quarta-feira, 20 de maio de 2026

A Malha Ferroviária Brasileira, Construtores e Sabotadores.

 


Desde a primeira ferrovia de Mauá (1854) até o fim da monarquia, com Dom Pedro II (1889), a extensão total da malha ferroviária do Brasil Império atingiu 9.583 km. A guisa de comparação, a Argentina, no mesmo período, com um território quatro vezes menor e uma população muito mais ínfima, que à época se resumia a uma única cidade de envergadura, Buenos Aires, detinha 9.432 km de ferrovias. Outra comparação reveladora é com os Estados do Sul dos EUA (excluindo os do Norte, mais industrializados), eminentemente agrícolas e escravocratas, que, em 1861, antes da eclosão da Guerra Civil Americana, contavam com 15 mil km de malha ferroviária. Outro paralelo é a Rússia, ainda 'feudal' e agrícola, que, em 1880, já contava com 15.500 km de ferrovias! Até 1890, expandiu para 21.000 km! O que, mais uma vez, ante tantas outras evidências, desmonta as deslavradas mentiras monarquistas, destinadas a enganar trouxas, sobre um Império próspero e desenvolvido. Cabe assinalar que essa parca extensão, no Brasil, era fruto quase exclusivamente de iniciativas privadas, ao passo que, na Argentina, como na Rússia Czarista, sua rede ferroviária foi estendida com forte aparato estatal. E é justamente pela mão do Estado que o Brasil observará, na República Velha, sua expansão ferroviária.


A República Velha e o Verdadeiro Ciclo de Expansão

A República marcou o início do verdadeiro ciclo de expansão ferroviária brasileira em escala nacional. Ao contrário do período imperial, em que as linhas surgiam de forma fragmentada e majoritariamente subordinadas aos interesses privados exportadores, a República Velha consolidou uma política mais ampla de integração territorial e modernização logística.

Os presidentes que mais expandiram a malha ferroviária do Brasil foram aqueles que governaram entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX, período em que houve forte investimento em infraestrutura ferroviária. Os principais destaques são:

Prudente de Morais (1894-98): Registrou a construção de 2.265 km de ferrovias.

Campos Sales (1898-1902): Adicionou 1.078 km à malha nacional.

Afonso Pena (1906-09) e Nilo Peçanha (1909-10): Sob o governo de Afonso Pena, houve cerca de 2.500 km construídos. Seu falecimento antes de encerrar o mandato, entre 1909 e 1910, no governo de Nilo Peçanha, foram inaugurados mais 2.000 km de malha, fruto de obras e contratos já iniciados e ajustados anteriormente no governo de Afonso Pena. Isso totalizou 4.500 km de ferrovias construídas no Brasil, um verdadeiro salto como nunca houvera havido, até então, em tão curto espaço de tempo. Em 1906, a malha estava em torno de 16.000 km e, em 1909, chegou a aproximadamente 18.500 km.

Hermes da Fonseca (1910-14): Seu governo realizou o maior "boom" ferroviário da história do Brasil (entre 1907 e 1914), com 4.767 km de linhas férreas construídas, impulsionado pelos lucros do café e pela política de arrendamentos de ferrovias pelo governo federal. Ele é o verdadeiro campeão de expansão em um único mandato republicano.

Epitácio Pessoa (1919-22): Apresentou um crescimento relevante de aproximadamente 1.500 km.

Arthur Bernardes (1922-26): Em 1922 (ano do Centenário da Independência), a malha ferroviária estava próxima de 26.500 km (fontes apontam que o Brasil já possuía aproximadamente 29.000 km de ferrovias, curiosamente quase a mesma extensão da malha operacionalizada que o país possui hoje). Bernardes entregou efetivamente no curso do seu governo 2.172 km de novas linhas férreas (atingindo cerca de 28.500 km em 1926). De igual modo que sucedeu com Afonso Pena, seu sucessor acabou colhendo os frutos de sua gestão.

Washington Luís (1926-1930): Inaugurou mais 2.500 km, em grande parte linhas já iniciadas por Arthur Bernardes. Durante seu governo, a malha cresceu em torno desses 2.500 km, embora ele tenha adotado o lema "governar é abrir estradas".


A Era Vargas (1930-45 / 1951-54): Expansão e Modernização das Vias Férreas Brasileiras:

Com a ascensão de Getúlio Vargas, o ritmo de expansão manteve-se expressivo em seu primeiro período, acrescendo 4.000 novos quilometros de linhas férreas para o Brasil, com a malha ferrovirária brasileira chegando a um total de 34.000 km. Havendo uma estagnação na década de 1950, em seu segundo mandato, sua prioridade se voltou para a consecução da Petrobrás e da Eletrobrás, além de ter sido um mandato incompleto com seu trágico desfecho. 

Antes de Vargas, as locomotivas eram a vapor, e as locomotivas elétricas já eram uma realidade, com maior capacidade de carga, velocidade e menor custo logístico. E Vargas deu início a modernização de todas, antiquadas, linhas férreas brasileiras. Caso da Estrada de Ferro Central do Brasil (EFCB). Também foi com Vargas que passou-se a padronizar as bitolas, que, anteriormente, diferia conforme as empresas contratadas para a construção dos ramais. Esse grave erro não foi fruto do acaso, visava impedir a integração ferroviária nacional, fenomeno também observado na Argentina, que teve suas vias férreas construidas por companhias inglesas. 


Jucelino Kubitcheck (1956-61), O Começo do Fim:

No governo JK, o Brasil atingiu o seu pico histórico de malha ferroviária, girando entre 37.000 km e 38.200 km, quando passa a decair com o próprio JK, que deu início ao processo de desativação de ramais, tidos, por deficitários. 

No seu governo foram acrescidos entre 850 à 1.000 km de novos ramais, contudo, eram ferrovias inciadas ainda no governo Vargas, oriundas de seu Plano de Metas (Vargas), e conclusas em seu mandato (JK). Exemplo foi a conclusão de trechos da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil bem como as ligações na Rede Mineira de Viação que haviam sido iniciados décadas antes tanto no primeiro governo Vargas (1930-45), como em seu segundo governo (1951-54). Não houve nenhum acréscimo de novas ferrovias originárias do seu mandato, mas sim o início das desativações de ramais. 
 
A desativação física de ramais foi simbólica (menos de 200 km efetivos). O que JK fez, na verdade, foi preparar o terreno legal e institucional: Criou a RFFSA - Rede Ferroviária Federal S.A. (1957) unificando as ferrovias federais para mapear quais eram deficitárias e desativá-las, esse foi o real intuito de sua criação. Sem a unificação, o governo federal não poderia desativar ferrovias sob controle estaduais mediante sua federalização. Foi criado o conceito de "Ramal Antieconômico", dando ensejo a diretriz de que ramais de baixa densidade deveriam ser fechados e substituídos por rodovias.

Assim, no governo JK, a malha operada pela RFFSA permaneceu estável (entre 28.460 km em 1957 para 28.583 km em 1960). 


A Ditadura Militar (1964–85): O Trator da Erradicação:

Se JK planejou, os governos militares executaram a erradicação com força máxima. O processo ocorreu em etapas cirúrgicas:

Sob o governo de Castelo Branco, foi criado o GESFRA (Grupo Executivo para Substituição de Ferrovias e Ramais Antieconômicos).

Governo Costa e Silva, O "Boom" da Erradicação (1966–70): Somente nesses quatro anos de forte repressão, foram eliminados 3.926 km de vias férreas.

Governo Médici (1969-74): Em 1974, o total de ramais completamente erradicados pela Ditadura já somava 4.881 km (algumas fontes apontam até 7.500 km computados os trechos que tiveram o tráfego permanentemente suspenso à espera da retirada dos trilhos).

Cidades inteiras do interior (especialmente em redes como a Leopoldina, no Rio/Minas, e a Rede Nordeste) viram seus trilhos serem literalmente arrancados e vendidos como sucata. O pretexto era puramente contábil: eliminar o déficit financeiro da RFFSA a qualquer custo.

Foi o período de maior encolhimento e destruição sistemática da malha ferroviária da história do Brasil, totalizando entre 6.000 km e 8.000 km de linhas desativadas ou erradicadas.


A Éra FHC (1995-2002), Privatização e Desmonte:

O processo de desmonte do sistema ferroviário brasileiro atingiria uma etapa terminal e decisiva durante o governo de Fernando Henrique Cardoso (1995–2002). Sob a cartilha das reformas neoliberais e os ditames do Consenso de Washington, o patrimônio ferroviário construído pelo Estado ao longo de um século foi liquidado. Sob o pretexto de reduzir prejuízos fiscais, modernizar a infraestrutura e atrair capitais privados, a RFFSA foi fragmentada em seis malhas regionais e transferida para o controle privado por meio de concessões de 30 anos.

O processo, contudo, foi marcado por um profundo prejuízo ao erário público. A privatização da RFFSA arrecadou um valor irrisório, cerca de R$ 1,76 bilhão pelo leilão de suas malhas. O escândalo maior residiu na aceitação generalizada das chamadas "moedas podres" como forma de pagamento. Trata-se de títulos da dívida pública emitidos pelo próprio governo que haviam se desvalorizado drasticamente no mercado devido à inadimplência do Estado; esses papéis sem liquidez eram comprados por consórcios privados com enormes deságios (por uma fração do valor de face) e aceitos pelo governo FHC pelo valor integral na hora de arrematar as ferrovias. Na prática, o patrimônio público foi entregue em troca de papéis de dívida quase sem valor real de mercado.

Paralelamente, em 1997, o governo consumou a privatização da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) por R$ 3,3 bilhões, valor risível, dado o tamanho das reservas minerais da empresa. Esse leilão desferiu outro golpe no sistema ferroviário nacional, pois a venda da mineradora incluiu, de porteira fechada, o controle de duas das ferrovias mais modernas, eficientes e lucrativas do país: a Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM) e a Estrada de Ferro Carajás (EFC). Em vez de servirem a um projeto nacional integrado de transportes, essas joias da infraestrutura estatal passaram a funcionar como meros sistemas logísticos cativos a serviço da exportação de minério de ferro por um ente privado.

Na prática, o modelo de concessões da década de 1990 priorizou quase exclusivamente esses corredores de exportação de alta rentabilidade (minério e commodities agrícolas), abandonando o restante do território. As concessionárias privadas fecharam os olhos para os ramais do interior considerados de baixa lucratividade, interrompendo o tráfego e deixando milhares de quilômetros de trilhos, locomotivas e vagões se deteriorarem ao relento.

O impacto social foi devastador. Diversas estações históricas foram abandonadas e convertidas em ruínas, cidades do interior perderam subitamente suas conexões logísticas e econômicas, e o transporte ferroviário de passageiros de longa distância foi virtualmente extinto do território nacional. O direito de locomoção sobre trilhos foi suprimido da população, sobrevivendo apenas em sistemas metropolitanos de passageiros (trens urbanos e metrôs) ou em raras linhas remanescentes de exploração turística e mineradora.

Conclusão:
O período áureo de expansão ferroviária institucional no Brasil ocorreu entre 1890 e 1945, com destaque para Prudente de Morais, Afonso Penna, Hermes da Fonseca, Arthur Bernardes, Washington Luís e Getúlio Vargas (1930-45). Após isso, o Brasil priorizou as rodovias. A partir do governo JK (Plano de Metas) e consolidando-se nos anos 1960/70 (Ditadura Militar), quando o Brasil sofreu uma radical substituição do modelo ferroviário pelo rodoviário, com fito de beneficiar e atrair multinacionais automobilísticas, resultando no sucateamento e posterior erradicação de milhares de quilômetros de trilhos. O Desmonte final, veio com FHC privatizando a RFFSA e praticamente extinguindo os ramais de passageiros.


Período Presidente Ferrovias construídas (km)
7 Mar. 1871 – 25 Jun. 1875 Rio Branco 597
25 Jun. 1875 – 5 Jan. 1878 Cotegipe 1.071
5 Jan. 1878 – 28 Mar. 1880 Sinimbu (Liberal) 530
28 Mar. 1880 – 21 Jan. 1882 Saraiva (Liberal) 840
21 Jan. 1882 – 3 Jul. 1882 Martinho Campos (Liberal) 245
3 Jul. 1882 – 24 Mai. 1883 Paranaguá (Liberal) 698
24 Mai. 1883 – 6 Jun. 1884 Lafaiete (Liberal) 654
6 Jun. 1884 – 6 Mai. 1885 Dantas (Liberal) 1.164
6 Mai. 1885 – 20 Ago. 1885 Saraiva (Liberal) 146
20 Ago. 1885 – 10 Mar. 1888 Cotegipe (Conservador) 1.572
10 Mar. 1888 – 7 Jun. 1889 João Alfredo (Conservador) 709
7 Jun. 1889 – 15 Nov. 1889 Ouro Preto (Liberal) 63
15 Nov. 1889 – 21 Jan. 1891 Deodoro - Rui 445
22 Jan. 1891 – 23 Nov. 1891 Deodoro - Araripe / Lucena 620
23 Nov. 1891 – 15 Nov. 1894 Floriano Peixoto 1.255
15 Nov. 1894 – 15 Nov. 1898 Prudente de Morais 2.265
15 Nov. 1898 – 15 Nov. 1902 Campos Sales 1.078
15 Nov. 1902 – 15 Nov. 1906 Rodrigues Alves 1.519
15 Nov. 1906 – 14 Jun. 1909 Afonso Pena 2.186
14 Jun. 1909 – 15 Nov. 1910 Nilo Peçanha 2.070
15 Nov. 1910 – 15 Nov. 1914 Hermes Fonseca 4.767
15 Nov. 1914 – 15 Nov. 1918 Venceslau Brás 1.518
15 Nov. 1918 – 28 Jul. 1919 Delfim Moreira 279
28 Jul. 1919 – 15 Nov. 1922 Epitácio Pessoa 1.281
15 Nov. 1922 – 15 Nov. 1926 Artur Bernardes 2.172
15 Nov. 1926 – 24 Out. 1930 Washington Luís 1.038
3 Nov. 1930 – 31 Dez. 1942 Vargas 2.332
3 Nov. 1930 – 31 Dez. 1943 Vargas 201
3 Nov. 1930 – 31 Dez. 1944 Vargas 229


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quarta-feira, 22 de abril de 2026

Democracia Direta, Técnica e Virtuosa: Os Fundamentos do Castilhismo


Uma Filosofia Política de Linhagem Clássica

O Castilhismo, mais do que uma "ideologia gaúcha" localista, como acusam seus detratores, e para além de uma ideologia brasileira, configura-se como uma filosofia política de linhagem clássica. A distinção teórica e prática entre a "Democracia Verdadeira" (castilhista) e o "Parlamentarismo" (liberal) constitui o cerne de uma crítica abrangente ao regime representativo liberal. A tese central que emerge é que o sistema atualmente chamado de democracia não passa de uma oligarquia plutocrata, ao passo que o modelo concebido por Júlio de Castilhos representa a única forma de democracia real para uma nação soberana.

Os castilhistas, influenciados pelo positivismo de Auguste Comte, realizavam uma leitura da história que resgatava a distinção aristotélica entre a política como ética do bem comum e a política como mera disputa de interesses privados. Para além disso, estabelece-se um paralelo histórico sofisticado entre o período dos "Cinco Bons Imperadores" de Roma e o regime castilhista no Rio Grande do Sul (1891–1937), demonstrando que a prosperidade de uma nação não depende do acaso, mas de um sistema de sucessão baseado na virtude e na competência técnica, em oposição tanto à hereditariedade quanto ao clientelismo eleitoral.


A Crítica ao Regime Representativo

O sistema de votar em deputados e senadores para que decidam em nome do povo é uma falácia. O parlamento atua como um filtro corruptor que impede a vontade popular de chegar ao governo, servindo apenas para que a oligarquia financista e seus grupos de pressão comprem influência. Além disso, o parlamento é composto por pessoas sem conhecimento técnico para legislar sobre temas complexos, transformando a política em um "balcão de negócios". O parlamentarismo, associado ao liberalismo, visa proteger interesses oligárquicos contra a autoridade do Estado. Quando o poder é fragmentado entre centenas de parlamentares, ninguém é responsável por nada, o que facilita a corrupção sistêmica.


O Paralelo com Roma: Sucessão por Mérito

O mais próspero período de Roma, e por assim da própria civilização ocidental ocorreu no século II d.C. como o auge da humanidade. O segredo desse período foi a sucessão por adoção: o imperador escolhia o homem mais apto a sucedê-lo, não por laços de sangue, mas por capacidade administrativa e militar. O declínio começou quando Marco Aurélio quebrou essa lógica e nomeou seu filho Cômodo, um herdeiro biológico, porém inepto. O castilhismo vê nesse ciclo a prova de que a virtude e o mérito, e não o acaso hereditário (Monarquia) ou a representação eleitoral (Liberalismo), garantem a prosperidade duradoura.


A Política como "Ciência do Bem Comum": A Conexão com Aristóteles

Para Aristóteles, a Polis (o Estado) é o fim último da vida social, e sua função é promover a "Vida Boa", isto é, a vida virtuosa. Os castilhistas adotam integralmente essa premissa ao afirmarem três princípios fundamentais:

A primazia do todo: O interesse da Nação, entendida como corpo social orgânico, está acima do interesse individual isolado.

O líder virtuoso: Assim como Aristóteles via na Monarquia e na Aristocracia (o governo dos melhores) as formas puras de governo quando focadas no bem comum, os castilhistas viam no seu "Presidente" um magistrado que personificava a virtude técnica e moral.

O repúdio à demagogia: Aristóteles alertava que a Democracia degenerava em Tirania ou Demagogia quando os interesses das massas ou de facções particulares sobrepunham-se à justiça. O castilhismo identifica o parlamentarismo liberal exatamente como essa degeneração: uma arena de demagogos que vendem promessas para satisfazer interesses paroquiais e privados. 


A Democracia Direta Castilhista

Diferentemente da democracia direta grega antiga (onde todos votam em tudo), a "Democracia Verdadeira" do castilhismo baseia-se na legitimação direta do Executivo. O chefe do Executivo é eleito para realizar um programa técnico, prestando contas não ao parlamento, mas diretamente ao povo. O castilhismo foi pioneiro ao instituir consultas populares obrigatórias por meio de plebiscitos e referendos. Se o governante perdesse o apoio popular em temas cruciais, deveria ser destituído. Isso é denominado Democracia Orgânica.


A Denúncia do Iluminismo e do Contratualismo

O Castilhismo sustenta que o Iluminismo introduziu uma deturpação decisiva na política ao focar no Contrato Social e no Individualismo. Para um castilhista:

O erro liberal: O Iluminismo, tratou o Estado como um "mal necessário", algo criado por um contrato entre indivíduos isolados para proteger suas propriedades e interesses egoístas. Isso transformou a política em mera ferramenta jurídica de salvaguarda do privado, destruindo sua dimensão ética.

A fragmentação do poder: Ao dividir o poder em "pesos e contrapesos" (Montesquieu), o Iluminismo paralisa o Estado, impedindo-o de agir de forma soberana e técnica. Para o Castilhismo, essa divisão é exatamente o que permite que a plutocracia, os ricos e seus interesses financeiros, controle o governo através de um parlamento fraco e venal.


Política "Orgânica" versus Política "Mecânica"

Os castilhistas argumentam que a política contemporânea (liberal-parlamentar) é mecânica (um jogo de peças, votos e leis abstratas, regido por procedimentos vazios), enquanto a política clássico-castilhista é orgânica. Nessa visão:

A sociedade é um organismo vivo.

O governo é o cérebro desse organismo.

Tentar governar através de brigas parlamentares seria como se os membros do corpo tentassem votar para decidir o que a mão deve fazer; o resultado inevitável é a paralisia ou a doença social.

Essa metáfora orgânica fundamenta a defesa da unidade de comando e da hierarquia técnica como condições de possibilidade para qualquer ação estatal eficaz e justa.


O Executivo como Poder Legislador e o Estado Técnico

Um dos pontos mais centrais do castilhismo é a defesa de que o Executivo deve legislar. No modelo de 1891, as leis eram decretadas pelo governo. Isso garantiria probidade, pois as leis passariam a ter um critério científico e de continuidade, sem as emendas e deturpações causadas pelas trocas de favores parlamentares. A Constituição de 1891 retirava do Parlamento o poder de fazer leis, entregando-o ao Executivo. O argumento é que leis devem ser elaboradas por técnicos, não por "ineptos" que defendem interesses privados. Sem a intermediação de parlamentares, vistos como fantoches de plutocratas, o governante poderia focar no bem comum.


O Castilhismo como Materialização Moderna da Adoção Romana

O castilhismo, por meio do PRR (Partido Republicano Rio-Grandense), funcionou de forma análoga à sucessão romana. O PRR não era apenas uma legenda eleitoral, mas uma escola de formação ideológica que pregava a probidade e a tecnificação. A sucessão de Júlio de Castilhos para Borges de Medeiros e deste para Getúlio Vargas é apresentada como o equivalente moderno da "adoção romana": o líder escolhia o sucessor mais competente dentro de um terreno fértil de quadros preparados. Tanto em Roma quanto no Rio Grande do Sul castilhista, o Executivo não se submetia ao Senado ou ao Parlamento, e a independência do governo frente à assembleia era garantida pela unidade ideológica e pela disciplina hierárquica. Sem essas travas, o governo se dissolve em facções.


O Conceito de "Recall" (Mandato Revocatório)

O castilhismo já previa o que hoje se discute como recall: a possibilidade de o eleitorado retirar o mandato de um governante antes do fim, caso ele se desviasse do interesse público. Isso torna o líder muito mais "escravo" da vontade popular do que um deputado liberal, que, uma vez eleito, fica quatro anos sem prestar contas. Assim, o castilhismo não é uma ditadura, tirania ou regime autoritário, mas uma forma de governo que exige responsabilidade total do líder perante o povo. Os castilhistas buscam a legitimação popular direta, muito mais próxima da "aclamação" clássica do que do "voto mercadoria" das eleições atuais.


As Raízes Saint-Simonianas: Socialismo Industrial e Tecnocracia

O castilhismo bebe diretamente da fonte de Saint-Simon, em uma interpretação que se distancia do senso comum contemporâneo sobre "socialismo". Para os castilhistas, o socialismo de Saint-Simon é a peça-chave que concilia ordem industrial com justiça social sem cair no conflito de classes marxista.

Socialismo como "Industrialismo": Saint-Simon não dividia a sociedade entre burgueses e proletários, mas entre industriais (cientistas, operários, empresários, banqueiros e técnicos: todos os que produzem) e ociosos (nobreza, clero tradicional e burocracia improdutiva). O castilhismo adota essa visão: o empresário nacional que investe e produz é um aliado do trabalhador; o inimigo é o especulador financeiro e o político fisiológico.

Primazia da administração sobre a política: A famosa frase "A administração das coisas substituirá o governo dos homens" fundamenta a tecnocracia. A sociedade deve ser gerida por uma elite de sábios e técnicos, não por políticos profissionais.

O "socialismo capitalista" e a propriedade: Saint-Simon não pregava o fim da propriedade privada, mas sua moralização. A propriedade deveria ser instrumento do progresso nacional. O castilhismo herdou essa visão: não se trata de estatizar tudo (comunismo), mas de o Estado dirigir o capital para que sirva ao Brasil, e não a interesses apátridas e particularistas.

A defesa de que a religião deve focar na melhoria da classe mais pobre é a raiz da tutela moral defendida pelo castilhismo. O Estado não deve ser apenas um gestor de recursos, mas um ente que garante a harmonia social por meio de uma ética superior, ligada ao catolicismo social.

Assim como Saint-Simon e Comte, os castilhistas veem o Iluminismo e a Revolução Francesa como períodos "críticos" ou destrutivos, que derrubaram a velha ordem sem construir nada no lugar. O socialismo saint-simoniano é a proposta para a fase orgânica e construtiva. O liberalismo iluminista é o regime do "egoísmo"; o socialismo castilhista, o regime do "altruísmo social" e da unidade nacional.


O Resgate da Soberania e a Verdade Atávica

A crítica castilhista ao Iluminismo permite ao Castilhismo dialogar tanto com setores da Igreja (por ambos repudiarem a "atomização" social do liberalismo) quanto, mais recentemente, com críticas do identitarismo, seja de esquerda ou de direita, na medida em que este também fragmenta o corpo social em facções estanques. Para o Círculo Castilhista, o modelo liberal é um breve e desastroso parêntese na história da humanidade. O Brasil, por sua formação ibérica e católica, esta destinado a liderar o retorno a essa política da Virtude e da Ordem.

O castilhismo é, portanto, a prova histórica de que o Brasil pode ser próspero se abandonar o modelo liberal de "negociata parlamentar" e adotar um sistema de centralização técnica, onde a sucessão é guiada pelo mérito e pela continuidade de um projeto de Estado. A interpretação de Saint-Simon é historicamente precisa dentro da lógica do socialismo industrial: o socialismo original não era sobre estatização total, mas sobre a governança dos técnicos e produtores em prol da nação, o que se encaixa perfeitamente no modelo de Estado forte e planejado que defendem.

O Brasil só recuperará sua soberania, quando abandonar as ilusões liberais, que entrega o país a interesses estrangeiros e financeiros, e retornar ao regime técnico e de consulta direta que transformou o Rio Grande do Sul e, depois, o Brasil na Era Vargas. O Círculo Castilhista apresenta-se, assim, como o portador de uma "verdade atávica": a de que a política autêntica é a busca do bem comum por meio da virtude, da competência e da unidade orgânica da Nação.



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sexta-feira, 20 de março de 2026

Combatente de Caatinga - O Sertão como Linha de Defesa do Atlântico Sul

 


Combatente de Caatinga
e seu respectivo Bioma 
Em uma concepção de Guerra Assimétrica, entre forças com capacidades militares, tecnológicas ou estratégicas significativamente desiguais, o Exército Brasileiro concebeu a criação de forças especializadas, melhor adaptadas, e por assim aptas, a atuar autonomamente em determinados teatros operacionais. Notadamente, o afamado CIGS - Centro de Instrução de Guerra de Selva, na Amazônia. Com a mesma concepção, em 1996, o Exército Brasileiro criou o Estágio de Adaptação e Operações na Caatinga (EAOC), que posteriormente virou o CIOpC - Centro de Instrução de Operações na Caatinga, em 2005, sediado no 72º Batalhão de Infantaria Motorizado (72º BIMtz), renomeado em 2023 como 72º Batalhão de Infantaria de Caatinga (72º BI CAAT), em Petrolina (PE), com a missão de estudar, planejar e desenvolver uma doutrina operacional específica para este ambiente.

O bioma de caatinga, não só é dominante na região nordeste, como tem uma peculiar natureza distinta, com localização estratégica no saliente nordestino que se projeta sobre o "S do Atlântico", um dos eixos do mundo. É um ponto central para defesa nacional e mesmo internacional. Quando em 1942, os EUA ameaçaram invadir o Brasil ante sua neutralidade (Plano Rubber). Os pontos de desembarques visavam justamente os portos de Natal, Recife, e Fortaleza. Do Rio Grande do Norte ao Piauí, o sertão encontra o mar, e margeia a zona da mata no litoral leste. Uma eventual invasão, como a ameáça de 42, demanda forças, que recuadas, no interior, em uma estratégia de defesa em profundidade, saídas desses grotões, fustiguem e rechacem invasores que se aventurem no litoral.

Entre os cursos ministrados no CIOpC estão o Estágio Básico de Combatente de Caatinga, com duração de uma semana, Estágio Avançado de Combatente de Caatinga, e o Estágio de Caçador de Caatinga, ambos com duração de duas semanas, onde o militar recebe treinamento nas seguintes disciplinas: Características do Ambiente Operacional de Caatinga; Primeiros Socorros; Técnicas Especiais; Topografia; Marchas e Acampamento; Comunicações; Emprego Tático em Operações na Caatinga; Treinamento Físico e Exercício de Desenvolvimento da Liderança. Os cursos ministrados pela CIOpC na caatinga, são reputados mais árduos e difíceis do que o do CIGS na Amazônia.

Uma das áreas mais utilizadas nessa formação militar é o Campo de Instrução Fazenda Tanque do Ferro, que possui uma vasta área de reserva do bioma de caatinga.

A Indumentária do Guerreiro

Apresentação das mudanças no uniforme do combatente de Caatinga em 2021. Essa imagem de apresentação mescla uniformes e armamentos antigos com os novos integrados pelo Projeto COBRA. Da esquerda para direita, o segundo infante apresenta o uniforme inicial, portando ainda um FAL (substituido pelo IMBEL AI2), o quinto infante, ou o primeiro do lado direito traja o novo uniforme portando um IA2 IMBEL. (A fucinheira é lembrança do Estado de Exceção da COVID que nos forçou a essa cena ridicula de uso em locais ao ar livre). Ao fundo, busto do General Sampaio, cearense, patrono da infantaria brasileira. 

O uniforme do Combatente de Caatinga é mais reforçado, feito de material mais resistente para proteger o combatente da vegetação espinhosa e do solo pedregoso. Inspirado na indumentária sertaneja, o uniforme é confeccionado em brim na cor cáqui e com aplicação de couro especial nas partes mais atingidas pelos espinhos ou galhos secos. A protetor para a cabeça também é feito de brim, com pala dobrável e extensão para proteger a nuca, mais adequado do que o capacete de kevlar que concentra grande quantidade de calor, além de provocar ruídos em contato com os arbustos e refletir a luz, comprometendo a ocultação do combatente. O coturno é o tradicional com cano de couro, mais resistente do que o do tipo selva com a parte superior de lona. O uso de óculos de acrílico e luvas de couro que protegem o dorso e a palma da mão, permitindo o livre movimento dos dedos.

Em 2021, foi apresentada uma nova versão do uniforme de Caatinga integrada ao Projeto COBRA (programa de modernização do equipamento individual do soldado do Exército Brasileiro). O uniforme inicial (jaqueta laranja estilo gibão, calça bege com reforços, gorro boonie e couro rígido) recebeu várias melhorias para resolver problemas antigos de calor, espinhos, mobilidade e camuflagem:
  • Gorro: O antigo “beija-santo” foi substituído por um gorro tipo tropical mais leve e adaptado ao calor extremo.
  • Camuflagem: Tecido e peças de couro foram recalibrados com padrão OTAN para regiões semiáridas (tons bege/areia). Reduz assinatura visual e térmica para melhor integração na vegetação espinhenta e pedregosa da Caatinga.
  • Peças de couro: Agora são articuladas (braços e pernas), dando muito mais mobilidade e conforto (o modelo antigo era rígido e quente).
  • Proteções: Proteções embutidas nas articulações de joelhos e cotovelos (melhoria significativa de segurança).
  • Tecidos avançados (parceria Exército + SENAI CETIQT, fabricados pela BDS Confecções):Filtro UVA/UVB (proteção solar intensa), Proteção contra chamas, Proteção bacteriológica anti-odor.
  • Coturno: Novo modelo especial de Caatinga em cor Coyote (bege), com solado adaptado ao terreno pedregoso e melhor dissipação de calor (o antigo era preto e acumulava calor).
  • Modelagem geral: Nova disposição de bolsos, corte mais ergonômico e ajustes para melhor ajuste corporal.
Essas mudanças foram testadas em campo durante o Estágio de Adaptação e Operações na Caatinga (EAOC) e receberam avaliação “Muito Bom/Excelente” em conforto, mobilidade e proteção.

Primeiro a esquerda, combatente de caatinga opera um anti-tanque leve Carl Gustav (SAAB), a direita,
um ALAC. O ALAC, é um modelo nacional, de uso descartável, sem recuo (oque possibilita seu uso em
locais confinados, pensado para emboscadas) e mais leve do que o Carl Gustav, que é
reutilizável, e comporta uma maior gama de munições. São armas com empregos distintos. 

O armamento empregado é o padrão do Exército Brasileiro, fuzil Imbel IA2 (em substituição ao FAL), calibre 5.56 mm, com uma gradual adoção pelo calibre 7,62mm (mais adequado), pistola Imbel M973, calibre 9 mm, a arma anti-tanque Carl Gustav M3, e o nacional ALAC, ambos calibre 84 mm e a metralhadora FN MAG, calibre 7.62 mm. 

O Modus Operandi

Caçador de Caatinga, usando um fuzil de precisão IMBEL AGLC .308,
de fabricação nacional, com calibre 7,62X51mm NATO e alcance de 500 m. 
A tática operativa das Tropas de Caatinga, diferente das unidades formadas pelo Centro de Instrução de Guerra na Selva - CIGS, que desenvolveu-se em um ambiente amazônico de cobertura florestal densa, visibilidade reduzida e engajamentos a curta distância, favorescendo a especialização de funções, a infiltração silenciosa e o emprego de equipes dedicadas, como os “caçadores”, estruturados para observação prolongada e tiro seletivo. No ambiente da caatinga, a lógica se inverte em aspectos essenciais: a irregularidade do terreno, a escassez de infraestrutura e a alternância entre áreas abertas e vegetação hostil impõem uma doutrina centrada na mobilidade, na autonomia e na capacidade de sustentação da fração em isolamento.

Nesse contexto, a unidade de combatentes de caatinga organiza-se de forma mais flexível, com funções menos rigidamente compartimentadas e maior ênfase na polivalência individual. O deslocamento ocorre, em geral, por trilhas estreitas ou fora de qualquer via definida. O batedor mantém papel central à frente da fração, realizando a leitura do terreno, identificando ameaças e conduzindo a progressão, enquanto os demais elementos se distribuem de modo a preservar o contato visual e a capacidade de reação imediata.

O combate tende a ocorrer em distâncias médias, exigindo disciplina de fogo e bom aproveitamento de coberturas naturais, ainda que esparsas. Nesse cenário, a presença de atiradores com maior capacidade de precisão, eventualmente empregando armamento como o IMBEL AGLC .308 (a ser substituido pela sua nova versão WIN-ISR 100/18 com significativa melhoria no alcance de 500 para 800m, além de mais leve e preciso), amplia o alcance efetivo da fração, sem, contudo, configurar necessariamente equipes especializadas permanentes. A permanência prolongada em posição é limitada por fatores ambientais, como calor intenso e escassez de água, o que favorece uma tática de constante deslocamento, alternando observação, contato e evasão conforme a situação.

Assim, a unidade de caatinga opera como um organismo leve e adaptável, no qual a eficiência não decorre da especialização isolada, mas da integração entre mobilidade, resistência física, gestão logística e conhecimento do terreno. Trata-se de uma forma de combate que privilegia a economia de meios, a iniciativa dos pequenos escalões e a capacidade de manter-se ativo em um ambiente que, mais do que o inimigo, impõe as maiores restrições à ação militar.

Fuzil de precisão IMBEL WIN-ISR 100/18, recentemente lançado (2025/26)
 com alcance de 800m, deverá substituir o AGLC .308

O Emprego de Muares como Meio Logístico

A ausência de infraestrutura na caatinga, ausência de estradas, trilhas estreitas e irregulares, torna o uso de viaturas limitado ou, em muitos trechos, simplesmente inviável. Mesmo veículos militares modernos, como o Agrale Marruá ou blindados, dependem de condições minimamente transitáveis, além de combustível e manutenção. Em áreas profundas da caatinga, isso simplesmente não existe.

Nesse cenário de ausência de infra-estrutura, o emprego de muares, como mulas, burros e jumentos, constitui um elemento logístico essencial em um cenário de guerra assimétrica, sobretudo em áreas onde o terreno pedregoso, a vegetação densa, espinhosa e semiárida, e a ausência de vias transitáveis inviabilizam o uso de viaturas. Adaptados ao clima extremo e capazes de percorrer trilhas estreitas com grande autonomia, esses animais são utilizados no transporte de água, munição, víveres e equipamentos, bem como na evacuação de feridos, garantindo a sustentação de pequenas frações em patrulhas prolongadas e operações em regiões isoladas. Longe de representar um anacronismo, seu emprego reflete uma adaptação pragmática à realidade do semiárido, integrando tradição e eficiência em uma doutrina que privilegia a mobilidade leve e a autossuficiência no ambiente hostil da caatinga.


O Expertize do CIOpC passado para as PMs Estaduais

O BEPI (Batalhão Especializado de Policiamento do Interior), da Polícia Militar de Pernambuco (PMPE), foi criado em 1997, no esteio do CIOpC, localizado no próprio Pernambuco, Petrolina. É uma unidade de elite focada no combate ao crime organizado, tráfico de drogas e roubos no sertão. Alcunhados "Guerreiros da Caatinga", atuando em operações de alto risco, patrulhamento rural e resgate no bioma semiárido. Tido como o mais bem preparado Batalhão especial das PMs (Polícias Militares) no Brasil, superior ao BOPE (RJ). 

Nesse mesmo sentido, tem ganho notoriedade o COTAR - Comando Tático Rural da Polícia Militar do Ceará (PMCE). Unidade de elite do BEPI/CPChoque, especializada no combate a crimes rurais, assaltos a bancos e carros-fortes. Especializado para o ambiente de caatinga, em operações de alto risco, sobrevivência e patrulhamento tático.

Outras PMs na região tem igualmente capacitado suas unidades para atuação no ambiente de caatinga.Evidenciando a importancia do CIOpC na capacitação dessas unidades, para além da defesa, com repercução na segurança pública nos respectivos Estados da região.

Comando Leste - Círculo Castilhista


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segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

André Vidal de Negreiros — O Arquétipo do Santo-Guerreiro Restaurador da Ordem

O Guerreiro não é meramente o homem da violência, mas aquele que ordena o caos, que se submete a uma causa transcendente, que aceita a disciplina, o sacrifício e a dor como preço da preservação do mundo. O Guerreiro autêntico não luta por si, mas por aquilo que o ultrapassa: a ordem justa, a tradição, a nação e o sagrado. Sob essa chave simbólica, a trajetória de André Vidal de Negreiros se eleva da crônica militar ao plano do mito fundador da nacionalidade brasileira.

Na mitologia céltica, particularmente no mundo galaico e irlandês, essa função é encarnada por Ogma (Ogmios, na Gália), o Hércules ibérico. Ogma é o deus da força disciplinada, da eloquência que subjuga, do braço que combate e da palavra que ordena. Descrito como um homem idoso, armado de clava e coberto por uma pele de leão, encadeado pelos seus séquitos por correntes de ouro e ambar que saem de sua boca e se ligam a suas orelhas, e o seguem alegres e felizes. Imagem perfeita do líder que conduz pelo exemplo, pela autoridade interior e pela fidelidade à ordem cósmica. Diferente do bruto destruidor, Ogma vence porque submete o inimigo pela superioridade moral, espiritual e estratégica. 

É sob essa luz arquetípica que se pode compreender, em profundidade histórica e simbólica, a figura de André Vidal de Negreiros. Assim como Ogma surge nos mitos quando o mundo ameaça sucumbir ao caos, André Vidal de Negreiros emerge na História do Braʃil quando a terra se encontra profanada pelo domínio estrangeiro, mercantil e herético. A ocupação holandesa não foi apenas um conflito econômico ou territorial: representou uma ruptura da ordem espiritual, da continuidade católica, jurídica e simbólica que estruturava a civilização luso-brasileira. Contra esse estado de desagregação, Vidal não se apresenta como um aventureiro, mas como o Guerreiro Predestinado, aquele que compreende que a guerra, quando justa, é um ministério.


O Chamado do Guerreiro

Tal como nos mitos antigos, o arquétipo do Guerreiro manifesta-se cedo. Aos dezoito anos, André Vidal alista-se voluntariamente, “às suas custas”. Abdica precocemente da vida privada, da família e do conforto, consagrando-se integralmente à missão. Sua guerra não é mercenária; é religiosa, civilizacional e territorial. Defende simultaneamente a fé católica, a soberania da terra e a continuidade da ordem luso-brasileira contra um inimigo que não se apresentava apenas como potência estrangeira, mas como princípio dissolvente: o calvinismo mercantil da Companhia das Índias Ocidentais, fundado no lucro, na rapina e na negação sacramental do mundo.

Desde cedo, Vidal encarna o Guerreiro disciplinado, sereno, estrategista, imune à vaidade. Sua bravura não é caótica; é orientada. Seus superiores reconhecem nele não apenas coragem, força física, mas algo mais raro: instinto de guerra justa, rapidez de execução, clareza de propósito e desapego pessoal. Não luta para ser visto; luta porque não lutar seria trair.

Como Ogma, Vidal reúne em si força e inteligência, braço e estratégia. Quando os comandantes europeus conjecturavam qual estratégia seguir, após sofrerem sucessivas derrotas, e queriam continuar insistindo nas fracassadas táticas europeias. Foi André Vidal quem compreendeu, contra a soberba dos reinóis, que a guerra contra os holandeses exigia outra lógica: a guerrilha, a emboscada, a Guerra Brasílica, foi ele quem traçou o caminho para a vitória. Essa inteligência tática é oque diferencia, na guerra, os vencedores dos derrotados. E foi precisamente essa compreensão que pois fim ao mito da invencibilidade holandesa.


Ogma no Campo de Batalha: a Guerra como Ordem

Assim como Ogma submete inimigos não apenas pela força, mas pela autoridade que emana da sua presença, Vidal torna-se o eixo organizador da guerra de restauração. É dele que parte a iniciativa de distribuir o hábito da Ordem de Cristo para Henrique Dias, Felipe Camarão... que persuade Camarão a voltar a luta após se intrigar com o Conde napolitano Bagnuoli. Aparentando a mesma debilidade de Ogma, Vidal consegue salvo conduto para adentrar em Recife, então bastião holandês, arregimentar apoio, organizar a Insurreição. Converte inimigos em aliados, as inúmeras defecções entre católicos das tropas holandesas que passam para o lado dos brasileiros. Converte mesmo protestantes a Fé-Católica, figurando inclusive como padrinho de batismo de vários oficiais holandeses que finda a guerra sentam praça no Braʃil. Quando as lideranças vacilam, negociam, tergiversam ou preferem a diplomacia frouxa à decisão armada, é Vidal quem sustenta o fio da continuidade histórica. Ele compreende o que muitos não ousam admitir: há momentos em que a paz negociada é apenas a máscara da rendição.

Na II Batalha de Salvador (1638), da Casa-Forte, nas Batalhas dos Guararapes, onde Vidal assume plenamente a função de eixo ordenador da guerra. Cai o mito da invencibilidade holandesa. Ali se revela plenamente o arquétipo. Diante da tibieza inicial dos comandantes e da hesitação estratégica, emerge a decisão popular e, logo após, a inteligência militar dos homens forjados no combate irregular, entre eles Vidal. As companhias de emboscada, o ataque relâmpago, a negação do cerco completo ao inimigo: tudo isso expressa a guerra orgânica, própria de quem conhece a terra e luta por ela como extensão do próprio corpo.


O Guerreiro Contra o Próprio Reino

Um dos traços mais elevados do arquétipo do Guerreiro é sua disposição de enfrentar não apenas o inimigo externo, mas também a covardia interna. Vidal não hesita em confrontar a frouxidão da Coroa portuguesa quando esta prefere perder províncias a sustentar a guerra. Sua carta, altiva e quase trágica, ecoa o gesto dos heróis antigos que, diante de reis indecisos, assumem para si a responsabilidade histórica.

Aqui, Vidal aproxima-se não apenas de Ogma, mas de figuras como Cú Chulainn, que luta mesmo quando sabe que será abandonado. A soberania, para o Guerreiro, não é um favor concedido de cima, mas algo que se conquista, sustenta e paga com sangue. Se Portugal hesita, Vidal luta. Se a diplomacia trai, Vidal insiste. Se todos desejam encerrar a guerra, Vidal quer “completar a obra de limpeza”.

E ele estava certo.


A Vitória e o Despojamento

O arquétipo do Guerreiro não termina na vitória, mas no desapego. Vidal não se corrompe com o triunfo. Recusa glórias, comendas, prestígios. Governa com espírito público, não como senhor de espólio. Em Angola, pacifica. No Maranhão, protege indígenas. Em Pernambuco, enfrenta conflitos internos sem transformar o poder em instrumento pessoal.

Ferido, aleijado, envelhecido pela guerra, Vidal jamais se entrega ao ressentimento. Seu amor não se fixa em posses, mulheres ou títulos, mas na pátria como realidade espiritual. Como Ogma, cuja força se manifesta também na palavra e na lei, Vidal encerra sua vida dedicando bens aos órfãos, aos velhos, aos desvalidos. O Guerreiro, quando amadurece, transforma a espada em proteção social, sem jamais renegar o combate que o definiu.


O Sentido do Mito

André Vidal de Negreiros não é apenas um personagem histórico; é um mito da formação brasileira. Ele encarna o Guerreiro que luta para restaurar a ordem, não para instaurar o caos; que combate para preservar a tradição, as raízes lusitanas no qual a Fé-Católica é o eixo central da nacionalidade nascente; que aceita a violência apenas como último recurso para impedir uma violência maior: a destruição da fé, da terra e da soberania.

Assim como Ogma/Ogmios representa a força que ordena, que vincula, que conduz, Vidal foi o braço armado da lusitanidade, da continuidade católica e soberana do Braʃil. Enquanto houvesse a pegada do invasor no chão brasileiro, ali estaria ele para apagá-la. E se precisasse morrer, morreria; mas enquanto vivesse, lutaria.

Esse é o legado do Guerreiro: ensinar que há momentos em que viver sem lutar é viver sem honra e que a verdadeira paz só nasce quando o caos é vencido, nunca tolerado.




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