carnaval, do mundo celta, de inversão dos contrários, da subversão.... pois que diante da morte, surge a vida! O ciclo da vida gira, se renova. A vida triunfa sobre a morte! Da tristeza à alegria, do sagrado e do profano. E por assim, nessa época, os homens se vestem com roupas femininas, e vice-versa, em tom satírico e jocoso. As figuras públicas, de autoridade, são satirizadas, eleva-se a “Rei” um ladrão, quando não, um animal ao posto da: autoridade, alvo do deboche! 

Lupercalia
Na antiga Lusitania, pré-romana, celta, e seu norte: a Gallaecia, como em boa medida, em todo o mundo indo-europeu. A ambiwolka, era celebrada como um rito de passagem para a puberdade, e de fertilidade pelas frátrias guerreiras. Em Roma, com a Lupercalia, celebrada em meados de fevereiro. Quando sacerdotes, os Luperci, após ritos sacrificais, se vestiam em trajes dos bodes sacrificados e saiam pelas ruas chicoteando as  mulheres, que se deixavam, prenúncio da bem aventurada concepção.

Entre os gregos havia, a Lycaia, que ocorria no monte Lykan, em que jovens realizavam um rito de passagem para a puberdade, que consistia no cometimento de uma profanação, comer carne humana. Um dentre eles era sacrificado e sua carne misturada a outras de animais sacrificados, quem comesse a carne humana, se tornaria lobo ao longo de 9 anos, só se tornando humano se ao longo desse tempo, não volta-se a comer carne humana. Naturalmente, assim, os iniciados não sabiam quem e se eles próprios haviam ingerido e por assim cometido a profanação. Pesando sobre todos a dúvida. Eis a origem, do que se supõe ser a origem do lobisomem, tão difundido na Europa e nos rincões do Brasil. 

A Lykaia, é um rito com características, mais arcaica, do que a Lupercalia, e se deduz, mais próxima das fratrias guerreiras celtas, pródigas em adereços ligados a homens-lobos, bem como a outras sociedades mais arcaicas como a germânica com seus berserks, Na Galiza e Portugal, havia os “kórios” formados por jovens que se paramentavam com peles de lobos, se exilando em locais remotos, vivendo uma vida silvestre a margem da civilização. A essas frátrias, na Lusitania antiga, Estrabão os chamam de Iuventus Lusitanis.

"kório", frátria guerreira, formada por jovens lusitanos. Desse étimo, deriva "coronel".

Durante a propagação do cristianismo na Europa, houve o sincretismo entre várias celebrações pagãs e cristãs. Em Roma, as celebrações da Lupercalia, foi cristianizada pelo papa Gelasio I, como dia de São Valentim, santificado por celebrar casamentos entre cristãos, quando o cristianismo era proibido, e por isso, martirizado. Isso, no ano de 496, em 14 de fevereiro, consagrado como dia dos namorados .

Com o Entrudo, não foi diferente. As procissões, círios e romarias, em quase todas, guardaram antigos elementos de ritos pagãos. A procissão mais popular em Portugal foi a de Corpus Christ. Durante a procissão, cada ofício era responsável pela preparação de um bloco, abordando um tema diferente, a semelhança das alas das escolas de samba brasileiras. De ressaltar, ainda, o caráter religioso e profano do cortejo. Oque aponta fortes indícios da continuidade de uma antiga forma de religião, uma herança pagã, mal ocultada por trás da aparência de fé católica.

Com a incorporação ao calendário cristão, a festa recebeu uma data fixa e passou a ser comemorada entre o domingo e a terça-feira anteriores ao início da Quaresma. À sua acepção primeira de entrada ou começo, portanto introitos, acrescentou-se outra, a de despedida da carne e de início do período quaresmal, tempo de sacrifícios e de abstinências.

Os festejos carnavalescos, que compartilham elementos caracterizados por seu espírito burlesco, cômico, grotesco, lúdico, satírico, de excesso eram bastante difundidos pela Europa, desde longa data. Porém, em Portugal, diferia-se. Em Portugal, os três dias que antecediam a Quaresma eram comemorados com: “molhadelas de diversos graus: imersão nos rios, nos chafarizes, projeções de água com cuias, copos e esguichos...”; como também, jogar água suja e farinha nos transeuntes. Nos festejos de entrudo entre fins do Séc. XVIII e XIX em Lisboa, relatam ainda serem comuns o uso de ovos, pós de goma e uma variedade de instrumentos para jogar: cabacinhas de cera com água, tubos de vidro, papelinhos, laranjas, luva de areia “destinada a cair de chofre”, barro, fogareiros e tachos. Diversões taxadas pelos cronistas de época, como pouco civilizadas e grosseiras.  

Em tempos mais recentes, se registra, em algumas localidades, no folclore de Portugal e Galiza, ainda existentes, folguedos chamados “os caretas” (por usarem máscaras do período do Magusto, aproveitadas das luminárias) que durante o entrudo ou entruido / andruido (em Galiza) saiam pelas estradas e vilas rurais chicoteando mulheres, sobretudo, as casadas sem filhos, com tiras de porco. Reminiscências de um período mais arcaico?

O Entrudo no Brasil:

O Entrudo se registra no Brasil desde o primeiro século de colonização, sendo uma das mais antigas tradições brasileiras, festejado em todo o Brasil! Como em Portugal, ocorria três dias antes da Quaresma, período de abstinência, jejum, e penitência, em quarentena para a Páscoa. E, por isso, chamado entrudo, derivado do latim introito, também dito "dias gordos", pela abundancia de vinho, carne e sexo. As brincadeiras, consistiam, em atirar água uns nos outros, se valendo de jarras, vasilhas seringas, bisnagas, etc... 

Dois meses antes, começava a fabricação de limas, laranjas ou limões de cheiro, feitos de cera, com loções perfumadas, usadas nas “guerras" do Entrudo. Outros, mais satíricos, jogavam lama, frutas podres e urina. Em grande parte, eram as mulheres que mais ativamente participavam dos preparativos, fabricando os limões usados nas brincadeiras, enquanto os homens eram os protagonistas nas ruas. A licenciosidade da festividade permitia um relaxamento das barreiras sociais, propiciando um maior contato entre homens e mulheres. Os "amores de carnavais", tidos, na atualidade, como algo passageiro, não era uma realidade naquele período. Os enlaces amorosos do período resultavam quase sempre em relações duradouras que não raro, alguns meses depois, terminavam em casamento.... nas festas juninas, de santos casamenteiros. O ciclo da vida gira!

As famílias normalmente brincavam em espaço privado, nos recintos de suas casas, ou em local previamente escolhido, e na recepção dos convidados, sempre os recebiam com grandes banquetes. As ruas e praças eram palco das classes mais baixas, como os homens livres pobres e os escravos, que aproveitavam o período para vender doces aos foliões. O entrudo também se notabilizava pelos "trotes" entre parentes e os mais achegados.

Entrudo em um ambiente familiar, Rio de Janeiro, 1822.

A partir de 1830, ocorre uma progressiva tentativa de controle do entrudo e das suas práticas, consideradas pelas classes mais abastadas, um festejo grosseiro e incivilizado. Três foram os fatores determinantes para isso: a vinda da família real para o Brasil, a independência, e uma campanha anti-lusitana orquestrada pela imprensa maçônica. A transferência da corte para o Brasil, trouxe consigo, uma colonização cultural de em tudo olhar como espelho a França, exemplo de civilização. O fenômeno já ocorria na periferia da Europa, que acometia Portugal, e se acentua com a transferência da corte para o Brasil. Foi nesse período que o português de Portugal, sofreu severas modificações que o caracterizam hodiernamente. Costumes, vestuários, arquitetura, com a destruição de todo um conjunto arquitetônico colonial no Rio de Janeiro, substituído por uma pobre arquitetura neoclássica, descontínua ainda por cima, sofreram também grandes impactos. A vinda da missão artística francesa nesse período é sintomático! O entrudo foi uma das vítimas dessa alienação cultural que se operou no período. A independência do Brasil, também corroborou para acentuar um anti-lusitanismo que foi explorado pela imprensa maçônica, que foi a maior responsável pelo ataque sistemático ao festejo. Poder-se-i-a citar, como registro, as críticas da igreja, mas dessa sempre houve, sem que nunca tenha influído no seu fim, antes o incorporou ao seu calendário, balizando e contendo excessos.

A Latinização do Entrudo, Surge o Carnaval!

O desejo de modernização Idealizado como festejo “civilizado e civilizador”, chamado por cronistas e jornalistas da época de “Carnaval Veneziano” e orientando-se pelos festejos ocorridos na Europa, o carnaval brasileiro seria dotado de uma imagem de sofisticação e luxo. Desde anos 1850, comemorou-se a “morte do entrudo”, embora ele tenha persistido. Centenas de limões de cheiro continuavam a ser jogados pelas pessoas pelas ruas no período, e quando acabavam as provisões recorria-se a “água pura em abundância”, atestando que “o velho, grosseiro e selvagem entrudo” agonizava, “condenado pela civilização”, mas, teimava em não morrer. 

Nesse momento começava uma disputa entre duas concepções distintas ao redor do carnaval. Por um lado, uma concepção relacionada a uma tradição não desejável, ligada “à rudeza dos costumes portugueses dos tempos coloniais”. Por outro lado, uma concepção com vistas à busca de uma nova tradição, buscada fora, que deveria recorrer “a um carnaval mítico de linhagem europeia mais nobre e cultivada”.

Foi nesse hiato que surge os zé-pereiras, pelo sapateiro português , radicado no Rio de Janeiro, que em 1846 saiu pelas ruas tocando bumbo. Retomando a tradição do cortejo, acompanhado por banda, ou ao menos naquele momento, por percussão. 

Ocorre uma curiosa tendência marcial nas manifestações do festejo, tanto nos desfiles com suas divisões em álas, quanto na música. As marchinhas carnavalescas, é atribuído, sua origem, na Polca, porém, não se trata de uma cópia, e sim de uma influencia, que se traduz em algo novo, e com um tom marcial, completamente inexistente na Polca. De igual modo, surge o Frevo, ou ao menos apresenta esse mesmo caráter. A esse respeito, é interessante mencionar oque se passou na Guerra do Paraguai, na véspera preeminente a batalha de Tuiuti, uma das mais decisivas da guerra. Uma banda paraguaia se apresentou em campo de batalha como meio de elevar o moral das tropas paraguaias. Um oficial brasileiro, diante da situação, se reporta a sua tropa, composta em sua maioria por caboclos pernambucanos, não mulatos, que se continuasse assim, os paraguaios venceriam. E assim, se apresenta a banda brasileira tocando um frevo tão vibrante que silencia os paraguaios. Estava garantida a vitória!

E foi assim que em meados do século XIX e início do XX, emergiram as formas predominantes dos desfiles dos préstitos, os bailes à fantasia, com as figuras do arlequim, do pierrot e da colombina, advindos da commedia dell'arte do carnaval veneziano, a introdução dos confetes e serpentinas, e os corsos. No final dessa fase vemos surgir além dos zé-pereiras, os cucumbis, os cordões e os ranchos. Em meio a isso, a  persistência em continuar a se brincar com o entrudo, sinalizava o descompasso entre os projetos políticos de uma elite alienada, e as práticas cotidianas tradicionais do povo, plasmada em sua linhagem ancestral. 

As críticas que, todos os anos, se operam contra o Carnaval, ecoam sempre da boca de alienados, que querem matar o Brasil, que odeiam os brasileiros, espelhando suas frustrações nos outros. Mais feliz foi Don Helder Câmara, ao dizer:  “Carnaval é a alegria popular. Direi mesmo, uma das raras alegrias que ainda sobram para a minha gente querida. Peca-se muito no carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se excessos, aqui e ali, cometidos por foliões, ou farisaísmo e falta de caridade por parte de quem se julga melhor e mais santo por não brincar o carnaval. Brinque, meu povo querido! Minha gente queridíssima. É verdade que na quarta-feira a luta recomeça, mas ao menos se pôs um pouco de sonho na realidade dura da vida!”. Guardemos suas palavras!
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quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

O Falso Desenvolvimentismo do Governo JK e Militar de 64.

O golpe de 54, que levou Getúlio Vargas ao seu martírio, é o marco da mudança político-econômica que porá fim aos áureos anos da Éra Vargas, e a causa das sucessivas "crises" que vivencia o Brasil até os dias atuais. É quando é implementada a dependência financeira e tecnológica do País. Com a morte de Getúlio, a UDN e militares americanófilos (ambos em sua esmagadora maioria maçons) assumiram de facto o governo, sendo Café Filho reles presidente nominal. Desde então, passou-se a subsidiar os Investimentos Diretos Estrangeiros (IDEs), e as multinacionais foram ocupando os espaços econômicos do País. Abortou-se, assim, a incipiente, e verdadeira indústria nacional, que  surgira no curso da primeira metade do Século XX. 

Essa política consistia em permitir que empresas estrangeiras deduzissem do imposto de renda o valor das máquinas e equipamentos que importassem, reduzindo assim seus custos e aumentando sua lucratividade.

Com o golpe de 24 de agosto de 1954, apenas 20 dias depois, o governo ipso facto, militar-udenista, regido por serviços secretos estrangeiros, instituiu vantagens absurdas em favor do capital estrangeiro, baixaram regulamentos, como a Instrução 113 da SUMOC (Superintendência da Moeda e do Crédito), que passou a permitir que subsidiárias das multinacionais importassem máquinas e equipamentos amortizados no exterior, mesmo que sucateados após mais de 10 anos de uso, e o registrassem como investimento em moeda estrangeira, com altos valores fictícios. 

Essa Instrução propiciou às multinacionais importar máquinas e equipamentos usados, sem cobertura cambial, registrando o valor a eles atribuídos pelas multinacionais, como investimento estrangeiro direto, em moeda. Nada menos que 1.545 licenças para esses “investimentos” foram concedidas pela Carteira de Comércio Exterior (CACEX), entre 1955 e 1963, mantidas e ampliadas essas vantagens no governo de JK.

Assim, as multinacionais passaram a poder importar máquinas e equipamentos para o Brasil, deduzindo no imposto de renda o valor total desses bens, no ano da compra ou em até cinco anos seguintes. Essa dedução era feita de forma linear, ou seja, a empresa podia deduzir 20% do valor do bem por ano durante cinco anos. O valor deduzido do imposto de renda era considerado um subsídio, pois representava uma renúncia fiscal por parte do governo.


JK Coveiro da Indústria Automobilística Nacional - O Caso da ROMI

Jucelino Kubitschek em Brasília, ainda em construção, adentrando no 
eixo monumental em uma Romi-Isetta. A falsidade em pessoa, posava
de "promotor" da indústria automobilística nacional, enquanto a apunhalava
pelas costas. Vários políticos que conviveram com JK relatam essa falta
de caráter dele, incluso o Brizola.

Exemplo gritante é a indústria automobilística transnacional favorecida com subsídios escandalosos desde o golpe de 1954, aumentados por JK. JK criou via decreto nº 39.412 de 16 de maio de 1956, o GEIA - Grupo Executivo da Indústria Automobilística. Ironicamente responsável pelo incentivo de fabricação de veículos nacionais, desde que obedecessem ao padrão estabelecido pelas multinacionais. Uma forma de engessar a nascente indústria automobilística nacional, estabelecendo regras e normativas impraticáveis por indústrias incipientes. Como também criando regras que favorecessem as multinacionais e excluíssem as nacionais.

Linha de montagem do Romi-Isetta em Santa
Barbara do Oeste (SP).
Com a abertura da linha de financiamento subsidiado, a nacional ROMI, que produzia a Romi-Isetta, um peculiar e pequeno carro, de um só banco, também pleiteou o financiamento, causando embaraço ao governo, pois o financiamento se destinava apenas para as multinacionais. O governo então baixou uma portaria definindo "automóvel" como sendo veículo com dois bancos, um dianteiro e um traseiro! E, assim, excluiu a brasileira Romi, a levando a falência.

Assim, a desnacionalização acentuou-se com JK, que não modificou a política de subsidiar os IDEse, como manteve os indecentes favorecimentos ao capital estrangeiro, e reforçou-os a ponto de ser aberta linha de crédito oficial para financiar as montadoras estrangeiras. Benefício negado à empresa brasileira Romi, de Santa Bárbara do Oeste (SP), que chegou a produzir três mil Romi-Isettas, entre 1956 a 1959. Inviabilizou desse modo a indústria automobilística nacional, ao entregar o mercado à Volkswagen e a outras transnacionais, donas de maquinaria e tecnologia amortizadas no exterior.

Inaugurava-se assim a política de subsidiar empresas estrangeiras, tornando  praticamente impossível a subsistência, no mercado, de empresas brasileiras por muito tempo. Os subsídios foram sendo, por vezes substituídos e, em geral, acumulados. Isso prossegue, até hoje, com empréstimos do BNDES a juros baixos e outras benesses prestadas às transnacionais em geral. 

Não é de se admirar que, ao final do quinquênio de JK, o Brasil sofresse sua primeira crise de contas externas desde o início dos anos 30. Vargas havia, em 1943, reduzido a dívida externa do País a quase nada. 

As transferências das transnacionais são o principal fator dos elevados déficits nas transações correntes com o exterior. Sobre os escandalosos sobrepreços, o então senador Vasconcelos Torres (1920/82), escreveu: 

"No exercício de 1962 foi registrado, no balanço consolidado das onze empresas produtoras de veículos automóveis e caminhões, lucro de 65% em relação ao capital social, constituído por máquinas usadas, e aumentado posteriormente, com incorporações de reservas e reavaliação dos ativos." 

Faz também referência aos balanços de 1963, comparativa de preços de venda da fábrica à distribuidora com os preços de venda do distribuidor ao público, para quatro montadoras, entre elas a Volkswagen: "o preço nas distribuidoras era mais de três vezes o preço na fábrica", e os donos desta eram os mesmos daquelas ou tinham participação naquelas. 


Os Efeitos do Modelo Dependente:

Desde o final dos anos 60, as multinacionais foram cumuladas por Delfim Neto com colossais subsídios à exportação, como isenções de IPI e ICM, nas importações de seus bens de capital e insumos, e créditos fiscais. Daí ao final dos anos 70, a dívida externa do País teve o crescimento mais rápido de toda sua história.

São raríssimos os economistas que atribuem importância, a tais modificações na política industrial e de capitais estrangeiros, aplicadas com entusiasmo e ampliadas, por JK, enganosamente tido por desenvolvimentista. Ele adotou o falso conceito da CEPAL (Comissão para a América Latina das Nações Unidas), segundo o qual o importante era industrializar-se, não importando com quem controla o capital e a tecnologia das indústrias. 

Resultado: sob JK e sob os governos militares, o País teve altas taxas de crescimento do PIB, por algum tempo, mas crescia errado. Por isso, o Brasil pagou caro: décadas perdidas, desde a dos anos 80. A dívida externa subiu de menos de US$ 1 bilhão em 1954, para US$ 90 bilhões em 1982. Os falsos desenvolvimentistas jactaram-se da industrialização, mas mentiam, ou ignoravam que, diferentemente, o Brasil se industrializava na primeira metade do Século XX, sem aporte significativo de investimentos diretos estrangeiros. 

O modelo de “desenvolvimento dependente” é uma contradição em termos, uma impossibilidade. Promovendo e subsidiando os “investimentos” estrangeiros, causou fabulosos déficits externos, cujo financiamento, juntamente com os empréstimos públicos para apoiar esses “investimentos”, fez a dívida externa crescer exponencialmente.

Demonstrando abissal ignorância sobre o que era estratégico, se não, desprezo pela segurança nacional, os falsos desenvolvimentistas, desde JK (1956-60), consideraram que bastava ter sob controle nacional as telecomunicações, a energia, notadamente o petróleo, e a área nuclear. Se olhassem com seriedade para a História, teriam percebido que nenhum país foi capaz de se defender, tendo entregue sua economia e suas finanças para o controle estrangeiro. Isso se tornou cada vez mais nítido, à medida que a capacidade bélica foi ficando mais dependente da indústria e da tecnologia. Mas, mesmo antes do século XVIII, quando a sorte nas armas se vinculou à mecânica pesada e às indústrias básicas - que lhe fornecem insumos -, as guerras, sempre foram movidas a dinheiro, tal como a política. Eis a enorme e múltipla leviandade dos usurpadores que tomaram o Brasil de assalto em 54 e depois em 64, a dependência tecnológica e financeira, que caracterizou o governo de JK e os governos militares.



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sábado, 19 de novembro de 2022

A Batalha de Guaxenduba - A Conquista do Maranhão

 


Minha terra natal, em Guaxenduba,

Na trincheira, em que o luso ainda trabalha,

O leão de França arregaçando a juba,

Saltou, e o luso, como o tigre o atalha,

Foi então que se viu, sagrando a guerra,

Nossa Senhora, com o menino ao colo,

Surgir lutando pela minha terra

Foi-lhe vista na mão a espada em brilho…

Pátria, se a Virgem quis assim teu solo…

Que por ti não fará quem for teu Filho?

 

O Milagre de Guaxenduba,

Humberto de Campos

França Equinocial

A presença francesa no Maranhão antecede 1600, estimulados pela façanhas do célebre pirata Riffaut, senhor de toda aquela costa. Em 1594, traz o pirata uma grande expedição em 3 navios: perde o maior e, após contratempos, vem deixar no Maranhão os restos da aventura. Teria sido esse o começo do estabelecimento definitivo. A expedição oficial de Ravardière é de 1612 mas, bem antes, por ordem de Henrique IV, estivera ele, Ravardière, no Maranhão, donde voltara tão animado que não poupou esforços para voltar após a morte do Rei.

A colônia se firmara por expedições diferentes, das quais se destacam duas: a de 1612, sob o comando de Ravardièr, e a de 1613 em 16 de abril, trazida por Du Pratz. Naquela, vieram uns 500 aventureiros; para esta última, os depoimentos franceses dão 300 homens. Não há dúvida que a feitoria do Maranhão é anterior à vinda definitiva de Ravardière, pois que, na sua chegada, em 1612, ele foi recebido por uma frota de navios de Dieppe, tão bem relacionada e provida, que lhe ofereceu uma ceia, onde não havia motivo para desejar iguarias de França, dizem os cronistas. Os relatos dão conta ainda de 20mil flecheiros índios a serviço dos franceses, e que o estabelecimento existia desde 1609.

Na tropa francesa de São Luís, contavam-se, como oficiais, mais de vinte nomes de alta aristocracia, entre outros um Conde, ou Joinville, diz um dos soldados deles, e mais um fidalgo escocês. A povoação foi considerada cidade. Construíram-se navios capazes de afrontar o alto-mar, e o comércio se desenvolveu a ponto de provocar a vinda de navios de 300 toneladas. Além disso estavam os franceses rodeados de tribos amigas, e que, deste modo, fechariam seus inimigos num círculo de hostilidades. Era a esse inimigo que Jerônimo vinha afrontar, em condições que assim se resumem: uma expedição insuficiente em tudo, menos no valor humano dos que a compunham.

A Jornada Milagrosa!

As forças de Jerônimo eram em quantidade que pôde ser transportada em dois patachos, uma caravela e cinco barcaças, ao todo, 300 brancos e 200 índios, apenas. Composta por “gente da terra”, brasileiros, como seu comandante. d'Eça, dirá depois... : “os quatro capitães que hoje estão no Maranhão, todos juntos não chegam a 80 anos...”. Os elementos fornecidos à expedição foram tirados de uma colônia praticamente abandonada, como se verificou 10 anos depois, com o ataque dos holandeses. A essas forças, Ravardière pôde opor 400 soldados europeus, 4.000 índios, 7 navios e 46 canoas de guerra.

As ordens oficiais eram que a expedição não passasse da fundação de um forte, a 8 ou 10 léguas dos franceses, para inquieta-los, tão-somente. Mas, contrariando as ordens, o grande capitão fez seguir a expedição, até estabelece-la em contestação com os franceses. 

Chegado às águas do Maranhão, em 25 de outubro, Jerônimo põe em prática os seus processos costumários com o gentio, procurando cooptá-lo. Pouco a pouco, chegam-se os índios. Uns, naturais de Pernambuco, avisam-no do premeditado ataque dos franceses. A nação brasileira a esse tempo, já era uma realidade, com as populações, de norte a sul, se reconhecendo. Jerônimo despreza, ou finge desprezar, o aviso: a consequência é o ataque incauteloso do inimigo.

Na escolha da posição do forte, houve divergências, a que Jerônimo respondeu no definitivo mando de seleção: “Quem for amigo, não me aconselhe outra coisa!” E fez como entendia. Essa escolha foi decisiva: a ela se deve o êxito da batalha, e que pareceu milagre. “Determinou o capitão-mor fortifica-se num vale, entre duas alturas que lhe ficavam sobrancelhas...” – relata d'Eça. E quando o inimigo, destemido e arrogante, veio ao ataque, Jerônimo pôde desenvolver, prontamente, a sua tática formidável: metê-lo entre dois fogos e dominá-lo completamente antes do segundo tiro.  

A Batalha de Guaxenduba (19 de novembro de 1614):

Os franceses vieram atacar com a maior parte de suas forças: desceram 200 soldados europeus, e uns 2.000 índios, deixaram para reserva, embarcados, outros tantos brancos e muitos índios ainda. Jerônimo, opôs-lhes imediatamente a quase totalidade dos seus soldados: 4 companhias sem discriminação de índios; 2 seguem pela praia, para apanhar a retaguarda do inimigo; e este impávido, se prepara para o ataque da posição quando vê surgirem, inesperadamente, as outras 2 companhias – a própria vanguarda de Jerônimo, que as comanda em pessoa, ao lado do capitão d'Eça. Alcançando antes de tentar qualquer fortificação de defesa, antes de gastar munições, o francês é abatido fulminantemente. Foi como se houvera caído numa cilada. O embate foi de soldados aguerridos mas, entre dois fogos, estava desfeito o inimigo. Jerônimo mesmo teve de dominar com sua espada o sr. De Pisieux. E os franceses foram levados à derrota, apesar de valentes, apesar de atacantes...  já na desorientação geral da derrota que desnorteia, os franceses atiravam-se às ondas em busca de salvação. Finalmente, morreram 90 dos brancos inimigos, entre os quais, 7 grandes fidalgos; aprisionaram-se 19, e foram queimadas 46 canoas, e mortos cerca de 1400 índios aliados. São cifras dos próprios vencidos. Entre os brasileiros, apenas 11 mortos e 18 feridos.

No curso da batalha apareceu entre
a tropa uma Senhora de aparência
"diáfana e radiosa", pecorrendo nossas
linhas, e incentivando os combatentes
apanhando areia do chão e convertendo 
em pólvora aos soldados, e os curando
das feridas dos combates. Essa aparição
foi creditada a N. Sra. da Vitória, que
ficou sendo a padroeira de São Luís.
Com Albuquerque Maranhão estão dois filhos; o mais velho, Antonio Albuquerque, sai da vitória com três feridas. E o grande capitão, se bem que orgulhoso delas, não se mostra insolente, nem brutal, como o supunha o francês: é que o patriotismo fizera dele um hábil político, diplomático. Com a sua tática, ele dominara a grande superioridade do adversário; mas precisava, ainda, tornar aquela vitória definitiva, em bem do Brasil, e com essa diplomacia ele o conseguiu de modo absoluto. Chegou ao ponto de trabalhar para conservar no Brasil, incorporando nele, aquela população de intrépidos franceses, com a boa experiência que tinham da terra e do seu gentio. 

O médico francês, que curou as feridas dos três tiros que tomou seu filho, ao aproximar-se de Jerônimo, torna-se um grande entusiasta dos seu méritos, e refere-se, em modo muito expressivo, ao espanto dos franceses quando receberam a primeira, e, sobretudo, a segunda carta do grande capitão: a singela superioridade dos dizeres, sem fanfarronice, nem ameaças, cativou inteiramente o ânimo dos fidalgos vencidos, e que esperavam encontrar-se com selvagens e mamelucos, grosseiros e insolentes. Ao mesmo tempo, o homem de arte, dá o testemunho de como, pelo trato pessoal, Jerônimo fez seus inimigos grandes afeiçoados: “Nunca vi gente tão honesta.”.

Essa foi a mais forte e mais formal tentativa dos franceses sobre o Brasil, e, por isso mesmo, foi a última. A França Equinocial fizera-se como o coroamento de uma posse comercial de mais de 50 anos, e batizara-se colônia em nome do Rei de França. Então, se tal empresa malogra, há motivos para que o francês desista definitivamente de fazer colônia em contestação com o Brasil; se é um brasileiro quem dá o golpe, e ganha a vitória decisiva, se o faz com recursos exclusivos do Brasil, temos, no caso, a prova da realidade da nova pátria em demonstração explícita.

Sob o influxo de Albuquerque Maranhão, aquele Norte se fez imediatamente Brasil, na própria tradição de Pernambuco, donde procedia pelo ânimo dos que o conquistaram. Alexandre de Moura, influindo em Gaspar de Souza, foi quem mais concorreu para que se destacasse do Brasil o que se chamou, depois, Estado do Pará-Maranhão, desunindo-se, assim, a nação que germinava na colônia. De nada valeu o recorte: o que um grande brasileiro fizera, perdurou, e aquela terra, onde até a morte se exerceu a ação da nova energia de Albuquerque Maranhão, ganhou definitivamente a alma do Brasil, como o afirmou nos momentos turvos de após a Independência.



Comando NE - Círculo Castilhista 

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