terça-feira, 23 de janeiro de 2018

TESTAMENTO POLÍTICO DE FLORIANO PEIXOTO

Carta encontrada no bolso de Floriano Peixoto, quando veio a falecer. Floriano exalta seus seguidores para que continuem na defesa da República e do Brasil. Esse documento, muito provavelmente, foi que influenciou Getúlio a escrever como exemplo a Carta Testamento quando do seu martírio pelo Brasil. Eis a carta de Floriano: 

Meus amigos – recebo com especial agrado a sincera manifestação do vosso apreço.Ela tem para mim um valor inefável, pois revela a generosidade dos vossos nobres corações.
Ela me enche a alma de um prazer imenso, porque vejo nela um tributo de vossa gratidão a um velho servidor da Pátria, que lhe consagrou de coração o melhor da vida, e da República, por amor da qual sacrificou o resto de sua saúde e vigor que lhe deixou a penosa campanha do Paraguai.
Hoje, como vedes, vivo longe do lar a procurar em vários climas a reparação das forças perdidas nas lutas pela Pátria e pelas novas instituições.
Nessa peregrinação, alimento a esperança de alcançar do Criador a mercê de viver mais algum tempo para prover a educação dos filhos, órfãos há cinco anos dos cuidados paternos; e também para lograr o prazer de contemplar a jovem República livre dos embaraços que ora lhe estorvam os passos, a marcha desassombrada e feliz ao lado das nações mais adiantadas do Velho e do Novo Mundo.
A vós, que sois moços e trazeis vivo e ardente no coração o amor da Pátria e da República, a vós corre o dever de ampará-la e defendê-la dos ataques insidiosos dos inimigos.
Diz-se e repete-se que ela está consolidada e não corre perigo.Não vos fieis nisso, nem vos deixeis apanhar de surpresa.
O fermento da restauração agita-se em uma ação lenta, mas contínua e surda.Alerta! Pois. A mim me chamais o consolidador da República. Consolidador da obra grandiosa de Benjamin Constant e Deodoro são o exército nacional e uma parte da armada, que a Lei e às instituições se conservaram fiéis.
Consolidador da República é a guarda nacional, são os corpos de polícia da Capital e do estado do Rio, batendo-se com inexcedível heroísmo e selando com o seu sangue as instituições proclamadas pela Revolução de 15 de novembro.
Consolidador da República é a mocidade das escolas civis e militares derramando o seu sangue generoso para com ele escrever a página mais brilhante da história das nossas lutas.
Consolidador da República, finalmente, é o grande e glorioso partido republicano, que, tomando a forma de batalhões patrióticos, praticou tais e tantos feitos de bravura, que serão ouvidos sempre com admiração e respeito pelas gerações vindouras.
São esses os heróis para os quais a Pátria deve volver os olhos, agradecida.
À frente de elementos tão valiosos, não duvidei, um momento sequer , do nosos triunfo, e, pedindo conselhos a inspiração e a experiência e procurando amparo no sentimento da grande responsabilidade que trazia sobre os ombros tive a felicidade de poder guiar os nossos no caminho da vitória.
Foi esse o meu papel.
Se mérito existe, não almejo outra recompensa, senão a prosperidade da República e a estima dos que sinceramente lhe consagram o seu amor.
Vou terminar: as prescrições médicas não me permitem o mais leve trabalho mental; mas, para corresponder à vossa gentileza, não duvidei infringir os conselhos da ciência e escrever estas linhas, que vos entrego como penhor e testemunho da minha eterna gratidão. – Divisa, junho de 1895 – Floriano Peixoto.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Os Brasilaicos - A Raíz Identitária do Braʃil

“O Braʃil não é uma reprodução de Portugal, nem 
deve pretender sê-lo, mas é uma derivação dele”.


A identidade nacional, é um tema recorrente em países “novos” tal como os países americanos, do sul ao norte: EUA, Canadá, Braʃil, Argentina, Uruguai, México.... todos eles apresentam essa questão. No Braʃil, como em outros países ibero-americanos, o tema, sem razão, é mais problematizado do que se deveria ante uma clara política imperialista de des-nacionalização, de negação da nacionalidade e seu fracionamento.

Já tratamos em artigo anterior “Nacionalismo e Nacionalidade”, sobre o conceito de nacionalidade. Em suma, a nacionalidade envolve a concepção de uma origem comum, consciência e unidade política. Que faz do Braʃil, a formação nacional mais antiga das Américas. Porém a questão da identidade nacional envolve outros aspectos, que envolvem seus elementos caracterizadores: língua, credo, estrutura social e política, arquitetura, organização urbana, etc... . Algo até óbvio na formação brasileira, porém, problematizada, como já dissemos, por razões imperialistas. O Braʃil é uma nação derivada diretamente da civilização lusitana adaptada aos trópicos. No caso do Braʃil, mais especificamente “galaica”, em referência a população nortenha de Portugal, ante sua numerosa e majoritária preponderância no povoamento do Braʃil ao longo da nossa colonização.

Na antiguidade, no período pré-romano, os termos “lusitanos” e “galaicos" eram equivalentes, não havia distinção. Com a criação da província da Lusitânia ao sul e a criação da Gallaecia ao norte, a nomenclatura, passou a designar, com o tempo, os do norte como “galaicos” e os do sul como “lusitanos”, embora tratem-se de uma mesma população. Porém por uma maior influência romana ao sul, na Lusitânia, e que se fez menos presente no norte, a Gallaecia conservou melhor seu substrato céltico originário.

Assim, adotamos o termo “brasilaico” para melhor designar essa influencia nortenha na formação brasileira. Termo antes já empregado por cronistas e historiadores da época quinhentista. O sufixo –aico é um fóssil lingüístico, remanescente da antiga e esquecida língua lusitana, anterior a invasão romana, que remete a uma coletividade de indivíduos.

Isso posto, passaremos a tratar sobre o povoamento do Braʃil, e seus desdobramentos caracterizadores da identidade brasileira.


O Elemento Nortenho no Povoamento do Braʃil.

Província de Entre Douro e Minho

A gente desta terra he toda alva; os homês mui bem dispostos, e as molheres mui fermosas, que nam ham nenhúa inveja às da rua Nova Lixboa”. Assim retrata Pero Lopes de Souza a população quinhentista de Salvador. A surpresa de Pero Lopes de Sousa, se explica pela relação entre normandos e tupis, que antecederam, em 30 anos, a colonização portuguesa no Braʃil e que se prolongará ao longo de todo o primeiro século de formação na guerra de expulsão dos franceses. Assim, é que os primeiros colonos portugueses a virem para o Braʃil, se ligarão a essas mulheres fruto dessas relações normando-tupis, bem como na relação direta entre portugueses e tupis. Capistrano de Abreu, tratando da guerra contra os franceses do Rio Grande do Norte a Itamaracá reporta que:

“Muitos franceses mestiçaram com as mulheres indígenas, muitos filhos de cunhãs se encontravam já de cabelo louro: ainda hoje resta um vestígio da ascendência e da persistência dos antigos rivais dos portugueses na cabeleira de gente encontrada naquela e nos vizinhos sertões de Paraíba e Ceará”.

Os dados genéticos corroboram as fontes históricas. Análises genéticas colhidas na população, no nordeste do Braʃil, revelam que 19% dos genes oriundos da linhagem paterna são genes nórdicos É um percentual maior do que o observado na população portuguesa, 13%. Esse percentual por vezes é atribuído a presença holandesa, é um equivoco, pois tanto a presença normanda foi maior, ao longo de todo século XVI, como a relação entre indígenas e normandos foi muito mais intensa. Os holandeses, além de tardios, ficaram reclusos nos fortes do Recife, “d´onde nunca se apartaram mais do que 12 léguas” e ainda permaneceram brevíssimo tempo até serem expulsos.

Os primeiros colonos portugueses que aportam no Braʃil, são gente ligada em torno dos donatários, advindos da baixa aristocracia rural do norte de Portugal, no dizer da época: “gente de nome e brasão”. Como relata, por exemplo, Frei Vicente a colonização de Santos e São Vicente:

“Na ilha de dentro há duas povoações, uma chamada de Santos, outra de São Vicente como o rio, a qual veio edificar Martim Afonso de Souza em pessoa, e a povoou de mui nobre gente, que consigo trouxe, e assim floresceu em mui breve tempo.”

Em Pernambuco, Duarte Coelho trouxe consigo colonos de Viana do Castelo, a tal ponto numerosos que ao se insugirem contra emissários de Lisboa diziam: “aqui não Del Rey mas, de Viana!”. 

Na capitania de Porto Seguro seu donatário Campo Tourinho em menos de 3 anos construiu 7 vilas onde distribuiu alguns colonos que o acompanhavam a maior parte provinha de família de pescadores de Viana do Castelo. Após a morte de Pero Tourinho a capitania entrou em decadência, embora a Vila de Porto Seguro tenha se mantido habitada, assim como os outros povoados fundado por Pero de Campo Tourinho entre eles Santa Cruz, Santo Amaro e Comagi.

Nas demais capitanias em que seus respectivos donatários vieram a tomar posse, o processo é o mesmo. Do Minho afluem as matrizes que virão colonizar o Braʃil. A guisa de parâmetro, dos portugueses processados pela Inquisição em Pernambuco e na Bahia metade eram originários do Minho, cabendo um longínquo segundo lugar, 15%, aos de Lisboa.

Dados de São Paulo, em 1801, revelam que 45% dos homens portugueses provinham do Minho, 20% dos Açores e 16% de Lisboa.

A historiadora Júnia Furtado, analisando a origem dos comerciantes portugueses radicados em Minas Gerais no século XVIII, constatou que 74,4% eram oriundos do Norte português. Em Vila Rica, Iraci del Nero, ao levantar dados sobre a população portuguesa radicada, constatou que 68,1% provinha do Norte de Portugal. Entre o período de 1750 e 1779, ainda em Minas, Carla Almeida desvela que 89% dos homens portugueses eram naturais das províncias do norte e 11% provenientes da região central do país e nenhum do sul. Além dos nortenhos, um fluxo notável de colonos provinham das ilhas atlânticas da Madeira e dos Açores.

No Ceará, estima-se que entre 1750 a 1850, mais de 55% dos portugueses que se estabeleceram na província, eram provenientes do Norte de Portugal.

Essa predominância de nortenhos se explica, além do norte português ser a região mais densamente povoada de Portugal, ainda na atualidade, mas sobretudo pela estrutura familiar minhota, em que somente os primogênitos herdavam terras. Assim os demais filhos, deserdados, preferiam imigrar para o Braʃil e se fazerem senhores de terra, “Dominus Brasilia”, e nisso acabavam reproduzindo seu sistema feudal adaptado aos trópicos.

Foi sob esse influxo que se gerou a “nobreza da terra”, sob a qual se estruturou a sociedade colonial que aqui se firmava. É essa nobreza, brasilaica, que levará a cabo a conquista a terra, ganhar e absorver o gentio, iniciar as culturas, fazer as povoações, resistir ao estrangeiro. Trabalharem como obreiros e combatentes, edificavam lutando. Toda a primeira formação foi assim: na boa luta, a que enraíza na terra, e fortifica o patriotismo, porque é dessa nobreza, que advém a consciência de existência nacional e que incita a resistência ao invasor.

“Nos primeiros colonizadores do Braʃil encontravam-se as virtudes essenciais do pioneiro português: — solidariedade na compreensão nítida de existência nacional, hábito de atividade disciplinada e, com isto, o sentimento de trazerem consigo uma pátria, no intuito explícito de fazerem um novo país, pelo desenvolvimento das tradições nacionais.” – Manoel Bomfim.

Mais de um século e meio depois, no início do século XX, a imigração portuguesa para o Braʃil continuará predominantemente oriunda do Norte português e adjacências, nomeadamente: Trás-os-Montes, Minho, Douro Litoral, Beira Alta, Beira Litoral e Estremadura, com oscilações de predominância entre estas regiões ao longo do tempo.


A imigração estrangeira para o Braʃil e seu impacto na nacionalidade.

A imigração estrangeira, tende a ser superdimensionada. A imigração portuguesa, no que pese ter sido a maior, estranhamente é relegada ao esquecimento, apenas se falando marginalmente. Ao passo que outras, infimamente minoritárias, são postos a relevo para fazer crer numa suposta heterogeneidade.

Após a independência em 1822, os portugueses que afluem para o Braʃil passam a serem computados como estrangeiros e a eles se somarão contigentes imigratórios de outras nacionalidades. Contudo, os portugueses serão o maior corpo imigratório no Braʃil. E não ocorrerá aqui oque sucedeu em outros países, como: EUA, Canadá, Argentina e Uruguai, em que suas populações originais foram suplantadas por essa massa de imigrantes. A ponto de se dizer na Argentina, que os descendentes dos seus heróis de dezessete, foram substituídos. Darcy Ribeiro chamou a esse fenômeno de “povos transplantados”. No Braʃil isso não ocorreu, em nenhuma região do Braʃil, mesmo ao sul.

O sul do Braʃil, foi colonizado por paulistas do planalto de Piratininga. Posteriormente em 1748 sobreveio a imigração açoriana, inicialmente em Santa Catarina e posteriormente no Rio Grande do Sul, feita por casais, oque regra geral dissociou do restante do país, feito majoritariamente por homens solteiros que se ligavam as mulheres da terra. Foi esse fator que deu a essa população meridional brasileira um aspecto mais branca do que no resto do país, isso já observado pelos cronistas da época e que hodiernamente, é falsamente atribuído a imigração estrangeira operada no Séc. XX. Em 1780,  55% da população do Rio Grande do Sul, eram açorianos. Também de se assinalar que, embora os dados disponíveis não sejam tão precisos, mas um levantamento quanto a origem dos povoadores iniciais nas ilhas dos Açores, revelam que a maioria eram oriundos do norte de Portugal.

De modo que, ainda que levemos em conta a imigraçãoportuguesa, juntamente com outros contingentes, esse número não chega a suplantar a população original. E ainda em comparação com outros países essas cifras verificadas no Braʃil são bem menores. A guisa de comparação, a imigração italiana, foi a segunda mais numerosa no Braʃil contabilizando 1 milhão e 500 mil. Somente na Argentina, que a época apresentava uma população menor do que a do Braʃil, adentraram 3 milhões! O dobro! E se compararmos a operada nos EUA, ai vemos a insignificância, 15 milhões!!!!

Outro aspecto que costuma passar batido, é que o terceiro maior contingente imigratório para o Braʃil, foi a imigração espanhola, contabilizando 750 mil indivíduos. E o aspecto a se ressaltar é que 80% desses “espanhóis” eram galegos, a mesma cepa nacional portuguesa. Daí terem passado tão desapercebidos, ainda que sendo o terceiro maior contingente imigratório, posto falarem galaico-português , e assim se integrarem a sociedade brasileira rapidamente.

A imigração alemã, por vezes tão propalada por alguns, foi bem menor do que as três primeiras, orbitando em torno de 300 mil imigrantes. Note.... duas vezes menor do que a espanhola. E logo na primeira geração, ocorre um processo de assimilação. Como parâmetro estatístico temos dados do censo do Rio Grande do Sul de 1918, que revelam que 74% de homens alemães se casaram com brasileiras, ao passo que 26% com alemãs. Note que esse processo de assimilação ocorre muito cedo. Não havendo razões que justifiquem falar, mesmo na época e muito menos na atualidade, passado mais de três gerações, em uma suposta "identidade alemã".

Os japoneses formam o 5º maior grupo imigratório, e juntamente com os alemães são os que mais tiveram dificuldade de integração, em virtude da língua, credo, de terem vindo em boa parte em casais, oque por esse isolamento, acabavam privilegiando casamentos entre si. Porém, pela pouca quantidade, e com o tempo acabam se integrando sem maiores sobressaltos.

Os franceses além de constituirem uma das bases formadoras do Braʃil, especialmente normandos e bretões (A Presença Nornando-Bretã na Formação do Brasil), quando do nosso primeiro século de formação. Já no período pós-independencia,  a imigração francesa, é igualmente ocultada. A imigração francesa figura junto com a alemã e a portuguesa dentre das mais antigas, e até o início do século XX foi a terceira maior em numeros absolutos, somente atrás dos imigrantes portugueses e italianos. Tendo imigrado cerca de 150 mil franceses para o Braʃil. 

Há ainda um pequeno contingente sírio-libanes, dito: turcos, por estarem na época sob controle do império otomano (Turquia). Também de pequeno vulto, operada quase em sua totalidade por homens solteiros e ao contrário do que vulgo se pensa, em sua maior parte cristãos, adeptos da igreja ortodoxa sírio-libanesa (ramo católico porem de administração independente), os de credo mulçumano foram quase inexistentes.

Disso ainda se deve ponderar, que ao se falar de imigração “italiana”, “alemã”, e mesmo sírio-libanesa, não estamos falando de uma mesma nacionalidade. Itália e Alemanha são países de nacionalidade artificiais que abrigam povos distintos, com diferentes dialetos. Um Veneziano não se identifica com um romano nem muito menos com um siciliano. Os três falam dialetos diferentes e são de origens diversas. Então é ridículo falar em uma identidade “italiana” simplesmente porque não existe tal identidade. O caso dos imigrantes alemães é similar, mesmo dentro da Alemanha, há diversos dialetos, e eles se acentuam conforme se vá ao norte ou para o sul, sendo o sul majoritariamente católico ao passo que o norte é majoritariamente protestante, e sendo racialmente também distintos: o norte saxão e o sul alpino. E a considerar ainda que na imigração alemã, computa-se como tal austríacos e suíços, bem como um ramo mais concentrado no Espírito Santo chamado pomeranos, que são bálticos e não germânicos. Então, como falar de uma identidade alemã? 

De todo esse apanhado oque se depreende é que o contingente português por si só foi majoritário, e tanto mais antigo, a ele se soma a imigração galega que compartilha a mesma origem nacional. Assim se somarmos ambas, temos 2 milhões e 200 mil oque é um contingente superior a soma de todos as outras correntes. E repita-se..... ainda juntando todas, não suplanta a população brasileira original, ao contrário, fica bem aquém, sem maiores impactos.  


A política imigratória Getulista:

Na Era Vargas, houve uma restrição na imigração. Foi limitada a entrada de estrangeiros de todas as nacionalidades no Braʃil com a Lei de Cotas de Imigração, exceto para os portugueses em 38. A isso se deve uma maior racionalização na política imigratória, pois tanto o Braʃil já não precisava de mão de obra, pois os nacionais já supriam a demanda, como tratava de excluir contingentes com dificuldades de integração e assim "garantir o fortalecimento étnico da nação" através do elemento português. Getúlio fora bem influenciado por Oliveira Viana, Gustavo Barroso e Roquette Pinto, seu ministro, que envergavam essas idéias.

Após a II Guerra, o antropólogo Gilberto Freyre e um grupo de deputados defenderam que os portugueses não deveriam ser considerados estrangeiros no Braʃil. Ainda hoje, os portugueses têm tratamento especial dado pela legislação brasileira. Este dispositivo que dar privilégios a uma nacionalidade estrangeira é raro no mundo. Por exemplo, na legislação da Argentina não existe nenhum dispositivo que dê tratamento diferenciado aos espanhóis, tão pouco a lei dos Estados Unidos beneficia os britânicos. Na América do Sul, apenas na Venezuela há algo semelhante.

Após a II Guerra Mundial, os portugueses foram os únicos que continuaram a chegar em grande número ao Brasil. Entre 1945 e 1959, ainda chegaram ao Braʃil cerca de 250 mil portugueses.


Os Elementos Característicos da Identidade Brasilaica.

Como dissemos no início a identidade nacional envolve aspectos caracterizadores da nacionalidade: língua, credo, estrutura social e política, arquitetura, organização urbana, etc.... é um tema demasiado abrangente, que não comporta nessa breve exposição que já vai longe. Elencaremos apenas os principais que entendemos ser suficientes para explicitar essa identidade portuguesa em todo o Braʃil. 

O Braʃil durante sua formação sempre deteve uma unidade linguística única em um país continental, que nem os EUA, Canadá, Rússia, China detém, e por vezes países muito menores como Inglaterra, Alemanha, Itália, Espanha e outros.... e um aspecto interessante a ressalta é que isso ocorreu organicamente, justamente por ocasião desse contínuo afluxo português para o Braʃil, que assimilava os naturais transmitindo o português aos seus descendentes. Assim se inicialmente tivemos o tupi como língua dominante, a língua portuguesa se impois por um natural processo de assimilação dos contingentes integrados a civilização brasileira.

É conhecido e repetido verborragicamente, que o tupi deixou de ser falado por uma determinação administrativa de Pombal, como se os falantes aprendessem tupi em escolas públicas.... se quer existiam! O tupi foi sendo marginalizado em um processo gradual a medida que essa civilização brasilaica avançava. E embora continua, a imigração portuguesa para o Braʃil apresenta picos. O primeiro com os colonos no primeiro século de colonização, uma segunda onda aflui com a descoberta das minas, concomitante a uma explosão demográfica no Minho, que levará  a um dos maiores processos imigratórios da história mundial, com a vinda de minhotos para o Braʃil, nesse momento, especificamente para Minas Gerais. Também nesse momento ocorrerá a ocupação dos sertões, e do Mato Grosso embalados por esse fluxo nortenho. É dessa forma que o tupi perde importância e espaço, deixando de ser falado nos grandes centros, se tornando uma língua secundária. 

Esse processo se repete em todo o Braʃil, mesmo entre as correntes imigratórias recentes, que assimiladas, repassam a língua portuguesa aos seus descendentes, já brasileiros. 

Interessante mencionar a observação do historiador galego Júlio Cesar Barreto Rocha, citando Lindley Cintra sobre o português do Braʃil se assemelhar mais galego do que ao atual português de Portugal, por ter se mantido mais conservado:
"Lindley Cintra, apoiado em Leite de Vasconcelos, alude, por exemplo, à "influência de hábitos articulatórios de um substrato étnico" de celtas, que, sabe-se, deslocaram-se desde o Norte, "cuja presença Estrabão e Plínio assinalam nas margens do Tejo". Desta forma, o próprio filólogo português explicita que o sistema vocálico luso teria sofrido influxos desde o Norte galego. A presença das vogais mais escandidas no galego atual, que possui menos força ao Sul, em Portugal (cujos falantes obscurecem as ocorrências destes sons, como em "m'nino" ou em "p'ssoa"), permanece mais integral no território brasileiro, cuja população, em sua quase absoluta totalidade, encontra parâmetro distintivo do falante português justamente nesta vocalização mais "perfeita" nossa, por assim dizer, igualando-se ao falante galego --que inegavelmente mantém também mais acesa esta "característica celta". A língua falada na Galiza, que é a real Pátria da Língua, que instituiu o sistema vocálico e a musicalidade do galego, faz-se presente no Braʃil."
Outro fator característico na formação brasileira é a sua unidade religiosa, católica. A crença católica brasileira ao contrário do que possa parecer, não foi propriamente uma imposição do Estado, que ao longo da vida colonial se fez muito pouco presente, quase inexistente no seio da população. Isso foi agravado com o não reconhecimento por Roma, da restauração de Portugal, ao fim da união ibérica, quando Roma não reconheceu a nomeação de padres e bispos pela nova dinastia (Braganças) e que só virá a reconhecer em fins do Séc. XVIII. Durante todo esse período o catolicismo no Braʃil se desenvolve organicamente, as populações a professam por pura tradição, porque descendem de católicos, a fé de sua linhagem. E disso vai resultar o catolicismo popular brasileiro de forte cunho medieval e que guarda substratos da antiga fé céltica ("pagã"). Veja que isso não ocorre nas colonias hispânicas, posto uma ostensiva e atuante doutrinação romana.

Outro aspecto a ilustrar, é a estrutura social e seus tipos humanos. Tema também demasiado abrangente e que nem de longe pretendemos esgotar. Apenas pontuamos que em grande parte, a estrutura social minhota se conserva no Braʃil, sua estrutura familiar, as relações sociais, política, guardam uma proximidade muito grande com a observada no norte português. No Braʃil as relações sanguinias eram bastante valoradas, revelando uma estrutura de clãs e uma rede de clientelia em torno de um chefe. Há ainda um rico arcabouço de tipos humanos, o padre que encarnava a figura de juiz de paz, intermediando conflitos e sendo guia espiritual da comunidade, e muitas vezes a figura mais letrada da comunidade. Vários antropólogos e historiadores traçam um paralelo a figura dos padres as funções dos druidas, oque seria uma adaptação dessa estrutura sob uma roupagem cristã. A figura dos menestréis (antigos bardos celtas), na figura de cantadores, ainda presentes tanto nos sertões setentrionais do Braʃil quanto ao sul. Em fim, são rápidas pinceladas que ilustram essa reprodução da vida nortenha no Braʃil com as devidas adaptações a vida nos trópicos.

Oliveira Viana, faz uma interessante análise da estrutura urbana das cidades coloniais brasileiras, eis oque diz:

"desta transplantação de cultura que o português realizou no Braʃil, trouxeram eles o tipo de construção e povoados, vilas ou cidades, implantando entre nós a mesma disposição na colocação dos edifícios, das ruas, das praças, das casas. Do mesmo tipo de aldeia ou cidade portuguesa é que se fez o povoado ou vila brasileira.: "os habitantes amontoados em ruas sinuosas e estreitas garimpando o dorso dos montes a procura de alcançar a torre. Pouco afastada a igreja matriz, geralmente no mesmo largo dominado pelas paços do conselho, e entre os dois edifícios o pelourinho, onde a justiça por vezes tão cruel fazia pública a sua autoridade." O desenho é de afonso Arinos de Melo e Franco, que acrescenta: "retirando o elemento descaracterístico da torre feudal, o quadro se aplica a uma tipica cidade colonial brasileira".

Na arquitetura há também um paralelo fortíssimo entre a arquitetura nortenha e brasileira, também presente em todo território nacional, do Oiapoque ao Chuí e mesmo ao Prata em Colonia do Sacramento. E que se acentua nas cidades históricas brasileiras.


Penso que esses elementos já são bastantes, ainda que sem adentrar em profundidade, oque poderemos tratar em outra oportunidade trazendo aspectos bem mais interessantes e reveladores de nossa identidade brasileira, brasilaica. O elemento fundamental na nacionalidade reside na descendência comum, sanguínea, e que uma vez conscientes, se unem politicamente, nisso resulta a nacionalidade. Os brasileiros mais do que serem uma nacionalidade, oque não é pouca coisa, apresentam uma identidade nacional muito bem consolidada, apesar de tantos quantos, a serviço do imperialismo queiram negá-la.
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quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

A Cepa - Os Lusitanos.

“Cumpre ter sempre presente que a Lusitânia é habitada pela mais poderosa das tribos da península ibérica; e que, achando-se já subjugadas as outras, é esta a que se atreve ainda a deter as armas romanas. Não provém a sua força do número dos seus habitantes, mas da sua resistência, devida a um temperamento tenaz e incansável, a uma dignidade individual que antes prefere a morte a qualquer aparência de servidão a Roma.”

Caio Lélio, cônsul romano, 190 A.C.


Foi na resistência aos romanos que os lusitanos se tornaram famosos, incorporando-se definitivamente à história do mundo antigo. De modo geral, o poder de Roma foi sempre menos sensível no Oeste do que no Leste da Península Ibérica. No primeiro século de ação, ali, verifica-o Mommsen, limitavam-se os romanos a conter as incursões dos lusitanos sobre a Espanha citerior, na parte ocidental, o domínio era puramente nominal; nem havia contato com os celtas do noroeste(galegos). E foi no esforço contra as reações dos lusitanos, que os romanos provocaram a guerra genialmente conduzida por Viriato, natural de Viseu. Nota-se, que esses povos, dos mais bárbaros da península, foram os únicos que se uniram e se levantaram, num movimento de caráter geral – nacional, acentuadamente político. Pelo resto da Espanha, os casos de resistência, mesmo os mais célebres e heróicos, como em Sagunto e Numância, são absolutamente locais, sem significação política. Na Lusitânia, não: o ânimo geral das tribos levantadas para resistir é que faz do humilde pastor, um grande general, o único da Ibéria primitiva.

Foi nas márgens do baixo Tejo que Viriato bateu o exército romano do pretor Caio Palutius; e nunca mais a Roma avassaladora conheceu vitórias sobre ele. Finalmente, a perfídia do conquistador a todo preço fez assassinar o inimigo invencível, e os lusitanos não tiveram quem os substituísse. Mas, nem por isso se rendem submissos: continuam numa resistência tão temível, por tanto tempo, com tantas provas de valor e decisão, que Sertório os escolhe para fazer com eles a sua grande campanha contra a Roma aristocrática, e criar, ali, uma segunda pátria, latina, mais democrática. À frente dos lusitanos, por oito anos, o grande general resistiu aos exércitos romano, repetidamente refeitos, e repetidamente batidos. Houve momentos em que foram mobilizados contra os lusitanos de Sertório 130.000 homens. No baixo tejo também, quase onde é Lisboa (em Longóbriga), de uma feita, foi aprisionada uma divisão inteira de tropas romanas comandada pro Aquino, sendo o grande Metelo obrigado a retirar-se com o resto das forças. Mommsen considera Sertório o maior romano, até então, mas, ao mesmo tempo reconhece que foram os lusitanos que lhe permitiram revelar-se; que sua superioridade esteve em adaptar-se a eles, deixando de ser o romano pesado, enfático, para ser o capitão cavalheiroso, vivaz, guerrilheiro como o próprio Viriato: "Todos os sucessos de Sertório se ligavam ao país (Lusitânia), às aptidões dos seus habitantes". Também com Sertório - só o assassínio desembaraçou os romanos do inimigo invencível. Ainda assim,, obtida a vitória do punhal traiçoeiro, não coube a Roma ser senhora desassombrada dos temíveis lusitanos. Nem César, apesar de representar as mesmas idéias de Sertório, e de admitir, em princípio, as pretensões da Lusitânia. Ainda foi preciso a Augusto uma campanha, mais política do que militar, e que conformou definitivamente a velha nação guerreira em província romana. 

De todo modo – Lusitânia, ou Portugal, quele pedaço de península nunca esteve inteiramente fundido, ou confundido, no resto da Ibéria. Oliveira Martins, em busca de explicação racional para essa tendência dos lusitanos em distinguir e afirmar o seu caráter nacional, admite que tudo seja devido a uma forte dose de sangue celta.

Nos antepassados dos portugueses, as energias de raça guardaram o seu valor intrínseco; mas, desde cedo, a tradição lhe acentuou o caráter numa divergência de formas que ao expandirem-se, diferenciam-se de mais em mais, até firmarem-se em feição abertamente distinta, inconfundível, e, por muitos aspectos, contrastantes com o caráter nacional dos outros iberos. Certamente, mais homogêneos, por mais bárbaros, os lusitanos uniram-se melhor dentro do grupo e, por isso mesmo, foram levados a resistir ao romano nacionalmente, lutando mais eficazmente do que os outros. Assim dispostos, a reação contra Roma facilitou-lhes o desenvolvimento das virtudes coletivas. Está reconhecido e consagrado, em tais casos, o efeito dos motivos exteriores – orientando a ação interior nos grupos sociais, afeiçoando-lhes o caráter. É uma teoria longamente exposta e documentada por W . Malgaud, no seu livro O problema lógico da sociedade. De tudo isso resultou, para os lusitanos, a relativa superioridade política, e uma acentuada tendência para a unificação nacional explícita. A união formal e coerente com que eles fazem as suas campanhas, e em que se fortalecem, pressupõe o instinto de pátria, ainda que a idéia não seja patente no nome. Tal não se nota no resto da Espanha antiga, onde, como levante geral, só se conhece o de Viriato, repetido com Sertório.

Com a queda de Roma, nas crises que se seguem, dada a extensão das consequências, o motivo limitado - a alma lusitana, pareceu anulado; e, através da ocupação sueva, o objetivo explícito de uma pátria lusitana ainda não se define. Invadida a Ibéria, foi a Lusitânia ocupada pelos alanos, num domínio frustro, e que não teve ali, importância análoga ao da parte leste, aonde, por isso mesmo, ficou o nome Catalunha. Na Galiza e norte de Portugal, estiveram os suevos, numa forma de domínio ainda menos acentuado, e que não tocou fundo a vida nacional. Vieram por sua vez os árabes; mas, ao passo que, em Castela, a sua presença vai até a entrada do Séc. XVI, no noroeste, eles não demoram nem um século. E Portugal nasceu nessa parte da ibéria, no norte, que gerou-se Portugal, que reagiu mais cedo ao sarraceno, em tais condições de força e espontaneidade que toda a região de Porto, Braga e Viseu.... não conheceu o domínio mulçumano mais de cinqüenta anos. Mesmo no sul, o seu domínio cessa com o Séc. XIII.

Os ânimos se retemperam na campanha da reconquista, ao primeiro pretexto, destaca-se Portugal, levado por uma iniludível necessidade de soberania e individualidade.

Isto significa que estava feita a comutação das energias: os espírito orientaram-se por outros impulsos sociais - esses que tornaram os portugueses mais aptos  que quaisquer outros povos peninsualres para a realização da idéia nacional. Vigorosos sempre, até o heroísmo e, com isto, intimamente disciplinados, tal nos aparecem  os povos que devem fazer o Portuga histórico e glorioso. Tudo que nos outros ibéricos é orgulho do indivíduo, afirmação pessoal, viço de intransigência retumbante, fulgor de manifestação e expressão.... é pura força de ânimo no português tradicional. Para ele, os impulsos não arrebentam em gestos e vozes.... difundem-se em profundidade, e vão alimentar uma vontade pertinaz, para esforços indomáveis e persistentes. Pertinácia, valor definitivo na pertinácia, intransigêncianos objetivos - eis as constantes no caráter português. Nessa formula de ação, o grupo humano primitivo se transformou em povo nacionalizado.

Manoel Bomfim,

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

O Roubo da Sigla "PTB".

“Vi um homem rasgar o papel em que estavam escritas as três letras que ele tanto amava. Como já vi amantes rasgarem retratos de suas amadas na impossibilidade de rasgarem as próprias amadas.”

Carlos Drumond de Andrade


“ – Precisamos trazer o Brizola de volta para o Brasil, porque ele está se tornando um mito muito forte fora do país. É melhor que ele volte e dispute eleição, porque assim perderá prestígio político.”
Foi oque teria dito Golbery Couto e Silva, general e grande articulador do golpe de 64 a Ivete Vargas, uma sobrinha distante de Getúlio, casada com Paulo Martins que trabalhava com Golbery no gabinete Civil.

Em 1979, em Lisboa, antes da anistia, Brizola já trabalhava para refundar o PTB, ao se reunir com outras lideranças políticas lançando a “Carta de Lisboa”.

No exílio, Brizola virara um mito do PTB, como reconheceria Golbery, razão pela qual ponderou trazê-lo de volta.

O ex-deputado Sinval Boaventura, em entrevista ao Jornal “Opção”, questionado se era “verdadeira a história da reunião na casa do então deputado Simões da Cunha, na qual a então deputada Ivete Vargas (PTB) teria contado que saíra de um encontro com o general Golbery e este revelou que ia projetar o sindicalista Lula para ser o anti-Brizola?”, respondeu:

“A Ivete Vargas disse que tinha estado com o ministro Golbery, na chácara dele, e que ele dissera que precisava trazer o Brizola para o Brasil porque ele estava se tornando um mito muito forte fora do país. Que era melhor ele voltar e disputar eleição, porque assim perderia o prestígio político. Fui ao Golbery e ele confirmou a conversa com Ivete. Explicou que sua estratégia era estimular a imprensa para projetar o Luiz Inácio da Silva, o Lula, um grande líder metalúrgico de São Paulo como uma liderança inteligente e expressiva, para ser preparado como o anti-Brizola. Sou testemunha dessa tese do general Golbery”. – Sinval Boaventura.

O jornalista Carlos Castelo Branco, do “Jornal do Brasil”, na época da fundação do atual PTB pós-64, no artigo intitulado: “O PTB de hoje não é o PTB de ontem”, disse, no último parágrafo:

“Três adesões foram decisivas para gerar o novo PTB, o PTB não getulista: ¹Jânio Quadros, em São Paulo, que no passado teve o apoio de quase todos os partidos menos do PTB; ²Sandra Cavalcanti, herdeira do lacerdismo; e ³Paulo Pimentel, egresso do sistema de Ney Braga, fundador e secretário geral do PDC. Com isso o PTB ganhou viabilidade eleitoral mas perdeu seu vínculo com o passado. A legenda tem outra destinação e outro futuro que não são os de restabelecer a pálida reminiscência do prestigio de Getúlio Vargas e João Goulart."

Ivete Vargas, era uma sobrinha distante de Getúlio, fora amante de Afonso Arinos, da UDN, inimigo de Vargas. Dentre outros casos, que ilustram o caráter dessa "senhora" (ou a ausência de um) conta-se, que dias antes de seu martírio, em plena campanha difamatória da imprensa e da UDN, Ivete, então deputada, foi ao Catete aflita, questionando oque seria de sua carreira política, ao que teria respondido Getúlio com amargura: - não se preocupe, cuidarei do seu futuro político.

Leo de Almeida Neves, deputado estadual pelo PDT, membro da acadêmia paranaense de letras, reporta que:

“Houve tolerância para as reivindicações operárias do ABC paulista, conduzidas por Luiz Inácio Lula da Silva, e ao robustecimento de um sindicalismo sem compromissos com o Trabalhismo, e desvinculado de Brizola. Depois,  serviram-se da ex-deputada Ivete Vargas, cujo marido trabalhava para Golbery, a fim de aprovar um simulacro de partido de apoio ao sistema vigente, já nos seus estertores. Manobrando com a frágil Justiça Eleitoral da ocasião, conseguiram registrar um artificial PTB, solidário ao governo inclusive nas votações no Congresso”. – Leo de Almeida Neves.

O PTB que surge pós 79, não nega a fraude que era, figura apagada no cenário nacional contando com quadros oportunistas como Fleury Filho, se destacará tendo como íncone Roberto Jefferson, que dará início ao caos político que vive o Brasil, com a fantasiosa denúncia do “Mensalão”, que posteriormente, confessa ter mentido. E definitivamente faz cair sua máscara, quando sua bancada vota pela precarização da CLT, e o seu conseqüente fim. Expressão máxima, que deveria ser objeto de defesa de qualquer partido que se diga “trabalhista”.



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sábado, 26 de agosto de 2017

A Política de Floriano - Florianismo.


FLORIANISMO, era o IV(quarto) volume da obra: História Nova do Brasil, lançado em 64 para ser veiculado na grade das escolas medias brasileiras.
Fruto do esforço acadêmico oriunda do ISEB - Instituto Superior de Estudos Brasileiros, da FNF - Fundação Nacional de Filosofia, vinculados ao Ministério da Educação. A História Nova do Brasil tratava-se de um trabalho revisionista de nossa História, materialização do que de longa data propunha historiadores nacionais como Capistrano de Abreu, Manoel Bomfim, dentre outros, tratando de corrigir distorções históricas e omissões que camuflam a verdadeira História do Brasil.
A obra desde seu pré-lançamento foi fortemente censurada pelos golpistas de 64,  seus autores perseguidos e torturados, e ainda hoje é desconhecida, mesmo, no meio acadêmico e para o grande público. Expomos aqui aos nossos leitores o capítulo referente ao Florianismo, constante no Vol. IV, e que subdividiremos segundo seus tópicos, segue a 1ª (primeira) parte: "A Política de Floriano" e a "Política Tarifária".  Boa leitura!


A Política de Floriano.

Com Floriano, os setores radicais do republicanismo passaram a ter predominância no governo Federal. Ao invés de se enfraquecerem, aumentaram suas fôrças na campanha oposicionista a Deodoro. Apesar disso, a classe média não teria força para extirpar pela raiz todos os males que a afligiam. Não era possível, naquele tempo. Numa época de grande avanço e de pleno poder do imperialismo em todo o globo, em que a partilha das regiões coloniais se firmava, numa fase histórica em que o latifundio cafeicultor se apresentava em progresso e sem concorrentes de porte no mundo, num momento de tais condições estruturais, a liquidação do sistema de economia colonial era obra por demais vultosa para as débeis fôrças das camadas médias e da indústria nacional. Essa tarefa veio a pertencer aos nossos dias.

Assim não chegando a enfrentar a reformulação das próprias estruturas sociais, os florianistas procuraram realizar pequenas medidas (pequenas diante do quadro, mas grandes para a época) que os favorecessem, como que abrindo uam trilha, a duras penas no campo adverso do sistema  colonial.

O Empréstimo à Indústria:
Dentre essas medidas, uma das mais importantes e de maior repercussão foi o crédito especial de auxílio à indústria. As em­presas brasileiras estavam em grandes dificuldades, no ano de 1892. Acrescia a sua críse, a queda no valor cambial de nossa moeda. Aumentava, cada vez mais, o volume de dinheiro neces­sário à importação de encomendas já feitas ou por fazer. Defen­dendo seus interesses, os industriais elegeram uma comissão que os representasse junto ao Congresso e ao Executivo, reivindicando auxílio do Estado através de empréstimos. Nos jornais, na Câ­mara, nas ruas, nos encontros secretos de gabinete, a questão foi discutida com nervosismo. O comércio importador enviou repre­sentação ao governo, combatendo o empréstimo, alegando que causaria ainda maior depressão cambial, dificultando ainda mais a vida dos consumidores. Da mesma forma, os homens do velho latifúndio verberavam não só contra o auxilio mas contra a pró­pria indústria. Leite Oiticica, um dos mais exaltados na Câ­mara, filho de dono de engenho, representante de Alagoas, afir­mava: “É nessa moeda que os industriais fazem o seu negócio, vendem os seus produtos, aumentam as suas rendas, fartando os seus cofres à proporção que a miséria da população se acentua com os preços a elevar-se para os gêneros que elas fabricam.

A essas vozes juntaram-se as dos republicanos ligados à política do latifúndio cafeicultor. Rangel Pestana, um dêles, ativo participante do movimento abolicionista e republicano, membro de “tradicional” família de Campinas, atacava no Senado o auxílio a indústria. Procurava criar a imagem de que no Brasil, se firmava um regime de orgia financeira, voltado para enriquecer os “especuladores” da cidade. Êstes se apresentavam, segundo dizia, “com grandiosos programas, querendo explorar quase que o céu e a terra”.

Oque mais atemorizava os exportadores de café, entre cujos porta-vozes estava Rangel Pestana, eram as conseqüências que a medida poderia trazer para suas relações com os grupos econômicos estrangeiros. Como observa Nícia Vilela Luz: “O que; porém, inquietava, particularmente, Rangel Pestana, era o abalo que a medida produzia sôbre o nosso câmbio e sôbre o nosso crédito no exterior”. Produzindo exclusivamente para exportar, os cafeicultores colocavam-se, automàticamente na subordinação aos compradores internacionais.

O temor dos exportadores não era injustificado. A reação dos monopólios estrangeiros foi pronta e clara. Não se limitaram, inclusive, aos contatos de cúpula. Fizeram chegar aos jornais sua disposição de estabelecer sanções económicas contra o Brasil, caso se efetivasse o empréstimo. O Jornal do Comércio divulgou a notícia: “Consta-nos que os Srs. Rothschild telegrafaram ao Sr. Ministro da Fazenda, fazendo-lhe sentir que a emissão de apólices para auxílio às indústrias, se resolvida pelos poderes públicos, não será de bom efeito no crédito do país”. Dois dias mais tarde, transcrevia o mesmo órgão o seguinte telegrama, proveniente de Londres: Os títulos brasileiros de 4% caíram hoje a 60 ¼.

A tôdas essas pressões respondia a burguesia afirmando, como Amaro Cavalcanti, que o Brasil tinha de agir “antes com os olhos nas necessidades dêste, do que obedecendo ao mot d´ordre que nos vinha do estrangeiro, às vezes ditado no seu interesse”.20 Combatendo por tôdas as formas éste modo novo de ver a soberania nacional, estavam sempre os poderosos, agindo sem revelar por inteiro o rosto, tentando converter a opinião pública às suas teses com os muitos instrumentos que o poder do dinheiro lhes garante.

Raul Pompéia assim descreveu a intervenção do poder económico da vida política dos primeiros momentos da República: “Existe no Brasil um poderoso eleitorado sem voto, dominando o jornalismo das capitais, riquíssimo, numeroso, inteligente, ativo como ensina a prática do comércio, capaz de mover um mundo de manifestações políticas, a que não carece comparecer visivelmente, podendo mesmo nutrir de sua gorda algibeira arruaças e motins, capaz de neutralizar, de paralisar, de suprimir, de matar pela fadiga a administração pública, desde que esta lhe seja molesta, formidável, em suma como depositário e possuidor da melhor parte da fortuna particular, intervindo profundamente na direção dos negócios públicos, e podendo alias eximir-se de todos os compromissos correlativos repentinamente por trás da porta de um consulado (grifo nosso), — partido forte, portanto, e partido enorme — de conservadores que não conservam absolutamente para o Brasil.”21

O depoimento de Raul Pompéia aborda, ainda aí, tema de grande atualidade. Examinando-o, percebe-se que as fôrças econômicas que se institucionalizaram, em nossos dias, sob títulos diversos — ADP, IPES, IRAD, etc (êste último elegeu, ern 1962, a maior bancada do Congresso Nacional e passou a ser, pràticamente, o seu único componente com as cassações de mandatos efetuadas pelo movimento militar de 1.° de abril) - existem desde o seu tempo, com as mesmas características.

Apesar das pressões dêsse poderoso complexo, o govêrno Floriano realizou, sem vacilar, o empréstimo. Em mensagem dirigida à Câmara, o Presidente advertiu ser “urgente a intervenção do Poder Legislativo, em ordem a habilitar o govêrno com os meios necessários para impedir que as emprêsas honestas, que têm bons elementos de vida, mas lutam com grandes embaraços para se desenvolverem, sejam compelidas a uma liquidação precipitada, comprometendo os seus capitais e a sorte dos operários nela empregados”.
Êle sabia que a indústria nacional, de condições muito inferiores à estrangeira, só poderia subsistir e desenvolver-se se protegida. E exerceu a proteção: a 17 de dezembro baixou decreto em que, no art. 9ª, autorizava o Banco do Brasil a emprestar até 100.000 contos de réis, sob forma de bônus. Ganhara uma batalha, mas teria de dispender muitos esforços para manter as posições alcançadas.

A Política Tarifária

Outro instrumento de proteção aos empresários brasileiros foi o manejo do câmbio. Êstes condenavam a “liberdade cambial” como orientação que abria o nosso mercado à penetração dos produtos estrangeiros. Dizia Serzedelo Corrêa, Ministro da Fazenda de Floriano: “Razão têm, a meu ver, os economistas que enxergam um perigo no livre câmbio adotado por uma nação, quando ela não está em condições de lutar, e quando, no struggle for life do darwinismo, as suas indústrias tiverem de sucumbir e desaparecer, porque isso importará deslocamento, para fora do país, de trabalho, de capitais e de homens”.

O protecionismo até o fim do govêrno de Floriano não se fez, porém, por normas gerais que estabelessem os direitos e privilégios das diversas mercadorias importadas. Com exceção do decreto de 4 de novembro de 1890, que proibia isenções para artigos já produzidos internamente, as concessões eram estabelecidas por leis especiais e contratos com as diversas emprêsas. No exame de cada caso, o governo concedia isenções de direitos aduaneiros para importação de máquinas, instrumentos agrícolas, matérias primas etc., ou elevava os direitos a pagar das importações luxuosas.

Êste sistema tarifário foi amplamente combatido, na época, sob acusação de ser fonte inesgotável de negócios ilícitos, abusos e injustiças. A título de ataque à corrupção, os inimigos da indústria passaram a combater as próprias emprêsas e, com elas, a proteção cambial.  Ouviu-se a afirmação categórica de que as indústrias eram filhas da jogatina e das fraudes praticadas à sombra das emissões de papel-moeda do governo Provisório”. A tática do “moralismo político” é conhecida: pretextando combater vícios dos movimentos transformadores, os defensores do status quo confundem os erros com a própria essência do movimento, e novamente escamoteiam os problemas reais da discussão. Era oque faziam os “moralistas” da época. Significativamente, porém, não taxavam de “corruptos”, nem nêles viam “negocismo”, os inúmeros favores e privilégios dados aos senhores de terras e de escravos, bem como aos grupos econômicos estrangeiros, sob a monarquia.

A atitude dos legítimos representantes da indústria nacional, no período, não foi de omissão frente às especulações havidas. Passaram, êles próprios, a propor a transformação do sistema tarifário com a introdução de normas de caráter mais geral e objetivo, presididas por planejamento criterioso, que hierarquizasse as concessões mediante a prioridade das importações para o desenvolvimento interno e impedissem os abusos. “Parece (....) da maior conveniência uam revisão minuciosa em nossa tarifa, não só para completar as suas lacunas, como para adaptá-la à necessidade de caráter transitório, de favorecer a nossa indústria, que é a grande geradora da nossa riqueza por vir”. Com êste pensamento, realizou-se a revisão alfandegária de 1896, já no governo de Prudente de Morais, fruto do trabalho de uma comissão organizada na Câmara, em que venceu a orientação de Serzedelo. Não duraria muito, entretanto, para que as oligarquias retomassem as rédeas do govêrno e anulassem a tarifa de 1896.

Ao contrário do que se tentou fazer crer, o próprio govêrno de Floriano tomou medidas radicais contra a especulação e a emissão abusiva. Uma delas foi a reforma bancária, que tornou privativas do governo central as emissões bancárias, possibilitando o contrôle do numerário circulante, Os ideólogos dos senhores de terras emitiram o fato. Na realidade, êles não eram contrários à inflação em si, pois a utilizavam, muitas vezes, quando o objetivo era cobrir os prejuízos que sofriam nas trocas do mercado internacional; o que, no fundo, combatiam e continuam a combater são as emissões que visam financiar a industrialização do país. Os que estavam com Floriano já percebiam o engôdo.


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