sexta-feira, 28 de julho de 2017

A Dança dos Lenços - Dois Lenços na História de Vargas.

Dois Lenços na História de Vargas
por: Carlos Heitor Cony


Getúlio representado com o tradicional
lenço branco castilhista.
Getúlio usava um uniforme sóbrio, como convinha ao chefe civil de um movimento armado. As fardas provincianas tinham uma combinação mediterrânea de cores e símbolos que resultava feérica. Um coronel dos provisórios, lançado no hall de um hotel em Nice, seria tomado como porteiro ou como o conde de Luxemburgo em pessoa e farda. Quanto a ele, o único adorno que consentiu em usar era anterior à farda e ao movimento revolucionário: foi o lenço branco do seu partido, o lenço chimango, símbolo das velhas lutas gauchescas. O lenço de Júlio de Castilhos, de Borges de Medeiros, o lenço republicano.

Era a marca de sua pessoa, de sua grei, de sua crença. O partido contrário usava outro lenço, o vermelho do sangue maragato. A Frente Única unira adeptos de um e de outro lenço, mas cada qual ficou com o que era seu. O acordo tornara possível a "pax" que desceria sobre os pampas tumultuados, criando condições para que os gaúchos roncassem feio e forte no cenário nacional, não mais com fatos ou personagens isolados, como Pinheiro Machado, mas como unidade da federação que tinha o que dizer e fazer.

Apesar da união recente, quem era maragato botava no pescoço o lenço vermelho. Quem era republicano ficava com o lenço branco. O Acordo de Pedras Altas, entre Borges e Assis Brasil, previra uma união de idéias, não de lenços.

O trem que trazia os dois principais chefes revolucionários, Getúlio Vargas e Góis Monteiro, chegara a Curitiba e ali encontrara um clima emocionado. Um estudante paranaense morrera num combate ocasional, episódio realmente isolado, pois quase não havia luta entre as forças leais ao governo e os revoltosos que estavam dispostos a depor Washington Luís e, com ele, a Velha República. A cidade preparara um velório de herói nacional para a única vítima local. Getúlio e Góis não costumavam sair do trem onde funcionava o quartel-general da revolução.

Por conta própria ou por sugestão de algum assessor (não havia marqueteiros naquele tempo), os dois chefes supremos decidiram ir à capela onde o jovem estava sendo velado pela multidão. Abriram alas para eles. A mãe da vítima, ao reconhecer em Getúlio o homem que encarnava o ideal pelo qual o estudante se sacrificara, teve uma atitude surpreendente, espartana: abraçou-se a ele e, sem lágrimas na voz, disse que dera seu filho à pátria e à revolução, que não estava arrependida, só implorava que o sacrifício dele e o dela também não fossem em vão.

A cena comoveu até mesmo o tenente-coronel Góis Monteiro, homem habituado às intempéries da caserna. É possível que tivesse apelado, durante o trajeto do trem à capela, para o cantil, onde não se sabia se havia água ou cachaça. O fato é que, segundo uma testemunha, fungou prendendo um soluço.

Vargas, homem de controle emocional extraordinário, que se policiava como um anacoreta, sentiu um nó na garganta quando a mãe do herói o abraçou. Comovida, a multidão não suportou a cena e muitos começaram a chorar.

A hora não era para discursos, bastava o desabafo da mãe da vítima num arranque inesperado e brutal. Vargas fez um gesto que valeu por um discurso: aproximou-se do caixão, tirou o lenço branco do pescoço e o colocou sobre o rosto do estudante. Era mais que uma homenagem: era uma condecoração.

Quando ele se afastou da capela, um cidadão surgiu à sua frente. Tinha, em volta do pescoço, um lenço vermelho, o lenço maragato. Alguns anos antes, dois gaúchos com lenços diferentes, frente a frente, tinham de puxar o punhal ou a pistola, pois somente um deles deveria viver. Mas agora estavam todos no mesmo barco, na mesma aventura. O cidadão tirou o seu lenço e, num gesto de audácia que ninguém conseguiu evitar, colocou-o no pescoço que, havia três gerações, só conhecia uma cor de lenço: o branco.

Um republicano fanático teria repelido imediatamente o lenço adversário, tal como um maragato, que preferiria ser degolado, como em 1893, a usar um lenço do partido rival. Aquela imposição de lenços seria um exagero emocional que nem mesmo a união revolucionária toleraria. Que se unissem republicanos e federalistas, chimangos e maragatos para destruir um adversário comum certo. Mas que essa união conspurcasse o átrio das tradições, o templo dos velhos ódios, das muitas mortes e derrotas era demais.

Houve espanto e temor na multidão. Que faria ele, um republicano de estirpe, filho e neto de republicanos, de repente exibido em público com um lenço maragato no pescoço?

Getúlio nada fez, ou melhor, fez muita coisa. Partiu da capela por entre alas da multidão, enfrentando os ressentimentos provincianos de alguns de seus companheiros. Estava agora armado cavaleiro. Estava feito revolucionário. Com esse lenço vermelho chegaria ao Rio, assumiria o poder. Aquele vermelho não significava guerra nem sangue. Significava acordo. O sangue dele ficaria para bem mais tarde.

Publicado originalmente na Folha de SP, em 06/08/2004.
Agradecimentos a Igor Taam

Veja também:

V Geração Castilhista
As Raízes Socialistas no Pensamento Getulista.

terça-feira, 25 de julho de 2017

O Fator de Atraso do Brasil Foi O Período Monárquico. - Contexto Histórico.


D. Pedro II, preposto Inglês
Fez do Brasil uma imensa fazenda da Inglaterra.
Se procurarmos as causas do sub-desenvolvimento do Brasil, alguns podem remeter ao tipo de colonização, propagados por livrinhos de segundo grau, entre: colônia de exploração e de povoamento. Tese já superada, por renomados autores. O Brasil em sua primeira fase de colonização se insere muito mais em um tipo de colonização de povoamento do que de exploração, ao contrário do que propaga o senso comum e apesar da classificação dicotômica empregada. 

Também pode-se aludir ao famigerado Tratado de Methuen, esse sim, com reais repercussões no sub-desenvolvimento tanto do Brasil como de Portugal. Doravante o Brasil será uma sub-colônia inglesa, com Portugal cumprindo o papel de atravessador, revendendo as manufaturas inglesas para suas colonias "nominais".... , enquanto a Inglaterra as possuirá ipso-facto.

Contudo, no que pese o devastador efeito do Tratado de Methuen, e que outras colônias, como por exemplo o próprio EUA, que também não foram imunes a esse cenário, conseguem arrancar para o seu desenvolvimento. Enquanto nós, ao menos politicamente independentes (1822), mergulhávamos no atraso. 

As raízes desse atraso esta na política liberal vigente ao longo de todo o império. A torpe e bronca dinastia dos Braganças, bastardos dos bastardos (qualquer Albuquerque brasileiro, tem o sangue de Avis nas veias, mais azul do que qualquer Bragança) sobe ao trono pela mão inglesa, e se a União Ibérica, por si só, não tenha sido algo bom para a nação galaico-lusitana, o seu fim (da União Ibérica) prenunciará um futuro ainda pior. Portugal sai do julgo castelhano e cai em mãos inglesas. E a partir de então a dinastia dos Braganças será um mero fantoche da Inglaterra, sendo posteriormente a monarquia brasileira, um apêndice da tutela inglesa. 

Carlota Joaquina, tão difamada pela imprensa pró-império, tentou romper essa subjugação da coroa portuguesa a inglesa, e até hoje recebe as infâmias pela sua ousadia. Tivesse Carlota Joaquina logrado sucesso, teria restaurado a independência da coroa Portuguesa, integrado ao Brasil toda a América do Sul. E por certo teria provocado um imenso viés a Inglaterra, teria reescrito a História. Não contava, com a frouxidão e a submissão de Don João VI aos desígnos ingleses, que frustraram seus planos.

Sem Carlota Joaquina, o Brasil ficou completamente a mercê dos ingleses, que ditavam e desmandavam na política da colônia. Feita a independência, formal, condicionam sua aquiescência a transferência da dívida da coroa portuguesa para o Brasil, como forma de continuarem parasitando pelos juros o país, e permanecerem influentes sob o apêndice dinástico que ficara no Brasil. 

Don Pedro I, ainda tenta dar alguma independência ao Brasil, tinha projetos ambiciosos para o país, a implantação de uma siderúrgica, mandara emissários aos EUA, que voltaram recomendando a implementação de uma política protecionista e industrialista, como vinha sendo implementado nos EUA, sempre ante-viu a necessidade de uma poderosa armada para se fazer soberano nos mares. Contudo preferiu se cercar de aduladores como: "Chalaça", completamente incompetente para ocupar o cargo, e alinhado aos ingleses. A marquesa Santos, Domitilha de Canto Mello, de ascendência inglesa, também fazia lobby para os ingleses, influindo no fraco caráter de D. Pedro I. Foi sua perdição. Concorreu também se cercar de mercenários estrangeiros, para sua maior desgraça. De modo que o tempo que esteve a frente como Imperador, no que pese seus bons propósitos iniciais, seu governo acabou sendo desastroso. Melancolicamente e já resignado, sem ambiente, renuncia ao trono e vai para Portugal frustrar os planos de sua mãe e seu irmão, servindo de capacho aos ingleses.

Sob o reinado de Don Pedro II, vigente por meio século, o Brasil permaneceu, estagnado, uma imensa fazenda da Inglaterra! Sem qualquer iniciativa industrializante. Antes atagônico a qualquer empreendimento nesse sentido.  Ao passo que os EUA, um país que nasce atolado em dívidas, circunscrito ao litoral atlântico, com uma população rarefeita, e com poucas perspectivas de viabilidade, progride para se tornar a maior potencia da éra moderna.  

O Brasil independente em 1822, nasce com um território consolidado, um imenso e riquíssimo território, o maior do mundo na época! (A Rússia não tinha suas dimensões atuais, os EUA estava circunscrito as 13 colonias, a China se quer era um país e também limitada a sua atual porção oriental, o Canadá não era independente, e o Quebec era francês), com uma população culturalmente homogênea, como ainda hoje é, de mesma origem, uma autêntica nação-continental! Com um poder mais centralizado (no que pese o parlamentarismo-monárquico vigente) do que qualquer governo republicano posterior. O Brasil Império tinha todos os elementos para tornar o Brasil uma potência. Oque lhes faltou, foi justamente um governo comprometido e sobretudo ligado aos interesses do Brasil. Alguns monarquistas alegam como suposta prova de independência da monarquia a frente da Inglaterra a, "Questão Christie", oque é um engodo, as relações foram cortadas meramente no plano diplomático, mero formalismo, os bancos ingleses e as casas de importação e exportação inglesas continuaram a operar normalmente, com enormes lucros no curso da Guerra do Paraguai, que tiveram nos bancos ingleses seus principais financiadores. 

domingo, 4 de junho de 2017

As Raízes Socialistas No Pensamento Getulista.



"Desejo apenas, antes de me afastar inteiramente da vida pública, deixar no Partido Trabalhista Brasileiro um componente novo, uma força de equilíbrio que atenda às aspirações dos trabalhadores e eleve a nossa cultura como a expressão doutrinária do socialismo brasileiro." – Getúlio Vargas.

Quando de seu “exílio”, em São Borja, em uma entrevista concedida a Décio Freitas, Getúlio confessou não ter lido muito Comte em sua juventude, mas sim Saint-Simon, seu verdadeiro mestre:

“Saint-Simon foi o meu filósofo. Na minha juventude eu o li muito, exaustivamente. Mandei vir da França uma edição completa das obras dos saint-simonianos, editadas em Paris, nos meados do século passado. Não li todos os volumes, mas li muitos. Quem me influenciou foi Saint-Simon, não Auguste Comte. Os que conhecem estes filósofos sabem das diferenças marcantes entre eles.”

Saint-Simon
Saint-Simon foi o filósofo francês fundador do pensamento industrialista e que teve Auguste Comte, como seu discípulo, quando secretário de Saint-Simon de 1817 à 1824. O socialismo industrialista de Saint-Simon, foi a primeira vertente ideológica, de matiz intervencionista, negadora do liberalismo. Com a proposta de sanar os efeitos maléficos do capitalismo mediante uma interveniente administração pública.

Saint-Simon concebeu uma economia planejada que regulasse o desenvolvimento nacional. Os industriais e os seus financiadores seriam os missionários de um novo credo, pelo qual "as classes mais numerosas e sofredoras" seriam incorporadas e protegidas pela sólida união de Indústria e Governo. O excesso de exploração pelo capital, advindos do egoísmo, seriam redimidos pela instituição de uma sociedade altruísta, termo cunhado então, para designar um regime próspero e distributivo.

Um dos princípios liberais que Comte julgava particularmente funesto pelo liberalismo, seria o de conceber os processos de produção, circulação e consumo de mercadorias somente em função dos interesses individuais. A absolutização do desejo de lucro, aceso egoisticamente em cada agente da vida social, tende a gerar um estado de anomia ou de violência desenfreada que tão-só uma prudente e enérgica administração pública conseguiria evitar.

Estruturava assim um regime meritocrático, em que a recompensa do mérito iria para os fortes; a assistência benévola, para os fracos. Chegando ao ponto de abolir o instituto da herança, um dos maiores óbices criados ao progresso por manter privilégios individuais em detrimento da solidariedade social. Nascia, deste modo, o ideal reformista do Estado-Providência: um vasto e organizado aparelho público que ao mesmo tempo estimula a produção e corrige as desigualdades do mercado.

Getúlio quando estudande de direito, dissertando sobre a questão da propriedade, citando Comte, critica a fórmula do Laissez Faire, que não passa de uma confissão de impotência frente aos problemas sociais. Registra, que o Estado:

“Deve proteger ou antes facilitar, a tendência associativa e as sociedades cooperativas dos operários para resistirem ao capital. Deve, porém, ser o garantidor da liberdade individual e nunca julgá-la no círculo de ferro de uma disciplina rigorosa”.

Critica aos que não entendem as verdadeiras necessidades da nação. A indústria (no sentido da manufatura e no sentido amplo de tudo aquilo que é produzido) é a maior riqueza de um país, diria Saint-Simon:

Os capitais e a indústria, eis aí os órgãos naturais da criação das riquezas; um povo que as possui necessariamente enriquecerá, um povo que não as tem continuará necessariamente pobre”.

Na França de Napoleão quase todos os empresários que lograram exercer uma influência econômica duradoura pertenciam a um grupo bem definido: não eram bonapartistas, mas "socialistas" san-simonianos.

Saint-Simon ficou entusiasmado com a ascensão de Napoleão Bonaparte (1769-1821) ao poder, em 1804, como Imperador, e com a sua decisão de governar alicerçado em Conselhos Técnicos, dispensando a opinião dos políticos.

Saint-Simon imaginava ser o pensador da nova ordem, o seu cientista. Getúlio claramente abraçou esse postulado. Eis o fragmento de um discurso, alguns meses após a Revolução de 30:

A época é das assembléias especializadas, dos conselhos técnicos integrados à administração. O Estado puramente político, no sentido antigo do termo, podemos considerálo, atualmente, entidade amorfa, que, aos poucos, vai perdendo o valor e a significação.” – Getúlio Vargas, em 04-05-1931.

Getúlio conseguiu substituir a representação política pelos conselhos técnicos integrados à administração.

Francisco Martins de Sousa, ao concluir a sua análise do corporativismo vigente no Estado Novo, destacou, de forma clara, a fidelidade de Vargas ao castilhismo, nos seguintes termos: “Em síntese, pode-se apontar a fidelidade de Vargas ao castilhismo nestes aspectos:

a) O governo é uma questão técnica, é um problema de competência (o poder vem do saber e não de Deus ou da representação). A tarefa legislativa não pode ser delegada aos parlamentos, mas a órgãos técnicos.

b) O governo não é ditatorial porque não legisla no vazio, mas consulta as partes interessadas. O princípio castilhista que se exercia mediante a publicação das leis e a resposta do governante às críticas, sob Vargas, no plano nacional, assume esta forma: os técnicos elaboram as normas legais; os interessados são convidados a opinar; e o governo intervém para exercer função mediadora e impor uma diretriz, um rumo. Em vários níveis essa modalidade achava-se institucionalizada em Conselhos Técnicos, com a participação dos especialistas, dos interessados e do Governo.

O ponto nevrálgico da estratégia de Getúlio seria a redução dos problemas políticos a questões técnicas. E foi o Conselho Federal de Comércio Exterior que assessorava Getúlio, que o levou à solução intervencionista do problema do aço, com a criação da CSN sob forma de Empresa Pública diretamente vinculada e gerida pelo Estado. Esse conselho, tinha formação baseada nas idéias difundidas na Escola Politécnica por Aarão Reis (1853-1936), com uma visão bastante ampla da intervenção do Estado na economia.

“A Democracia econõmica não se pode organizar sem o prévio planejamento. Este é que se tem de realizar. Não para economia da coletividade ser desfrutada por meia dúzia de privilegiados. Esse planejamento econômico é que coloca a produção subordinada aos interesses da comunidade e não das minorias. Por conseguinte, nós todos devemos nos empenhar em trabalhar para isso, para a organização dessa democracia planificada, a fim de que ela constitua a defesa dos trabalhadores. É nessa democracia que me alisto convosco, para conseguirmos realizar o engrandecimento do Brasil e a prosperidade de todos os brasileiros.” – Getúlio Vargas.

Além de Saint-Simon, Getúlio foi profícuo leitor da obra de Friedriech List, autor do “Sistema Nacional de Economia Política”. List, converteu o discurso empresarial de Saint-Simon na linguagem de um poder público centralizador de que Bismarck seria o paladino. O caminho alemão passou pelo protecionismo oficial à indústria com Guilherme II. Foi nessa Prússia moderna e autoritária que se adotou, pela primeira vez, o termo: Estado de bem estar, Wohl-fahrsstat.

Os exemplos da França e da Alemanha ilustram a tese: de que o desenvolvimento técnico e econômico das nações européias não foi um subproduto automático da Revolução Industrial, e sim de fatores ideológicos e, em senso lato, culturais. Isso é ainda mais claro no caso do Brasil. Independente em 1822, portanto, um Estado-Nacional ainda mais antigo do que a Itália e a Alemanha, com um território vasto e já unificado, não há ao longo de todo meio século de Império, nenhuma iniciativa de desenvolvimento industrial do país, por carência de uma ideologia industrial que a mobilize, e que só despertará para tal empreendimento, com o pensamento industrial dos republicanos. E é com a ação de Getúlio, movido por essa ideologia industrial-socialista que a industrialização brasileira se concretizará, ainda que tardia. 


sábado, 27 de maio de 2017

A Terceira Posição, Como Projeto de Integração Sul-americano.


"La Argentina, sola, no tiene unidad económica; Brasil, solo, tampoco; Chile, igual. Pero estos tres países, unidos, forman actualmente la unidad económica más extraordinaria del mundo. No caben dudas de que, realizada esa unión, los demás países sudamericanos entrarán en su órbita". – Peron.


O Termo "Terceira Posição" foi cunhado por Juan Domingo Peron, presidente da Argentina de 1946 à 55 e 73-74,  defendendo a união da América do Sul sob a formação de um bloco estratégico, de modo a evitar um alinhamento entre os EUA ou a URSS. Uma tentativa de reativação do Pacto ABC, entre Argentina, Brasil e Chile para cooperação exterior, de não agressão e arbitragem, firmado em 15 de maio de 1915. Uma forma de estabelecer um equilíbrio e mecanismos de consulta entre os três países e responder as influências externas na América do Sul. Iniciativa tomada, após o bloqueio e bombardeio a Venezuela ocorrido em 1902-03, por uma força conjunta da Inglaterra, Itália e Alemanha, sob consentimento dos EUA, ante a recusa da Venezuela de pagar dívidas externas.

Peron via a América do Sul como uma região depositária das "mayores reservas de los elementos fundamentales de la vida humana: alimento y materias primas" e diante dessa imensa riqueza antevia o perigo da cobiça das potências externas. A história da humanidade mostrava que as grandes potencias, quando necessitam de bens que não possuem ou que se esgotaram, vão em busca e os conseguem: "por las buenas o por las malas".

Em 1950, eleito Getúlio, Perón pode iniciar o sonho de unir a América do Sul. O Plano previa a união de três países: Argentina, Brasil e Chile. No Chile, Perón apoiou o então candidato: general Carlos Ibáñez del Campo.

Em fevereiro de 1951, logo após a posse de Vargas, Perón enviou um emissário especial ao Rio de Janeiro. Coronel Roberto T., que lhe teria dito:

"Señor presidente, quiero transmitirle un mensaje personal de Perón. El me ordenó decirle que su parte del acuerdo realizado meses atrás ha sido cumplida. Ahora ha llegado su turno de cumplir con la otra parte.”

Ao que Vargas o respondeu:

" - Diga ao meu grande amigo, general Peron, que agora, é absolutamente impossível cumprir com minha parte. Governo um país com um congresso fortemente opositor. Espero que Peron faça oque vou fazer, tirar dos EUA todas as vantagens econômicas possíveis. E adiante veremos o tema do eixo Buenos Aires-Rio de Janeiro.”

Sem o Brasil podendo aderir ao pacto naquele momento, era necessário buscar o Chile. Por isso, foi a Santiago. E disse ao general Ibáñez:

"Vengo aquí con todo listo, traigo la autorización del presidente Vargas, porque yo estaba comprometido inicialmente a hacer esto primero con Brasil. De manera que todo está saliendo perfectamente bien, tal como fue planeado. Y, tal vez, al hacerlo, se le facilite la acción a Vargas".

Perón, em visita ao Chile (fevereiro de 1953), expressou seu desejo de ver reativado o pacto ABC firmado entre a Argentina, Brasil e Chile em 1915, propugnando a solidariedade entre as três nações ante qualquer tipo de agressão ou intervenção externa.

O que nem Perón nem Ibáñez esperavam era que o ministro das relações exteriores do Brasil, João Neves da Fontoura, faria declarações duras contra o Pacto. Disse que o Brasil estava contra os pactos regionais e que isto significava a destruição do panamericanismo.

Na tentativa de contornar o incidente diplomático provocado por esse pronunciamento, Getúlio enviou a Buenos Aires o jornalista Geraldo Rocha, incumbido de esclarecer ao governante argentino que tais declarações haviam sido feitas sem seu conhecimento.

Desse modo, no dia 19 de junho de 1953, João Neves da Fontoura apresentou seu pedido de demissão, sendo substituído por Vicente Rao.

Em 4 de abril de 1954 João Neves da Fontoura, agora, ex-ministro das Relações Exteriores, concedeu uma entrevista à imprensa denunciando o acordo entre Vargas e Peron, para se opor à hegemonia norte-americana no continente. Esse pronunciamento, foi explorado pela imprensa e pela oposição, sob a acusação de que Vargas pretendia implantar uma república sindicalista no país.

Um ofício secreto enviado a Buenos Aires em julho de 1954 da Embaixada Argentina mostra que Vargas não tinha retaguarda para cumprir o que havia prometido a Perón. Seu conteúdo, em linguagem diplomática cifrada, era o seguinte:

"O presidente Getúlio Vargas tem simpatias por nosso país, mas seus meios de expressão (políticos e administrativos) estão embargados por uma oposição forte e total (Parlamento, imprensa e classes dominantes). A situação política o obriga a silenciar seu verdadeiro pensamento e deixar livres seus ministros. A isto se devem as profundas alterações da política externa dos gabinetes de um mesmo presidente".

Com o processo o aliciamento de membros do governo pelos EUA, como sucedeu ao próprio João Neves da Fontoura, que ainda em 12 de janeiro de 1951, se associou a Standart Oil, como presidente da Ultra Gás, e mesmo de outros setores, especialmente, a aeronáutica, que veio a desencadear os acontecimentos da rua Toneleiros. O processo de desestabilização atingiu um ponto cuminante, que levou Getúlio a cometer o derradeiro ato de 24 de agosto de 1954.

O martírio de Vargas impediu o golpe que o teria derrubado em 54, contudo, a oposição conseguira impedir naquele momento a consolidação de uma aliança do cone-sul que teria se não anulado, ao menos, diminuído bastante a influência imperialista dos EUA e da Inglaterra sob a América do Sul.

O MERCOSUL – Mercado Comum do Sul, fundado em 1991, inicialmente pensado como um processo de maior abertura econômica, terá sob a liderança do ministro das relações exteriores Celso Amorim, ainda no governo Fernando Henrique, e fortalecido no governo Lula,  um impulso muito além do originalmente previsto, retomando as idéias autonomistas do Pacto ABC. Tendo sido um núcleo vitorioso de enterramento da ALCA – Aliança de Livre Comércio das Américas.

Como entidade complementar, ante os entraves comerciais que estagnavam o MERCOSUL, foi criado a UNASUL de modo a haver uma maior articulação política entre os países da America do Sul, inclusive, com repercussões militares de formação de uma organização de defesa sul-americana, nos moldes da OTAN.

Essas iniciativas, sempre tiveram violentas reações dos EUA, a exemplo do que já houvera acontecido com o Pacto do ABC entre Brasil e Argentina. De modo a minar essas alianças. Os EUA articularam a criação da Aliança do Pacífico, também chamado “Arco do Pacífico” (Chile, Peru, Colombia e México) visando impedir o acesso dos países do MERCOSUL ao mercado asiático via Pacífico.

A isso se segue os golpes: na Guatemala, como projeto piloto, derrubando o então Presidente Manoel Zelaia; no Paraguai o presidente Lugo, a desestabilização e tentativas de golpes na Venezuela e no Equador, e finalmente o golpe de Estado de 2016 no Brasil. No momento que o Brasil assinara a criação do Banco do BRICS, e que teria dado ao Brasil uma enorme influência sob os outros países da América do Sul. Isso se traduziria, dentre outras inúmeras possibilidades, numa maior facilidade de financiamento das empresas brasileiras em um valor nunca antes visto e uma consequente expansão não só na América do Sul, como para além do Atlântico Sul, na África austral como já vinha se processando e outros mercados, incluso, o estadunidense.

Fica fácil deduzir, o objetivo da operação “Lava Jato”, quebrar a indústria nacional de setores estratégicos do Brasil, ao mesmo tempo: retirar da cena política, políticos empenhados nesse processo de integração, sob o pretexto do “combate a corrupção”. O mesmo discurso dos processos de desestabilização de Vargas em 54 e de Goulart em 64. Como também, assim foi, na Argentina contra o Peron. Lembremos a sempre oportuna frase de Henry Kissinger, secretário de Estado dos EUA, por 50 anos! E que esteve a frente da derrubada de Vargas e Peron: “Não permitiremos um novo Japão ao sul do equador”, se referindo ao Japão anterior a II Guerra, nacionalista, que se fez potência.





Artigos Relacionados:


15. A "Lava Jato", Como Plano de Destruição da Petrobrás e da Indústria Nacional.
16. "Não Permitiremos um Novo Japão Ao Sul do Equador".
17. O Combate de Getúlio Vargas aos Regionalismos e as Doutrinas Estrangeiras
18. 1139 - A Fundação do Estado Nacional
19. O Anti-fascismo de Julius Evola



quinta-feira, 11 de maio de 2017

O Papel do Estado na Economia Nacional - Trecho da Obra: "Globalização Versus Desenvolvimento" de Adriano Benayon.

Adriano Benayon
O Estado não tem substituto possível, pois o capital privado só começa a crescer e a ser investido produtivamente, durante esse processo, graças à política estatal de desenvolvimento da infra-estrutura e da indústria. Sem isso o processo não se inicia, como já demonstrado com a história de países desenvolvidos. Para que surja, é preciso dar-lhe direção e impulso. Falta, via de regra, aos empresários privados, visão social e sentido nacional, consciência da direção necessária para opor-se a ideologias dos centros e dimensão para resistir às corporações econômicas estrangeiras. Salvo exceções, os empresários só formam aquela consciência se forem apoiados ou orientados por lideranças assentadas no poder do Estado. A ótica usual das empresas é particularista, definida por estreitos horizontes e objetivos: sobreviver no mercado e dele extrair ganhos nas condições prevalescentes. Não se pode esperar que se arrisquem muito para tentar transformar essas condições mesmo quando entendem a necessidade de isso ser feito.

Só no âmbito do Estado há condições de levar adiante as políticas de bem-estar geral, sem as quais jamais haverá desenvolvimento. É a direção política que tem de perceber que a penetração do capital estrangeiro leva as empresas locais à extinção. Os comerciantes, financistas e industriais do centro, para surgirem e crescerem, foram guiados pela política de desenvolvimento nacional, comandada pelo Estado. Esta excluía as empresas estrangeiras do mercado, dos benefícios e dos subsídios. Assim, as firmas locais acumularam capital e tecnologia. Apenas depois de seus países se tornarem centrais, as oligarquias abriram, seletivamente, o mercado financeiro, a fim de ampliar ganhos administrando recursos financeiros externos. Ademais, de há muito agem nos demais países, deles extraindo tudo quanto o mercado suporta.

Economia social de mercado
Aqui são esboçadas as linhas do modelo necessário para inverter o atual processo destrutivo do país e da humanidade. Economia social onde mercado decorre de duas idéias centrais:

1)   Há que fazer crescer a economia de mercado e administrá-la, para que ela, dada a tendência à concentração, não se autodestrua;
2)   Isso só pode ser feito por meio de intervencionismo estatal permanente.

A sociedade precisa da economia de mercado para ter equilíbrio social, econômico e político. Ao lado das atividades de grandes empresas estatais, essa economia é um mecanismo eficiente de produção. O quê, como e quando deve ser produzido não tem de ser definido apenas pelas empresas de grande porte. Deixadas a si mesmas, elas produzirão só o que maximize o lucro, em geral imediato, ainda que em detrimento da sociedade. As vendas serão asseguradas por meio de marketing, deturpador das mentalidades.

Tolerada a concentração, modifica-se a equação de poder na sociedade, e ninguém mais deterá a opressão. É indispensável, portanto, controle social do que tem de ser produzido, sem fixar faixas muitos estreitas de liberdade de escolha, mas promovendo o que é produtivo e socialmente útil, além de vedar o que prejudica a saúde espiritual, cultural, ética, emocional e física das pessoas.

A economia de mercado é necessária também porque, se o setor produtivo for constituído, na maioria, por empresas estatais, a sociedade se desequilibra, por concentrar-se demasiado poder no estado. A economia social de mercado combina firmas estatais e privadas, estas formas principalmente por pequenas e médias empresas de capital nacional. Todas as empresas têm de ser controlados pela sociedade, e até mesmo para que o mercado se encarregue de controlá-las e necessária a intervenção do Estado impeditiva da concentração. Sem isso, o setor privado torna-se capitalista e assume poder demais, formando a pior combinação possível:  a subordinação do poder público a interesses privados especiais, em lugar do equilíbrio sociopolítico, fundado no princípio do interesse social, coletivo, imune a ideologias. Flui dos mesmos princípios que a classe média seja majoritária, educada e produza pessoas capazes de fazer parte de uma elite de verdade.

*Adriano Benayon, doutor em economia pela Universidade de Hamburgo e autor do livro Globalização versus Desenvolvimento.


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1139 - A Fundação do Estado Nacional

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O Nacionalismo Como Tomada de Consciência e Defesa da Cultura Brasileira Contra o Imperialismo Cultural.

"Essa geração que curte roque é muito fraca, culturalmente falando. É a geração que lê gibi, não lê livros. A maioria dos grupos de roque, que eles chamam de "roque brasileiro", mas isso não existe — tem nomes tirados de gibi: Barão Vermelho, Jota Quest... Ou seja, eles só leram gibi e jornal, não podem fazer uma bela poesia, mesmo que tenham talento. E se tem talento, geralmente não partem para esse caminho. No que diz respeito à poesia e à música, o sujeito pode ser analfabeto, como é o caso do Patativa do Assaré, João do Vale ou Cartola. Alguns tiveram oportunidade de estudar, mas mal fizeram o primário. Essa geração, no entanto, foram criados sob o massacre. E fizeram suas músicas, que não eram brasileiras, de acordo com as que eles ouviam: o roque. E a literatura deles, na minha opinião, é literatura de redação de ginásio, do cara que lê gibi."

Não se deve confundir as influências culturais, que são naturais e espontâneas com o imperialismo cultural.

As influências culturais são naturais, como explica Tinhorão: " - são naturais quando são espontâneas. Se você pegar a música pantaneira, ela é muito parecida com a música paraguaia, mas por que? Porque há uma influência da música paraguaia no território brasileiro e da música brasileira no território paraguaio. É muito espontânea, porque alí não tem controle de fronteira; um tocador de guaraña ele vem às vezes tocar num daqueles cabarés de bandido, alí no Mato Grosso, pobre, com aquelas prostitutas baratinhas... Então ele fica lá tocando aquele treco, resultado: o compositor do Mato Grosso fica impregnado com aquela música da Guaraña, daqui a pouco, ele faz um negócio aguaranhado, é natural..

Agora este mesmo compositor, se ele veio pra uma cidade grande do Mato Grosso, ele vai ser bombardeado pelo rádio, pela TV, aí quando ele fizer o chamado roquinho brasileiro já não é autêntico, porque não é normal ! Não é uma influência normal, é uma coisa imposta e artificial".

Uma vez que surge a consciência dessa imposição cultural, desse imperialismo cultural, a ideologia nacionalista surge como reação e negação dessas influências. De se opor ao que destrói sua cultura nacional. 

O Nacionalismo é a tomada de consciência da cultura brasileira, e como brasileiros a tomada de sua defesa.  

Antes do fim da II Guerra tínhamos um repertório que ia de Dorival Caymmmi a Ari Barroso, Noel Rosa, Cartola, Villa Lobos, gênios notáveis!

Com a busca de mercado pelas multinacionais fonográficas lançando seus tentáculos no Brasil, as rádios passaram a tocar música estrangeira, não que fossem boas, mas porque as pagavam e ainda pagam pra isso! E eis o resultado.... "eguinha pocotó", "funk", todas essas porcarias surgiram no vão de músicas estrangeiras.

O imperialista crava a cultura dele no meio da sua, esmaga a sua e a cospe fora. Todos os meninos, hoje, falam inglês. Hoje se escuta muito mais inglês do que português. As gírias, criação do povo e fazem parte da mutação da língua, são em inglês.

É nesse cenário que surge a Bossa Nova. No mesmo diapasão da Bossa Nova veio a o "Iê iê iê"(já não bastasse o ridículo do nome), Tropicália.... e no que isso resultou? No que se convencionou chamar de "Roque Brasileiro", que de brasileiro não tem nada! Pura e simples importação, corroborando para perda da identidade musical brasileira, e sua degradação.

A publicidade e a propaganda agem diretamente nos desejos das pessoas, novelas e programas de TV, induzem o gosto das pessoas exibindo roteiros, cenários, estilos de vida de personagens e apresentadores. O mesmo acontece com as produções cinematográficas que, na sociedade atual, também foram transformadas em objetos de consumo. Assim, visa-se o consumo dos produtos dos países centros pelos países periféricos. Por cada música da Britney Spearl consumido aqui, nossos reais são convertidos em dólares e nossas divisas enviadas para fora com o pagamento de "royalties" e direito autorais, além de impedir o surgimento de uma indústria cultural nacional geradora de produtos, empregos e renda. Ou seja, ficamos mais pobres e eles mais ricos! 

A França, na União Européia - UE, fez impor oque se designou chamar de "exceção cultural", resguardando seu setor audio-visual. Medida que permite o governo francês subvencionar o teatro, o cinema, impor cotas de difusão de filmes, músicas ou programas de TV, estabelecer benefícios fiscais, enfim, proteger sua criação artística e cultural. Medida natural, que qualquer país minimamente preocupado em defender sua nacionalidade deveria tomar como exemplo.

É diante dessa superficialidade estrangeira, quando você tem um conhecimento profundo a respeito de alguma coisa, e passa a renegar essas influências externas, dizem que você é radical. Mas radical é aquele que foi na raiz e aprendeu, sabe dialogar a respeito do que aprendeu, diferente dos alienados. E são esses alienados, corrompidos por influências estrangeiras, que te rotulam de radical, como se isso fosse um xingamento.

Para finalizar merece ser repensada uma colocação do compositor Paulo César Pinheiro, autor de mais de 1500 músicas compostas, dos quais 900 gravadas:

"No lugar que hoje poderia estar o samba mais bonito do mundo, está um rap que não é brasileiro — que não é nem música, aliás, é uma forma de verso falado com um ritmo chato embaixo. Aquilo que a gente dizia, a revolução que a gente trazia nas letras da nossa época, tinha como base músicas muito bem feitas. Hoje, a reclamação é feita com a música do país contra o qual se reclama. Ou seja, está tudo errado.".


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terça-feira, 20 de dezembro de 2016

O Arcadismo Como Embrião do Nacionalismo Literário Brasileiro


No séc. XVIII, o Brasil atingiu um momento decisivo da sua história. É a época da criação da consciência histórica no brasileiro. A descoberta e posse da terra, as façanhas bandeirantes, a defesa contra o invasor, deram lugar a uma consciência comum, a um sentimento da figura do ‘brasileiro’.

A descoberta das minas, transferiu o eixo econômico, no Brasil, a província de Minas Gerais, onde se desenvolveu uma sociedade dada ao fausto e à cultura, máxime em Vila Rica, capital da província. Os recursos econômicos e as riquezas aumentaram, a população cresceu, a vida das cidades melhorou, a cultura se difundiu. Aí a fermentação econômica e cultural deu lugar a que se reunisse um grupo de intelectuais e artístas, a Arcádia Ultramarina. De assinalar que a obra "De Gestis" (A Saga) do Padre José de Anchieta, de 1563, é uma obra precursora de características clássicas, anterior ao "Os Lusíadas" de Camões, sendo o primeiro poema épico das Américas! Seguindo o espírito Renascentista da época.

Antes, o Arcadismo surge em Portugal em  1746 inspirado pelas ideias racionalistas de Luís António Verney, que publica as cartas que compõem o  "Verdadeiro Método de Estudar", obra que critica o ensino tradicional e propõe reformas visando colocar a cultura portuguesa a par com a do resto da Europa. Feito que será implementado por Marquês de Pombal (1750-1777).

Thomas Cole - O Curso do Império, Arcadiano.

O Arcadismo é difundido no Brasil em  1768 com a fundação da “Arcádia Ultramarina”, também chamado grupo plêiade ou “escola mineira” em Vila Rica, e a publicação de “Obras Poéticas”, de Cláudio Manuel da Costa. Dentre outros autores estão Basílio da Gama e seu O UruguaiSanta Rita Durão com Caramuru , como também o poema Vila Rica, de Cláudio Manuel da Costa, além de Tomás Gonzaga, que constituem a primeira escola literária brasileira.
Tomás de Gonzaga. dedicou se
"Tratado de Direito Natural" 
ao Marquês de Pombal.

Constituem eles o início do lirismo brasileiro, ´pela transformação do veio nativista e da exaltação da natureza, pela adaptação da temática clássica ao ambiente e homens locais, com sentimentos e emoções peculiares; em suma, fundindo o individualismo, sempre subordinado ao interesse nacional, ao sentimento da natureza e o ideal clássico. Até o desabrochar do romantismo, foi justamente graças ao espírito arcádio que se manteve o ideal nativista, contrabalançando a tendência passadista do neoclassicismo, cuja marca exterior mais forte foi o gosto da linguagem arcaizante, quinhentista, dita ‘clássica’. E isso se deve também ao fato de, pela primeira vez, se reunirem grupo de artistas conscientes de seu oficio e superiormente dotados de valor.

De todas as formas neoclássicas, a corrente arcádica foi a que maior influência assumiu no Brasil. O espírito nacionalista desabrochava por toda parte.  O espírito neoclássico que se infiltrou nas mentes luso-brasileiras, procurou combater o barroquismo em nome dos ideais de precisão, lógica e medida e da restauração das normas clássicas em oposição ao tradicionalismo medieval e religioso. Esse ideal neoclássico dominou o final do séc. XVIII e princípios do séc. XIX, aparecendo em alguns escritores tingidos de elementos pré-romanticos, como o sentimentalismo e o nacionalismo.

A reação clássica com o arcadismo significava uma volta à simplicidade e pureza dos antigos, numa identificação com a natureza, aonde residiria o bem e o belo, em contraposição aos centros urbanos corrompidos pelo espírito mercantil. Daí, a valorização da vida pastoril, pura e pacífica. A procura das qualidades clássicas da medida, conveniência, disciplina, simplicidade e delicadeza,.uma sensualidade inocente libertadora da castidez medieval, aonde a mitologia pagã é a fonte de inspiração e refúgio desse ideal, a ‘Arcádia’. 



poesia épica do Arcadismo brasileiro trouxe inovações, que a diferenciou em muitos aspectos do modelo europeu. Enquanto que na Europa o arcadismo se distancia das questões políticas, imergindo em um idílico êxta-se alheio a realidade, às portas da Revolução Francesa. Oque evidencia de forma muito clara, a alienação, a vida a parte que levava sua elite. No Brasil, os árcades se encontravam em plena ebulição política, herdeiros da pregação republicana de Felipe dos Santos com a Revolta de Vila Rica (1720) e eles próprios: inconfidentes mineiros. De ressaltar ainda que os temas da história colonial são valorizados, pondo a colônia como centro das atenções em meio à descrição da paisagem tropical do país e a inserção do índio como herói, mesmo que ainda coadjuvante do homem branco. São as novas perspectivas que começam a delinear uma literatura nacionalista, que terá sua maturidade com o Romantismo.


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