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quinta-feira, 20 de março de 2025

O Catolicismo Tradicional Brasileiro - A Alma do Braʃil.

Há pelo menos dois tipos de catolicismo no Braʃil: o oficial e o popular. Esta dualidade é antiga, desde o período colonial, e muitas vezes em oposição: o catolicismo doméstico dos primeiros colonos, dos chefes de família, e o catolicismo mais Romano, mais universalista, das ordens religiosas e principalmente dos jesuítas. É difícil precisar quais as proporções dos adeptos de um ou outro dos dois tipos de catolicismo, pois não são captáveis por meio de estatísticas.

Tal dualidade não é exclusivamente brasileira, mas universal; em todos os países existiu sempre oposição entre de um lado as necessidades religiosas espontâneamente formuladas pela massa da população aliadas à conservação de antigas tradições religiosas e, de outro lado, a estrutura de uma hierarquia sacerdotal, sustentada por um dogmatismo mais ou menos rígido.

Os sacerdotes, em sua maioria, permanecem nas cidades ou nas zonas mais populosas; no sertão e nas zonas rurais em geral são sempre escassos. As paróquias do interior, muito vastas, raramente dispõem de um vigário ali residindo em permanência, e muitas vezes um só cura tem a seu cargo mais de uma paróquia; a extensão a percorrer é de tal ordem que a maioria das localidades recebe a visita do vigário apenas uma vez por ano.

Mesmo nas cidades, a falta de padres é significativa, como demonstrado por dados de meados do século XX, que revelam uma proporção insuficiente de clérigos para o tamanho da população. A prática religiosa varia consideravelmente entre as classes sociais. As elites, mais instruídas religiosamente e residentes em bairros melhor servidos de padres, apresentam maior frequência de prática religiosa, representando cerca de 15 a 20% dos praticantes regulares.

A instrução religiosa ministrada por sacerdotes é rara e atinge crianças de nível social elevado, as quais seguem cursos de catecismo durante alguns meses, preparando-se para a primeira comunhão. As crianças da plebe, seja em zona urbana, seja rural, são instruídas por seus pais ou parentes, quase sempre analfabetos e que, por sua vez, foram no passado instruídos do mesmo modo. A fé é assim transmitida de geração em geração por uma espécie de inércia conservadora. A grande maioria dos católicos brasileiros recebem-na de herança sem praticamente conhecerem a doutrina. É neste contexto que hoje se difundem cada vez mais o protestantismo e o espiritismo.


2 — Formação do catolicismo popular brasileiro.

Durante todo o período colonial e mesmo após, a carência de párocos e, por conseguinte, de assistência religiosa, forçou o brasileiro a adaptar-se. Tal adaptação, espontânea, expressou-se numa reorganização e reinterpretação do catolicismo tradicional, trazido pelos colonos portugueses de um lado, e do catolicismo oficial, trazido pelos poucos sacerdotes que aqui aportaram, de outro. Neste processo, elementos novos surgiram; elementos antigos ou pertencentes à religião oficial haverem sofrido transformações; dogma e liturgia haverem sido deformados por necessidades locais ou pela imaginação de líderes religiosos falhos de adequada instrução. Apesar das diferenças entre o culto oficial e o culto popular, a grande maioria dos brasileiros se tinham como muito bons católicos, a tradição lhes ditou o apego a esta forma religiosa.

O suposto sincretismo, difundido nas últimas décadas, mais das vezes por autores maçônicos, entre o catolicismo e outras manifestações religiosas, notadamente de matriz africana, é uma falácia. À época colonial até hodiernamente, no meio rural, os cultos africanos foram inexistentes quase por completo. A guisa de exemplo os residentes no quilombo dos Palmares, são reportados como católicos. Bem como as ditas "comunidades quilombolas" remanescentes, são todas católicas, sem resquício de sincretismos com cultos africanos. A manifestação de cultos de origem africana só se verificam a partir do início do século XIX, durante o Império, ainda assim circunscrita a nichos. Fomentados por uma política liberal de condescendência, de cariz maçônico, promovida pela monarquia, especialmente nas grandes cidades, que fomentou o surgimento da maçonaria negra, propiciada por libertos unidos a grupos abolicionistas quase sempre ligados à maçonaria. E por assim, é um fenômeno tardio e eminentemente urbano. No meio rural, a ausência desses grupos, propiciou que o catolicismo popular se conservasse mais 'puro' do que o das cidades, permanecendo fiel às suas origens portuguesas.

O sincretismo com as religiões indígenas foi inexpressivo. Na Amazônia, as sobrevivências  foram  mais visíveis; mas, ao contrário do que se observa com os cultos africanos, quanto mais se penetrar na floresta, mais numerosos haverem sido os elementos de religiões aborígenes associados ao catolicismo. Trata-se, todavia, de fenômeno localizado em área geográfica limitada e precisa, e não de fenômeno difundido em geral no país. E embora ali estejam as crenças muitas vezes embebidas de elementos indígenas, a organização religiosa, as festas revelarem claramente sua origem portuguesa. A pajelança, culto religioso que une catolicismo e religião indígena, não atingiu nunca alguma importância, com sua difusão sido muito restrita.

O Catolicismo no Sertão brasileiro foi mantido muito mais próximo daquele trazido pelos portugueses nos dois primeiros séculos da colonização, e que evoluiu, por assim dizer, fechado sobre si mesmo. Ora, a maior parte dos elementos religiosos trazidos para o Braʃil eram parte, já em Portugal, da religião popular; pois o campones português, especialmente o nortenho, ao emigrar, trouxe consigo suas crenças. Porém, ao persistir, este catolicismo popular veio a cindir em dois: um catolicismo urbano e um rural. Esta divisão se deu com o correr do tempo; a princípio, formavam uma unidade que era o catolicismo popular simplesmente. Mas, à medida que no Braʃil se disseminou um estilo de vida urbano de tipo ocidental, iniciado com a vinda da Família Real para o Rio de Janeiro, o catolicismo popular urbano se distanciou de seu irmão rural. É esta segunda forma do catolicismo popular que nos deteremos.


3 — A civilização tradicional na sociedade brasileira atual.

A civilização rural que hoje encontramos no interior do país é o prolongamento da antiga civilização brasileira, que teve início com a colonização portuguesa. Homogênea em toda a enorme colônia, no fim do século XVII já se havia consolidado. E no fim do século XVIII, apresentava caracteres próprios e inconfundíveis com os de sua matriz lusitana. No século XVIII, já se havia estabilizado esta verdadeira civilização brasileira, muitos de cujos traços persistem hodiernamente em todo o país.

Durante o período colonial, a civilização brasileira tradicional era uma só, tanto na zona rural quanto nas cidades. Práticas religiosas como a Dança de Gonçalo realizavam-se nas igrejas de Salvador, Recife, Rio de Janeiro, etc.. . A transferência da Família Real portuguesa em 1808, e a modernização urbana decorrente de sua instalação no Rio de Janeiro, impeliu o processo de modernização, progredindo cada vez mais, e aos poucos apagando aquela civilização tradicional das cidades maiores, em seguida das pequenas capitais provincianas, para finalmente remanescer nos vilarejos e povoados. Hoje em dia, encontramo-la em grande parte do Norte, do Nordeste, do Centro-Oeste do País.

Todavia, o processo de modernização nunca se espraiou de forma regular e homogênea no espaço brasileiro. Assim mesmo ao pé da Serra do Mar, no pregueado da Serra da Mantiqueira, a pequena distância da capital paulista, inúmeros grupos de vizinhanças mantiveram-se presos ao estilo de vida e conservaram-lhe o catolicismo tradicional. Desta, destaca-se uma minoria de grandes proprietários perfeitamente adaptados à vida moderna; um conjunto de médios fazendeiros, compondo pequena classe intermediária; uma mão de obra assalariada não muito numerosa. O restante, segundo estimativa superficial seria de 60% do total rural, que constitui a maioria da população rural, composta de camponeses no sentido etnológico da palavra. São eles os grandes conservadores da tradicional civilização brasileira.


4 — Composição do catolicismo tradicional.

Devido ao povoamento disperso do interior do País e à falta de indivíduos convenientemente instruídos do ponto de vista religioso, cuja ação poderia ter tornado mais homogêneos doutrina e ritos, a prática religiosa rural apresentou muita variação em torno dos mesmos temas centrais. Em regiões tão afastadas umas das outras quanto a "zona serrana" do Estado de Santa Catarina, os sertões do Nordeste ou as florestas da Amazônia, são encontrados elementos religiosos semelhantes; sua distribuição, porém, não se faz por igual e muitas vezes não figuram em regiões intermediárias. Isto é, surgem num ponto e em seguida muito mais além, mostrando que sua disseminação foi inteiramente irregular. São, todavia, sempre os mesmos elementos.

Por outro lado, embora semelhantes e mantendo o mesmo esquema básico fundamental, os detalhes são diversos quando se passa de uma região para outra. Poderíamos elaborar uma longa lista destas práticas: as penitências; as orações rústicas; as comemorações do Dia de Reis; as festas de São João; a Semana Santa; sem falar nas danças folclóricas como o Boi-bumbá, — danças que animam festas religiosas e profanas.

Bumba-Meu-Boi em Santa Catarina. Manifestação religiosa
presente em todo Braʃil. Ligado a festa de São Gonçalo.
Com os bois simulando touradas. Que por sua vez remete
a antigos festejos celto-lusitanos.
Os variados tipos de Dança de São Gonçalo ilustram a riqueza a que nos estamos referindo. Trata-se de antigo rito religioso português, com função de agradecer ao santo graças alcançadas. Embora proibida pela Igreja durante o século XVIII em Portugal, persistiu no Braʃil e continua a existir até hoje, mesmo em regiões rurais consideradas modernizadas, como as do Estado de São Paulo, e sem mudar de função. Porém, enquanto no norte da Bahia é realizada por duas fileiras de "dançadeiras" que dançam cantando diante do altar, cada fileira tendo à testa dois músicos; enquanto no interior do Estado de São Paulo uma fileira de mulheres dança de par com uma fileira de homens; no Estado de Goiás somente dançam homens em duas fileiras. A coreografia diferente um pouco também, as evoluções das fileiras dançantes não são as mesmas nas diversas regiões. Todavia, os versos cantados são praticamente os mesmos por toda a parte, a variação é mínima. A ordenação da reunião que acompanha a dança é também diferente conforme o lugar: em São Paulo, a verdadeira festa comportando importante procissão; na Bahia, ao contrário, somente a dança é realizada diante do altar e do público. Este exemplo mostra que as variações são apenas de detalhes, uma vez que o objetivo e a função do rito permanecem idênticos por toda parte: a dança tem por fim agradecer ao santo uma graça alcançada. São práticas religiosas semelhantes a esta que formam o acervo do catolicismo tradicional brasileiro.


5 — Os grupos de base da antiga sociedade tradicional brasileira.

A conformação do catolicismo tradicional brasileiro deve-se, em grande medida, à conjugação de dois fatores essenciais: a influência do catolicismo popular português e a escassez de sacerdotes. Em Portugal, a religiosidade popular estruturava-se, e ainda se estrutura, em torno do culto aos santos, cujos padroeiros, venerados em dias solenes, são motivo de orgulho para aldeias e famílias. Essa tradição transladou-se integralmente para o Brasil, onde o culto aos santos permaneceu como eixo fundamental da religiosidade popular. Entretanto, a plena compreensão desse fenômeno exige a consideração das estruturas sociais que sustentam a vida camponesa no Brasil: a família e o grupo de vizinhança.

Diferentemente do modelo aldeão europeu, o brasileiro raramente habita em povoações, erguendo sua morada nas terras que cultiva, em relativo isolamento. Cada família mantém independência econômica, e um conjunto dessas unidades domésticas forma o grupo de vizinhança, denominado “bairro rural” em certas regiões paulistas, mineiras e paranaenses. O bairro rural, usualmente, tem por núcleo uma capela, evidência da presença de um grupo coeso, ainda que disperso geograficamente. Essa configuração espacial, comum a diversas regiões do país, torna a paisagem aparentemente desabitada, mas pontilhada por pequenas ermidas e algumas habitações ao redor.

A vida nesses grupos alterna períodos de isolamento e de reunião, sendo as festividades religiosas os principais momentos de congregação. À aproximação do dia consagrado ao santo padroeiro, as famílias abandonam momentaneamente suas propriedades e, trajando suas melhores vestes, convergem para a capela do bairro, marco simbólico da unidade social que transcende o núcleo doméstico. A participação comum nos festejos reforça os laços de solidariedade entre os membros do grupo, que, além do vínculo familiar, compartilham um espírito comunitário, manifesto tanto na assistência mútua quanto na organização dos ritos festivos. Assim, a capela do bairro rural torna-se o centro gravitacional da vida social e religiosa, consolidando a identidade coletiva de uma população dispersa.


6 — O festeiro e a organização da festa religiosa.

No Brasil tradicional, as festividades em honra ao padroeiro seguiam um modelo padronizado, no qual a figura central era o festeiro, responsável pela organização e pelo custeio parcial do evento. Escolhido anualmente, geralmente entre os sitiantes mais prósperos, cabia-lhe prover a alimentação dos participantes, bem como angariar donativos para complementar os gastos. Para isso, era comum que percorresse a comunidade solicitando contribuições ou que delegasse tal tarefa a um grupo específico, a Folia.

A Folia, composta por um porta-estandarte que conduzia a bandeira do santo, músicos e um animal de carga, visitava os sítios entoando cânticos e recolhendo oferendas. Sua chegada era anunciada por rojões, atraindo os vizinhos e promovendo reuniões espontâneas em menor escala. A bandeira adentrava os lares, sendo reverenciada com orações e ladainhas, enquanto enfermos lhe tocavam as fitas em busca de curas. Os anfitriões, além de alimentarem os foliões, ofertavam gêneros como aves, suínos ou cereais, acompanhando o grupo até a fronteira de suas terras.

Na semana da festa, todas as famílias do bairro rural se dirigiam para a capela, onde erguiam alojamentos improvisados. A preparação do evento envolvia esforços coletivos: homens abasteciam as fogueiras, enquanto mulheres cozinhavam em grandes tachos para garantir a partilha do alimento. O ápice das celebrações incluía refeições comunitárias, rezas, procissões e, ao cair da noite, leilões de prendas, desafios e danças folclóricas. Em comunidades mais integradas e economicamente estáveis, preservavam-se encenações teatrais tradicionais, como conçadas, cavalhadas, Nau Catarineta e Bumba-meu-Boi. Contudo, a encenação exigia recursos e disponibilidade, sendo inviável em bairros mais pobres ou divididos por conflitos internos.

Os custos da festividade eram cobertos por múltiplos peditórios, como as esmolas das folias, os rendimentos dos leilões e as contribuições oriundas das peças teatrais, garantindo um caráter coletivo ao evento. O festeiro, enquanto organizador e figura central, dirigia as cerimônias e distribuía as tarefas. Embora um sacerdote pudesse ser convidado para oficiar a missa, sua presença era secundária, pois o festeiro permanecia como a autoridade máxima da celebração. Essa autonomia frequentemente gerava atritos entre festeiros e clero, sobretudo quando o padre condenava folguedos como a Dança de São Gonçalo, considerados pelos camponeses como expressões legítimas da fé popular. Assim, a festa do padroeiro não apenas consolidava a religiosidade local, mas reafirmava a coesão social e a autossuficiência dos grupos de vizinhança na organização de suas práticas devocionais.


7 — O culto dos santos.

Casa sertaneja com santos de devoção.
Em casas mais abastadas, havia um quarto
exclusivo para orações. Nas casas-grandes
uma capela era sempre erguida junto a casa,
ou em um ponto mais alto da fazenda.
A festividade religiosa ocupa papel central no universo brasileiro, constituindo-se como a manifestação tradicional de devoção ao santo padroeiro local. A crença popular atribui ao patrono poderes sobre a ordem natural, sendo-lhe creditada a capacidade de punir os fiéis negligentes com secas, pragas e outras adversidades. No entanto, a relação entre o santo e a comunidade não se limita à veneração passiva: seus devotos, percebendo-lhe um caráter humanizado, impõem-lhe também sanções quando julgam sua ação injusta, relegando sua imagem a locais menos prestigiosos, privando-a de oferendas ou até castigando.

A imagem sagrada não é meramente representativa, mas a concretização física da presença do santo, que, ao mesmo tempo, se insere na ordem natural, por sua constituição material, e na ordem sobrenatural, por sua essência divina. Assim, a interação entre fiéis e padroeiro assume um caráter de reciprocidade, em que a oferenda feita ao santo não é desinteressada, mas uma forma de pacto, esperando-se a concessão de graças em contrapartida. Se a reciprocidade for rompida, o devoto se julga no direito de compelir o santo a cumprir sua parte.

Cada bairro possui seu padroeiro, e cada lar, seu santo doméstico, que recebe honrarias através de orações e celebrações privadas. As novenas e ladainhas realizadas no oratório familiar representam novas oportunidades para reuniões comunitárias, reforçando os laços sociais entre parentes e vizinhos. Nessas ocasiões, após o término das atividades do dia, os moradores se reúnem para entoar cânticos e proferir preces diante do altar ornamentado, sob a condução de um sacristão especialmente requisitado para presidir as cerimônias.

fragmento do quadro de Frans Post retratando uma capela junto a casa-grande e um engenho.
Ao lado, Casa-Grande do engenho Monjope com sua capela, em Igaraçu-PE.

8 — O Sacristão.

No contexto do catolicismo tradicional brasileiro, o sacristão configura-se como a figura central na preservação e transmissão dos ritos religiosos e das práticas devocionais populares. Detentor do conhecimento acerca de orações, ladainhas e cerimônias, assume o papel de intermediário entre a comunidade e o sagrado, sendo também denominado “tirador de rezas” ou sacristão. Sua função pode ser desempenhada por mulheres de idade avançada, solteironas ou viúvas, sendo, em muitos casos, um ofício transmitido hereditariamente.

O sacristão exerce uma autoridade inconteste em questões espirituais, sendo consultado sobre fenômenos místicos, vidas de santos e o calendário litúrgico. Detém familiaridade com orações específicas para diferentes momentos da existência, nascimento, batismo, morte, e domina a execução de ritos tradicionais, como a Dança de São Gonçalo e diversas penitências e procissões. Ademais, possui um papel organizador nos festejos populares que mesclam o sagrado e o profano, tais como as cavalhadas, o Bumba-meu-Boi, funcionando, assim, como guardião da memória religiosa do grupo.

A remuneração pelo exercício dessa função varia. Embora alguns sacristões atuem gratuitamente em razão de promessas ou votos, a prática remunerada é comum, sendo os honorários ajustados previamente. Em muitas comunidades rurais, ele organiza ritos voltados ao auxílio das almas do purgatório, cujas manifestações são temidas e requerem a intervenção dos vivos. Tais ritos, como a Dança de São Gonçalo ou a Procissão de Covas, assumem formas variadas conforme a região, mas visam ao “refrigério das almas”, promovendo a pacificação dos mortos e evitando suas represálias sobre os vivos.

A presença do sacristão fomenta o surgimento de associações religiosas e grupos penitenciais, que percorrem as capelas e cruzeiros, entoando rezas e cânticos. As penitências, uma das mais reconhecidas reminiscências célticas no catolicismo europeu e, por desiderato, no brasileiro, são organizadas segundo critérios de idade e gênero. Elas desempenham um duplo papel: fortalecem a coesão comunitária e funcionam como um mecanismo de ordem e controle moral, vedando a participação daqueles que nutrem inimizades. A regularidade desses atos litúrgicos está condicionada ao calendário agrícola, intensificando-se nos períodos de entressafra.

"Entre os mais zelosos, há os que fazem promessas de andar descalços em longas jornadas, outros de carregar pesadas cruzes, e não são poucos os que se impõem jejuns rigorosos e cilícios para expiar suas culpas." - Frei Vicente, 1627. 

"Os mais devotos, nas sextas-feiras e na Semana Santa, tomam disciplinas públicas, açoitando-se diante dos altares, pedindo a misericórdia de Deus pelos pecados seus e dos outros." - Giovanni Antonio Andreoni (Antonil), jesuíta italiano, 1711.

"Saíam às ruas encapuzados, descalços, açoitando-se até que o sangue lhes banhasse as costas, em sinal de contrição e sacrifício." - relato sobre a Irmandades da Boa Morte, de Nossa Senhora dos Passos e dos Flagelantes, Bahia.

No seio do catolicismo popular, o sacristão e o festeiro desempenham funções que, na estrutura oficial da Igreja, caberiam ao sacerdote. O festeiro organiza as festividades, enquanto o sacristão mantém o vínculo direto com o transcendente. Essa organização permite que as comunidades rurais preservem certa autonomia religiosa, alheias à hierarquia eclesiástica formal. Esse distanciamento se manifesta, inclusive, na hierarquização dos sacramentos: apenas o batismo mantém um prestígio inquestionável, enquanto outros ritos, como o matrimônio e a extrema-unção, são frequentemente substituídos por práticas costumeiras.

O batismo, essencial por garantir a salvação da criança em um contexto de alta mortalidade infantil, estrutura a rede de compadrio, elemento fundamental para a coesão social. Esse laço ritual cria vínculos de solidariedade intergeracional, garantindo suporte mútuo entre padrinhos e afilhados ao longo da vida: "Minha comadre, aqui está seu filho que levei pagão e lhe entrego cristão". Dizia-se a mãe ao receber da madrinha de volta nos braços, a criança já batizada.

Além do batismo formal, práticas alternativas de compadrio, como os ritos de São João e da Semana Santa, reforçam os laços comunitários, promovendo a integração e a estabilidade social.

A atuação dos sacristões e festeiros revela, assim, a fusão entre religiosidade e organização social no mundo rural brasileiro, onde o catolicismo se perpetua não apenas pela institucionalidade clerical, mas sobretudo pela ação dessas figuras, que asseguram a continuidade das tradições e valores comunitários.

10 — Função dos ritos do catolicismo tradicional brasileiro.

Os ritos do catolicismo popular preservados no meio rural brasileiro desempenham um papel fundamental na consolidação dos laços comunitários. As festividades religiosas reforçam a coesão entre os vizinhos, enquanto as novenas familiares fortalecem os vínculos entre as famílias e os diversos ritos do compadrio promovem a solidariedade entre os indivíduos. A permanência desses ritos, em detrimento de outros, decorre da notável instabilidade do povoamento rural no Braʃil. O caboclo raramente se fixa de modo permanente em uma localidade, pois seus pequenos estabelecimentos agrícolas são precários e a vastidão do território disponível favorece sua mobilidade.

As práticas agrícolas tradicionais, como a coivara e o cultivo itinerante, acentuam essa tendência ao deslocamento. O caboclo cultiva a terra até que esta se esgote, deslocando-se então para novas áreas, onde repete o ciclo de derrubada e plantio. Suas moradias rústicas, feitas de pau-a-pique e cobertas de folhas de pindoba, são facilmente erguidas e abandonadas. Essa mobilidade se estende ao grupo de vizinhança, que, ao mudar-se, transfere também sua capela para um novo local, deixando a antiga sucumbir ao tempo e à vegetação.

Diferente das tradicionais famílias, estanques, em sua endogamia, que permeiam por gerações a mesma localidade. Nas classes baixas a vizinhança raramente é composta por descendentes de um mesmo tronco familiar, ao contrário, um conjunto de famílias conjugais sem laços de parentesco próximo. A mobilidade é regra entre seus membros, e os recém-casados frequentemente partem em busca de melhores condições de vida, integrando-se a novos bairros rurais. Esses núcleos são abertos à chegada de novos integrantes, desde que estes participem ativamente da vida coletiva. Nesse contexto, as festividades religiosas e o compadrio desempenham um papel essencial na integração social, sendo a contribuição para a Folia o primeiro passo para a aceitação na comunidade, processo que se consolida com o estabelecimento de laços de compadrio com famílias locais.


11 — Fatores que dão ao catolicismo tradicional sua fisionomia.

A configuração do catolicismo tradicional no Braʃil foi moldada por fatores estruturais que marcaram a organização social da população rural. A dispersão demográfica em um território vasto, a mobilidade imposta por uma agricultura predatória e a fluidez das comunidades de vizinhança determinaram a forma assumida pela religiosidade popular. Esses fatores, somados à escassez de clérigos e à herança do catolicismo popular português, fizeram com que a população rural selecionasse os ritos e associações religiosas mais adequados às suas necessidades. Assim, práticas como a festa, a novena e o batismo foram preservadas, bem como os grupos de dançadeiras de São Gonçalo e os penitentes, todos voltados ao fortalecimento dos laços sociais e familiares.

No interior desse universo religioso, estruturou-se uma hierarquia peculiar, representada pelo festeiro e pelo sacristão. O primeiro assume a organização das cerimônias coletivas, enquanto o segundo mantém a mediação entre as famílias e o sobrenatural. A religião, nesse contexto, assume primariamente uma função social, e não estritamente espiritual ou moral. Os valores religiosos não são buscados por si mesmos, mas sim como instrumentos para a coesão da comunidade. A melhoria individual se justifica na medida em que contribui para a harmonia social, e não como um fim em si.

Além de seu caráter social, o catolicismo tradicional brasileiro distingue-se por sua natureza utilitária. O culto dos santos, as festas e as novenas operam dentro de uma lógica de troca simbólica (do ut des), na qual os fiéis oferecem devoção e sacrifícios em busca de benefícios concretos. Essa relação pode levar tanto à cólera do santo contra seus devotos quanto ao descontentamento dos fiéis com o santo, resultando em represálias de ambas as partes.

Apesar das variações regionais, os elementos fundamentais dessa religiosidade são homogêneos em todo o território nacional. A estrutura básica é composta por ritos, crenças e um sistema hierárquico mínimo, no qual o festeiro e o sacristão figuram como agentes do culto. Essa simplicidade permite grande flexibilidade, abrindo espaço para inovações espontâneas dentro de um esquema religioso rudimentar e fluido.

O catolicismo tradicional e o bairro rural tradicional refletem-se mutuamente, compartilhando uma mesma lógica de organização precária e adaptável. Contudo, essa configuração é condicionada à manutenção de um modo de vida seminômade e economicamente sustentável. Onde ocorre a fixação definitiva da população e o declínio da prosperidade dos sitiantes, observa-se o empobrecimento da religião. Festividades antes elaboradas tornam-se progressivamente mais modestas, as Folias reduzem seus percursos e as procissões perdem seu apelo comunitário. Com o enfraquecimento da religiosidade popular, desestrutura-se também o bairro rural, cujas famílias passam a coexistir de maneira mais fragmentada e menos solidária.

Assim, o catolicismo tradicional e o bairro rural não apenas surgiram em resposta às mesmas condições, mas também compartilham um destino comum. A decadência de um implica necessariamente a dissolução do outro, pois ambos são elementos interdependentes na estrutura da sociedade rural brasileira.


12 — Conclusão.

O catolicismo tradicional brasileiro, vinculado à estrutura social do bairro rural tradicional, encontra-se sob ameaça em virtude das transformações no mundo rural. O avanço das vias de comunicação, a reorganização fundiária que favorece médias e grandes propriedades e a urbanização crescente tendem a extinguir essa forma específica de religiosidade, substituindo-a por novas configurações religiosas mais institucionalizadas. Além disso, a disseminação do protestantismo e do espiritismo acelera esse processo de dissolução das práticas rústicas.

Embora esse catolicismo tenha resistido ao longo do tempo, ele se apresenta como uma sobrevivência do passado, sem perspectivas claras de adaptação ao futuro. A transformação em curso, porém, não ocorre de forma abrupta, e parte significativa da população rural experimenta uma mudança sutil em sua vivência religiosa, muitas vezes imperceptível sem uma análise mais profunda.

Esse fenômeno provoca repercussões sociais e psicológicas, ainda pouco estudadas, sobretudo pela gradual destruição da configuração social do bairro rural. Paralelamente, observa-se um crescimento do cristianismo institucionalizado, mais alinhado às normas eclesiásticas, que se expande à medida que a sociedade brasileira se urbaniza e moderniza. Diferentemente do que postulam os modelos clássicos de secularização, no Brasil esse processo não resulta na redução da religiosidade, mas no fortalecimento das religiões oficiais em detrimento das manifestações tradicionais. A urbanização, assim, intensifica a polarização entre a religiosidade estruturada das cidades e a fluidez característica da religião popular do campo, acelerando a decadência da civilização tradicional.


O Castilhista


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quinta-feira, 24 de outubro de 2024

São Rafael Arcanjo - O Anjo da Guarda do Brasil.

"cada paróquia e diocese, cada cidade e país tem seu próprio anjo da guarda particular e poderoso."

Anne Catherine Emmerich


Desencadeada a Revolução de 30, também dita Revolução de Outubro, a três do dito mês, após 21 dias, no dia 24 de outubro a Revolução chegava ao seu fim, com a deposição de Washington Luís, evitando uma sangrenta batalha fratricida que teria se dado entre as duas forças em Itararé.  Por ter findada na data de festejo de São Rafael Arcanjo (24 de outubro), que a tradição já creditava como o anjo guardião do Brasil, São Rafael Arcanjo foi oficializado como o anjo da guarda do Brasil. 

A devoção de São Rafael Arcanjo no Brasil, esta umbilicalmente ligado a Nossa Senhora de Aparecida, posto que na antiga basílica de Aparecida figurava uma imagem do Arcanjo Rafael aos seu pés. Na bíblia, o Arcanjo Rafael, realiza curas através de um peixe, assim foi associado a Nossa Senhora de Aparecida, que surgiu em meio a rede de pescadores.  

Nas comemorações da Revolução de 30, a igreja a celebrava dizendo:

O Brasil, jovem nação, que suportou durante 40 anos um regime constitucional absurdo, eivado do confucionismo doutrinário das éras passadas e de um exótico liberalismo agnóstico, como o filho de Tobias, necessitava de um guia para conduzi-lo na viagem de regresso as suas tradições católicas. Daí a Providencia Divina, permitindo que fosse invocado São Rafael, quando o País, em armas lutava por uma reforma constitucional e regeneração política; consagrando o dia de sua festa litúrgica (24 de Outubro) com o término da luta fratricida, que, havia 21 dias, ensanguentava o território brasileiro.... Foi assim São Rafael, mais uma vez o portador da alegria – Ele que saudou a Tobias dizendo “Gaudium sit tibi semper” – alegria seja sempre contigo. E podemos afirmar que nunca o Brasil vibrou tanto de alegria tão explosiva, como naquele memorável 24 de Outubro de 1930.

É mister que o Brasil nunca se esqueça de tamanha proteção, em tão singular acontecimento, e que cultue São Rafael como seu Anjo da Guarda. Se hoje os brasileiros regem-se por um Constituição que reconhece e acata os Direitos de Deus e de sua Santa Igreja, podemos afirmar que não pode ser senão graças à proteção de São Rafael, invocado de norte a sul do País, por mais de 300 mil fiéis. 

Aos pés do trono de Nossa Senhora Aparecida, Rainha do Brasil, assiste o Arcanjo São Rafael, como primeiro Ministro do seu abençoado Reino!


São Rafael Arcanjo

O nome Rafael significa "Cura de Deus" ou, também, "Curador divino". É considerado o chefe dos anjos da guarda. Também invocado como o anjo da Providência, que está sempre velando por toda a humanidade. Na missão de São Rafael Arcanjo, está inclusa a cura das feridas da alma e do corpo. Também é um dos sete espíritos que assistem mais próximos de Deus. O Arcanjo Rafael é o terceiro mencionado na Bíblia, no livro de Tobias, velho testamento.

O Arcanjo Rafael é o guia e o defensor do jovem Tobias, enviado por Deus para ajudá-lo na tarefa que lhe foi confiada por seu pai, que se tornou cego, e o envia para receber um crédito que ele havia deixado em uma cidade na Média, na antiga Pérsia. No caminho, Arcanjo Rafael consegue um feliz casamento para Tobias com a jovem Sara, a cura dos sofrimentos causados por forças demoníacas e cura também Tobit, o pai de Tobias, da cegueira. Somente no final de sua missão, antes de retornar para o céu, ele se revela, declarando-se “um dos sete espíritos que estão sempre prontos para entrar na presença da majestade do Senhor” e se encarregando de escrever o que aconteceu.

Sendo um personagem de um Livro da Bíblia não reconhecido pelos protestantes, Arcanjo Rafael não é reconhecido pela maioria das confissões evangélicas. 

No Novo Testamento, quando Jesus cura um paralítico que tentava tocar a água do tanque de Betesda. Embora não seja mencionado o nome do anjo, se intelege ser o Arcanjo Rafael, que vez em quando descia no tanque e agitava a água, afim de curar qualquer doença ao primeiro que mergulha-se em seguida ao movimento das águas (João 5,4). 

Essa identificação permaneceu no culto, tanto que o trecho da cura do cego era lido nas missas dedicadas ao santo.

Posteriormente, o hábito de celebrar a festa litúrgica em 24 de outubro foi consolidado, e aceita pelo Papa Bento XV, que estendeu a festa de São Rafael a toda a Igreja Católica.

Particularmente devotado ao arcanjo Rafael era São João de Deus, a quem o anjo teria aparecido, garantindo-lhe proteção em sua obra de cuidar dos doentes e dos pobres; essa devoção continuou na ordem que ele fundou, os Irmãos Hospitalários.

Em consequência da influência de Arcanjo Rafael no catolicismo e dos hospitais católicos, inúmeros hospitais são dedicados a Rafael.


O Catecismo Católico Sobre os Anjos

§ 336 Desde o início até a morte, a vida humana é cercada por sua proteção e por sua intercessão. "Cada fiel é ladeado por um anjo como protetor e pastor para conduzi-lo à vida." Ainda aqui na terra, a vida cristã participa na fé da sociedade bem-aventurada dos anjos e dos homens, unidos em Deus.

Imagens nas artes

§ 1192 As santas imagens, presentes em nossas igrejas e em nossas casas, destinam-se a despertar e a alimentar nossa fé no mistério de Cristo. Por meio do ícone de Cristo e de suas obras salvíficas, é a ele que adoramos. Mediante as santas imagens da santa mãe de Deus, dos anjos e dos santos, veneramos as pessoas nelas representadas.

§ 2131 Foi fundamentando-se no mistério do Verbo encarnado que (sétimo Concílio ecumênico, em Nicéia (em 787), justificou, contra os iconoclastas, o culto dos ícones: os de Cristo, mas também os da Mãe de Deus, dos anjos e de todos os santos. Ao se encarnar, o Filho de Deus inaugurou uma nova "economia" das imagens.

§ 2502 A arte sacra é verdadeira e bela quando corresponde, por sua forma, à sua vocação própria: evocar e glorificar, na fé e na adoração, o Mistério transcendente de Deus, beleza excelsa invisível de verdade e amor, revelada em Cristo, "resplendor de sua glória, expressão de seu Ser" (Hb 1,3), em quem "habita corporalmente toda a plenitude da divindade" (Cl 2,9), beleza espiritual refletida na Santíssima Virgem Maria, Mãe de Deus, nos anjos santos. A arte sacra verdadeira leva o homem à adoração, à oração e ao amor de Deus Criador e Salvador, Santo e Santificador.

Identidade e encargos

§ 329 Santo Agostinho diz a respeito deles: "Angelus officii nomen est, non naturae. Quaeris nomen huius naturae, spiritus est; quaeris officium, angelus est; quaeris officium, angelus est, ex eo quod est, spiritus est, ex eo quod agit, angelus - Anjo (mensageiro) é designação de encargo, não de natureza. Se perguntares pela designação da natureza, é um espírito; se perguntares pelo encargo, é um anjo: é espírito por aquilo que é, é anjo por aquilo que faz". Por todo o seu ser, os anjos são servidores e mensageiros de Deus. Porque contemplam "constantemente a face de meu Pai que está nos céus" (Mt 18,10), são "poderosos executores de sua palavra, obedientes ao som de sua palavra" (Sl 103,20).

§ 332 Eles aí estão, desde a criação e ao longo de toda a História da Salvação, anunciando de longe ou de perto esta salvação e servindo ao desígnio divino de sua realização: fecham o paraíso terrestre, protegem Lot, salvam Agar e seu filho, seguram a mão de Abraão, comunicam a lei por seu ministério, conduzem o povo de Deus, anunciam nascimentos e vocações, assistem os profetas, para citarmos apenas alguns exemplos. Finalmente, é o anjo Gabriel que anuncia o nascimento do Precursor e o do próprio Jesus.

§ 333 Desde a Encarnação até a Ascensão, a vida do Verbo Encarnado é cercada da adoração e do serviço dos anjos. Quando Deus "introduziu o Primogênito no mundo, disse: - Adorem-no todos os anjos de Deus- " (Hb 1,6). O canto de louvor deles ao nascimento de Cristo não cessou de ressoar no louvor da Igreja: "Glória a Deus..." (Lc 2,14). Protegem a infância de Jesus, servem a Jesus no deserto, reconfortam-no na agonia, embora tivesse podido ser salvo por eles da mão dos inimigos, como outrora fora Israel. São ainda os anjos que "evangelizam", anunciando a Boa Nova da Encarnação e da Ressurreição de Cristo. Estarão presentes no retorno de Cristo, que eles anunciam serviço do juízo que o próprio Cristo pronunciará.

§ 334 Do mesmo modo, a vida da Igreja se beneficia da ajuda misteriosa e poderosa dos anjos.

§ 335 Em sua Liturgia, a Igreja se associa aos anjos para adora o Deus três vezes Santo; ela invoca a sua assistência (assim em In Paradisum deducant te Angeli... - Para o Paraíso te levem os anjos, da Liturgia dos defuntos, ou ainda no "hino querubínico" da Liturgia bizantina). Além disso, festeja mais particularmente a memória de certos anjos (São Miguel, São Gabriel, São Rafael, os anjos da guarda).

§ 336 Desde o início até a morte, a vida humana é cercada por sua proteção e por sua intercessão. "Cada fiel é ladeado por um anjo como protetor e pastor para conduzi-lo à vida." Ainda aqui na terra, a vida cristã participa na fé da sociedade bem-aventurada dos anjos e dos homens, unidos em Deus.

§ 350 Os anjos são criaturas espirituais que glorificam a Deus sem cessar e servem a seus desígnios salvíficos em relação às demais criaturas: "Ad omnia bona nostra cooperantur angeli. - Os anjos cooperam para todos os nossos bens"

§ 351 Os anjos cercam Cristo, seu Senhor. Servem-no particularmente, no cumprimento de sua missão salvífica para com os homens.

§ 352 A Igreja venera os anjos que a ajudam em sua peregrinação terrestre e protegem cada ser humano

§ 1034 Jesus fala muitas vezes da "Geena", do "fogo que não se apaga", reservado aos que recusam até o fim de sua vida crer e converter-se, e no qual se pode perder ao mesmo tempo a alma e o corpo. Jesus anuncia em termos graves que "enviar seus anjos, e eles erradicarão de seu Reino todos os escândalos e os que praticam a iniquidade, e os lançarão na fornalha ardente" (Mt 13,41-42), e que pronunciar a condenação: "Afastai-vos de mim malditos, para o fogo eterno!" (Mt 25,41).

Na anáfora

§ 1352 A anáfora. Com a Oração Eucarística, oração de ação de graças e de consagração, chegamos ao coração e ao ápice da celebração. No prefácio, a Igreja rende graças ao Pai, por Cristo, no Espírito Santo, por todas as suas obras, pela criação, a redenção, a santificação. Toda a comunidade junta-se então a este louvor incessante que a Igreja celeste, os anjos e todos os santos cantam ao Deus três vezes santo.

Nas aparições de Fátima o Santo Anjo da Guarda de Portugal apareceu aos pastores e deu diversas instruções, entre elas, ensinou duas orações para serem rezadas em reparação pelos fiéis no mundo todo, são elas:

“Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que não creem, não adoram, não esperam e não Vos amam. Amém”

“Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores”.

São Tomás de Aquino em sua obra Suma Teológica diz que os anjos são espíritos puros, criados por Deus, imortais e dotados de inteligência e vontade. Na mesma obra sistematiza uma hierarquia angélica, segundo o qual:

Todo o Coro Angélico se divide em três hierarquias. A Primeira Hierarquia se divide em três ordens:

1ª Ordem, a dos Serafins (ardor caritativo: imagem do amor divino);

2ª Ordem, a dos Querubins (plenitude de ciência: imagem da sabedoria divina) e a

3ª Ordem, a dos Tronos (assento de Deus: compreendem o juízo divino).

A Segunda Hierarquia se divide em três ordens:

1ª Ordem, Dominação (governo dos próprios anjos: domina e distingue o que fazer);

2ª Ordem, Virtude (executa a ordem da dominação com relação à natureza física) e a

3ª Ordem, Potestade (ocupa-se do combate aos anjos caídos).

A Terceira Hierarquia também se divide em três ordens:

1ª Ordem, Principado (guia na execução dos atos e dirigem os destinos das nações);

2ª Ordem, Arcanjo (anuncia importantes missões aos homens e guarda as pessoas que desempenham importantes funções para a glória de Deus, como o Papa, bispos e sacerdotes) e a

3ª Ordem, Anjo (anuncia, comunica e protege individualmente cada homem). 

Esta é a ordem hierárquica dos anjos estabelecida em relação à perfeição da glória e ao que a natureza tem e recebeu na origem de sua criação.


A beata Anne Catherine Emmerich em uma de suas revelações  disse que: "cada paróquia e diocese, cada cidade e país tem seu próprio anjo da guarda particular e poderoso.".

Outro que devotava grande devoção aos anjos era Padre Pio, que desde criança, dizia vê-los. Dizia, aos seus filhos espirituais, que se precisassem: "enviem-me o seu anjo da guarda.". E assim, durante várias horas, de dia ou noite, ouvia as mensagens trazidas por seus respectivos anjos da guarda. Dentre tantos casos relacionados entre Padre Pio e Anjos da Guarda, registra-se um em que: "Um homem contou para Padre Pio: 

- Não posso vir vê-lo freqüentemente. Meu salário não me permite tais viagens longas e caras. 

Ao que respondeu Padre Pio: 

- Quem lhe disse que precisa vir aqui? Você tem seu Anjo da guarda, não o tem? Conte-o o que quer, e o envia a mim, e você terá a resposta!


Querida filha de Jesus:

Que o teu coração sempre seja o templo da Santíssima Trindade, que Jesus aumente em teu espírito o ardor do seu amor e que Ele sempre te sorria como a todas as almas a quem Ele ama. Que Maria Santíssima te sorria durante todos os acontecimentos da tua vida, e abundantemente substitua a mãe terrena que te falta.

Que teu bom anjo da guarda vele sempre sobre ti, que possa ser teu guia no áspero caminho da vida. Que sempre te mantenha na graça de Jesus e te sustente com suas mãos, para que tu não tropeces em nenhuma pedra. Que te proteja sob suas asas de todas as armadilhas do mundo, do demônio e da carne.

Esforça-te, Annita, por ter uma grande devoção a esse anjo tão benéfico. Que consolador é saber que perto de nós há um espírito que, do berço ao túmulo, nunca nos abandona, nem mesmo quando nos atrevemos a pecar! E este espírito celestial nos guia e protege como um amigo, um irmão.

É mais consolador ainda saber que esse anjo ora sem cessar por nós, oferece a Deus todas as nossas boas ações, nossos pensamentos, nossos desejos, se são puros.

Por caridade, não te esqueças desse companheiro invisível, sempre presente, sempre pronto a nos escutar e mais ainda a nos consolar. Ó deliciosa intimidade! Ó feliz companhia! Se soubéssemos pelo menos compreendê-la…!

Mantém sempre [teu anjo] diante dos olhos da alma, recorda-te com frequência da presença desse anjo. Agradece, ora, nutre sempre para com ele uma boa companhia. Abre-te e confia a ele teus sofrimentos. Toma sempre cuidado para não ofenderes a pureza do seu olhar: toma conhecimento e fixa bem esta verdade em tua alma. Ele é muito delicado, muito sensível. Dirige-te a ele em momentos de suprema angústia e experimentarás os seus benéficos efeitos.

Nunca digas que estás sozinha na batalha contra os teus inimigos. Nunca digas que não tens ninguém com quem te possas abrir e confiar. Isso seria uma grande ofensa que se faria a este mensageiro celestial.

No que diz respeito às locuções interiores, não te preocupes, fica tranquila. O que sim deves evitar é prender o teu coração a estas locuções. Não dês muita importância a elas, mostra-te indiferente. Não a desprezes; porém não ames nem desejes tais coisas. Deves sempre responder a estas vozes assim: “Jesus, se sois vós quem me falais, fazei-me ver concretamente os efeitos da tua palavra, ou seja, as santas virtudes em mim.”

Humilha-te diante do Senhor e confia nele. Gasta tuas melhores energias com a graça divina praticando as virtudes, e deixa então que a graça opere em ti conforme a vontade de Deus. São as virtudes que santificam a alma, e não os fenômenos sobrenaturais.

Não te perturbes procurando saber entender quais locuções vêm de Deus. Um dos principais sinais de que estas locuções vêm de Deus é que, tão logo ouvimos estas vozes, nossa alma se enche de temor e perturbação, mas logo em seguida deixam a alma numa paz divina. Por outro lado, quando as locuções interiores provêm do inimigo, no início provocam uma falsa segurança, mas logo em seguida vêm uma perturbação e um mal-estar indescritíveis. Não duvido em absoluto de que Deus seja o autor de tais locuções; mas é preciso que sejas cautelosa, porque muitas vezes o inimigo pode misturar ali coisas que são dele.

Mas isso não te deve assustar: esta é uma provação à qual foram também submetidos os maiores santos e as almas mais iluminadas que, não obstante tudo isso, foram agradáveis ao olhar de Deus.

Deves somente prestar atenção a nunca crer facilmente nestas locuções, e de forma especial quando se trata daquelas que exigem que faças algo ou indicam o modo de agir. E cuida de, ao recebê-las, submeter tudo ao juízo de quem te dirige espiritualmente, obedecendo às suas decisões.

Recebe, portanto, tais locuções com muita cautela e com humilde e constante indiferença. Comporta-te dessa maneira e tudo fará crescer teus méritos diante do Senhor. Põe teu espírito em paz: Jesus te ama e muito. Quanto a ti, procura corresponder a este amor, sempre progredindo em santidade diante de Deus e dos homens.

Faze também orações vocais, pois ainda não chegou a hora de deixá-las e suporta com humildade e paciência as dificuldades que experimentas ao fazer isto. Prontifica-te também a sofrer as distrações e a aridez, mas nunca abandones a oração e a meditação. É obra do Senhor que assim deseja tratar-te para teu proveito espiritual.

Perdoa-me se termino por aqui. Só Deus sabe o muito que me custou escrever esta carta. Estou muito doente; reza bastante para que o Senhor queira logo me livrar deste corpo.

Eu te abençoo, e também à querida Francisca. Desejo que vivais e morrais nos braços de Jesus. 

Frei Pio

 

Padre Pio tinha rezava diariamente ao seu Anjo da Guarda, a seguinte oração:

Anjo de Deus, meu guardião,

a quem a bondade

do Pai Celestial me confia,

Ilumine, proteja e guie-me agora e para sempre.

Amém.


durante a noite  “Oração do Santo Anjo para Antes de Dormir.”:

“Santo anjo da guarda, meu poderoso protetor, guardai-me sempre na paz de vosso amor. 

Dos perigos, livrai-me; do mal, libertai-me; e nos momentos de angústia, consolai-me! Durante o sono, velai sobre o meu descanso, não deixeis o mal de mim se aproximar. 

Sob as asas do seu amor, possa meus sonhos habitar! Nesta noite de luz, afugentai as trevas do medo, afastai também as tentações, para que minha alma tranquila descanse sem aflições. 

E que no alvorecer de um novo dia, eu acorde feliz e restaurado, e seja para o mundo testemunha de ser sempre por vós amado!”




ORAÇÃO AO  ANJO DA GUARDA DO BRASIL 

Santo Anjo do Brasil, vós fostes encarregado pelo Pai Eterno de guardar esta Terra de Santa Cruz e ajudá-la a crescer e desenvolver-se conforme Seus desígnios benevolentes. 
Nós cremos no vosso poder junto de Deus e confiamos na vossa prontidão em socorrer-nos. Sede, pois, nosso guia para que cumpramos convosco a nossa missão no mundo. 
Ajudai a Igreja no Brasil a anunciar Cristo com franqueza e alegria e penetrar toda a sociedade com o fermento do Evangelho. 
Afastai, com a força da Santa Cruz, todos os poderes inimigos que ameaçam os brasileiros. 
Unimos as nossas preces às vossas. Apresentai-as diante do Trono de Deus, para que, unidas ao sacrifício de Jesus, oferecido diariamente em nossos altares, alcancem aquelas graças que mais precisamos nesta hora de combate espiritual. 
E guardai-nos sempre debaixo do manto protetor de Nossa Senhora Aparecida, nossa Mãe e Rainha, para que permaneçamos fiéis no caminho de Jesus, o único que nos conduz da terra ao Céu. Lá na assembleia de todos os povos, unidos como uma só família de Deus, louvaremos e agradeceremos convosco ao Pai Eterno, com seu Filho e Espírito de Amor, por toda eternidade. Amém. 
 04/11/1934, Ação Católica, A Cruz. 

 

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A Infiltração Religiosa - A Fórmula Imperialista de Desfragmentar Nações



segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Dia de Todos os Santos, o Culto aos Mortos, uma Fé Celto-Católica.

"...Quanto aos mártires, nós os amamos justamente como discípulos e imitadores do Senhor, por causa da incomparável devoção que tinham para com o rei e mestre. Pudéssemos nós também ser seus companheiros e condiscípulos! Desse modo, pudemos mais tarde recolher seus ossos, mais preciosos do que pedras preciosas e mais valiosos do que o ouro, para colocá-los em lugar conveniente. Quando possível, é aí que o Senhor nos permitirá reunir-nos, na alegria e contentamento, para celebrar o aniversário de seu martírio, em memória daqueles que combateram antes de nós, e para exercitar e preparar aqueles que deverão combater no futuro. (Martírio de São Policarpo, cap.  XVII)"

Entre a noite de primeiro e dois de novembro, os celtas celebravam o Samonios. Oportunidade em que realizavam grandes assembleias religiosas, políticas e rituais em um território fronteiriço e com túmulos. Por isso, a ocorrência arqueológica de túmulos megalíticos nos locais de celebração, pois para os celtas era necessário lembrar e estar com seus ancestrais e recriar os feitos das eras míticas da gênese de seu povo. Cria-se que nessa época e nesses locais, o mundo Além, o Sidh, confluia com o dos vivos. E assim, as almas dos mortos eram capazes de interagir com o mundo dos vivos. Com o advento do cristianismo, esses ritos, no Sec. IX, foram cristianizados sob o nome de Todos os Santos a se celebrar no primeiro dia de novembro.

No norte de Portugal e Galiza, resquícios dessas tradições se mantiveram, tomando o nome popular de Magusto, e assim mantendo a tradição de ascender fogueiras nos cumes dos montes, ermos, visíveis da freguesia. Na noite de véspera, se assava castanhas nas fogueiras acesas, realizavam uma ceia, da qual parte era reservada ao morto, se peregrinava aos cemitérios e costumava-se deixar alguma comida aos seus mortos. As crianças, saiam de casa em casa, pedindo comida, abençoando os que davam e desconjurando os que negavam. Talhavam caveiras em abóboras, melancias, ou cabaças e punham a frente das casas para assim afugentar maus-espíritos. A igreja tentou, em vão, abolir esses ritos, que persistiram. Um padre de Límia Alta dizia em carta ao bispo: “Aqui, o que menos importa são os Santos. Quem têm verdadeira importância, e são os protagonistas destes dois dias, são os mortos”.

O culto aos mortos é uma influência oriunda de povos indo-europeus, posto ser inexistente esse tipo de culto em credos de populações semíticas. A região da galileia, como denuncia seu nome, era habitada originalmente por povos indo-europeus. Não existe, no judaísmo, qualquer traço nesse sentido, se quer a crença de um "além vida". Daí se dizer que o judaísmo é um credo "materialista", contraposto as religiões de matrizes indo-europeias tidas como "espiritualistas". Essencialmente a "boa-nova" que surge com o cristianismo é a crença na vida após a morte, que, para os indo-europeus não era novidade, mas sim para os judeus.  Soa irônico, que crentes, quase sempre, de seitas neopetencostais façam apologia a Israel, ou ao judaísmo, com alguns chegando ao cúmulo a se "converterem", ao mesmo tempo que mantem a crença de um "paraíso" pós vida. O judaísmo é a negação dessa crença.... !  

O sincretismo das crenças indo-européias com o judaísmo, junto a influência ocidental, inicialmente com o império alexandrino, e uma posterior ocupação romana sob a região, faz surgir o cristianismo, sob a forma de um judaísmo-reformado. Isso explica a rápida expansão do cristianismo dentro das fronteiras do mundo indo-europeu (incluso na própria galiléia com Cristo), ao passo, que entre as populações semíticas, quase não floresceu, antes sempre foi fortemente combatido. 

São Martinho, celebrado em 11 de nov.
em Portugal, durante o Magusto. Q.do
parentes e amigos assam castanhas em
torno de uma fogueira regados a vinho.
A igreja, ao menos, na atualidade, foca o Dia de Todos os Santos, nos Santos canonizados, e menos nos mártires, e menos ainda nos finados. Esses últimos, porém, ainda que sem negálos, quase não são objeto de culto. Concomitante a isso, há a comercialização do Halloween, importado dos EUA. Originalmente o halloween foi levado para os EUA pelos irlandeses, e tem a mesma origem celta do Magusto nortenho de Portugal e Galiza. Contudo, sua comercialização sofreu profundas deturpações, que o distanciam. E mais das vezes afrontam o sentido original (honrar os ancestrais, e pedir por suas bençãos e proteções) ultrajando os mortos, quase sempre associando-os a espíritos maléficos ou amaldiçoados.... uma clara visão deturpada dos protestantes. 

Oque importa dizer, é que o Dia de Todos os Santos, originalmente, concebido pelo catolicismo açambarca não só o culto aos Santos canonizados e Mártires, como também os mortos. "Santos" em sentido lato são todos os mortos. Assim, sempre foi, desde remotamente com as primeiras comunidades cristãs. Os mortos, não apenas devem ser lembrados, honrados, ou mesmo ser objeto de orações para purgar seus pecados, como são pedidos a intercederem pelos vivos. 

O Catecismo Católico atesta que: “os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas não estão completamente purificados, embora tenham garantida a sua salvação eterna, passam, após sua morte, por uma purificação, a fim de obterem a santidade necessária para entrarem na alegria do Céu.”. Por isso, a Igreja sempre julgou salutar a oração pelos mortos para a satisfação das penas de seus pecados, bem como para que alcançassem o perdão de Deus. Além disso, as orações transmitem uma nova alegria aos mortos, que se regozijam pelas orações que lhe são ofertadas.

A fé católica não se restringe a esta doutrina consoladora que abre o céu às almas dos justos. Ela admite também um intercâmbio entre o mundo terreno e o outro mundo. Todos os homens resgatados são membros de um único corpo em Jesus Cristo, e assim formam uma única família, imensa, unida pelo laço da caridade. Esta união espiritual ocorre por meio da oração. Nossos antepassados nos prestam o socorro pela sua intercessão e sua assistência; da nossa parte, os vivos, lhes pedimos este socorro na veneração e na afeição. Tal é a doutrina da Comunhão dos Santos. Assim, lá no alto, os que se foram não são simples espectadores que se contentam em gozar, mas fiéis associados de seus irmãos ainda em luta sobre a terra.

Fartos são os registros arqueológicos em tumbas de comunidades cristãs primitivas, atestando tanto a veneração aos Santos, de suas imagens, como também aos mártires e aos mortos:

·         “Sutius, reze por nós, afim que sejamos salvos. PETE PRO NOS (sic) VT SALVI SIMVS”.

·         “Augenda, vive no Senhor e intercede por nós. EPΩTA”.

·         “Anatolius, ore por nós. EYXOY”.

·         “Filho, que teu espírito descanse em Deus; interceda por tua irmã. PETAS”.

·         “Matronata Matrona, ore por teus pais Ela viveu um ano e cinquenta e dois dias. PETE”.

·         “Atticus, teu espírito vive no Bem: implore por teus pais”.

·         “Joviano, viva em Deus e seja nosso intercessor”.

Não se deve cometer distorções, tão comumente feitas por protestantes e "ortodoxos", em considerar como "idolatria" a devoção aos Santos (em seu sentido lato). As críticas pelos protestantes, da devoção aos santos e suas relíquias, é fruto de traduções, e interpretações errôneas da Bíblia, bem como descontextualizadas. Se fundam quase sempre no versículo 20, 4 do livro de Êxodo, que diz:

“Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra.” (Ex 20, 4)

Ocorre que a tradução do hebraico, no Velho Testamento, língua em que foi escrito originalmente, a palavra: “פֶסֶל֙ ” (fessel) significa na realidade “ídolo”. E não “imagem de escultura” como comumente foi traduzida nas bíblias protestantes. 

Algumas páginas a frente, em Êxodo 25, Deus ordena a Moisés fazer “imagens”:

“Farás também dois querubins de ouro; de ouro batido os farás, nas duas extremidades do propiciatório.” (Ex 25,18)

Contraditório? Não... ! Oque Deus proíbe, é a fabricação de ídolos.

“Não terás outros deuses diante de mim.

Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra.

Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta..” (Êxodo 20, 3-5)

Vemos que a passagem não se refere a “imagens” e sim a “deuses”, ou seja, a proibição se referia as imagens de deuses egípcios. Os deuses egípcios eram todos representados em imagens e pinturas, daí vem a proibição para que não mais fizessem representações destes deuses.

Como vemos a palavra não diz respeito a “imagem”, e sim a ídolos esculpidos, ou seja imagens de ídolos.  Dessa forma vemos que a passagem é uma clara referência aos deuses do Egito, como mais uma vez, podemos ver:

“Não farás para ti ídolos ou coisas alguma que tenha a forma de algo que se encontre no alto do céu, embaixo na terra, ou nas águas debaixo da terra”. (êxodo 20, 4)

A referência a ídolos do “alto do céu” é uma referência aos Deuses egípcios dos ares: “”, representado por um homem com a cabeça de um falcão, “Horus”, “Íbis”, “Toth”; “embaixo da terra”, a “Anúbis”, “Ápis”, “Khepra” , “Bastet”, etc.... ; e “ou nas águas debaixo da terra”, os deuses que habitavam as águas, adorados no Egito: “Sebek” um deus com cabeça de crocodilo, “Taueret” deusa em forma de hipopótamo, protetora das mulheres grávidas, etc.

Para que não haja qualquer dúvida de que Deus se referia aos falsos deuses do Egito, veja um trecho do livro de Josué:

“Agora, pois, temei o Senhor e o servi-o com inteligência e fidelidade. Afastai os deuses aos quais vossos pais serviram do outro lado do rio e no Egito, e servi ao Senhor”. (Josué 24, 14).

E para maior certeza de que Deus falava dos falsos deuses do Egito, leiamos Ezequiel 8, 8-10:

“Filho do homem, disse-me ele, fura a muralha, quando a furei, divisei uma porta. Aproxima-te, diz ele, e contempla as horríveis abominações a que se entregam aqui. Fui até ali para olhar: enxerguei aí toda espécie de imagens de répteis e animais imundos e, pinturas em volta da parede, todos os ídolos da casa de Israel”.

Em outra passagem, Deus ordena a Moisés fazer uma “serpente abrasadora”:

"Faze uma serpente abrasadora e coloca-a em uma haste. Todo aquele que for mordido e a contemplar viverá." Moisés, portanto, fez uma serpente de bronze e a colocou em uma haste; se alguém era mordido por uma serpente, contemplava a serpente de bronze e vivia.  (Nm 21,8-9)

A serpente abrasadora foi uma prefiguração de Cristo e o próprio confirma isto, ou seja, sua crucificação:

Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que seja levantado o Filho do Homem, a fim de que todo aquele que crer tenha nele vida eterna. (João 3, 17)

E por isso a representação, de crucifixos, com Cristo crucificado na cruz. 


Não é demais, diante das distorções dos protestantes e "ortodoxos", aclarar obviedades. Assim por "ídolos", consiste as imagens ou esculturas adoradas como a um "deus". Oque não ocorre na devoção dos Santos, Mártires e aos finados. Esses intercedem por nós a Deus. Santo Agostinho, em um de seus sermões, junto ao sepulcro de São Cipriano, diz:
 “Com efeito, não temos levantado um altar a Cipriano como a um deus, mas que temos feito de Cipriano um altar para o verdadeiro Deus”. (Sermone 313A). 

Em outro de seus sermões, agora, sobre o mártir Santo Estevão, diz: “Nós não temos levantado neste lugar um altar para Estevão, mas, com as relíquias de Estevão, um altar a Deus”. (Sermone 318).

Ainda, Santo Agostinho, condena a negação de Ário (arianismo) dos oferecimentos dos mortos, como uma de suas heresias: “a autoridade da Igreja universal que se reflete nesse costume não é pequena [....] não há dúvida que eles (os mortos) são beneficiados pelas devoções que os fiéis manifestam”.

Se a Igreja hoje não enfatiza tanto esse culto aos mortos, o catolicismo popular o mantem fortemente vivo, como atestado por Euclides da Cunha, tratando sobre os sertões
“O culto dos mortos é impressionador. Nos lugares remotos, longe dos povoados, inumam-nos à beira das estradas, para que não fiquem  de todo em abandono, para que os rodeiem sempre as preces dos viadantes, para que nos ângulos da cruz deponham estes, sempre, uma flor, um ramo, uma recordação fugaz mas renovada sempre. .... ". 
E ainda no Dia de Finados, os cemitérios viram ponto de peregrinação por parentes, saudosos de seus entes queridos que se foram. Pululam em todos os rincões do Brasil, de norte a sul, leste a oeste, histórias de navios fantasmas naufragados, às almas penadas que habitam casarões de remotas fazendas, ou mesmo de pessoas "encantadas" que surgem nas matas em auxílio dos que, aflitos, suplicam ajuda. É dizer, os brasileiros, vivem em comunhão com seus mortos. É nesse esteio, que Guimarães Rosa sentencia: “As pessoas não morrem, ficam encantadas”.

Anne Catherine Emmerich, freira alemã e vidente, que se notabilizou por suas visões passadas e futuras sobre a igreja, dizia que a forte ligação - mesmo muito tempo depois de suas mortes - entre almas sagradas no Céu e seus descendentes aqui na terra, duravam séculos. Toda primeira formação do Brasil se deu no combate aos hereges protestantes franceses, e posteriormente holandeses, bem como na conversão de almas indígenas e escravos africanos. Como esquecer os Mártires de Cunhaú? Atrozmente martirizados, por se negarem a renunciar a Santa Fé Católica. E hoje, triste e desairosamente, seus descendentes aderem a credos dos que lhes condenaram a morte. É o mesmo que os renegarem e, por assim, quebram o elo com nossos ancestrais. Devemos pois, nesses tempos de atribulações, em que nossa pátria e a Santa Fé Católica são por todos os lados atacados, rezar aos nossos ancestrais para que intercedam por nós. E eles continuam zelando por nós, como sempre estiveram, ao longo de todos esses séculos, desde a Reconquista contra os Mouros, que assim, conservando a ibéria católica, propiciou com a expansão marítima a expansão da nossa fé para o mundo! E nós seus descendentes, o legado que nos foi confiado, conservar esse Brasil, a Sagrada Terra do Brasil, fruto dessa expansão marítima, aonde possamos professar nossa Santa Fé Católica, e dela com os do nosso sangue, como que por predestinação divina.... dilatar a fé e o Império! 

Representação dos Santos Mártires do Engenho Cunhaú, atrozmente mortos, incluso crianças, por se recusarem a renegar a Fé Católica.




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