“A língua de um povo é a voz de seus ancestrais ecoando no tempo, suplantando a morte e mantendo viva sua memória, ligando seus
descendentes ao veio antigo e comum aos quais pertencem. Bastião de sua
identidade!”
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sexta-feira, 28 de junho de 2024
Literatura
Eneias, o Modelo Romano do Homem Ocidental
A Eneida de Virgílio, mais do que a Ilíada ou a Odisséia de Homero, encarna o ethos do homem ocidental. Apesar da inegável influência helênica sobre os romanos, essa influência foi mais intelectual e estética do que moral. No âmbito moral, o romano é a antítese do homem grego, já decadente na época da conquista romana. No entanto, mesmo antes, em confronto com os grandes pensadores gregos da antiguidade, entre os quais o próprio Homero, o romano demonstrava total aversão à moral helênica. O filósofo grego pré-socrático, Xenófanes, crítico da moralidade da época, diz: "Homero e Hesíodo atribuíram aos seus deuses todas as coisas que são uma desgraça para os mortais: roubo, adultério, enganar uns aos outros." Enquanto Odisseu, na obra de Homero, é ardiloso, vingativo e sem nenhum escrúpulo moral, Enéias, personagem central da Eneida de Virgílio, encarna o romano ideal, detentor de três das mais estimadas virtudes romanas:
virtus: conjunto de qualidades morais, como a bravura, a retidão e a coragem, forjada no crisol da honra;
fides: a fidelidade, o respeito e a lealdade que tecem os laços entre homens e as instituições; e a
pietas: a mais nobre das três, que abraça regras de comportamento, reverência e obediência. É a devoção à gens (linhagem), à Pátria e aos laços naturais com pais, filhos e parentes.
A pietas, dentre as três, é mais estimada, por sintetizar as demais. Os membros da comunidade familiar, unidos sob a proteção da patria potestas e projetada pelo culto aos antepassados. Daí provém o sentido cristão de piedade, como prática de veneração ao divino e compaixão para com a divindade.
Júpiter todo poderoso, se tu não odeias ainda os troianos até o último, se a tua antiga piedade lança ainda um olhar sobre as misérias humanas, concede à nossa frota escapar agora às chamas, ó pai, e salva da destruição o pobre recurso dos Teucros! (Eneida V)
Enéias revela-se como o portador da pietas, a qualidade essencial que o distingue. Manifesta em seu respeito e obediência aos deuses, permeando todas as suas decisões. Tamanha é sua obediência que, mesmo apaixonado pela rainha Dido, a abandona para cumprir sua sina, guiado pelo fatum, a crença no destino, a que até os próprios deuses estão submetidos, e que impunha, aos romanos, as agruras, vicissitudes, guerras e ódios a suportar, para, assim, alcançar seu glorioso destino revelado naquele momento pelo próprio Deus Júpiter.
Enquanto Enéias foge de Tróia (Livro 2), Virgílio o descreve carregando seu pai idoso (Anquises) nas costas enquanto conduz seu filho (Ascânio) pela mão. E dá instruções à sua família sobre como escapar de Tróia:
Venha então, querido pai, segure meu pescoço: vou
Carrega-lo em meus ombros: essa tarefa não me é um peso.
Aconteça o que acontecer, será para nós dois, o mesmo risco compartilhado,
e a mesma salvação. Deixe o pequeno Lulus vir comigo,
e deixa minha esposa seguir nossos passos à distância.
Vocês, servos, prestem atenção ao que estou dizendo.
Na entrada da cidade há um monte, um antigo templo
de Ceres abandonado, e um venerável cipreste próximo,
protegido ao longo dos anos pela reverência de nossos ancestrais:
vamos para aquele lugar por diversos caminhos.
Você, pai, pegue os objetos sagrados e os Deuses de nosso País,
em suas mãos: até que eu tenha lavado as minhas em água corrente,
seria um pecado para mim, vindo de tal luta
e matança recente, tocá-los.
Enéias, detém dois componentes importantes da pietas, a devoção à família e aos deuses. A preocupação com o bem-estar de sua gens também é prova de sua pietas. Ao aportar no norte da África, após uma tempestade (Livro I), busca um terreno elevado para avistar sobreviventes dos outros navios de sua frota. Em seguida, dedica-se à caça, assegurando de abater carne suficiente para todos os que o acompanham. Consciente do abatimento de seus seguidores, Enéias esforça-se para confortá-los, ocultando suas próprias ansiedades. Em muitos aspectos, Enéias encarna o líder romano ideal: capaz de assumir o comando, mas preocupado com o bem maior do grupo, e não com seus próprios interesses pessoais.
Apesar das pietas inerentes de Enéias, ele muitas vezes é vítima de suas próprias emoções e sucumbe ao furor. Durante o saque de Tróia, apesar das repetidas mensagens dos deuses, ele é freqüentemente dominado pela luxúria da batalha e pelo desejo de se vingar dos gregos, e só quando sua mãe deusa intervém que ele aceita seu destino de salvar os sobreviventes de sua pessoas e encontrar um novo lar. Da mesma forma, no norte da África, ele se apaixona apaixonadamente pela rainha cartaginesa Dido, é a "loucura" do amor que faz Enéias esquecer temporariamente sua viagem e ficar em Cartago. O caso de amor de Enéias e Dido é descrito em termos que evocam furor, com imagens de fogo e tempestades. Mas o maior conflito no poema entre furor e pietas vem bem no final.
Quando Enéias chega à Itália, ele inicialmente recebe uma recepção calorosa da população local (os latinos), cujo rei, Latinus, predestina Enéias a se casar com sua filha Lavínia. No entanto, outro príncipe italiano, Turnus, também deseja casar com Lavínia, fica furioso com a chegada dos troianos e, instigado pela deusa Juno, provoca uma guerra entre os itálicos e os troianos. A segunda parte da Eneida narra os acontecimentos desta guerra e, quando chegamos ao último livro do poema (Livro 12), encontramos muitos jovens personagens solidários que perderam a vida. Neste ponto do poema, Turnus matou o jovem amigo de Enéias, Pallas, e Enéias foi dominado pela fúria e pela tristeza. No Livro 11, houve uma breve trégua entre os dois lados, para permitir-lhes reunir os cadáveres e pranteá-los, e Enéias propôs que ele e Turnus se encontrassem em um combate individual para resolver o conflito, mas a trégua foi quebrada. antes que uma decisão pudesse ser tomada.
No início do Livro 12, Turnus decide enfrentar Enéias em um combate individual, e um tratado solene é redigido segundo o qual ambos os lados respeitarão o resultado do duelo. No entanto, os seguidores de Turnus estão descontentes com este acordo, e são instados pela irmã de Turnus, a deusa Juturna, a quebrar o tratado e atacar os troianos enquanto eles estão desprevenidos. Enéias tenta impedir que seus homens participem da luta, mas é ferido por uma flecha perdida, enquanto Turnus se junta à batalha com entusiasmo. Mas quando Enéias é curado magicamente por sua mãe, a deusa Vênus, e retorna à luta, Turnus percebe que deve poupar seu povo de mais sofrimento e então concorda em um duelo novamente. O rei e a rainha dos deuses, Júpiter e Juno, que têm observado os acontecimentos desde os céus, concordam entre si que a guerra deve terminar agora, e Juno concorda em desistir de seu apoio a Turnus e de seu ódio pelos troianos, que irão casar com os italianos e tornarem-se romanos.
Resumo da Eneida
Canto I
A Eneida principia com uma tempestade furiosa, ordenada pela Deusa Juno, quando Eneias parecia próximo de alcançar o fim de sua jornada, a Itália. O ódio de Juno permeia toda a Eneida. Virgílio aponta as duas razões para tal: ela havia apoiado os gregos contra os troianos, dos quais Eneias fez parte durante a Guerra de Troia. E, acima de tudo, Eneias estava destinado a fundar Roma, que destruiria Cartago, cidade amada por Juno. Esta cena de tempestade pode ser comparada à do Canto V da Odisseia, onde Netuno levanta uma tempestade enquanto Odisseu está à vista de Corcyra. Aqui, porém, os papéis se invertem: como Eneias não é grego, mas troiano, Netuno não se apresenta como adversário, mas sim como um aliado, e é ele quem força Éolo a acalmar a tempestade.
Desembarque na Líbia e a intercessão de Vênus:
Os troianos então pisaram na Líbia e partiram para caçar. Após a refeição, Eneias se mostra preocupado com o destino dos demais navios de sua frota (apenas sete barcos haviam conseguido atracar na Líbia). Vênus então intercede junto a Júpiter, a fim de garantir o futuro dos troianos resgatados. Este último a tranquiliza sobre o futuro de Eneias. Ele previu as guerras que Eneias teria que travar no Lácio, a fundação de Alba, a história de Rômulo e Remo, e a ascensão ao trono do imperador Augusto.
Viagem a Cartago e encontro com Dido:
Posteriormente, Eneias e seus companheiros viajaram para Cartago, que não estava distante de onde seus navios haviam atracado. Eneias e seus companheiros decidem então conhecer Dido, a rainha da cidade. Esta era originária de Tiro, onde se casou com Siqueu, um rico comerciante fenício. No entanto, este último foi assassinado pelo rei Pigmaleão, irmão de Dido, que tinha ciúmes de suas riquezas. Dido, então, decidiu fugir, junto com seus companheiros e o dinheiro de seu marido. Ela então foi para a costa da Tunísia, onde fundou Cartago.
Chegada ao palácio e banquete:
Chegando ao palácio, Eneias então encontra alguns de seus companheiros, que haviam sobrevivido ao naufrágio. Os troianos são bem recebidos por Dido, que os convida para um grande banquete à noite.
Depois das libações rituais, a rainha, apaixonada por Enéias, pede que lhe conte sobre suas aventuras.
O Nacionalismo como Tomada de Consciencia e Defesa da Cultura Brasileira.
sábado, 23 de março de 2024
O Império Brasileiro - 1ª Parte: Da Conquista à Reconquista e à Nobreza da Terra.
"Somos os
filhos dos conquistadores, os herdeiros de sua saga, a chama de sua
eternidade!" - Eva Peron, 1951.
a) luta contra o estrangeiro;b) assimilação do gentio;c) e exploração estável da terra, pela agricultura. A mineração, a grande desgraça do Braʃil colônia, só veio mais tarde, quando o essencial, na formação, já estava feito.
"Que a constância dos moradores foi muito grande, é coisa suficientemente reconhecida, pois eu penso que por constante deve ser considerado quem suportou tão dura guerra durante anos e em tantas ocasiões viu queimar-se em navios e armazéns tudo quanto haviam acumulado. E quem viu uma tão bela cidade ser arrasada inteiramente, todos os negócios e o comércio suspensos e dificultados e finalmente expulsos de suas casas e fazendas; muitas vezes saqueados, espoliados, separados de esposas e amigos em consequência da guerra, sofridas tão terríveis prisões e exílios em ilhas distantes, tão grandes desgostos em ver as suas mulheres e filhos fugir pelos matos como bichos e que muitas vezes maiores sofrimentos suportavam em consequência das desordens dos soldados. Tudo isto é bem conhecido e constitui o elogio da sua constância".

segunda-feira, 6 de novembro de 2023
A Conquista do Rio Grande do Norte Contra os Franceses (1597-99)
Tantos anos agitados e tão desesperada resistência patentearam a urgência de ocupar o Rio Grande onde os inimigos perenemente se refaziam apoiados nos potiguaras com quem comerciavam. Dali, saíam também a roubar os navios que iam e vinham de Portugal, tomando-lhes não só as fazendas mas as pessoas, e vendendo-as aos gentis para que as comessem. De lá sairam uma vez treze navios para tomar Cabedelo e o combate durara de uma sexta a uma segunda-feira. Em suas águas chegaram a se reunir vinte navios procedentes de França. Muitos franceses mestiçaram com as mulheres indígenas, muitos filhos de cunhãs se encontravam já de cabelo louro: ainda hoje resta um vestígio da ascendência e da persistência dos antigos rivais dos portugueses na cabeleira de gente encontrada naquela e nos vizinhos sertões de Paraíba e Ceará.
Informado el-Rey das cousas da Paraíba e que todo o dano lhe vinha do Rio Grande, querendo atalhar a tão grandes males, escreveu a Manuel Mascarenhas Homem, capitão-mor em Pernambuco, encomendando-lhe muito que logo fosse lá fazer uma fortaleza e povoação o que tudo fizesse com conselho e ajuda de Feliciano Coelho. A quem também escreveu e ao governador-geral D. Francisco de Sousa, que para isto lhe desse provisões e poderes necessários para gastar da sua real fazenda tudo o que lhe fosse necessário, como em efeito o governador lhe passou e lhe pôs logo tudo em execução com muita diligência e cuidado,
A expedição ao Rio Grande, concebida pelo governador-geral do Brasil: Dom Francisco de Sousa, aparelhada de recursos abundantes, dirigida de Pernambuco por Manuel de Mascarenhas Homem, lugar-tenente do donatário, e Alexandre de Moura, que devia suceder no mando, repartiu-se por terra e por mar.
Por terra com o capitão-mor Manuel Mascarenhas foram três companhias de gente de pé, de que eram capitães Jerônimo de Albuquerque (que virá a ser no futuro conquistador do Maranhão a que agrega ao seu nome), Jorge de Albuquerque, seu irmão, e Antônio Leitão Mirim, e uma de cavalo, que guiava Manuel Leitão.
A armada, que veio de Pernambuco, era composta por seis navios e cinco caravelões, e esperava aportada na Paraíba, pela tropa de terra. Trazia por capitão-mor Francisco de Barros Rego, por almirante Antônio da Costa Valente, e por capitães dos outros navios João Pais Barreto, Francisco Camelo, Pero Lopes Camelo e Manuel da Costa Calheiros.
Com a chegada das companhias por terra, em janeiro de 1598. O capitão-mor Manuel de Mascarenhas, tomou o comando da armada, a que se agregou Jerônimo de Albuquerque. E que Feliciano Coelho fosse por terra com os quatro capitães e companhias da gente de Pernambuco e com outra da Paraíba, do que ia por capitão Miguel Álvares Lobo, ao todo, 178 homens a pé e a cavalo, fora o nosso gentil, que eram das aldeias de Pernambuco: 90 flecheiros, e da Paraíba: 730, com seus principais que os guiavam: Braço-de-Peixe, Assento-de-Pássaro, Pedra-Verde, Mangue e o Cardo-Grande.
Esse exército marchou para o Rio Grande a 17 de dezembro de 1597, indo as espias e corredores diante queimando algumas aldeias que os potiguares despejavam com medo, como confessaram alguns que foram tomados. A tropa de Feliciano Coelho foi acometido por uma peste de varíola, doença que chamavam de "bexiga", a ponto de morrer de 10 a 12 homens por dia. A que se viu forçado o governador Feliciano Coelho voltar à Paraíba para se curarem e os capitães se foram para Pernambuco com a sua gente que pôde andar, dizendo que cessando a doença tornariam, para seguirem a viagem, exceto o capitão Jerônimo de Albuquerque, que se embarcou em um caravelão e foi ter ao Rio Grande com seu capitão-mor Manuel de Mascarenhas, e na viagem teve vista de sete naus francesas que estavam no porto dos Búzios contratando com os potiguares, os quais, quando viram a armada, fugiram e a nossa não a seguiu por ser tarde e não perder a viagem.
No dia seguinte pela manhã mandou Manuel Mascarenhas dois caravelões descobrir o rio, o qual descoberto e seguro, entrou a armada à tarde guiada pelos marinheiros dos caravelões que o tinham sondado. Ali desembarcaram e se entrincheiraram de varas de mangues para começarem a fazer o forte e se defenderem dos potiguares, que não tardaram muitos dias que não viessem uma madrugada infinitos, acompanhados de cinqüenta franceses, que haviam ficado das naus do porto dos Búzios, e outros que ali estavam casados com potiguaras. Os quais, rodeando a nossa cerca, feriram muitos dos nossos com pelouros e flechas que tiraram por entre as varas, entre os quais foi um o capitão Rui de Aveiro no pescoço com uma flecha e o seu sargento e outros, com o que não desmaiaram, antes, como elefantes à vista de sangue, mais se assanharam e se defenderam e ofenderam os inimigos tão animosamente que levantaram o cerco e se foram.
Depois veio um índio chamado Surupiba pelo rio abaixo em uma jangada de juncos, com promessas de paz e de se entregarem. Porém, indo dois batéis nossos com vinte soldados, de que ia por cabo Bento da Rocha, a cortar uns mangues, estando metidos em uma enseada e começando a fazer a madeira, foram emboscados. Um dos batéis, o maior, descobriu o ardil e deu o alerta, para que embarcassem à pressa. E por um milagre conseguiram navegar por um canal, quando já era maré-baixa, e assim se salvar do cerco.
Em poucos dias, os potiguaras, se apresentavam novamente para o combate. Mascarenhas não quis esperar, nem que chegassem a pôr-lhe cerco, antes os foi esperar ao caminho e, lançando uma manga por entre o mato, os entrou com tanto ânimo que fez fugir os da retaguarda, e seguiu os da vanguarda até o rio. E ainda a nado pela água os foram os nossos índios tabajaras matando, sem deixar algum com vida, amarando-se tanto nesta pescaria, que foi necessário irem os nossos batéis a buscá-los já fora da barra.
Os potiguaras continuaram com contínuos assaltos, e os nossos se encontrando em condições tão penosa, por muito pouco não teve o capitão que abandonar a construção do forte, se não houve-se chegado do reino Francisco Dias Paiva, amo do capitão-mor, que o criou, trazendo artilharia, munições, e outros provimentos para o forte que se fazia, dando assim esperanças que viessem socorro da Paraíba.
Na Paraíba, Feliciano Coelho mandou recado aos capitães de Pernambuco e, vendo que não vinham, partiu da Paraíba com sua gente a este socorro a 30 de março de 1598, dispondo só de uma companhia de 24 homens de cavalo, e duas de pé, de trinta arcabuzeiros cada uma, das quais eram capitães Antônio de Valadares e Miguel Álvares Lobo, e 350 índios flecheiros com seus principais. Não acharam em todo o caminho se não aldeias despejadas e alguns espias, que os nossos também espiaram e tomaram, pelos quais se soube que uma légua do forte que se fazia estava uma aldeia grande e fortemente cercada, donde saíam a dar os assaltos nos nossos pelo que mandou o governador apressar o passo para que o pudesse tomar descuidados e contudo a achou despejada e capaz para se alojar o nosso arraial.
Ali veio no dia seguinte Manuel de Mascarenhas para visitar Feliciano Coelho, e tratar sobre a condução da construção do forte, a que se avençou a cooperação da gente de Feliciano na construção, alternando com a de Mascarenhas e de gentios. Mas não deixaram por isto de reservar alguns que corressem o campo em companhia de alguns brancos filhos da terra, os quais foram dar em uma aldeia onde mataram mais de quatrocentos potiguares e cativaram oitenta, pelos quais souberam que estava muita gente junta, assim potiguares como franceses, em seis cercas muito fortes, para virem dar sobre os nossos e os matarem e, se já o não tinham feito, era porque adoeciam morriam muitos do mal das bexigas.
Neste mesmo tempo que a obra do forte durava, chegou um barco da Paraíba com mantimentos, que mandava a Feliciano Coelho Pero Lopes Lobo, seu loco-tenente, e deu noticias o arrais que no porto dos Búzios estava surta uma nau francesa, lançando gente em terra. Ao qual acudiu logo Manuel Mascarenhas com toda a gente de cavalo que havia, e trinta soldados arcabuzeiros e muitos índios, e deu nas choupanas em que os potiguares estavam já comerciando com eles, onde mataram treze e cativaram sete e três franceses, porque os mais se embarcaram e fugiram no batel, e outros a nado. E, vendo o capitão-mor Manuel Mascarenhas que não tinha embarcações para poder cometer a nau, ordenou uma cilada, fingindo que era ido e deixando na praia um francês ferido para que o viessem tomar da nau no batel, como de feito vieram, mas os da cilada, tanto que viram desembarcado o primeiro, saíram tão desordenadamente que só este tomaram e os outros tornaram a nau e largando as velas se foram.
Parte da divisão terrestre, encabeçada por Feliciano Coelho, capitão-mor da Paraíba, venceu a resistência dos inimigos, mas dissolveu-se ante uma epidemia de bexigas. A praga passou também ao inimigo, e serviu para dar folgas a Manuel de Mascaranhas, aliás acometido mais de uma vez no forte que começara.
Em março, Feliciano Coelho outra vez marchou para o Rio Grande, depois de reunir as suas forças, reduzidas agora à metade pela doença e pela retirada do contigente de Pernambuco. Com este reforço, Manuel de Mascaranhas concluiu o forte dos Reis Magos, e entregou-o a Jerônimo de Albuquerque, nomeado para comandá-lo. À sua sombra se originou o que é hoje a cidade de Natal. Na volta, Mascaranhas e Coelho afastaram-se da costa e fizeram novas devastações entre a indiada do sertão.
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| Forte dos Três Reis Magos, Natal-RN, na embocadura do rio Potengi / Rio Grande. Construido no começo de 1609, e concluido em 1621. O forte erguido por Mascarenha Homem, entre 1597-99 era de pau e barro e por certo, se localizava na praia e não como o atual sobre os arrecifes. Com a invasão Holandesa foi renomeado como Castelo de Ceulen (Kasteel Keulen). |
Nas veias de Jerônimo de Albuquerque corria sangue tabajara de sua mãe, Maria do Arco-Verde, e disto não se envergonhava, antes o vemos em mais de uma conjuntura proclamando a sua extração. É patente em Jeronimo sua simpatia pelos normandos como se verá repetir no Maranhão, após vencê-los, para que permanecessem na terra. Oque sugere que sua mãe Maria-do-Arco verde fosse fruto dessas relações normando-tupis. Assim devia sorrir-lhe a idéia de conciliar os parentes, reduzidos aos últimos apuros por tantos trabalhos e tão continuada perseguição, e agora forçosamente abandonados pelo franceses. A um índio aprisionado, principal e feiticeiro, incumbiu esta missão, depois de bem instruí-lo no que devia dizer. O pensamento humanitário foi coroado do melhor êxito, graças sobretudo às mulheres que, informa um contemporâneo, enfadadas de andarem com o fato continuamente às costas, fugindo pelos matos sem poder gozar de suas casas, nem dos legumes que plantavam, traziam os maridos ameaçados que se haviam de ir para os brancos, porque antes queriam ser suas cativas que viver em tantos receios de contínuas guerras e rebates. Por ordem de Dom Francisco de Sousa as pazes foram juradas solenemente na Paraíba, a 15 de junho de 1599. Serviu de intérprete frei Bernardino das Neves, filho de João Tavares, escrivão de órfãos de Olinda. Deste ato resultou nascer e criar-se na amizade dos portugueses, Antônio Camarão, que virá a ser um dos heróis da luta contra Holanda.
quinta-feira, 20 de julho de 2023
A Presença Normando-Bretã (francesa) na Formação do Braʃil
No
conceito comum, resultante do ensino corrente, os franceses fizeram duas
investidas sobre a colônia de Portugal: no Rio de Janeiro e no Maranhão... Ora,
a realidade é bem mais estendida. Descoberto o Braʃil, e abandonado pelos seus
descobridores, logo, o procuraram os franceses. Acomodaram-se com o gentio, e
começaram a explorar o comércio do pau-brasil e outros artigos de escambo.
Praticamente,
antecederam aos portugueses, e, até o meio do século XVI, foram mais senhores,
e mais usufruíram da terra, que os portugueses, principalmente porque não
tiveram que lutar contra o gentio, antes se amparavam nele. Se o gentio do
Braʃil tanto se opôs aos portugueses, foi porque estava sob a influência dos
franceses. Varnhagen, com toda a razão, considera que o Braʃil era dos
franceses, por efeito das muitas naus que por aqui andavam, e que, a estes é
que teve de ser conquistado.
A
presença do gaulês foi o maior perigo no primeiro século da colônia. A sua
grande força vinha da amizade e da assistência do indígena, e o português,
empenhado em desalojá-lo, tiveram que levantar os maiores exércitos vistos até então nas Américas. E cedo compreendeu, que precisava granjear a
amizade das tribos, e apoiar-se nelas, faziam-se referências oficiais a essa
competência de aliança e de boas relações com o gentio. E, assim, o francês
obrigou, indiretamente, o Governo Português a uma política humana para com os
naturais.
É
na defesa da terra contra os franceses que se forja a nacionalidade brasileira.
Foi uma luta que acompanhou toda a iniciação na nova pátria, e se, nos
primeiros tempos, ela se faz no valor do colono, desde logo surge, entre os
defensores, a energia patriótica dos brasileiros, e que é o mesmo valor dos
colonos, renovado em tons de mocidade. Então, à medida que os novos ânimos se
afirmam, transfere-se a defesa da terra para os seus, e nos últimos feitos
decisivos, já são nomes brasileiros os dos capitães vitoriosos.
Editorial
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| Principais portos de origem dos navios franceses para o Brasil. Rouen era um porto fluvial. |
![]() |
| Catedral de Saint Malo, aonde a matriarca dos brasileiros, Catharina (Paraguaçu) foi batizada. |
"Eram os franceses recebidos com grande alegria pelos Tupinambás, e com tanta familiaridade, que os admitiam a seus segredos, e lhes davam suas filhas por mulheres, como a um dos seus. E assim muitos franceses se casaram com as filhas dos principais, dos quais ainda hoje vivem alguns, e entre eles uma mulher, que já foi moça e formosa, chamada Catarina, filha de um principal chamado Paraguaçu, e de uma francesa, a qual, depois de viúva, se casou com Diogo Álvares, cristão velho, e homem principal na capitania da Bahia." - padre José de Anchieta.
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| Catharina era descrita como uma mulher de pele clara, olhos castanhos, cabelos longos negros, de rosto bonito, agradável e corpo esbelto. |
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| Nicolas Durand de Villegaignon |
![]() |
| Comando nordeste - NE, Círculo Castilhista |
Os Brasilaicos, A Raíz Identitária do Brasil.
Do Kéltico ao Galaico-Português - A Língua dos Brasileiros.
Sangue e Tradição - O Nacionalismo Brasileiro e seus Elementos Caracterizadores.
Marcha de Titãs, Breviário Histórico do Nacionalismo Brasileiro
Os mais antigos da Europa!
Identidade e Formação da Nacionalidade Brasileira.
Nacionalidade e Nacionalismo.
O Arcadismo como Embrião do Nacionalismo Literário Brasileiro.
O Nacionalismo como Tomada de Consciencia e Defesa da Cultura Brasileira.
A Cepa - Os Lusitanos.


















