sexta-feira, 11 de maio de 2018

Breve Biografia de André Vidal de Negreiros, Fator Máximo na Expulsão dos Holandeses do Brasil


“De André Vidal direi a Vossa Majestade o que me não atrevi atègora, [...] Tem Vossa Majestade mui poucos no seu reino que sejam como André Vidal; eu o conhecia pouco mais que de vista e fama: é tanto para tudo o demais, como para soldado: muito cristão, muito executivo, muito amigo da justiça e da razão, muito zeloso do serviço de Vossa Majestade, e observador das suas reais ordens, e sobretudo muito desinteressado, e que entende mui bem todas as matérias, posto que não fale em verso, que é falta que lhe achava certo ministro grande da corte de Vossa Majestade. Pelo que tem ajudado a estas cristandades lhe tenho obrigação; mas pelo que toca ao serviço de Vossa majestade (de que nem ainda cá me posso esquecer) digo a Vossa Majestade que está André Vidal perdido no Maranhão, e que não estivera a Índia perdida se Vossa Majestade lha entregara.”

Pe. Anto. Vieira, lamentando a ida de André Vidal
do governo do Maranhão.



André Vidal de Negreiros
É no movimento contra o domínio holandês que surgem os primeiros heróis da nacionalidade, com destaque especial para André Vidal de Negreiros. Segundo palavras de Irinêo Joffily, Vidal, à frente do exército restaurador, foi “o principal heróe brazileiro nos tempos coloniaes”. Hélio Zenaide destaca que Vidal foi um homem”íntegro” e o nomeia como o “herói da guerra contra os holandeses em Pernambuco”.

Esta concepção da existência de um sentimento de brasilidade e amor à terra, fica clara na obra “Vidal de Negreiros: afirmação e grandeza de uma raça”, de Luiz Pinto, que se propõe a realizar uma biografia de Vidal. A obra de Luiz Pinto foi a única que se dedica a apresentar uma biografia mais detalhada de Vidal. Para Luiz Pinto, o domínio holandês no Brasil não teve outra significação senão a econômica, tendo em vista o “espírito mercenário e judaico da Companhia de rapina”. O mesmo, para Pinto, não se passava com os brasileiros que defendiam a colonização lusa: a bandeira que empunhavam contra a Holanda seria a da religião católica contra os hereges calvinistas, o que teria dado à guerra uma característica religiosa.

Segundo o autor, foram as três raças de nossa etnia - a branca, a negra e a indígena, representadas respectivamente por Vidal, Henrique Dias e Camarão, que deram corpo e sentido à guerra de expulsão. E continua: “(...) Vidal foi a alma da restauração, o homem que nunca se curvou ao mêdo, nem a conveniências, nem se sobressaltou frente ao poderio inimigo, de muitas vêses quase esmagado.”.

Entre as tropas arregimentadas na Paraíba para a libertação da Bahia do domínio holandês, em 1624, já se encontrava, como “voluntário da sua terra”, André Vidal de Negreiros, paraibano, então com 18 anos de idade e filho de Francisco Vidal e d. Catarina Ferreira. Seu pai seria senhor do engenho S. João. Nas passagens a seguir, podemos perceber a visão de um herói destemido, um predestinado, devotado à sua terra e à sua religião, que Luiz Pinto visa construir:
“Quando Matias de Albuquerque acudiu aos chamamentos e reclamos da Bahia, arregimentando tropas para combater o invasor batavo, um jovem paraibano vibrou de entusiasmo. Queria lutar também, seguir com os resultados de qualquer maneira, acudir em defesa da sua pátria e da sua religião. (...) O rapaz André, filho do velho Vidal, era dos mais ardorosos. Alistara-se às suas custas. E logo se transformou num propagandista e animador dos mais decididos e corajosos. Moço, desenvolvido, ágil, ouvindo as narrativas dos vencedores, sentia estremecimentos, desejando partir quanto antes em socorro daquele povo.”
Vidal não só se destacou pela sua empolgação e devoção pela causa da expulsão dos holandeses – também se destacou nas batalhas, se tornando um dos soldados mais capazes e distinguidos pelos seus superiores:
“Sem muita demora, André Vidal enquadrou-se à arte da guerra. Os seus superiores hierárquicos começaram logo a distingui-lo, não só pela sua bravura indômita, mas ainda pela sua conduta serena, pelo seu instinto de soldado, pela segurança dos seus planos e rapidez por que procurava executá-los. (...) O principio do amor à terra nativa e à religião era a bandeira que se não ofuscava. Isto determinava as mais cruéis represálias, os mais atrozes combates. Na alma de André Vidal era sacrossanto esse princípio (...). Não se fez demorar o renome de André Vidal de Negreiros no seio da tropa. Distinguido e disputado pelos superiores, viu-se durante a guerra na Bahia nos lugares mais arriscados, marchando à frente como um predestinado. E não se fez silêncio sobre os seus brios de soldado e bravura de patriota, embora contra isso conspirasse a sua grande simplicidade e modéstia.”.
“André Vidal, que logo se fez destro e valente soldado, não só lutou durante toda a fase da expulsão dos flamengos da Bahia como perseguiu a esquadra holandesa fugitiva até deixá-la fora do seu Estado natal”.

Diante de tantas qualidades, o rei de Castela se fez informado das virtudes de Vidal, que foi promovido ao posto de alferes, então com 19 anos de idade. Segundo Pinto, “André Vidal de Negreiros era uma vocação de soldado, tanto pela firmeza moral quanto pela robustez física. Dir-se-ia que a terra de massapê da várzea do rio Paraíba, o seu rio, lhe dera essa seiva, como ainda muita bravura e fidalguia.”.

Após a derrota no Arraial do Bom Jesus, optou-se pelo sistema de guerrilhas e emboscadas, a guerra irregular de extermínio; tática esta que não foi bem aceita pelos “prepotentes castelhanos”. No entanto, André Vidal, após oito anos de estudo na Europa, estaria convencido de que aquele seria o melhor sistema para destruir o poderio flamengo. Para Luiz Pinto, o plano de Vidal seria realmente o mais indicado. Além disso, também teria sido concertado por Vidal o plano da chegada da esquadra de D. Fernando de Mascarenhas (conde da Torre), que não logrou em sucesso.

Mais tarde, com a vitória da restauração no Maranhão, André Vidal foi nomeado governador da capitania. Essa nomeação, seria o pagamento de uma dívida do rei de Portugal. Vidal estava no auge do seu prestígio, e o Conde Maurício de Nassau, que estava voltando para a Europa diante de uma conjuntura desfavorável para a continuação do domínio holandês:
“Cumpria-se assim um antigo compromisso do rei de Portugal para com o herói. De modo que, quando Nassau retornava à pátria européia, André Vidal de Negreiros se fortificava para total execução dos seus planos, traçados e alimentados desde 1632”. Após assumir o governo do Maranhão, em 1645, Vidal não permaneceu lá por muito tempo, pois “cabia-lhe tecer a teia sinistra da guerra”.
Enquanto Teles da Silva despistava os holandeses com falsas promessas de armistício, Vidal organizava os batalhões:
“O que os flamengos não sabiam exatamente, e isso é claro, era que André Vidal tinha um plano concertado e que poria em prática de qualquer maneira, dentro do seu alto patriotismo e fidelidade religiosa. (...) Vidal era firme e queria a guerra de expulsão, ágil e violenta. Mas Nassau não desconfiou das manobras do paraibano. E tanto é que deixou transitar livremente por duas vezes, tanto no Recife quanto na Paraíba. E só através da sua primeira viagem a Recife, quando retornou de Lisboa, é que Vidal conseguiu firmar posição na capital da nova Holanda, arregimentando para as suas hostes o capitalista João Fernandes Vieira, senhor de Engenho da Várzea, no Recife, homem religioso e rico, vaidoso e prepotente, que se tornou um elemento nuclear na guerra”.
Nesta passagem, Vidal é mais uma vez colocado como peça central da guerra de restauração, seu principal articulador, que conseguiu de certo modo “enganar” Nassau, que lhe concedeu livre trânsito pelas capitanias. Vidal fez do Maranhão apenas um ponto de apoio para as suas incursões à Paraíba e Recife, com o objetivo de “colher adeptos, planejar a guerra, animar os fracos, encorajar os medrosos”. E a figura de Vidal vai ficando cada vez mais relevante no tocante à guerra de restauração, como fica evidente na seguinte passagem: 
"A libertação do Brasil do domínio colonial holandês cabe, como já mostraram Varnhagen, João Ribeiro, Hermann Watjen, Pandiá Calógeres e outros intérpretes da luta de restauração, tal como a organização da revolta geral, a epopéia pernambucana, uma das maiores da história da pátria - criação de guerrilhas, emboscadas relâmpagos implantadoras de morte - sem dúvida, ao engenho extraordinário de André Vidal."
Enquanto os dirigentes das duas partes se limitavam ao campo diplomático, Vidal, Henrique Dias, Camarão entre outros, preparavam o cerco do Recife, encurralando a Nova Holanda. D. João IV queria a paz com a Holanda e, ao mesmo tempo, a luta de libertação. Já a única paz que os nativos aceitavam era a conquistada pelas armas, com a capitulação total do agressor. Segundo Luiz Pinto, o rei e o vice-rei tentavam uma trégua. “É nesse passo da crônica que se verifica haver a restauração nascido da coragem, da decisão e as firmeza de André Vidal”. Na tentativa de suspender a luta com os batavos, o vice-rei endereçou uma enérgica recomendação a Vidal, que respondeu de forma altiva e patriótica. Na carta, os chefes rebeldes, Vidal e Martins Soares Moreno, demonstram que, se o rei de Portugal continuasse com o propósito de dar trégua aos holandeses, eles iriam à procura de qualquer príncipe católico a fim de auxiliá-los, relatando inclusive a perturbação e inquietação de muitos nativos ao saber que o rei consideraria “ruins vassalos” os que continuassem na luta contra os flamengos, muitos chegando a pensar em matar suas filhas e esposas para não vê-las em poder do inimigo. Esta carta seria um “grito de rebeldia e de coragem, contra a covardia lusa, a frouxidão de D. João IV, preferindo perder 8 províncias da sua grande colônia a ter de lutar um pouco mais para desenraizar os flamengos invasores”.

A esta altura, Recife já estava sitiada. Com a junção das tropas de Dias, Camarão e Vieira, Vidal assume a “direção geral de chefe supremo das operações militares”. Na primeira batalha dos Guararapes, Vidal ficou na reserva. “Era o homem das horas difíceis, o que traçava, o que executava”. Com o desenrolar do combate, Vidal assumiu o comando. Os flamengos foram derrotados na 1ª batalha dos Guararapes, “onde a bravura da raça brasileira, em plena formação, se marcava proficientemente”. E sobre a ação de Vidal, afirma-se: 
“A influência do mestre de campo André Vidal de Negreiros foi tão evidente, não só no traçar planos certos e tática perfeita como no comandar e avançar à vanguarda, com o destemor de um guerreiro romano”.
Na 2ª batalha dos Guararapes, Vidal foi o comandante dos terços. Segundo Luiz Pinto, antes da batalha, discutia-se o método de acometer o inimigo. Várias opiniões surgiram, mas foi vitorioso o ponto de vista de Vidal: atacar o inimigo, violentamente, partindo do engenho velho dos Guararapes: (...) Os luso-brasileiros não perderam um momento: atacam ferozmente. Vidal avança alucinadamente pela encosta, flanqueado por Antônio Silva e Cardoso. Figueirôa, intrépido, na retaguarda. Vieira, audaz e valente, firma-se a raso, sobre o Boqueirão, com 800 homens, flanqueado por Henrique Dias e Diogo Camarão [sobrinho de Felipe Camarão, que havia falecido]. (...) Derrotados, aniquilados mesmo, os holandeses foram perseguidos até o fim sem nenhuma ação militar. A vitória rolou dos montes Guararapes envolta nos farrapos dos pavilhões inimigos, às pontas de lanças de Vidal, Vieira, Camarão e Henrique Dias.

Após a 2ª batalha dos Guararapes, a situação do Recife era muito difícil para ser sustentada pelos holandeses. A Holanda ainda tentava um entendimento com Portugal, mas já haviam passado quase três anos da última batalha. “Vidal estava inquieto. Queria completar a obra de limpeza”. O auxílio do rei de Portugal estava tardando, até que em fins de 1653, surgiu na costa a grande esquadra tão prometida e esperada. Vidal insistia em terminar o que haviam iniciado, expulsando definitivamente os holandeses de “sua nação”. “Vendo Barreto que a razão estava com Vidal, resolveu, com ele e outros companheiros ilustres, traçar o plano de ataque. Traçado e cumprido”. Poucos dias depois, os holandeses capitularam. É relevante perceber a mensagem incutida nestes últimos acontecimentos: Ninguém estava disposto a continuar a luta pela restauração; apenas Vidal (sempre ele). que queria continuar sua “obra de limpeza”. Insistiu tanto nesta meta que foi atendido: e, mais uma vez, estava certo, pois a vitória dos brasileiros, patriotas e católicos foi definitivamente garantida.

Após longas negociações e forte pressão por parte dos holandeses, finalmente um acordo de paz foi assinado em 1661, “com vergonhosa situação para Portugal e prejuízo para o Brasil”, segundo Pinto. Por intervenção da Inglaterra, foram fixadas as seguintes condições: indenização de 400.000 cruzados por ano, em dinheiro ou em açúcar, sal e tabaco; restituição às Províncias Unidas de toda a artilharia que se encontrasse no Brasil; liberdade de comércio para os holandeses. Ao Brasil, coube uma indenização de 120.000 cruzados, além de 20.000 para dote da infanta que se casou com Carlos II. Essa condescendência de Portugal diante das pressões holandesas e inglesas, segundo Pinto, desvirtuou o sentido da vitória, conquistada pela valentia dos brasileiros, e que lhes custou vidas e imensas fortunas, pois, naquele momento, preferiam a colonização lusa, principalmente por motivos de religião. Como não poderia deixar de ser, Vidal não concordou com as injustas condições do acordo de paz:
“Essa frouxa transigência, que não foi dos nossos heróis, desvirtuou a vitória das batalhas dos Guararapes. Contra ela Vidal de Negreiros quis se opor, mas era uma condição aceita pelos superiores lusos, sob cuja cúpula vivia o Brasil, e seria assim baldada qualquer indisciplina ou reação. Se por esse miserável preço, que os judeus holandeses exigiam com faca nos peitos, conseguimos uma paz definitiva, (paz para eles, na Europa, pois a nossa se argamassou com sangue), e ninguém seria capaz de alterá-la dentro das nossas fronteiras. Valha-nos ao menos esta certeza.”.
No início de 1655, Vidal viajou a Lisboa. Encontrou a Corte em festa, não só pela vitória brasileira, mas também pelo aniversário do rei. D. João fez questão de abraçar o mestre de campo da vitória, estreitar nos braços o guerreiro impávido, que derramou o sangue por várias vezes, que, à maturidade, via-se aleijado de uma perna, mas altivo e varonil. Pois dos 45 anos de idade, quando se achava na Europa, Vidal já contava 27 anos de guerra.

Após dias em Lisboa, Vidal retornou ao governo do Maranhão. Acerca do governo no Maranhão, Sérgio Buarque de Holanda atribui a seguinte citação ao padre Antonio Vieira:
 “Vidal é talvez o único, antes de Gomes Freire, que não procura explorar o braço indígena, e que castiga os motins não por motivos pessoais (como os outros) mas por espírito público. Vai logo embora. ‘Teria salvo a Índia’ - diz o Padre”.
Em face da ida de Barreto de Menezes para o governo da Bahia, Vidal foi escolhido governador de Pernambuco. Porém, não tardou para que Vidal e Menezes entrassem em choque, pois o paraibano não aceitava as imposições da Bahia. Neste momento, Portugal lutava contra a perspectiva de uma luta em Angola, onde se encontrava Fernandes Vieira. Assim, foram trocados os governadores, indo André Vidal para Angola, onde rapidamente consolidou boa política de paz para Portugal. Após mais uma vitória, Vidal queria recolher-se à vida privada.
“Vidal tinha sido um homem de guerra, um homem sem amor, sem uma afeição feminina. A guerra absorveu-o totalmente na melhor fase da existência. Perdera os pais, de cujo contacto se afastara aos 18 anos; as afeições que conquistara foram afeições de guerra. Homem desprendido, sem se preocupar com a sua vida particular, achava ser tempo de afastarse da luta à tranqüilidade da velhice.”.
Todavia, isto não lhe foi possível: Pernambuco passava por uma luta política entre diversas classes de agricultores, comerciantes e soldados. Em 1666, Vidal assume, pela segunda vez, o governo de Pernambuco. No interregno desses conflitos, finalmente pôde Vidal “despertar para a vida”, vivendo em paz os anos que lhe restavam. Na sua velhice, realizou uma verdadeira obra social, deixando grande parte dos seus bens para o “amparo à velhice, à orfandade e aos desvalidos”. Vidal seria “um herói sem empáfia”, que teria recusado todos os oferecimentos que lhe foram feitos, posto à margem comendas, prestígio, glória, tudo, para ajudar aos mais necessitados, o que ressaltaria ainda mais “a sua compreensão de homem público e patriota”.

O seu amor concentrou-se à pátria. Foi um peregrino do civismo, um mago da fé. Fez-se guia do seu povo, sem nunca haver esmorecido, nem recusado, nem temido. Enquanto sentia a pegada do inimigo no chão do Brasil, aí esteve a cobri-la, a apagá-la. Ou morreria na luta ou tangeria os invasores insolentes que menosprezavam a sua religião. O destaque da personalidade de André Vidal avulta em todos os documentos históricos. Fora um soldado brioso, um homem feliz. Sua vida é uma equação cívico-militar, um panorama de lealdade, patriotismo e amor à fé. É o que se sente ao traçar o roteiro da guerra holandesa no Brasil, desde a invasão da Bahia até à de Pernambuco.


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quarta-feira, 9 de maio de 2018

A Teologia do Povo como Contraponto a Teologia da Secularização e a Teologia da Libertação.

"A religiosidade popular é uma atitude típica dos pobres, e os pobres constituem de um modo preferencial, a um povo. Os pobres condensam e tipificam a religião de um povo".
Em 1974,  sínodo sobre evangelização introduz uma nova reflexão que se traduzirá na Evangelii nuntiandi em 1975, como recepção e posterior preparação da III Conferência de Puebla. Nelas se começa a pensar mais o tema da dependência e se inicia uma contraponto a alguns aspectos da Teologia da Libertação. A ascenção pela teología, da cultura e religiosidade populares latino americanas. Entre os teólogos da pastoral popular se encontra sobretudo Lúcio Gera. Que publicam em 1974 “La Iglesia frente a la situación de dependencia” (1974), na qual dialoga de forma respeitosa e crítica com a Teologia da Libertação e seus pressupostos, mostrando apreciações positivas e pontos de distancia, particularmente em relação com a linguajem sobre “salvação” utilizado por esta visão teológica. Certamente, a diferença da visão argentina se relaciona com a experiencia histórica dos movimentos nacionais e populares latino americano como o peronismo. 

A revalorização da cultura religiosa popular apresentada pelo teólogo argentino Lúcio Gera, rechaça as teses secularistas (Teologia da Secularização, proveniente dos EUA) de incompatibilidade radical entre fé e religião.

Gera sugere a superação das alternativas secularidade e sacralidade, e fé e religião, defendendo que o carisma seja aceito pela instituição eclesiástica e sobretudo o respeito da igreja pela autonomia dos povos, criadores de seu próprio destino histórico. 

Ainda que a visão secularizadora mereça ser criticada para dar vez a uma profunda valorização da religiosidade popular, dela também pode assumir-se o primado da fé e a importância da palavra e o carisma para a práxis de libertação. A Teologia do Povo, percebe que tanto a visão sacral como a secular oque se desvaloriza é a mediação da cultura. 

A diferença da Teologia do Povo da Teologia da Libertação esta na compreensão de "povo". A Teologia da Libertação, compreende o povo como classe, uma classe oprimida, recorrendo aos aportes marxistas. Enquanto a Teologia do Povo, concebe o povo por uma perspectiva histórico-cultural. 

A concepção de povo na Teologia do Povo nasce da experiência histórica do peronismo no contexto argentino. Uma compreensão geral do povo permite entende-lo como sujeito coletivo, como uma pluralidade de indivíduos em torno de um fator comum, que leva a pensar nas relações: 1. Povo-nação; 2. Cultura-popular.

1. O povo-nação é uma concepção de caráter político, mas também pode pensar-se que a cultura de um povo concretiza uma decisão política. Por isso o povo-nação é um conceito cultural político, com um ethos cultural ou estilo de vida e uma capacidade de organiza-se.

2. Em relação com a noção de povo-setor – que admite uma grande variedade – o teólogo argetino pensa que “povo” e “popular” qualificam a alguns setores pondo de manifesto que a realidade de ser povo se manifesta preferencialmente neles e que certas características suas, como a sencillez e a pobreza, são aptas para desenvolver uma solidariedade e unidade que os faz povo. 

A teologia do povo, compreende o pobre, não só pela sua situação econômica, mas ante uma condição moral de abertura humilde aos outros, a Deus e aos homens. Por não ter capacidade de poder, essa situação leva o pobre a sentir necessidade de outras pessoas, a pedir, a reclamar e exigir aos que tem poder, a justiça e o afeto que se deve. A primeira condição para pertencer a um povo é a consciência de necessitar de outros e esta é, no pobre, uma consciência viva. Por isso, é mais capaz de ser solidário, dando aos outros e esperando reciprocidade. Por isso chamamos “povo” a uma multitude de pobres. 

A visão expressa no texto de 1979, em coerência com sua visão já esboçada em seu escrito de 1962, mostra a preocupação de não reduzir a realidade e o conceito  de “pobre” a dimensão socioeconômica e de por a ênfase em outro aspecto. Não se pretende negar a dimensão real da pobreza, mas de destacar positivamente o aspecto moral e religioso do pobre, sua qualidade de sujeito crente. Ademais, se considera ao pobre em relação com o povo, a sua capacidade de pertencer a ele, como sujeito político.

Deste modo, a opção pelo povo pobre designa uma opção pela sua libertação, mas sobretudo, uma opção por sua religião, frente a uma "cultura ilustrada", de cunho secularista, que representa uma ameaça para a situação religiosa da América Latina, a Teologia do Povo se destaca por sua insistência  na "cultura popular latino americana" e sua religiosidade. 

E esta religiosidade popular há de ser discernida a luz da fé revelada, sem se opor a ambas, corresponde a pastoral eclesial a tarefa de orientar, fortalecer e purificar a religião do povo. 


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sábado, 21 de abril de 2018

A Globalização é Irreversível?

“A globalização não é um conceito sério, nós americanos a inventamos, para melhor dissimular nossa entrada econômica nos outros países”
John Kenneth Galbraith


Os liberais propugnam que a globalização seria um “fenômeno” irreversível e “necessário” para a modernização e competitividade, na atualidade, para a economia dos países. Oque em absoluto não é verdade. Contudo, antes, é salutar compreender oque é “globalização”, e os efeitos desse fenômeno no mundo e por desiderato nos países submetidos.


A "globalização" é um processo atual, que não se confunde com o livre-mercado, que se inicia com as grandes navegações e atinge seu auge em fins do Séc. XIX. 

A internacionalização do capital como forma comercial e de crédito se inicia com as grandes navegações, já a internacionalização do capital produtivo veio ocorrer após a Primeira Revolução Industrial, com a implantação no exterior das filiais das indústrias inglesas acompanhando a divisão internacional do trabalho proposta pela Inglaterra.  A consolidação veio ocorrer a partir da Segunda Revolução Industrial com a internacionalização das grandes empresas aprofundada pela concorrência entre as grandes potências. (TAVARES, 1998: 41)

Oque caracteriza a globalização, é a atuação conscientemente política de subjugação dos países periféricos pelos países centros por intermédio do capital financeiro, embora não só, mas determinantemente.

O mercado mundial, vigente a globalização, é atualmente dominado pelas aplicações de curto prazo e se movimentam pelo mundo em busca de lucros rápidos através da mudança nos preços dos ativos. O crescimento na escala de especulação em relação às outras transações é marcante. Em 1971, cerca de 90% das transações estrangeiras visavam financiar o comércio e os investimentos de longo prazo e somente 10% destinavam-se a especulação financeira propriamente. Atualmente, os percentuais se inverteram e cerca de 90% das transações são especulativa e o volume é tão grande que supera as reservas estrangeiras dos componentes do G7.

A pura e simples internacionalização do capital com seu auge no início do século XX, foi muito maior do que na atualidade, e por si só não pode, nem caracteriza o processo de globalização. Nesta época, o mundo inteiro participava de uma civilização mercantil integrada. Por volta de 1913, o comércio internacional representava grande percentual do PIB de vários países da Europa.  Dentre estes países encontravam-se a França com 35,4%, a Alemanha 35,1% e o Reino Unido com 44,7%.

"Nessa fase, que vai até ao final da década de 1920, o capital exportado pelas principais potências econômicas européias, tanto em forma de investimentos diretos ou em forma de ações, atingiu níveis percentuais do PIB que não foram ultrapassados até hoje. E foram esses capitais que ajudaram a construir a América do Norte, Argentina, Austrália e África do Sul considerado os “tigres econômicos da Era Vitoriana." (HIRST,1998:101-20)

A guisa de comparação a China, país de plataforma exportadora, em 2006, suas exportações correspondiam a 37% do PIB, enquanto suas importações alcançavam 32% do PIB. Estes valores colocam a China como uma das economias mais abertas do planeta, principalmente se comparada a outros países de dimensão continental, como Brasil, Estados Unidos, Canadá, cujos fluxos comerciais (exportações + importações) correspondem a menos de 30% do PIB. Tomando o Brasil, como parâmetro, seu comércio exterior representava 20% do PIB (percentual relativo a 2006).

Ou seja, o Séc. XIX foi a éra do laissez-faire. Seu auge se inicia em 1846, com a revogação da Corn Laws, a Grã-Bretanha deu uma guinada decisiva para o regime unilateral de livre comércio que se conclui na década de 1860. Entre 1860 e 1880, muitos países europeus aboliram substancialmente sua proteção tarifária. Ao mesmo tempo, a maior parte do mundo foi obrigado a praticar o livre comércio por imposição do colonialismo e mesmo países nominalmente independentes como os ibero-americanos por força de tratados desiguais. Exceção foi os EUA, que conservou nesse período elevadas barreiras alfandegárias. Entretanto, os EUA não representava ainda parcela significativa no comércio mundial.

Mesmo no período subsequente a I Guerra, e mesmo até o advento da II, o intervencionismo estatal era muito mais restrito do que hodiernamente. Exemplo é que até os anos 30, o equilíbrio orçamentário (doutrina hegemônica na época) quanto ao alcance tributável eram bastante limitados, se quer havia imposto sobre a pessoa física e jurídica, oque estreitava muito a política orçamentária, dificultando investimento estatais para seu desenvolvimento. Na maioria dos países não havia bancos centrais até o começo do séc. XX, de modo que políticas monetárias eram exíguas. Oque impossibilitava a implementação de "programas de crédito dirigido" tão exitosamente aplicados em países como o Japão, Coreia, Taiwan e França.

Antes da II Guerra, medidas como nacionalização, planificação da economia, práticas adotadas com sucesso no pós-guerra por países como: França, Áustria e Noruega, eram impensáveis! Esse foi o período mais próximo do livre comércio que o mundo já teve e que provavelmente nunca mais terá.






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quinta-feira, 29 de março de 2018

A Democracia Verdadeira (direta) contra o Parlamentarismo (oligarquia).

O artigo que se segue são conclusões de nacionalistas helênicos (não se trata do Aurora Dourada), sobre o regime político liberal, que por má-fé chamam de "democracia", quando se trata de uma oligarquia. Ao mesmo tempo que desmente a falácia liberal de que um sistema de eleição pelo voto seria por si só democrático, nada mais distante da realidade e desmentido pelo próprio Aristóteles. É um artigo que julgamos altamente pertinente e que o leitor poderá observar terem, os nacionalistas gregos, chegado as mesmas conclusões que nós castilhistas há mais de um século atrás.... e isso não é por acaso, posto que os castilhistas beberam direto nas fontes gregas.
Editorial.

A Democracia Verdadeira (direta) contra o Parlamentarismo (oligarquia).

"Se um povo deve saber o que é a democracia, é o grego que a criou. No entanto, muitos gregos ignoram o que é a democracia e ignoram que o parlamentarismo é um sistema anti-Democrático que nada tem a ver com a democracia.

Aristóteles em seu livro " Politica " diz: “democraticon men to klerotas einai tas arxas to de airetas oligarhikon”. que quer dizer: onde os senhores são "eleitos" por votação,  lá o sistema é oligarca. O que isso significa será explicado neste texto.

Desde que as pessoas se juntaram em sociedades organizadas em Estados até os presentes dias, o problema do poder continua a ser o mesmo: quem decidirá sobre o público?

Poucos ou todos os cidadãos?

Cada geração resolveu este problema de forma diferente.

Da resposta que ele deu, as três principais políticas: a monarquia, a oligarquia e a democracia.

O parlamentarismo é uma forma de oligarquia criada na Inglaterra e visa contornar a vontade do povo, e todas as decisões importantes a serem tomadas pelos poucos. Como se pode ver hoje em dia, os poucos que decidem são "acidentalmente" sempre ligados às ideologias federalistas e trabalham para quebrar a consciência nacional dos povos. No Parlamento, nenhuma decisão importante é tomada pelo povo. Os antigos gregos disseram que onde há partidos e eleições o sistema é oligarca, e onde há referendos populares o sistema é democrático.

Os eleitores de hoje estão a tentar encontrar uma solução para os fins da crise sem saber que, quando as partes votam nas eleições, eles não fazem qualquer decisão, mas eles fazem decisões para os políticos, e mais especificamente para um sistema político podre de escravidão...

Como já foi mencionado, Aristóteles em seu livro " Política " diz: " Dēmokratikón é o klērōtás é o primeiro, o d ' airetás oligarchikón ". que é: onde os Senhores são " eleitos " por votação, lá o sistema É o oligarca. Nos estados democráticos, todas as decisões importantes foram tomadas pelo povo em referendos, e os escritórios da cidade foram levados por cidadãos sortiados por curtos períodos de tempo, obrigados por lei a fazer exatamente aquilo que o povo decidiu. Sem ter a oportunidade de mudar a decisão do povo, ou de fazer o contrário. Enquanto os Senhores são "eleitos" decisões são sempre tomadas pelo filo de políticos, e nunca o povo. Este é precisamente o ponto crucial que todos devem compreender: que na democracia as pessoas decidem sobre as questões próprias e nunca votam em alguns políticos para que os representem ". Enquanto na oligarquia as pessoas nunca decidem sobre questões, mas todas as questões são decididas por um pequeno grupo de pessoas que "representam" as pessoas e eleitas pelo processo eleitoral. 

Na Europa, foi observado que 80 % das decisões tomadas nos parlamentos dos países são contrárias à vontade da maioria. O que é importante é precisamente quem toma as decisões: as pessoas ou os políticos (que estão sempre ligados a interesses e manipulação e praticamente, na maioria dos casos, agem contra a vontade das pessoas que votaram nelas).

Uma expressão que corretamente atribui ao parlamento é a expressão: "consenso da oligarquia” ou seja, que as pessoas aceitam ser governados pelos poucos (políticos) a quem no dia das eleições ele concedeu todos os seus direitos políticos e por 4-5 anos as pessoas ficam sem direito político. Mesmo que os políticos enganem as pessoas em todos os seus compromissos políticos pré-Eleitorais, as pessoas já não têm o direito de demitir políticos corruptos.

Hoje é imperativo ter soberania popular com o estabelecimento constitucional de democracia real (direta). A Suíça e a Venezuela são os únicos países do mundo que tem uma constituição democrática onde as pessoas decidem questões importantes em referendos. Ao mesmo tempo, o parlamento decide sobre questões menores. O que importa é importante para que as pessoas decidam num referendo é julgada pela recolha de assinaturas a fazer num determinado período de várias semanas, para que possa levar a um referendo a questão que pretende propor. A Constituição democrática da Suíça foi iniciada por John Kapodistrias como ministro dos estrangeiros russo.

Nas últimas décadas, o parlamentarismo conseguiu dar ao governo da nação uma minoria internacionalista de anthellḗnōn. Tornou-se claro hoje de uma forma ainda mais enfática que só com a democracia (direta) é a vontade do povo e todas as decisões estão em consonância com a verdadeira vontade da nação.

Se nós fizermos uma retrospectiva, vamos observar que a Esparta antiga, e Atenas antiga tinham democracia direta. Em Esparta, as decisões mais importantes foram tomadas pela apella (Assembleia do povo) e, em Atenas, as decisões mais importantes foram tomadas pela Assembleia do povo. Em Esparta, a presença dos dois reis e cinco regentes era mais uma personagem honorária. A verdadeira administração era o povo com as decisões dos apéllas.

A nova ordem de coisas inteligentemente nomeou o atual sistema oligárquico de " Democracia parlamentar ", com esta manobra, poucos entendem que não é uma democracia. Eles pensam que há muitos tipos de democracia, uma das quais é o parlamentarismo.

Se a Grécia tivesse hoje uma verdadeira democracia, não esta chuva de decisões anthellēnikṓn que tendem a ser a eliminação biológica da nossa nação e a sua fidelidade aos centros de decisão estrangeiros.

No entanto, a maioria dos gregos, infelizmente, continuam a acreditar hoje, devido à ignorância de que o parlamentarismo é um sistema grego e democrático baseado na antiga democracia ateniense.
Dois importantes parâmetros de democracia real são anaklētótēta e chamar.

Anaklētótēta significa que, quando alguém foi colocado por uma nação em alguma área de responsabilidade, se não faz exatamente o que é definido, é retirado desta área de responsabilidade. Não existe tal procedimento no Parlamento. Qualquer fraude ou quebra de promessas eleitorais, e se um político do sistema parlamentar faz, quase nunca é removido, porque é apoiado pelo próprio sistema oligarca.

O sorteio é o processo pelo qual os gestores dos setores de gestão são selecionados por períodos curtos. No Museu do antigo mercado no pórtico de átalo, em Atenas, há o (kleroterion) onde os cidadãos atenienses que iriam servir em vários lugares públicos na cidade de Atenas foram escolhidos aleatoriamente. Na Grécia antiga, alguém que, por exemplo, foi responsável pela gestão financeira da manutenção dos navios, depois de estar preparado para esta posição, estava a assumir por um curto período de 2 meses que começou um ano após o sorteio, a Que foi obrigado a cooperar com os seus antecessores anteriores, a fim de "aprender os segredos" deste sector, de modo que, em cooperação e com outros, eles adequadamente o que o município já tinha decidido. Não tinham o direito de tomar as suas próprias decisões, exceto para realizar corretamente aquilo que tinha votado nos referendos e, por isso, o município decidiu.

A aplicação de sorteio hoje poderia ser feita não só para lidar com as áreas de responsabilidade a nível pan-Helénico, mas também na união, universidades, etc. Envenenado por partitocratas.


A proposta do Estado para a Grécia de hoje

A proposta de hoje é que a Grécia tenha um sistema democrático de estado semelhante à Suíça. Ter uma democracia real (direta) com referendos do povo sobre todas as questões muito importantes (depois de recolher assinaturas, dentro de um determinado período de semanas, para definir as questões verdadeiramente importantes) e, ao mesmo tempo, ter o parlamento com membros eleitos, Quem decidirá sobre todas as questões menores. As questões que serão consideradas mais importantes por causa da recolha de muitas assinaturas serão destinadas a um referendo do povo em certos momentos, e irá, em particular, ter como objetivo a eleição de eleições nacionais, municipais e europeias para a sua preparação. Duas urnas (um para as questões de referendos e uma para estas eleições: eleições nacionais, municipais e européias. Assim, à medida que os referendos serão realizados ao mesmo tempo que as outras eleições, terá custos mínimos para o estado.

As questões secundárias, para além do Parlamento, podem ser votadas por 1.000 ou 2.000 cidadãos, por exemplo, que poderiam ser utilizados por períodos curtos, por exemplo, por um quarto. O voto destes cidadãos é absolutamente indicativo da vontade de toda a sociedade. É indicativo que as empresas de sondagem quando fazem investigação são, normalmente, cerca de 1.000 pessoas. Por conseguinte, os organismos de 1.000 ou 2.000 ou mais cidadãos atribuirão precisamente a vontade do povo e podem substituir a maioria dos drastrēriótētes do Parlamento. Por isso, o papel da assembléia será mínimo, e a parte superior será sempre detida pelo povo, quer por referendo, quer por votos dos órgãos do povo."





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quinta-feira, 15 de março de 2018

Marcha de Titãs - Breviário Histórico do Nacionalismo Brasileiro.

“Que todos os homens lembrem aos seus descendentes, que também são soldados, que não devem desertar das fileiras de seus antepassados ou por covardia recuarem.”

Platão

No seu primeiro século de formação, a nacionalidade brasileira se forma sob o influxo lusitano, que será dominante em um processo assimilatório da população indígena do país. A presença normanda em terras brasileiras em contra-posição ao português, será um fator preponderante, que fomentará essa precocidade nacional no brasileiro, em oposição ao elemento nórdico e protestante na conquista da terra, de onde teve que arrancá-la "a polegadas" dos normandos que nela se enraizava. Findo o qual, o Brasil já estava feito. A subsequente invasão holandesa, apenas patenteia de forma irrefutável essa nova nacionalidade que se anuncia ao mundo, a brasileira, que não se deixa absorver e antes repele o invasor cruel e herege. Antes atestada pelo invasor holandês atônico que não esperava resistência de simples coloniais e que registra estarem lutando contra um povo "extremamente nacionalista" são as palavras expressas pelo cronista holandês Johne Boer na época.

Ao sul, no que pese alguns reduzirem as ações dos mamelucos de Piratininga a meros preadores de índios, a realidade das coisas foi bem outra. O padre Francisco das Chagas Lima, quando das ações dos paulistas em Guaíra, no atual Paraná, a registra em termos de defesa nacional. O padre lembra que os espanhóis tinham o intuito de assegurar-se na posse daqueles territórios, quando no meio do século XVII, "estabeleceram sua Ciudad Real na embocadura do Piquiri, e Villa Rica, na márgem meridional do Itatu. Povoações que foram demolidas pelos antigos paulistas.". E as ações desses mamelucos não cessam, vão a Bolívia e destroem Santa Cruz de la Sierra. Assim, se a motivação dos paulistas fosse o único e sórdido interesse de cativar índios, como explicam seus detratores. Como explicar as expedições, como essas de 1676 e 1691, contra Villa Rica e Santa Cruz de la Sierra, cidades urbanas, onde não havia índios a cativar? Explica Lopo Saldanha, homem de Estado, feito no segredo da realidade, que bem conhecia as verdadeiras motivações dos paulistas. A defesa daquelas terras, em puros feitos de defesa nacional.

Serão esses mesmos mamelucos descidos do planalto de Piratininga, que anos mais tarde, fixarão as fronteiras ao sul do Brasil, desfazendo o Tratado de Santo Idelfonso e varrendo a presença castelhana do Jaguarão ao Ibicuí. Findo o qual, com o Tratado de Madrid, genialmente conduzido pelo brasileiro Alexandre Gusmão, praticamente delineia as fronteiras atuais da pátria brasileira.

Nesse primeiro momento, o Brasil já nasce com um Estado constituído que é o português, e dele deriva a tradição católica que será elemento essencial de unidade contra normandos e holandeses. As uniões de sangue entre portugueses e tupis também será essencial na arregimentação das tribos para levantar os exércitos coloniais em contestação a presença normanda. E assim não teremos no Brasil, o estabelecimento de castas, de populações segregadas, vivendo a parte, como se observou nos regimes coloniais de Espanha, Holanda e Inglaterra.

Expulso o holandês (1654) e finda a União Ibérica, o Brasil já estava feito, com seus elementos existenciais bem definidos. Contudo, sobrevêm uma nova fase colonial, a de exploração da sua metrópole já refém da Inglaterra, a viver parasitariamente do Brasil. Desse momento em diante, o nacionalismo brasileiro se pautará na busca de um Estado Nacional (aspecto material) que expresse a defesa dos interesses econômicos do país. Diogo Lopes Santhiago, que escreveu História da Guerra de Pernambuco em 1661, registra:
“[....] Passado o primeiro momento de entusiasmo, os reinóis quiseram reassumir a sua atitude de superioridade e proteção. Data daí a irreparável e irreprimível separação entre pernambucanos e portugueses."

E disso resultará a histórica declaração no Senado de Olinda em 1710, conclamando os pernambucanos a se libertarem do julgo português, declarando solenemente, pela primeira vez nas américas, a independência do Brasil, manifestando-se pela instituição de uma República nos moldes aristocráticos dos Estados republicanos da Holanda e Veneza. Independência e República no mesmo discurso, nada mais nada menos é o que se estabelece nessa memorável assembléia.

Todas as outras revoltas nativistas ocorridas no Brasil, não por acaso, ocorridas após o fim da União Ibérica, momento em que Portugal (sob a mão inglesa) se volta para o Brasil numa exploração predatória, se opera sob reivindicação de matiz republicana. Assim sentencia Manoel Bomfim:
“[....] verifica-se que, justamente um século antes das luta que se converteu em reivindicação nacional, justamente nos dois centros de formação brasileira, se desencadearam, ao mesmo tempo, lutas explicitamente nacionalistas: por parte dos paulistas que, brasilicamente, designavam os portugueses como forasteiros; por parte dos pernambucanos que, desdenhosamente, nomeavam os reinós de mercantis – mascates, e chegaram a falar em independência.... Admita-se no entanto, que tais lutas ainda não sejam esforços para independência: é inegável que nos fins do Séc XVIII, com os companheiros de Tiradentes, há uma explícita reivindicação de emancipação nacional. Notemos ainda, que em todos esses movimentos, a forma esboçada política é a da República. E assim se forma a nossa tradição de autonomia nacional.”

Esse sentir nacionalista, brasileiro, é expresso pela escola arcádica brasileira (1768), note mais uma vez a precocidade nacional brasileira, é a primeira escola literária de teor nacional nas américas! Herdeiros da pregação republicana de Felipe dos Santos com a Revolta de Vila Rica (1720) e eles próprios: inconfidentes mineiros. Com eles a história colonial é valorizada, pondo a colônia como centro das atenções em meio à descrição da paisagem tropical do país e a inserção do índio como herói. Assim delineando uma literatura nacionalista brasileira.

O caráter republicano do nacionalismo brasileiro, se contrapõe a monarquia, seja com Portugal, seja após 1822, que opera em defesa dos interesses portugueses, ou mais do que isso ingleses. Portugal aparece como mero intermediário, atravessador, dessa relação em franco benefício da Inglaterra. Mesmo após a independência política de 1822, a reivindicação de emancipação econômica ainda será o principal reclame dos nacionalistas brasileiros sob matiz republicana nas revoltas que se seguirão ao longo do I e II Império.

O movimento republicano, sob influxo positivista, é reflexo direto das reivindicações nacionalistas da época. Reivindica-se um Estado forte, interventor, militarista, e científico capaz de tirar o Brasil do atraso na qual a monarquia afundara o Brasil com sua política liberal. Na literatura, Lima Barreto representa o típico nacionalista brasileiro do período, positivista, na figura de seu personagem Policarpo Quaresma, embora sob crítica velada, julgando-os como inocentes úteis nas mãos de Floriano. Oque não eram em absoluto. Mais realista, é o próprio Floriano Peixoto, personificação do homem nacionalista brasileiro, enérgico e dotado da lendária impavidez tupi, enfrentando e contrariando as pretensões imperialistas das potências da época. A formação dos batalhões patrióticos formados pelos clubes jacobinos, com adesão massiva da população aos ideais republicanos.

A Revolução Acreana, em 1907, foi um dos mais belos episódios da nossa história, a população se mobilizou na defesa do território em disputa, uma expedição de poetas e voluntários partem para a campanha no Acre, sem preparo é desbaratada logo no primeiro combate, as energias não se desvanecem, segue Plácido de Castro que irá organizar junto aos seringueiros locais um verdadeiro exército independente, o próprio Getúlio Vargas, então cadete do exército, que acabara de pedir baixa, suspende o pedido, e segue para o mato-grosso e lá fica de prontidão aguardando ordens de seguir para o Acre. Contudo, vacilante, o governo federal não envia tropas, e  Plácido de Castro juntamente com os aguerridos seringueiros após penosa e heróica campanha, batem sozinhos as tropas bolivianas e arrancam o Acre para o Brasil.

Com a Revolução de 30, o movimento Queremista e posteriormente com a campanha o "Petróleo é Nosso!" especialmente, as manifestações populares se mostram cada vez mais vivas em defesa do nacionalismo, em autênticos movimentos de massas, personificados em Getúlio Vargas:
"Só os países economicamente fortes são verdadeiramente livres. E é essa liberdade que desejo dar ao meu país". - Getúlio Vargas.

Nesse período o Brasil se industrializa, ainda que parcialmente, não atinge o apogeu industrial e tecnológico almejado por Vargas e os nacionalistas em torno dele. A instituição do Estado Novo (1937) foi a fundação de um autêntico Estado brasileiro, original, plasmado no castilhismo, sem copiar modelos externos, sonhado desde a proclamação da República: um Estado forte, militarizado e científico. Porém esse Estado, terá vida curta. Não cumpre se quer uma década de vida, e é vítima da traição fomentada pelos EUA no seio das forças armadas depondo Getúlio em 45. O imperialismo ganha contornos mais sutis e ao mesmo tempo mais poderosos com o aliciamento de membros dentro do Estado e das forças armadas, concomitante a extensão das relações das multinacionais com nacionais como representantes de seus interesses comerciais dentro do país. Caso ilustrativo é o de João Neves da Fontoura, que traindo Getúlio, seu ex-ministro das relações exteriores, se associou a Standart Oil, como presidente da Ultra-Gás, sendo ferrenho opositor da campanha do "O Petróleo é Nosso!" e militando pela UDN pelo resto de sua vida política, fazendo a defesa dos interesses estrangeiros contra o Brasil.

Desse momento em diante, o PTB será o bastião de defesa do legado getulista, condensando em torno de si as forças nacionalistas. O PTB eleição pós eleição cresce em todo país. A UDN frustrada em seus planos em 54, com o inesperado desfecho de Getúlio e incapaz de vencer nas urnas, recorre sistematicamente ao golpe para ascender ao poder por intermédio de uma ála liberal do exército . Nas eleições de 62 o PTB emparelha com o PSD como os 2 maiores partidos do país, com a projeção de já nas eleições de 65 vir a se tornar o maior partido do país e com Brizola sendo francamente favorito para presidência. Mais uma vez, com auxílio dos EUA, a UDN juntamente com todos os outros principais partidos se mancomunam contra o PTB, e desferem o famigerado golpe de 64. Goulart e Brizola, como outros trabalhistas, são forçados ao exílio, empresários e militares nacionalistas são perseguidos, exonerados, cassados, empresas nacionais são fechadas, quando não sabotadas. Os setores da indústria de bens de capital, são entregues as multinacionais. Nos governos militares, o salário-mínimo é defasado, cai o poder de compra da população, decai o mercado interno, houve um exponencial aumento do endividamento externo, o sucateamento do ensino público a partir de 1972, o êxodo rural com o conseqüente inchaço populacional das grandes cidades e a explosão da criminalidade urbana e a favelização.

Excepcionalmente, ao contrário dos outros presidentes-militares, o  governo Geisel, no que pese não chegar a se caracterizar como nacionalista, emplaca vários aspirações nacionalistas, como a reserva de mercado do setor de informática, a soberania do Brasil sobre sua plataforma marítima e as 200 milhas marítimas (ZEE - Zona Economicamente Exclusiva) que suscitou a chamada "guerra da lagosta" por não permitir barcos franceses pescarem dentro da nossa ZEE, além do início do programa nuclear com fins militares, e o  desenvolvimento da indústria bélica brasileira, o Brasil chegou a ser o sexto maior fabricante de armas do mundo.  Em grande parte Geisel aproveitou o programa de Goulart e implementou. As razões de Geisel ter se aproximado de um governo nacionalista, algo surpreendente pelo seu histórico liberal, foi, talvez, sua passagem a frente da Petrobrás que tenha lhe dado uma visão mais técnica e necessária para o desenvolvimento nacional, oque é muito claro na incorporação das 200 milhas marítimas.   

Ante a ameaça de desenvolvimento da tecnologia nuclear pelo governo militar, os EUA por intermédio de seus agentes internos, pressionam pelo fim do regime. E para anular o ressurgimento do ideário nacionalista de Getúlio, encarnado na figura de Brizola. Criam o PT para esvaziar o Trabalhismo-getulista, e não basta-se retiram a histórica legenda PTB do Brizola, que restará por fundar o PDT. Nas eleições de 89, Brizola por muito pouco e mesmo sob um suspeitíssimo resultado eleitoral, não consegue ir ao segundo turno. Vence Fernando Collor que inicia o processo de abertura econômica e que terá nos governos do PSDB de FHC seu auge, levando a aumentos cada vez maiores de concentração de renda e um acentuado processo de desindustrialização.

Com o governo Lula (2003-2011), sua política foi muito similar a do Geisel, talvez não por acaso o elogio do Lula ao período militar. Seu governo manteve o favorecimento da oligarquia financeira que se instalara com o PSDB, contudo avançou bastante em áreas estratégicas. A indústria bélica que se encontrava as portas da bancarrota, foi salva, desenvolvendo-se uma indústria de defesa autônoma, com absorção de tecnologias avançadas e inúmeras possibilidades abertas com a quase consolidação dos BRICS. Lula fez sair do papel os sonhado submarino nuclear, fundamental para defesa da ZEE e do próprio país, mesmo a frota de submarinos convencionais da classe Tupi foi melhorada, os veículos blindados do exército recebeu uma nova frota, os blindados Guaranis, de fabricação nacional, ante a já superada mas exitosa classe cascavel, a EMBRAER preparava-se para construir e concomitante desenvolver caças nacionais, o Gripen-BR, com a incorporação de aviônicos e armamentos inteiramente nacionais, a tecnologia de mísseis de longa distancia deu um salto sem precedentes, da qual país nenhum do hemisfério sul detém e muito poucos dos países atualmente desenvolvidos, incrementou e lançou satélites próprios de comunicação de geofísicos, a tecnologia de informática foi inaugurada com a criação de um dos poucos centros no mundo de fabricação de micro-processadores.  Com a descoberta do pré-sal, o país se projetava como um dos futuros grandes produtores de energia, desenvolvendo paralelamente uma indústria naval potente e uma grande cadeia de fornecedores para as mais diversas necessidades, de máquinas, equipamentos, caldeiraria a sistemas informatizados de ponta. Os arquivos da Odebrecht, a frente tanto da nossa indústria de defesa, como de infra-estrutura, revelavam influência no México, Peru, Equador, Argentina, Colômbia, Guatemala, República Dominicana e Panamá, nas eleições de vários países da região, na esteira da ampliação da influência diplomática brasileira, além da notável expansão das empreiteiras na África e América Latina. Nascia uma nova potência.

Com o Golpe de 2016, o país é alçado ao mais absoluto processo colonial, todos os avanços tanto da éra Vargas como do período Lula estão sendo rapidamente destruídos, com o arrasamento completo de seu parque industrial e a destruição do setor de infra-estrutura, direitos trabalhistas e previdenciários extintos. As instituições políticas, em todas as searas, se encontram apodrecidas e sob controle externo. Chegamos a "gangrena obscura" anterior a 30, de que nos alertava Getúlio sobre os intuitos da oposição alinhada aos interesses externos, ontem representada pela UDN, na atualidade pelas diversas siglas a comungarem com o credo liberal.

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sábado, 3 de março de 2018

Sangue e Tradição - As Características do Nacionalismo Brasileiro

“Lembrai aos seus descendentes que também são soldados, que não deveis desertar das fileiras de seus antepassados, ou por covardia, recuar.”

Platão


Uma Tradição é a condição essencial para que se confira caráter a uma coletividade humana e assim se distingua como nação. E é essa tradição, que sustenta a existência de uma entidade coletiva quando uma força exógena ou interna, a ameaça. O nacionalismo surge assim como reação ideológica consciente de defesa de seus interesses, não só material, mas como expressão viva em sua afirmação de existência.

nação é um agrupamento humano, unificado, que goza de uma origem comum, como explanamos em outras ocasiões: Nacionalidade e Nacionalismo. Oque implica, necessariamente, em laços de consanguinidade, bem como na consciência de comunhão desses laços, e sua consequente unificação política. Temos aí três elementos: 1. uma origem comum;  2. consciência de existência nacional; e 3. unidade política.

Já o nacionalismo, se manifesta uma vez existente a nação, atuando na defesa do interesse nacional. Sendo expressão ideológica dessa consciência nacional, constituindo assim, uma ideologia, uma ideologia que necessariamente zele pela sua preservação em todos seus aspectos materiais e existenciais.

Os aspectos materiais envolvem a defesa dos meios materiais da nação: um território, a pátria, que constitui a defesa de sua terra ancestral, de seus pais, ou mesmo eventualmente uma expansão territorial, quando necessária para assegurar sua existência. A constituição de um Estado.  Mas não só, dentro dos meios materiais esta incluso todo arcabouço tecnológico, industrial, recursos minerais ou vegetais e por assim dizer econômicos de que precise a nação para seu desenvolvimento e bem estar.

Os aspectos existenciais, se ligam a defesa da nação como entidade nacional, sua constituição, em sua afirmação de existência. Entram aí os elementos caracterizadores da formação da nacionalidade, em seus mais variados aspectos: étnico, religioso, psíquico, linguístico, etc..

No séc. XVIII, quando normandos franceses, holandeses e ingleses quiseram se estabelecer nessas costas, Portugal já havia desaparecido como nação soberana abatido pelo inimigo tradicional - Castelha. Não seria o seu influxo que sustentaria a nova pátria, naquela luta de morte, com os povos mais fortes do mundo. A descoberta e conquista da terra, as façanhas bandeirantes, a defesa contra o invasor, deram lugar a uma consciência comum, a um sentimento da figura do brasileiro. É nessa época que floresce a consciência histórica no brasileiro e quando o país toma sua configuração territorial, com o Tratado de Madrid, conduzido pelo brasileiro Alexandre de Gusmão.

Nesse sentido, o nacionalismo brasileiro por já constituir, de longa data, uma nação plenamente solidificada, a mais antiga das Américas, e mesmo de tantas quantas existentes na Europa. Não evidencia tanto o aspecto existencial na contemporaneidade, porque já cumpriu no passado esse papel. E por assim, mais se notabilizar, nos últimos tempos, pela defesa econômica.

Resta a demanda de um Estado Nacional próprio, que defenda os interesses nacionais, brasileiros, que será sob a forma de República:
“[....] verifica-se que, justamente um século antes das luta que se converteu em reivindicação nacional, justamente nos dois centros de formação brasileira, se desencadearam, ao mesmo tempo, lutas explicitamente nacionalistas: por parte dos paulistas que, brasilicamente, designavam os portugueses como forasteiros; por parte dos pernambucanos que, desdenhosamente, nomeavam os reinós de mercantis – mascates, e chegaram a falar em independência.... Admita-se no entanto, que tais lutas ainda não sejam esforços para independência: é inegável que nos fins do Séc XVIII, com os companheiros de Tiradentes, há uma explícita reivindicação de emancipação nacional. Notemos ainda, que em todos esses movimentos, a forma esboçada política é a da República. E assim se forma a nossa tradição de autonomia nacional.” - Manoel Bomfim.
Esse regime político republicano tomará sua maturidade com o Castilhismo, único sistema político verdadeiramente brasileiro, nas figuras de Floriano Peixoto e Getúlio Vargas no plano nacional, a se sagrar com a Constituição de 1937.

Na antiguidade, três elementos eram essenciais para caracterização de uma etnia (do grego: έθνος ethnos, povo): 1. origem comum; 2. língua e;  3. credo. A considerar que etnia é distinto de nação. Na etnia, embora um povo comungue desses três elementos, eles não se encontram unificados politicamente, caso dos helenos na Grécia clássica. Assim, os povos helênicos configuravam uma etnia, porque tinham uma mesma origem, uma mesma língua, e professavam o mesmo credo.  Mas não constituíram uma nação, porque não se unificaram politicamente. O mesmo ocorreu com os celtas, constituíam uma etnia mas não uma nação, porque lhes faltou unidade política, falta que os condenou a caírem subjugados por outros povos. Porém, uma vez que se unifiquem, formam uma nação. Então, tomando como parâmetro esses três elementos, e aplicando-os aos brasileiros, vemos com clareza os elementos caracterizadores da etnia brasileira: uma origem luso-tupi, a língua portuguesa e a religião católica. 

Uma origem comum, como já tratamos em outras oportunidades, não se confunde com raça, que é uma uniformidade de biotipo, mas sim com uma ancestralidade comum. Oque é bem caracterizado na formação brasileira pelo entrelaçamento lusitano e tupi, presentes em todo o território nacional. 


O brasileiro, filho de pai norte-português, mãe Normanda-tupi,
 língua galaico-portuguesa e fé católico-medieval.
Quanto a língua, foi o tupi a língua de nossa formação nacional, e um dos grandes fatores de unidade nacional. Falado do Amazonas ao Prata. Poucas línguas primitivas no curso da história, cobriu uma área geográfica tão extensa quanto o tupi. Seu largo emprego até meados do Séc. VXIII, mesmo por brancos, evidencia o grau de assimilação desses com o elemento nativo, e sua inserção na civilização que aqui se formava, ao mesmo tempo que desmente a falácia de que a população indígena fora exterminada. A língua foi fator também importantíssimo para incorporação de agrupamentos indígenas isolados ao longo de nossa formação, que ao tomarem contato com gente de mesma língua, se identificavam, e se deixavam absorver na civilização que se criava, a brasileira. O português se impôs pelo contínuo fluxo de portugueses para o Braʃil, que com a descoberta das minas, viu atingir seu pico, concomitante a uma explosão demográfica no Minho que despejou para o Braʃil uma das maiores levas humanas ocorridas na história. A adoção do português como língua nacional, note.... de maneira uniforme em todo o país! Atesta, mais uma vez, a unidade nacional brasileira, diferente do que se observa nas colônias de Espanha, em que populações nativas inteiras, viviam apartadas, formando castas sociais, e que por isso, ainda hoje, conservam, como uso franco, suas respectivas línguas nativas.  

A questão criada por Lima Barreto, em sua obra "Policarpo Quaresma", de que o português não nos é próprio, é coisa sem base. Tanto o tupi como o português, nos são legítimos, porque descendemos das duas cepas, além de serem parte de nossa formação nacional. Diferente seria, se nos fosse imposto falar inglês, posto não descendermos de ingleses. Como ocorre na Nigéria em que sua população não tem descendência inglesa, logo a língua inglesa é um corpo estranho, sem elos com sua etnia e nacionalidade. 

Não se pode se dizer nacionalista quem renega suas origens. Só se concebe um brasileiro católico, porque essa é a religião de sua ancestralidade, de sua identidade nacional, a qual deve honrar e manter. O genuíno catolicismo de um brasileiro é o popular, irmanado com seu povo, legado pelas gerações passadas, Tradicional, com a qual se conecta com tradições imemoriais de sua linhagem, de sua nacionalidade, perenizando o veio antigo e comum. 

Credos de matiz protestante ou qualquer outras alheias a nossa formação, são peremptoriamente descartáveis, posto serem elementos anti-nacionais, que ferem e rompem com a identidade nacional. Notadamente as seitas neopetencostais que se proliferam no Braʃil e na ibero-américa, ovos da serpente. 

Crenças revivalistas, desde que deite raízes em nossa linhagem nacional são legítimas. O candomblé deve ser rejeitado, pois vem pro Braʃil tardiamente no Séc. XIX, quando o Braʃil já estava feito, por escravos do golfo da guiné, iorubás, que foi um contingente ínfimo na formação brasileira, restrita ao recôncavo baiano, e mesmo lá, minoritária, e portanto não constituinte da nossa formação nacional.

O mesmo princípio se aplica a todas as searas de manifestação da cultura nacional: música, literatura, língua, arquitetura, vestuário.... tudo! Absolutamente tudo que implique expressão humana advinda de um brasileiro, deve se lastrear em suas tradições. 

Em fim, o aspecto cultural, é indissociável do étnico para o nacionalismo, pois somente é autêntico, quando oriundo de suas tradições orgânicas, porque só a transmissão cultural que se opera de geração para geração é caracterizadora de sua identidade nacional. Se uma cultura apresenta elementos estranhos a sua linhagem, trata-se de algo artificial, e portanto ilegítima, descaracterizadora de sua nacionalidade, e como tal, deve ser descartada.

Portanto, sendo o nacionalismo a manifestação consciente da nacionalidade, não se pode alcunhar de nacionalista eventual ideologia que não expresse seus elementos constituintes, seja em seu aspecto material ou existencial. Assim, o nacionalismo brasileiro deve expressar, necessariamente, a defesa de seus elementos caracterizadores, qual seja, a: perpetuação de sua descendência, Sangue; a defesa da Língua de seus pais, o português; e o Credo de seus ancestrais, a religião Católica Apostólica Romana.



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