sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Marquês de Barbacena , O Estadista do I Reinado - Guerra de Independência e a Guerra Cisplatina.

A atuação de Felisberto Caldeira Brant nas duas missões na Europa que conseguiu o reconhecimento externo de nossa Independência, o coloca, juntamente com Alexandre Gusmão e Barão do Rio Branco entre os três maiores nomes da Diplomacia brasileira. Barbacena se formou na Academia dos Guardas-Marinha, de forte influência pombalina. Tomando parte, portanto, do projeto de reforma política “ilustrada”, perpetrada por Pombal na virada do século XVIII para o XIX. No plano político-institucional as idéias pombalinas não abriam mão da unidade e da centralização do poder estatal, pois tratava-se de um projeto político de reforma e modernização do Estado, que inseria todo seu corpo administrativo dentro da máquina do Império. Eis a fonte que bebeu o futuro marquês de Barbacena, a mesma que dará ensejo ao Castilhismo. Caldeira Brant era partidário da unidade do império luso-brasileiro, contemplava uma autonomia administrativa para o Brasil, sob a coroa portuguesa, e não sua separação. As circunstâncias, o levaram a aderir a independência, porém sempre contemplando a possibilidade futura de reunificação pela coroa. Daí seu apoio a d. Pedro I na sucessão portuguesa contra seu irmão d. Miguel. Era ainda partidário de uma monarquia centralizadora na figura do Imperador/Rei ao mesmo tempo que defendia as liberdades civis. Suas posições muitas vezes o fez ser visto com desconfiança pelas duas facções. Caldeira Brant sempre foi um entusiasta do progresso científico, membro de várias sociedades científicas, da industrialização, da abolição da escravidão, e do incentivo a imigração europeia para o Brasil, daí ser um incentivador do melhoramento industrial do Brasil, empregando por suas “custas e fazendas” o aprimoramento industrial não só de seus engenhos de açúcar, como também na abertura de estradas e na navegação de rios com barcos a vapor, ações que procuravam referendar sua fidelidade à figura real, vinculando-as como uma maneira de “servirem os seus soberanos, e à sua pátria”.  Não fosse as intrigas palacianas, a quem d. Pedro I, não raras as vezes deu ouvidos e seu caráter inconstante. Brant ter-se-ia convertido em um "Alexander Hamilton" brasileiro, e teria industrializado o Brasil, extinto o flagelo da escravidão já nas primeiras décadas de independência, e feito do Brasil um próspero, doce e grandioso império. 

O artigo, ao menos para um blog ficou demasiadamente extenso, por mais que esse que vos escreva tenha tentado ser conciso. O caso é, que, a biografia de Barbacena se confunde com a própria História do Brasil, e seus bastidores revelam detalhes, e por desiderato, explicações que mais das vezes são omitidos ou pura e simplesmente ignorados ao se tratar de tais eventos. Considerando então, preciosos certas explicações, a custa de uma maior extensão do artigo, julgo manter para melhor compreensão do período. Ao mesmo tempo que, também, pondero a conveniência de subdividir o artigo em três partes para melhor didática e visualização.

Editorial

Felisberto Caldeira Brant Pontes de Oliveira Horta, o marquês de Barbacena. Mineiro, nascido em Mariana, em 19 de set. de 1772, e vindo a falecer em 13 de jun. de 1842. Caldeira Brandt, de origem flamenga, descendia por linha paterna do celebre contratador, Felisberto Caldeira Brant, e pelo lado materno, entroncava-se nos Hortas, Pires, Lemes e Moreiras, antigos povoadores da Capitania de São Vicente. Foi ex-oficial da marinha e do exército de Portugal e rico ex-senhor de engenho na Bahia, oportunidade em que pela primeira vez introduziu a máquina a vapor na moagem de cana (1813) e também, de forma pioneira, sua admissão em embarcação, como navio a vapor (04 de out. 1810), construída por ele próprio, realizando sua primeira viagem da Bahia a Cachoeira; tendo ainda propagado sementes da cana caiena e da cana rajada; e pleiteado o estabelecimento de uma filial do Banco do Brasil na Bahia, que viria a ser instalada em 1817; Foi pioneiro também na introdução da vacinação no Brasil, com a vacina Jenneriana (30 de dez. de 1804); em 1811, com seus próprios recursos, abre uma estrada de São Jorge dos Ilhéus até Arraial da Conquista para escoamento da produção local; em 1817 empreende esforços em dinheiro e armas junto ao Conde dos Arcos, para debelar a Revolução de 1817 em Pernambuco; foi Senador, Conselheiro de Estado, 1.º Visconde e único Marquês de Barbacena. Foi deputado pela Bahia, por apenas um mês, nos trabalhos da Assembleia Geral Constituinte e Legislativa do Império, de out. a nov. de 1823. Foi Ministro do Império de 9 de nov. de 1825 a 20 de jan. de 1826. Pela primeira vez, também por pouco tempo ocupou a pasta da Fazenda, de 21 de nov. de 1825 a 20 de jan. de 1826. Neste último ano foi nomeado Senador pela Província das Alagoas. Comandou o exército imperial na Batalha de Passo do Rosário, durante a Guerra Cisplatina, em 1826/1827. Realizou mais duas importantes missões na Europa, em 1827/28 e em 1828/29, ligadas à questão dinástica portuguesa e ao segundo casamento do Imperador. Mas é como principal membro do Gabinete organizado a 4 de dez. de 1829 que se inscreve entre os mais notáveis vultos políticos do Primeiro Reinado, aquele que durante alguns anos, tendo gozado de grande confiança de D. Pedro I, foi por ele súbita e ruidosamente afastado, quando pela segunda vez, ocupava a pasta do Ministério da Fazenda, dando origem a uma das mais apaixonadas e ainda não de todo esclarecida polêmica de nossa História.  Tendo também em 1835, proposto formar uma companhia para fazer uma ferrovia do Rio de Janeiro a Minas Gerais, mas infelizmente o ministério daquele tempo achou impraticável.


Brant como Diplomata Brasileiro na Inglaterra, sua atuação no Movimentos Pré-independencia, e na formação da Armada Brasileira no curso da Guerra de Independência: 

Quando explodiu na Bahia o motim de 1º de fevereiro de 1821, que precederam a Independência. Caldeira Brant, então já marechal, por ordem do governador conde de Palma, foi averiguar a situação, acompanhado de força regular. Sobre ele, e sobre sua tropa, atirou a artilharia portuguesa, havendo 16 mortes, além do major Hermogenes que comandava as quatro companhias de infantes. Por milagre, escapou Felisberto. Ao conde de Palma, voltou informando que a adesão pelas tropas portuguesas ás ordens de Lisboa estava generalizada, que não convinha resistir á nova corrente política em favor da monarquia constitucional. Na Casa do Concelho, reuniram-se os pro-homens da capitania para acertarem sobre a nova orientação a seguir. Aí perante o governador, declarou que, para o Brasil, mais vantajoso e oportuno seria separar-.se da antiga metrópole e cuidar dos interesses próprios. 

Sua sugestão não foi bem recebida, no entanto, constou em ata, pela adesão das ordens vindas de Lisboa. Daí nasceram atritos fortíssimos que o levaram a retirar-se para o Rio de Janeiro, onde chegou a 22 de fevereiro, a tempo para presenciar na Capital do reino revolução idêntica á da Bahia, e pelos mesmos motivos. No Rio as mesmas paixões imperavam e dividiam a cidade em dois campos, em que, ambos, acusavam a Brant. O partido português não lhe perdoava a lembrança de tornar o Brasil independente da metrópole. Os adversários das Côrtes diziam do marechal ser adeso a Lisboa e o comprovavam alegando sua ação na Bahia ante a ata de adesão das ordens da metrópole. 

Brant chegou a ser preso, porém considerando que se tratava mais de uma providência do governo afim de evitar desacato a sua pessoa. Pediu licença para se retirar para Londres para tratar da saúde e de negócio. Deferida a solicitação, partiu para a capital inglesa, onde chegou a 2 de jun. de 1821. Aí também encontrou, por parte dos liberais portugueses, residentes na Inglaterra, recepção hostil, pois não admitiam um Brasil não sujeito ás Côrtes do Reino.

As notícias vindas do Rio informavam ao marechal sobre o curso dos acontecimentos. D. Pedro, Regente; as manifestações de autonomia a se generalizarem; os anseios de emancipação, e as ordens coercitivas e regressistas ideadas pelas Côrtes que a transmitiam para o Brasil. Pôs-se em contato com José Bonifácio, que lhe deu poderes de representação diplomática na Inglaterra. Contudo, essa representação pelo Brasil por Brant seria contestável, posto não ter havido até aquela data a proclamação de independência, tampouco o reconhecimento internacional. Porém sua influência, contornou esses entraves. Sua amistosa intervenção na  Bahia, em 1805, provendo ás necessidades da esquadra britânica do almirante Home Popham, havia provocado uma carta de agradecimento do Almirantado. Dela se valeu para entrar em relações pessoais com o Governo Inglês, especialmente com Canning. 

Proclamada a independência (7 de set. de 1822), dúplice face assumia, pois, o problema: derrotar o adversário em terra; em especial os núcleos de preponderância de tropas portuguesas, na Bahia, no Maranhão, Pará e na Cisplatina. Oque foi levado a cabo pelas tropas patriotas. E impedir o remuniciamento por mar. A segunda foi incumbida a lord Cochrane, lembrado por Brant, e por ordem de José Bonifácio.

De novembro de 1822 data o convite a Cochrane para reorganizar a marinha imperial, assumir-lhe o comando e assegurar a integridade do litoral brasileiro. Chegado ao Rio em 21 de março de 1823, em menos de seis meses, as providencias combinadas surtiam êxito completo. Na Bahia, o general português Fco. Madeira de Mello abandonara a luta a 2 de Julho de 1823, reembarcando, no dia seguinte, suas forças para Portugal. No Maranhão, e no Pará, o almirante escocês provocara igual decisão das tropas lusitanas, em 27 de Julho e em 11 de Agosto seguintes. Findava cumprida sua missão em setembro de 1823, com o território brasileiro inteiramente liberto de forças estrangeiras de ocupação.

A formação dessa esquadra foi decisiva no curso da guerra de independência, porque dissuadiu o envio pela marinha portuguesa, de socorros com armas, novos contingentes, e mesmo viveres para suas tropas. Que já se encontravam derrotadas, cercadas pelos brasileiros, e faltos de alimentos e munição. Oque forçou sua capitulação ante a presença da armada, além de preferirem se render a capitães ingleses, esperando melhor tratamento, do que cair em mãos de brasileiros. Os atos criminosos perpetrados por essas figuras: o saque da cidade de São Luís, no Maranhão, por Cochrane, ante o não recebimento dos valores acordados com D. Pedro, e a chacina ocorrida no brique Palhaço sob ordens de Grenfell, são episódios que não podem ser responsabilizados a Brant, ou mesmo a D. Pedro ou a Bonifácio, posto que naquela circunstância era necessário uma armada, e nesse sentido, cumpriu seu papel. Oque, mais uma vez, não isenta seus autores de seus atos. Eram, em fim, mercenários. 

Quinze anos duraram a campanha de Independência para as antigas colônias espanholas. Pouco menos de seis meses levara o Brasil a se emancipar. Naquelas, o retalhamento tivera lugar. Aqui, á vinda da Família real, á elevação de colônia a reino, á decisão de ficar de d. Pedro, á clarividência e á energia de estadista de José Bonifácio e á coordenação e ação enérgica de Brant, tanto quanto á fraqueza de Portugal, manteve o Brasil integro e uno. 


Os Esforços de Brant nas Negociações para o Reconhecimento Internacional do Brasil como Nação Soberana:

Desde o primeiro momento, os esforços da Corte no Rio de Janeiro se concentraram em receber o reconhecimento e apoio pelo Império Austríaco, por considerar que a Inglaterra, de longa data, aliada de Portugal, se posicionaria a seu favor.  E assim era, até 12 de agosto de 1822, quando Castlereagh, secretário das Relações Exteriores do Reino Unido (Foreign Officer), cometeu suicídio. Castlereagh era partidário dos regimes absolutistas na Europa, tendo sido peça chave na formação da Santa Aliança entre Inglaterra, Áustria, Prússia e Rússia, contra Napoleão. Com sua morte, assumiu George Canning, espírito liberal e aderente ás correntes independentistas, bem como pouco simpático á Áustria, aos ideais da Santa Aliança. De modo, que, a Corte no Rio ignorava tudo isso. 

Pensou-se em enviar um emissário diplomático, o conde de Palma; teria sido um erro, pois sua presença em Viena, posto as boas relações entre Portugal e a Áustria (D. João VI ainda era vivo e partidário dos regimes absolutistas), seria um ato inamistoso no qual Francisco I não podia colaborar; a tempo se refletiu nisso, no Rio, e deliberou-se despachar um antigo oficial alemão, o major Jorge Antonio Schaeffer, possuidor da absoluta confiança do casal imperial, principalmente da Imperatriz D. Leopoldina; seu aspecto e seus modos pouco o recomendavam, tanto que Metternich, ministro austríaco, se recusou a recebe-lo; ordenou-lhe sair de Vienna, indo ele então para Hamburgo, a engajar colonos, ou, antes, soldados. Foi, finalmente, firmado o propósito de contornar as dificuldades, expedindo para junto aos Habsburgos, em missão de família, um distinto membro da melhor aristocracia histórica de Portugal, Antonio Telles da Silva Caminha, aliado á nobreza mais alta da Áustria, lhe dava direito de achar perante si abertas todas as portas. Aproveitou-se a viagem para responder ás missivas do marechal Brant, que, insistentemente, pedia permissão para voltar ao Rio e expor a situação real do problema do Reconhecimento da Independência, tão erroneamente apreciada na corte brasileira. 

Caminha chegando a Londres, rumo a Viena, e tomando par, por Brant, da posição favorável de Canning, ainda que velado, pela independência dos países americanos. Escreveu para a Corte no Rio, de sua inutilidade de ida a Viena, indo por mero protocolo já antes ajustado, mas dando conta da ida de Caldeira Brant para a Corte no Rio, oportunidade em que explanaria pessoalmente a exata conjuntura. Em julho partiu Brant para a Bahia, que o havia escolhido seu representante para a Constituinte; pouco se demorou aí e, já em 11 de out. de 1823, apresentava á Assembleia recém-reunida seu diploma de deputado. 

Em 3 de novembro de 1823, o ministro do Reino e Estrangeiros, José Joaquim Carneiro de Campos, indicou Felisberto Caldeira Brant para tratar de assuntos importantes para o Império na Corte de Londres, em vista de sua experiência diplomática e da confiança que nele depositava o governo brasileiro. No dia seguinte, o parecer de uma comissão de Constituição aprovou a liberação de Caldeira Brant para exercer novamente a função de embaixador em Londres. Naqueles dias vivia-se o auge dos conflitos entre "brasileiros" e portugueses em torno do governo de Pedro I, embates que culminaram na "Noite da Agonia" (12 de novembro de 1823), quando o imperador dissolveu a Assembléia Constituinte.

Retornando às negociações diplomáticas, foram constantes os reclames de Barbacena para que obtivesse credenciais e plenos poderes necessários para negociar junto à Inglaterra e demais potências europeias o reconhecimento da independência do Brasil. Entretanto, a medida só foi efetuada em janeiro de 1824. Então, as negociações pelo reconhecimento da emancipação política do país ficaram um ano e três meses com missivas sem qualquer valor legal, já que Caldeira Brant não tinha os papéis necessários para acordar qualquer tipo de negociação. Naquele mês, foram emitidas carta de poder geral nomeando Barbacena como ministro  plenipotenciário para estipular, concluir, firmar e ratificar tratados ou convenções, particularmente com a Grã-Bretanha e com Portugal, tendentes ao reconhecimento da independência do Brasil e com qualquer potência europeia; carta de poder geral e especial para estipular e  firmar qualquer tratado para a abolição do tráfico da escravatura; e, por fim, carta imperial para negociarem e ajustarem para o Brasil um empréstimo de três milhões de libras esterlinas na Europa.

A nova missão de Caldeira Brant em Londres consistia em continuar a negociar com a Inglaterra o reconhecimento da Independência, mas previa também a obtenção de empréstimos junto à casa bancária dos Rotschild para saldar despesas do Brasil recém-emancipado. O governo imperial vinha empregando grandes somas na pacificação das províncias recalcitrantes, especialmente do Norte, e precisava de insumos para desenvolver a sua economia. 

Antes de retornar à Europa para tratar das negociações de reconhecimento da independência política do Império do Brasil, Barbacena, preocupado com a má repercussão do fechamento da Constituinte, articulou encontros em Salvador para reunir as principais autoridades baianas, bem como pediu ao imperador que adotasse e jurasse o projeto constitucional – que estava sendo elaborado por um Conselho de Estado criado pelo próprio monarca – como Constituição do Império do Brasil. Para assim, desvincular de d. Pedro I qualquer imagem que o associasse a um monarca absolutista, oque poderia ser mal visto por Canning. Em fevereiro de 1824, ele enviou carta ao almirante Thomas Cochrane, encaminhando ata de uma assembleia realizada no dia 10 de fevereiro, que continha o pedido para que o imperador adotasse o projeto constitucional como Constituição do Império do Brasil.

Restava ainda tratar do reconhecimento de Portugal à Independência, mediante a intervenção da Inglaterra. O encarregado de Londres, Charles Stuart, tinha total apoio de Mr. Canning para a empreitada, pois este já se mostrava publicamente a favor do reconhecimento puro e absoluto da categoria política do Império, conforme relatou caldeira Brant a D. Pedro, em 9 de fevereiro de 1825. Contudo, exatamente uma semana depois, em carta a D. Miguel Antônio de Melo, o embaixador do Brasil comunicou a interrupção das gestões entre a Inglaterra e Portugal. A situação não tardou a se reverter, pois seis meses depois, em 29 de agosto, Portugal e Brasil assinassem o tratado que selou a paz e oficializou o reconhecimento da Independência por parte da antiga metrópole. Não sem que D. João VI recebesse, segundo o acordo, vultosa soma - obtida junto à Corte de Londres - a título de indenização.

Nas preliminares do tratado de 25 de agosto de 1823, que reconheceu a Independência do Brasil, onde a tal respeito foi apresentado na conferência de 9 de agosto o seguinte Artigo Secreto: "Como por causa da aceitação da renúncia pessoal do imperador do Brasil, Pedro, à Coroa de Portugal, as Cortes de Portugal devem determinar qual dos filhos do imperador será chamado à sucessão daquela coroa por morte do presente rei: entende-se que as ditas cortes podem chamar à sucessão o filho mais velho do dito imperador do Brasil, ou a filha mais velha, na falta de descendência masculina".

Brant chegou a pedir ao imperador d. Pedro I autorização para arrecadar fundos, a fim de organizar uma expedição militar para enfrentar Portugal e fazê-lo capitular e, assim, concordar com a separação política brasileira. No fim, a interferência inglesa foi determinante para a assinatura do tratado de 29 de agosto de 1825 entre Portugal e Brasil, com a instalação da “Missão de Charles Stuart”, no começo daquele ano, um acordo que feriu a “dignidade brasileira” e que não contou com a plena concordância de Caldeira Brant, como ele mesmo revelaria anos mais tarde em carta a d. Pedro I durante a crise de sucessão do trono português.

Nas negociações para o reconhecimento da Independência pela Inglaterra, Mr. Canning condicionou o reconhecimento inglês a abolição da escravidão no Brasil. Oportunidade, que estando em Londres, Caldeira Brant enviou seu filho ao Rio de Janeiro com a proposta inglesa. A proposta foi sumariamente recusada por  d. Pedro I e José Bonifácio. Bonifácio, apesar de se dizer abolicionista, respondeu que estando o congresso a reunir-se não tomava essa responsabilidade.... e tudo se concluiu pagando o Brasil dois milhões libras esterlinas; quando aceitando a proposta inglesa o país não pagaria essa soma e se teria livrado desse elemento bárbaro.

O empréstimo foi feito a firma Rothschild, em condições melhores do que propunha anteriormente o então ex-ministro João Maciel da Costa, que veio a ser demitido. Nesse, Brant conseguiu um valor de três milhões com juros anuais de 7%, contra a proposta anterior, em que o empréstimo seria em um valor menor, de: duzentos e cinqüenta mil, com juros maiores, de: 10% anuais, pela firma, também inglesa, Samuel Phillips & Cia.

O tratado estabeleceu o reconhecimento por parte do Império brasileiro de uma dívida de três milhões de libras com a monarquia britânica. O acordo legitimava, ainda, a separação dos dois reinos por uma transferência voluntária de direitos, a qual d. João VI, “Imperador do Brasil e Rei de Portugal e Algarves”, cedia e transferia de imediato a d. Pedro, seu filho e sucessor, a soberania do Império do Brasil, sendo ele denominado “Imperador do Brasil e Príncipe Real de Portugal”.

As cláusulas pecuniárias se deram, não porque “comprou-se a independência” como se passou para posteridade, mas como ajuste de dívidas contraídas junto a Inglaterra quando do Reino Unido de Brasil-Portugal, em condições vantajosas para o Brasil, com sua quota nos encargos comuns com Portugal, quando una a monarquia. Esse é o parecer do barão do Rio-Branco, posteriormente, relatando sobre o caso. 

Concordando plenamente ou não com todas as cláusulas no acordo de reconhecimento de independência com os portugueses, o fato é que as negociações renderam a Caldeira Brant o título de visconde com honras de grandeza de Barbacena em 3 de novembro de 1825.

Retornando ao Brasil, o agora visconde de Barbacena assumiu o cargo de senador do Império depois de ser eleito por três províncias: Minas Gerais, Alagoas e Bahia. D. Pedro I escolheu que ele exercesse seu cargo por Alagoas. 


Caldeira Brant como Comandante do Exército Imperial na Guerra Cisplatina:

Todavia, pouco tempo ficaria no exercício de seu mandato vitalício. Seria convocado por d. Pedro I para assumir as tropas brasileiras no conflito na Cisplatina. Para isso, recebeu o título de marquês de Barbacena em 4 de novembro de 1826. Lá, encontrou um exército desorganizado, indisciplinado, faminto, com soldos atrasados, sem vestimentas necessárias e com um número de forças militares insuficiente para o embate. Barbacena associava as más condições das tropas ao resultado de ações ineptas do conde de Lages, ministro da Guerra na época do conflito. Barbacena conseguiu transformar um “bando” em um exército organizado e combativo e que fez frente ao numeroso exército portenho comandado pelo general Alvear. 

Quando se defrontou o exército imperial, comandado por Barbacena, contra o exército platense, comandado por Alvear. Barbacena se encontrava desfalcado de 1.500 cavaleiros de Bento Manoel, aonde até hoje pairam dúvidas, de sua fidelidade, e por assim, da razão do seu desencontro com a tropa imperial. Em uma batalha de campo aberto, a cavalaria é por excelência uma carga de ataque. A tropa de Barbacena resistiu bem aos ataques da cavalaria platina, nenhum quadrado (formações de defesa da infantaria) brasileiro foi desfeito. Contudo, faltou uma cavalaria para desferir contra-ataques que teriam resultado no aniquilamento completo das forças de Alvear. Muito provavelmente, já com pouca munição e revezes, Alvear ateia fogo no campo, e a tropa brasileira se retira sem ser perseguida, e de igual modo faz Alvear. Terminava assim a Batalha do Passo do Rosário (ou Ituzaingó) em 20 de fevereiro de 1827.

As opiniões públicas veiculadas, quase todas, por jornais de oposição a d. Pedro I, propagaram a narrativa como uma derrota. Não há uma só linha, a quem tiver curiosidade de ler as publicações da época, sobre o desenvolvimento tático da batalha. Apenas falam da inexperiência de Barbacena como general, e o raciocínio binário de que não tendo aniquilado o exército platense, "por certo" fora uma "derrota". O caso, é que depois desse episódio, as Províncias Unidas do Prata (que virá a ser a grosso modo a Argentina) não fez mais nenhuma incursão em território brasileiro, antes, o exército platense foi desfeito, e Alvear ao chegar em Buenos Aires repreendido e preso. Ao passo, que Caldeira Brant foi condecorado por D. Pedro I, após a batalha, com a Grã-Cruz do Cruzeiro. 



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quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Delmiro Gouveia, O Homem que Não Vendeu o Brasil

Delmiro Gouveia, cearense de Ipu,
seu pai Delmiro Porfírio de Farias
morreu como herói na Guerra do Paraguai.
“Mataram-me. Tirem-me o paletó. Quem foi o cabra que me matou?” Foram três tiros. Um deles acertou o braço o outro, o coração. O Sangue explodiu em jorro, tingindo de vermelho o terno imaculadamente branco, de Delmiro Gouveia. Não houve tempo para o coronel esboçar a mínima reação. Não viu sequer o rosto do assassino. Mergulhado numa poça de sangue, na varanda do chalé, estava ferido de morte o pioneiro da industrialização do Nordeste. O homem que ousara desafiar os ingleses da Machine Cottons, rompendo o monopólio da fabricação de linhas com a marca Estrela, a “única genuinamente nacional”. E que fora ainda mais além ao inventar, aquilo que viria a ser a Hidrelétrica de Paulo Afonso.  

Das mãos de um tal de Zé da Pedra, comprou uma fazenda por 19 bois, a 24 quilometros da cachoeira, ao lado da estrada de ferro de Paulo Afonso. Represou 2 rios, fez 2 açudes, e para se tornar ainda mais preparado para enfrentar a seca, mandou vir água potável de piranhas, Alagoas, pela estrada de ferro que, com seus 116 quilômetros, partia de lá contornando cachoeiras até Petrolândia, em Pernambuco.

Aos poucos amigos que riam dos seus planos na caatinga braba de uma localidade chamada Santana, ele dizia confiante: “A água vai custar, mas a luz da cachoeira eu boto logo aqui”. Em 1910, comprou a margem esquerda da Cachoeira de Paulo Afonso, e ninguém mais duvidou das suas palavras. Logo a seguir veio a hidrelétrica e a fábrica de linhas.



Usina Hidreletrica de 
Angiquinho, construída por
Delmiro Gouveia
Em 26 de Janeiro de 1913, fundou a Vila da Pedra. O povo viu linhas transmissoras trazerem uma novidade que nem a cosmopolita Recife podia exibir: luz elétrica. E não era só: canais adutores traziam a matéria prima mais cobiçada no sertão: água. “Anda aí um coronel diferente”, dizia o povo.  E em 6 de julho de 1914, o algodão do seridó, principal produto da região, passou a ser transformado em linha na fábrica de Delmiro Gouveia. O Sertão entrara na era da Revolução Industrial quase meio século antes das chaminés se tornarem rotina na paisagem do nordeste. Mas Delmiro não estava satisfeito. Dois anos depois, ele estava tirando fatias de mercado da Machine cottons não só no Brasil como no Chile e na Argentina. Ameaçados pelo inesperado concorrente, os ingleses não duvidaram ofereceram uma montanha de dinheiro pela fábrica. Gouveia Passou a um novo contra-ataque: mandou comprar mais 2 mil teares!

Vila da Pedra
A Vila da Pedra fervilhava. Parecia um outro mundo. Tinha padaria, açougue, mercado e claro, luz e água encanada. O uso de pente, sabonete, o banho diário eram obrigatórios. A noite os operários aprendiam a ler e a escrever. Acreditava que a educação era o caminho mais curto para acabar com o cangaço que ensangüentava o sertão. As filhas dos operários aprendiam boas maneiras e arte culinária. Não faltavam cinema grátis, futebol e retretas de bandas. Havia inclusive, uma previdência social, mantida a custa de três tostões semanais. Para estimular o comércio, Delmiro rasgou mais de 500 quilômetros de estradas.

O historiador Olympio de Menezes, se surpreende de como Delmiro “conseguiu não só o capital indispensável ao movimento, como também os outros elementos, sabidas como eram precárias as condições da época e do meio.”

Arno S. Pearse, autoridade mundial em fiação, que esteve na vila da Pedra anotou: “Os operários são bem comportados, bem-vestidos e limpos. Quando vão para o trabalho, estão mais bem trajados que o operário médio europeu em dia de domingo”.


Nada parecia poder impedir a realização do grandioso projeto de industrialização do nordeste levado adiante por Delmiro Gouveia apesar das adversidades. O fornecimento de energia elétrica em grande escala para os estados nordestinos era uma realidade cada vez mais próxima. E seus negócios e influência cresciam em ritmo acelerado. Para se ter uma idéia, apenas no decorrer do ano de 1915, o capital da agro fabril praticamente dobrou e, com isso, no ano seguinte eram iniciados os trabalhos para a montagem de novas turbinas de captação de energia das águas do São Francisco.

Mas se tudo parecia ir bem, uma pessoa não estava satisfeita com o andamento dos negócios, o próprio Delmiro Gouveia. Ele tinha pressa, muita pressa. Sabia que estava sob olhares nem um pouco amistosos. Já corria o ano de 1917, aproximava-se o fim da I Guerra, e iniciava-se a batalha entre o Coronel Delmiro Gouveia e os ingleses da machine Cottons. Pressionado pelos ingleses, o empresário, que vivia se prevenindo contra emboscadas, resolveu redobrar seus cuidados com a segurança. “Estou sendo ameaçado por aqueles ingleses”, contou certa vez a um amigo. “Tenho receio que me matem”, disse o coronel, sentindo o resfolegar da morte na nuca.

Morto Delmiro pelo punhal traiçoeiro, tratavam agora os ingleses de por fim aos seus negócios. Manietaram lojistas mediante vantagens especiais “Dumping”, desde que se comprometessem a não vender as linhas nacionais, ou seja, as fabricadas pela empresa que Delmiro criou. O presidente Arthur Bernardes, no final do seu mandato, participou diretamente da briga, reconhecendo que a Machine Cottons queria destruir a concorrência nacional e resolveu taxar a importação da linha inglesa. Porém um ano depois, eleito o então presidente Washington Luís, reduziu drasticamente os impostos de importação e a Machine Cottons se reergueu mais forte ainda. Usando de Dumping, boicotes a Agro Fabril não pode se manter, fechada e adquirida pelos ingleses diz a imaginação popular que seus maquinários foram jogados do alto da cachoeira de Paulo Afonso e repousam no seu fundo. Mas, ficou na memória aquele Coronel diferente o “Rei do Sertão”, o homem que não se vendeu, nem vendeu o Brasil.

O Castilhista



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terça-feira, 1 de março de 2022

O Governo do Presidente Arthur Bernardes (1922-26)

"Não estará ainda na memória de todos o que fora a penúltima
campanha presidencial? Nela se afirmava que o candidato não
seria eleito; eleito não seria reconhecido, não tomaria posse, não
transporia os umbrais do Palácio do Catete!" - Arthur Bernardes.

O período do governo Arthur Bernardes, quando não é negligenciado pela historiografia oficial é prontamente difamado, como "coincidentemente" sucede a todos os governos de caráter nacionalista havidos no Brasil. E esse abafamento, não é por acaso, nele vemos a eclosão dos ovos de todas as serpentes que figurarão, nos períodos posteriores, como traidores da Pátria, contra Vargas e Goulart, e com o mesmo modus operandi. Bernardes ousou afrontar quando Presidente (governador) de Minas Gerais o mega-empresário estadunidense Percival Farquhar, quando esse intentava implantar a Itabira Iron Ore Company. Sua candidatura a Presidência, fez com que Farquhar mobiliza-se a maçonaria para impedir sua eleição. Nilo Peçanha, proeminente maçom, encabeçou um dos pleitos mais sujos já havidos no Brasil, tal como se repetirá contra Vargas (1950), e Goulart (1962-64), isso de par com outros maçons: Rui Barbosa, Eduardo Gomes, Juarez Tavora, Ernesto Geisel, Miguel Costa, Luis Carlos Prestes, etc... os nomes são meramente ilustrativos, ante tantos outros. Quase todos os líderes que tomaram parte no movimento tenentista, eram maçons. O movimento Tenentista era heterogêneo, porém, unido pelos laços da maçonaria, mobilizada contra Arthur Bernardes. É o mesmo fenômeno que sucederá contra Vargas e Goulart, e doravante, e mesmo outrora, contra todos que se puserem pela defesa do Brasil. Na Revolução de 30, muitos que participaram, eram ex-tenentes, e são os mesmos que se levantam contra Getúlio em 32. Vitoriosa a Revolução de 30, a ála maçônica das forças armadas, pensavam ter chegado ao poder, não contavam com Getúlio, que não permite a implantação de um Estado Liberal, um dos motivos do afastamento de Osvaldo Aranha (maçom e um dos articuladores da Revolução de 30) que desde a derrota de Rui Barbosa para Hermes da Fonseca intentam chegar ao poder, objetivo que lograrão em 64. Hermes da Fonseca, diga-se de passagem, também era maçom, e próximo, também de Farquhar, a Guerra do Contestado, foi muito em razão da defesa dos interesses de Farquhar, oque o aproximou de Hermes da Fonseca. O Governo de Arthur Bernardes se notabilizou por várias medidas nacionalistas e de fortalecimento do Estado. Bernardes foi em sua juventude florianista, e foi profundamente influenciado pela Escola Positivista Mineira, nos governos de Afonso Penna (1906-09), e de João Pinheiro (1906-08), e como Afonso Penna, era Bernardes, extremamente católico, ambos, filhos de imigrantes portugueses. Recebendo Bernardes, apoio de Jackson Figueiredo, contra Nilo Peçanha, a quem considerava, corretamente, representante da maçonaria. Tendo sido, Bernardes, o pioneiro na adoção de uma legislação Previdenciária, na criação do Conselho Nacional do Trabalho, no esforço de implantação de uma indústria siderúrgica, sabotada pelos partidários de Nilo Peçanha, e posteriormente, como Senador, na defesa intransigente da Amazônia Brasileira, pondo fim ao ardil da criação de um comitê internacional que teria ingerência sobre toda região. Em fim, esse introito já vai longe, se debrucem sobre o período Arthur Bernardes, e tirarão valiosas lições de como operam as forças estrangeiras contra o Brasil. 
Editorial.

Trajetória Política de Artur da Silva Bernardes:

Presidente Arthur Bernardes 
Estudou humanidades no colégio do Caraça (1887-89) e direito na faculdade Livre de Ouro Preto (1894-96), completando o curso superior na Faculdade de São Paulo (1900). Ainda quando era acadêmico de Direito, em 1897, Arthur Bernardes, que era florianista, alistou-se como voluntário no Batalhão Patriótico Bias Fortes.

Ligado pelo casamento com a família Vaz de Melo, de grande influência eleitoral, tornou-se o herdeiro político do sogro, iniciando a vida pública como presidente da Câmara Municipal e Agente Executivo de Viçosa, para desempenhar em seguida os mandados de deputado estadual (1907) e federal (1909), vindo a ocupar o primeiro posto executivo de relevo como secretário de Finanças de seu Estado (1910-14). Voltou depois à Câmara Federal (1915); foi eleito presidente de Minas (1918-22) e presidente da República (1922-26).

Presidente de Minas Gerais (1918-22):

A administração de Bernardes privilegiou a Zona da Mata. Promoveu a garantia de preços — a valorização — do café e, na reforma tributária que realizou no estado, reduziu o imposto de exportação — não apenas sobre o café, mas também os cereais e o gado, a fim de estimular sua produção. Na mensagem de 1920 ao Congresso estadual, Bernardes propôs a criação de uma Escola de Agricultura e Medicina Veterinária em Viçosa. A escola (hoje universidade) só seria inaugurada em agosto de 1926, pouco antes do término de seu quadriênio na presidência da República.

Também em 1920, Bernardes promoveu uma reforma da Constituição estadual, cujos principais itens foram: o aumento dos mandatos dos vereadores em um ano, a proibição da criação de empregos vitalícios, a concessão de aposentadorias ou pensões, e a limitação, com exceção dos professores, da consignação orçamentária de subsídios, percentagens e vencimentos de pessoal em montante não superior a 25% da renda ordinária.

No terreno do ensino primário e secundário, construiu 13 grupos escolares e criou 421 escolas isoladas. Quanto ao ensino superior, concorreu para a fundação do Instituto de Química Industrial e para a ampliação das clínicas da Faculdade de Medicina de Belo Horizonte. No campo da saúde pública, construiu o Instituto de Rádio, para o combate ao câncer, e iniciou a construção do atual Hospital Neuropsiquiátrico Raul Soares, concluído em 1924. Abriu ainda cerca de 1.500km de estradas de rodagem, e construiu seis prédios de foros e cinco cadeias regionais.

Quando Presidente de Minas Gerais (cargo equivalente atualmente ao de Governador), Arthur Bernardes se opôs, e conseguiu impedir os intentos do empresário norte-americano Percival Farquhar, mediante a qual fundou a legenda de sua postura nacionalista, reiterada nas décadas de 1940 e 1950. Farquhar, que fora alvo de enérgica campanha nacionalista em 1912, ano em que, por outro lado, seu grupo econômico entrou em falência, voltou às atividades empresariais no Brasil em 1919, tentando implantar em Minas a Itabira Iron Ore Company, empresa de um grupo britânico para a qual trabalhava como advogado e que passaria ao seu controle. Apesar de ter obtido um contrato vantajoso do presidente Epitácio Pessoa, Farquhar teve seu projeto de exploração de minério de ferro obstaculizado por Bernardes, que desejava como contrapartida a implantação da siderurgia no estado — prevista no contrato, mas na verdade fora dos planos de Farquhar. Facilitado posteriormente, durante o governo de Antônio Carlos Ribeiro de Andrada (1926-1930), o contrato da Itabira Iron Ore Company teria sua execução impedida definitivamente após a Revolução de 1930, durante o governo do presidente Getúlio Vargas.

A Eleição de Arthur Bernardes:

A candidatura do presidente de Minas se opois o Rio Grande do Sul, Pernambuco e Rio de Janeiro, além de grupos oposicionistas de São Paulo e Bahia, sob liderança de Nilo Peçanha. quando na Convenção situacionista, em 08 jun. de 1921. Nilo, tentou fazer com que Bernardes desistisse em favor de Rui Barbosa ou Vencelau Brás, não coseguindo, acabou por lançar sua própria candidatura. Organizando, em seguida, oque se denominou por "Reação Republicana", que oficializou a chapa Nilo Peçanha-Jose Joaquim Seabra para as eleições de 1922. 

Uma facção do exército, ligada pelos laços da maçonaria a Nilo Peçanha, passaram a conspirar contra a candidatura de Arthur Bernardes. Visando dividir o meio militar, passaram a animar o nome de Hermes da Fonseca, ex-presidente, e com histórico de combate as oligarquias regionais. E foi nesse intuito, que iniciaram a campanha difamatória contra Arthur Bernardes, com as chamadas "cartas falsas", atribuídas a Arthur Bernardes, contra os militares.

Forjadas por Oldemar Lacerda e Jacinto Guimarães, as cartas estavam em oferta desde o início do segundo semestre de 1921, e os falsificadores já haviam tentado vendê-las ao próprio Bernardes, tendo sido repelidos. No dia 9 de out. de 1921, o Correio da Manhã publicou um fac-simile de uma delas, datada de 3 de junho e supostamente dirigida por Bernardes a Raul Soares. 

Indignado, Bernardes negou veementemente a autoria. O Clube Militar se reuniu e declarou falsa a primeira carta, que dizia respeito à corporação. O próprio Hermes da Fonseca manifestou essa opinião. Mas o mote já estava dado, e a insubordinação instalou-se nos quartéis. Oficiais, principalmente jovens, chamados de “tenentes", pregavam abertamente a conspiração, caso Bernardes fosse eleito, e ameaças de golpe pairavam no ar em todos os estados.

As primeiras repercussões das “cartas falsas” junto ao público gerou um incidente grave: no dia 15 de outubro, quando chegou ao Rio de Janeiro para iniciar sua campanha, agitadores do Nilo Peçanha, organizaram contra Bernardes uma vaia ruidosa na avenida Rio Branco. Nenhum candidato foi tão maltratado e ridicularizado quanto Bernardes, o “seu Mé” das canções nilistas. Esse é o modus operandi da imprensa maçônica, difamar e caluniar, como se repetirá contra Getúlio (1951) e Goulart (1964). 

Nesse clima sórdido encabeçado por Nilo Peçanha, as eleições se realizaram em março de 1922, a contagem de votos só se encerraria em 7 de junho do mesmo ano, e em seu curso, já assinalava uma ampla vitória de Arthur Bernardes. Em abril, antes do término da apuração, Nilo Peçanha, passou a acusar fraude, e a requerer a verificação dos votos por um tribunal de honra, obtendo a adesão explícita do Clube Militar. 

Ainda em abril, a agitação cresceu com a deposição do presidente do Maranhão, Raul Machado, realizada pela polícia militar, por ordem do presidente do Congresso estadual — e com a conivência das autoridades militares da região. No dia 28 do mesmo mês desencadeou-se com tumultos em Niterói um movimento rebelde na Marinha. No dia 19 de maio, o presidente Epitácio reuniu no palácio do Catete vários ministros e líderes políticos para sugerir que Bernardes desistisse de tomar posse — “não se aguentará 24 horas no Catete” — e entrasse em acordo com os oposicionistas. Bernardes rejeitou, dizendo ter sido eleito “no mais disputado e livre dos pleitos presidenciais”, no que foi imediatamente secundado por Washington Luís.

No dia 7 de maio, com a morte repentina do vice-presidente eleito com Bernardes, o maranhense Urbano Santos, provocou nova ofensiva de Nilo Peçanha e da Reação Republicana, que reivindicaram junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) o reconhecimento de J. J. Seabra para ocupar o posto. Com o STF, ordenando ao Congresso que se convocassem novas eleições para vice, que só se realizariam em agosto, com a vitória a Estácio Coimbra, de Pernambuco.

Em fins de maio, quando da sucessão estadual em Pernambuco, eclodiu um grave conflito entre bernardistas de Estácio Coimbra e nilistas de Francisco de Assis da Rosa e Silva. As ruas de Recife são tomadas por violentos enfrentamentos entre as duas facções, e o líder sindical Joaquim Pimenta articulou uma greve geral em apoio aos nilistas. A situação agravou-se quando Hermes da Fonseca, em descarado apoio aos agitadores nilistas, telegrafou ao comandante da guarnição militar de Recife afirmando que o Exército não deveria intervir, para não ser “algoz do povo pernambucano”. Epitácio mandou prender o marechal Hermes por algumas horas, baseado numa lei que proibia “associações nocivas à sociedade”, fechando também o Clube Militar por seis meses.

E em  7 de junho, a apuração foi encerrada com a vitória de Bernardes, que recebeu pouco mais de 1,5 milhão de votos, contra cerca de 700 mil dados a Nilo Peçanha.  Pouco depois das eleições, Oldemar Lacerda e Jacinto Guimarães confessaram a autoria das “cartas falsas”, mas o problema já não era esse, e sim o da deposição do governo, almejada pela oposição civil-militar derrotada nas urnas.

A Revolta dos 18 do Forte:

A resposta militar, pela prisão de Hermes da Fonseca e o fechamento do Clube Militar, veio dias depois, sobretudo dos jovens oficiais, os "tenentes". Na madrugada do dia 5 de julho de 1922, eclodiu a rebelião, com a adesão da guarnição sediada em Campo Grande, no estado de Mato Grosso, e de guarnições de Niterói e do Rio de Janeiro, especialmente, nesta última, no forte de Copacabana, que caiu na manhã do dia 6, episódio que ficou conhecido como os 18 do Forte. Liderados pelo filho de Hermes, Euclides da Fonseca, cerca de 18 rebelados, 10 entre militares e um civil, deixam o forte de Copacabana no Rio de Janeiro numa marcha na avenida Atlântica contra as tropas do Governo. Apenas dois rebeldes sobrevivem: Siqueira Campos e Eduardo Gomes.

O ainda Presidente, Epitácio, pediu imediatamente o estado de sítio, aprovado pelo Congresso no próprio dia 5 de julho por 30 dias e, findo este prazo, prorrogado até 31 de dezembro. 

Marcha dos nove rebelados e de um civil na Av. Atlântica - RJ.

O Governo do Presidente Arthur Bernardes (1922-26):

Arthur Bernardes tomou posse como Presidente do Brasil, em novembro de 1922.

Já em sua gestão, o Parlamento, recomeçou a discussão da Lei de Imprensa proposta pelo senador Adolfo Gordo, que viria a ser aprovada já no governo de Bernardes, em 1923.

Bernardes constituiu o seu Ministério com políticos dos Estados que o haviam apoiado como candidato. Desde sua candidatura Bernardes enfrentou uma hostil oposição, que marcará seu governo, 1923 (Rio Grande do Sul) e 1924 (São Paulo), culminando na ocupação da cidade de São Paulo pelos rebeldes, e continuou pelo interior com o movimento da coluna Miguel Costa-Prestes  (1924-26). Tendo estado o país, todo o quadriênio, praticamente sob estado de sítio. 


O Esmagamento da Coluna Miguel-Costa:

Os militares implicados nos eventos de 1922: Joaquim Távora, Juarez Távora, Eduardo Gomes, Miguel Couto e Isidoro Dias (todos maçons), insatisfeitos com as remoções para serviço em regiões distantes, sublevam várias unidades militares. Eclodem batalhas em São Paulo 1924.

Em junho de 1925 escreveu a um amigo: 
“Vim para o governo da República com o propósito inabalável de servir à nação e de assegurar-lhe a paz e promover-lhe o progresso, dentro da ordem e da lei; mas os políticos ambiciosos e os maus cidadãos não me têm deixado tempo para trabalhar, obrigando-me a consumi-lo quase todo em fazer política.” - Arthur Bernardes.
Quando a turba do Nilo Peçanha iniciou a campanha difamatória contra Arthur Bernardes, não sabiam com quem estavam lidando..... ao contrário de Getúlio, que perdoou todos seus detratores e nunca os perseguiu. Arthur Bernardes, tal como era do feitio de Floriano Peixoto, empreendeu uma verdadeira caça a fim de punir cada um deles. A repressão foi sistemática e abrangente. O governo não se voltou apenas para a destruição da Coluna. Em São Paulo, após o levante de 1924, cerca de dez mil pessoas foram presas. Nos Estados, todos os que colaboraram com os “tenentes” foram submetidos a processos. Clevelândia, uma prisão penal para aonde eram enviados os presos no Amapá, aterrorizava os implicados, as epidemias de tifo e as condições insalubres era quase sinônimo de morte certa, centenas foram enviados para lá. Célebre e temida também foi a ilha de Trindade, para onde foram enviados muitos “tenentes”. 





Arthur Bernardes e a criação do Estado Providência a nível Nacional:

Em fevereiro de 1923, Bernardes promulgou um decreto do Congresso, que ficou conhecido como Lei Elói Chaves, determinando a instituição de caixas de pensões e aposentadorias — com contribuições dos empregados e, em menor proporção, das empresas — em cada uma das ferrovias existentes no país, estendendo-se a medida, em 1926, a outras espécies de empresas. Em abril de 1923, decretou a criação do Conselho Nacional do Trabalho, órgão consultivo chamado a ocupar-se de questões como a jornada de trabalho, os sistemas de remuneração, contratos coletivos e acidentes de trabalho. A Lei Elói Chaves e o Conselho Nacional do Trabalho constituíram o embrião do atual sistema de previdência social.

Foi igualmente em seu governo que se aprovou o regulamento de assistência e proteção aos menores delinquentes e abandonados (esboço do Código de Menores que seria sancionado em 1927), e se tomaram medidas para proibir o trabalho de menores de 12 anos. Em janeiro de 1925, o Congresso criou o posto de curador especial de acidentes do trabalho, medida que foi o primeiro passo para a prestação de assistência médica gratuita às vítimas de acidentes do trabalho. No fim do mesmo ano, Bernardes sancionou a lei que obrigava os estabelecimentos comerciais, industriais e bancários a conceder a seus empregados, anualmente, 15 dias de férias pagas. 


Política Externa:

No plano internacional, o fato mais importante foi o rompimento do Brasil com a Sociedade das Nações, de cujo conselho participava como membro não permanente. A inclusão da Alemanha, apoiada pelas grandes potências, ameaçava a pretenção brasileira de tornar efetiva a interinidade. Ficou o Brasil isolado, perdendo inclusive o apoio das demais nações ibero-americanas, que preferiram solicitar da assembléia o rodízio de três lugares não permantes, a garantir apenas um de caráter efetivo. Seguindo instruções de Bernardes, que colocara "a aspiração do Brasil como uma questão de dignidade nacional", o embaixador Afrânio de Melo Franco não apenas repeliu o aide memore de Sir Austen Chamberlain, líder da política de reconciliação, como vetou a inclusão da Aleamanha, retirando-se espetacularmente da Sociedade das Nações a 10 de junho de 1926. Depois disso, a Sociedades das Nações implodiu.

Em matéria de política internacional, o governo de Bernardes solucionou vários problemas de fixação de fronteiras com a então Guiana Inglesa (atual Guiana), com a Bolívia e com a Colômbia. Opôs-se, por outro lado, à proposta de desarmamento formulada na V Conferência Pan-Americana, realizada no Chile em 1923. 

No Plano Interno, estabelecida a pacificação da política riograndense, com o Pacto de Pedras Altas (14 de dez. de 1923), tratou o governo de promover a reforma constitucional, completada em 1926, visando fortalecer a autoridade do poder executivo e comprimir a despesa pública, com a supressão da chamada "cauda orçamentária". Pouco se fez, entretanto, no plano administrativo, deixando o presidente de realizar a pate mais importante do seu programa: a implantação da grande indústria siderurgica do País.


Os esforços de Bernardes para a implatação de uma indústria siderúrgica:

Nos esforços para instaurar uma indústria siderúrgica no Brasil com capital nacional, Arthur Bernardes, editou o decreto nº 4.801, de 09 de jan. de 1924. De caráter nacionalista, o decreto autorizava o Poder Executivo a amparar a indústria siderúrgica e carbonífera existentes e as que fossem formadas, concedendo crédito e prorrogando até o final de 1926 os prazos dos decretos nº 12.943 e 12.944, de 30 de março de 1918. Autorizava também a promoção, por concorrência pública, da construção das três usinas previstas no relatório da Comissão. Essa Comissão havia sido formada previamente ao decreto, formada por Miguel Calmon e pelos senadores Lauro Muller, Paulo de Frontin, Sampaio Correa, e pelos deputados Augusto de Lima e Prado Lopes, que ao seu final, previa a construção de três usinas de 50 mil toneladas no vale do Rio Doce - MG, na bacia carbonífera de Santa Catarina, e uma outra no vale do Paraopeba. Previa ainda que o contratante fosse brasileiro e possuísse uma mina de ferro ou de carvão na região designada, e que as usinas e minas ficassem hipotecadas ao governo. Em contrapartida, o poder público se compromete a consumir preferencialmente os produtos das minas, a promover a isenção de impostos, a reduzir as tarifas, a incrementar investimentos em ferrovias e Portos, e a regularizar a navegação.

Nilo Peçanha e seus agitadores, desde o início imperram no congresso as medidas previstas no decreto e acusam Bernardes de favorecer seu Estado natal. Clodomiro de Oliveira, ardoroso propagandista da implementação siderúrgica na bacia do Rio Doce, onde acredita residir o futuro siderúrgico do Brasil, é uma das poucas vozes no congresso a favor do Presidente Arthur Bernardes. E ao final, no que pese todo o empenho de Bernardes, o decreto não vai adiante, principalmente em função da efervescência política na ocasião e, assim, nenhuma usina será construída.

Arthur Bernardes Senador:

Eleito para o Senado Federal (1929), Bernardes prestigiou o movimento de 1930, mas não obteve nenhuma posição no governo provisório. Descontente, tendeu apoio ao movimento de 1932. Preso e exilado, não participou da Assembléia Nacional Constituinte de 1933, só regressando a Pátria com a anistia. Elegeu-se então Deputado Federal (1935) e retomou a linha nacionalista, ao bater-se na Câmara contra a revisão do contrato da Itabira Iron Company, celebrado no governo de Epitácio Pessoa e por ele impugnado como Presidente de Minas. 

Perdendo o mandato de deputado federal em razão da instauração do Estado Novo (1937), retornaria à atividade política em 1945, inicialmente com a União Democrática Nacional, que logo se desligou para formar o Partido Republicano (PR) que presidiu até a morte, na defesa de suas idéias, apoiando na Câmara dos Deputados o projeto da Petrobrás (1954) e opondo-se ao acordo internacional sobre a Hiléia Amazônica (1954).
 
A proposta de criação da Petrobrás, encaminhada por Getúlio, havia sido formulada por Arthur Bernardes, “muito bem elaboradas”, salvo quanto à previsão de que o setor não requeria grandes esforços financeiros. 


Concomitante a luta pelo monopólio estatal do petróleo que ocorria no Brasil, os Estados Unidos da América, a caminho de se tornarem a maior potência planetária, queriam a ferro e fogo o domínio sobre as riquezas da Amazônia. A primeira grande investidura norte-americana sobre a cobiçada região teve em George Humphrey, Secretário do Tesouro, o seu instrumento estratégico. Coube a ele convencer o entreguista Paulo de Berredo Carneiro, funcionário da recém criada ONU, quanto às sutis intenções do projeto denominado Instituto Internacional da Hileia Amazônica.

Arthur Bernardes, Defensor Perpétuo do Brasil e da Amazônia Brasileira!

A UNESCO realizou reuniões no Pará e avalizou a malfadada Convenção de Iquitos que criou o Instituto em 10 de maio de 1948, com o apoio do México, da França, do Peru e vários outros países ditos amazônicos. O processo de internacionalização estava quase consolidado, devidamente autorizado pelo Ministério das Relações Exteriores. Faltava apenas o envio de mensagem do então presidente da República Eurico Gaspar Dutra ao Congresso Nacional. Era só o Congresso votar para tudo ficar consumado.

A Convenção de Iquitos assim resumia suas finalidades e funções: 
Os Estados Contratados, por meio da presente Convenção, criam o Instituto Internacional da Hileia Amazônica, com o objetivo de promover, conduzir, coordenar e divulgar os estudos sobre a mencionada zona geográfica em que possuem território a Bolívia, o Brasil, a Colômbia, o Equador, a França, a Grã-Bretânha, os Países Baixos, o Peru e a Venezuela”. 
A Convenção, na verdade, mirava o petróleo amazônico, a cassiterita, a bauxita, o carvão de pedra, a linhita, o sal-gema, o manganês e outros preciosos minerais existentes no subsolo da riquíssima região.

A batalha patriótica

Quando a mensagem de Gaspar Dutra chegou ao Congresso Nacional, a Convenção recebeu imediato parecer favorável da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, mas encontrou, na figura do deputado mineiro Artur Bernardes, ex-presidente da República (1922-26), uma inesperada e implacável resistência. Tomando para si a matéria na Comissão de Segurança, o parlamentar exigiu que fosse ouvido o Estado Maior das Forças Armadas.

Em 24 de janeiro de 1950, Bernardes ocupou a tribuna da Câmara para discursar pela primeira vez contra o intento norte-americano. Bernardes, abraçou com fervor a causa de defesa da Amazônia e denunciou o projeto absurdo: 
“A Convenção de Iquitos é inconstitucional, o Instituto da Hileia quer adquirir terras, retalhá-las a pretexto de situar operários e colonizar, trazendo e estabelecendo ali refugiados de guerra. Poderá atrair para seu serviço todos os amazônicos, que ficarão também excluídos da jurisdição brasileira e desnacionalizados”.
Bernardes finalizou dessa forma o seu contundente e histórico pronunciamento: 
“Estabelecido o condomínio de nações, surgirão entre elas conflitos de interesses e divergências próprias a todo o condomínio, para cuja solução terão elas de celebrar entre si outros convênios. Acabarão, então, loteando a Amazônia em zonas coloniais para cada uma delas, com a submissão das respectivas populações ao regime obsoleto e degradante das capitulações. A lei brasileira não imperará mais sobre toda aquela gente, e sim a lei daqueles países. É para esta situação que marcharemos se a Câmara aprovar a Convenção”.
O discurso de Artur Bernardes não somente mexeu com os brios e abiu os olhos do Congresso, como invadiu as redações dos jornais e agitou a opinião pública nacional. E, mais importante, acabou influenciando o parecer emitido por uma comissão de autoridades militares, ligada ao Instituto Brasileiro de Geopolítica, sobre a Convenção do Instituto da Hileia Amazônica.

O parecer condenou a “pílula dourada” norte-americana” e pregou a organização de um Instituto Nacional da Hileia Amazônica, como parte integrante do Plano de Valorização do Amazonas que incluía a construção das rodovias Cuiabá-Porto Velho, Aragarças-Manaus, Fortaleza-Belém, Macapá-Clevelândia-Guaporé e Manaus-Caracaraí-Boa Vista.

Após vários outros discursos firmes rechaçando a investidura estrangeira, Bernardes marcou especial presença na tribuna da Câmara em 24 de fevereiro de 1950, intimidando as forças que apoiavam o Instituto da Hileia e encorajando a classe política que, àquela altura, já se mostrava propensa a rejeitar a matéria, seguindo o exemplo do Estado Maior das Forças Armadas (EMFA) e de outros órgãos da sociedade que condenaram a Convenção de Iquitos. Os discursos de Bernardes levantaram outras vozes na Câmara, solidárias ao movimento de resistência nacionalista como Coelho Rodrigues, Eusébio Rocha, Campos Vergal e Paulo Bentes.

A pá de cal

A eloqüência e o destemor de Bernardes contagiaram o Senado, onde sucessivas manifestações passaram a ocorrer denunciando e repudiando o projeto imperialista dos EUA. A ponto de já serem poucos os defensores do projeto no Congresso quando o deputado Artur Bernardes, em 27 de junho de 1951, promoveu histórica conferência no Clube Militar, conseguindo sacramentar a derrocada das intenções estadunidenses em relação à Amazônia. A conferência foi a pá de cal sobre o Instituto da Hileia.

Eis o trecho do discurso de Bernardes que convenceu os militares a mandar definitivamente às favas o famigerado projeto: 
“Como haja desconhecimento, desejo esclarecer que Hileia Amazônica é o conjunto das florestas tropicais que cobrem as bacias do Rio Amazonas e de seus 14 afluentes, desde os Andes até o Oceano Atlântico. Para os efeitos da Convenção, a Amazônia não abrange apenas os Estados do Amazonas e do Pará, mas também parte dos do Maranhão, Mato Grosso e Goiás, por terem, no dizer dos técnicos da UNESCO, a mesma constituição, mas, em nossa opinião, por serem também petrolíferos estes últimos territórios”.
No Clube Militar, Bernardes aludiu ao entreguista Paulo de Berredo Carneiro, que operava na ONU a serviço do Itamarati e que serviu de emissário dos EUA junto ao Governo do Brasil acerca do projeto odiento, frisando que este ignorara, para sua própria vergonha, célebre conselho de George Washington a seus compatriotas: 
“Deveis ter sempre em vista que é loucura esperar de uma nação favores desinteressados de outra, e que tudo quanto uma nação recebe como favor terá de pagar mais tarde com uma parte da sua independência. Não pode haver maior erro do que esperar favores reais de uma nação a outra”. - George Washington.
A manifestação do Clube Militar foi decisiva para decretar a morte definitiva do Instituto da Hileia, com a força do vendaval nacionalista do deputado Artur da Silva Bernardes, o qual, após exercer a Presidência da República na década de 20 e ser tachado de reacionário pelas forças esquerdistas da época, transformou-se nos anos 40 em um dos mais importantes políticos engajados na luta pela emancipação econômica do País. Sua conferência no Clube Miltar, em 1951, liquidou o projeto do Instituto da Hileia, que jamais foi à votação no Congresso Nacional.

Em 23 de março de 1955, Bernardes faleceu em sua residência, no Rio de Janeiro, antes, havia prefaciado o livro “Desnacionalização da Amazônia”, de autoria do desembargador e um dos maiores especialistas em direito ambiental, Osny Duarte Pereira, fazendo este comentário: 
“Nessa altura dos acontecimentos, procurei conhecer o que era o petróleo. Já me dedicara profundamente à questão do minério de ferro, pretendido pela Itabira Iron, e havia também estudado a questão do Instituto Internacional da Hileia Amazônica, que outra coisa não era senão o desmembramento do território nacional”.


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segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

O Identitarismo nas Histórias em Quadrinhos


Dia 14 desse mês de janeiro, a "Mulher Maravilha" (Wonder Woman), versão identitária indígena, "Yara Flor" , não resistiu a 7 edições, e a série em história de quadrinhos - HQ foi cancelada pela D.C., após ter estreiado em 5 de janeiro de 2020 em Future State: Wonder Woman. Em fevereiro de 2021, já havia sido cancelado um projeto de série audio-visual que se quer estreiou, e agora finda a versão em quadrinhos. A personagem, deve ainda aparecer em Trial of the Amazons: Wonder Girl #1 e #2.

A personagem é uma índia criada nos EUA.... O enredo, escrito por Joelle Jones, conta que Yara Flor era preferida pelo pai, oque provocou o ciúme dos dois irmãos, que resolvem matá-la, e ela então os mata. O Pai se volta contra ela, e ela também acaba por matar o próprio pai. Então um belo dia.... visitando as Cataratas do Iguaçu (índio moderno faz turismo!), cai no rio, e se depara com uma Yara que lhe dar super poderes! (Uau!) Passado alguns entreveros, com lutas bem toscas, a autora plageia o mito de Orfeu e Eurídice, fazendo um arremedo lésbico entre Yara Flor (sendo Orfeu) que desce ao submundo atrás de sua "irmã" (de velcro) Potyra (no papel de Eurídice).... (risos incontidos). E como no mito grego, pero non mucho, a anta, digo nossa heroína, soca a parede da caverna e provoca um desmoronamento, desabando sobre sua cumpanhera, que fica soterrada em metade do corpo.... e a nossa heroína (que algumas publicações disseram ser a a mais forte das Mulheres Maravilhas), não consegue tirar Potyra, ficando como Eurídice, presa para sempre no submundo, que nem é tão longe assim, posto que repentinamente há mais um desmoronamento e aparece há uns poucos metros acima, uns índios que puxam ela para cima, e deixam a pobre Potyra no buraco. Nossa heroína, chora desconsolada! (snif, snif, snif!).

A história é tosca, medíocre, e criminosa, promovendo descaradamente misandria (ódio aos homens), como o homossexualismo. Esse tipo de enredo, tem sido comum em quase todos meios cinematográficos e de literatura escrita lançada e promovida pela imprensa hegemônica. Ver "críticos", mais de um, (e tive a curiosidade de buscar artigos da época, e não vi uma única crítica negativa) que logo no lançamento dessa porcaria, elogiavam, dizendo ser uma "obra prima"! Escancara o jabá que rola solto entre esses "influenciadores digitais". 

E eis aí a realidade, que sempre fala mais alto.... ! O cancelamento pela D.C. evidencia o desagrado e o desinteresse do público pela narrativa identitária, que ainda se alastra com toda força na indústria cultural. Outras publicações, como a do "filho do Superman", gay, também foi cancelado após dispencarem as vendas. Essas "rachaduras", sinalizam claramente que a imposição dessa agenda, não é bem aceita pelo público. 

Ya'Wara
Essa agenda identitária não apenas se limita a promover o homossexualismo no público infanto-juvenil, como também o regionalismo, e identidades locais. Antes da D.C. criar a "Yara Flor", ela já havia criado em 2011, a personagem Ya'Wara, estreiando na revista: "Aquaman, Os Outros" Vol. 7. Ya'Wara, embora não seja índia, é criada por uma tribo indígena após um acidente de avião que cai na Amazônia quando ainda era bebê, sendo salva pela "mãe da floresta", que a adota de poderes para proteger a floresta (contra os brasileiros....). A publicação ainda induz o assassinato de brasileiros, com Ya'Wara matando caçadores que haviam morto sua oncinha de estimação. 😭

A MARVEL, por sua vez, em 18 setembro de 2019, na revista House of X #5, dos X-Men, aborda um enredo em que o Brasil se tornou inimigo dos X-Men, e que esta "caçando e matando mutantes".... por "mutantes", leia-se, "indíos". Ainda mais interessante, é que nessa história, os mutantes fundam um País: Krakoa... (qualquer semelhança com reservas indígenas e posterior requisição de independência ou autonomia, é mera coincidência....). Em determinada cena, a mutante Tempestade vem ao Brasil, resgatar umas crianças mutantes caçadas pelo exército brasileiro, com um soldado sendo morto por um raio da mutante. Nessa história, de set. de 2019, ainda é mais capcioso, a previsão pandêmica de seus autores. Os mutantes desenvolvem um remédio, que tentam barganhar em um acordo comercial com outros países, em troca de portais dimensionais nos respectivos países. Dois aspectos saltam aos olhos, primeiro, que em set. de 2019, não havia ainda, um quadro caracterizado de pandemia, e não havia uma única "vacina" comercialmente desenvolvida e comercializada, e segundo, que os tais portais no enredo, claramente, alude aos "passaportes vacinais" que só vem sendo impostos, e efetivamente implementados em 2021. Ou seja, os autores de GIBI, estão mais certeiros que a Mãe Diná em futurologia.... ! Outra curiosidade no enredo, é que o fictício país africano do Pantera Negra, rejeita o medicamente, e esta tudo bem.... e há uma lista de países que não fazem o acordo, tais como: Coreia do Norte, Rússia, Irã, Venezuela, Brasil..... declarados como inimigos! 😲

No cenário nacional, o ramo de HQ, sem suporte de uma grande editora, e com as sucessivas críses econômicas vivenciadas no Brasil, nunca alcançou a magnitude que poderia ter, com seletas exceções, como é o caso do Maurício de Sousa com sua Turma da Mônica, ainda sim, circunscrito a um nicho e tendo a Editora Abril (dos Civitas) como suporte. De modo que, apenas em alguns nichos houve e ainda há uma pequena produção de HQs Nacionais, limitadas a esforços individuais. E o ponto que queremos chegar, é que as parcas produções recentes de HQs Nacional, curiosamente, também tem enfatizado personagens indígenas, ambientados na Amazônia e com temáticas de defesa da floresta (contra quem cara-pálida? Brasileiros?!). Ou seja, estão de forma consciente ou inconsciente seguindo a agenda globalista, contra o Brasil. É de supor, que, ou já estão lobotizados ou estão recebendo incentivos ($$$) de alguma generosa ONG usando alguma editora como laranja. 

É de se assinalar que algumas publicações tiveram a participação de desenhistas brasileiros que trabalham para a MARVEL. Um caso ainda mais escancarado, é o de uma publicação intitulada: "Titãs da Amazônia"(Titans of Amazon).... vejam, como a história é bisonha! Um menino-véi de 11 anos e seu pai, que se identificam sob o pseudônimo: Brandon Lee Amazon e Brandon Kirby Simon.... (índio quer ser ingres, indio quer apito!): diz que viu umas araras no terreiro e teve a idéia de criar uma HQ na Amazônia.... a publicação é da sua editora: Amazon Comics que dentre outros trabalhos tem: “Super-heróis Amazônicos e Agressores Ambientais”, “Black Panther BR Marielle Franco”..... ! Esta última, “Black Panther BR Marielle Franco”, como parte do “Universo Heroínas Brasileiras da Amazônia”; "projeto feminino que contará com a modelo Gisele Bündchen, a atriz Isis Valverde e a Miss Amazonas, Mayra Dias.". Faz lembrar a caboca que pegaram na periferia de Belém, e levaram para ONU, fantasiada de índia mexicana, usando um poncho mexicano, e cocá de índio americano do old west ao lado do ator Leonardo Di Caprio, ex-marido (corno) da Gisele Bündchen, cotada para o projeto da humilde gráfica de Parintins..... (fico pensando, será que a Gigi viria dos States participar do meu projeto social?) 😀

Esse tipo de publicação tem como finalidade fomentar identidades locais, com fins de sessionar a pátria brasileira, ao mesmo tempo que cria empatia na comunidade local pelos seus mecenas, engajando influenciadores que passam a atuar no interesse dos EUA contra o Brasil. Não é muito diferente da ação nos anos 40 da política da boa vizinhança dos EUA com a ibero-américa no curso da II Guerra, com a criação do "Zé-Carioca", àquela época, ao menos se visava um alinhamento e cooperação, enquanto na atualidade, as intenções são muito piores, subreptícias, e sórdidas!



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